O desperdício capitalista nos transportes

por Michael Dawson [*]

"A América está viciada em petróleo". Assim falou George W. Bush no seu discurso "Estado da União" de 2006.

À primeira vista, isto soa como um notável progresso no discurso público. Um presidente americano a admitir que o relacionamento do país com o petróleo é vicioso ? Soa como um grande avanço em honestidade, não parece? E ouvir acerca deste vício da parte de Bush-o-Jovem é como se W. C. Fields [1] lhe dissesse que você é bêbado. Mas a verdade é a verdade, por mais hilariante que seja a fonte.

O problema, contudo, é que dizer "a América está viciada em petróleo" é espalhar uma dupla confusão. Em primeiro lugar, ao falar da "América" a declaração culpa a todos nós — ricos e pobres, capitalistas e plebeus — por igual. Mas alguns "americanos" são de longe mais viciados do que outros em substâncias e arranjos conectados com o que Bush chama "petróleo". Em segundo lugar, apesar da aparente concessão ao realismo, dizer que "a América está viciada em petróleo" é errar no diagnóstico dos problemas, tratar um sintoma como uma causa.

Na realidade, como observa o analista e historiador Kevin Philips Clique para encomenda 'American Theocracy : The Peril and Politics of Radical Religion, Oil, and Borrowed Money in the 21stCentury' , na América o uso não automotivo do petróleo "é pequeno em relação ao transporte". "Carros e camiões" , nota Philips, "queimam de forma impressionante dois de cada três barris do petróleo usado nos Estados Unidos" . Como diz Philips, isto significa que "o parâmetro crítico" para pensar realisticamente nos nossos supostos problemas "de petróleo" deve ser "a indústria automotiva". Carros, não barris de petróleo, são na verdade o objecto da "nossa" debilitante dependência.

CAUSAS RAÍZES DO VÍCIO EM CARROS

A edição mais recente do famoso livro dos Alcoólicos Anónimos diz que "O facto é que a maior parte dos alcoólicos, por alguma razão ainda obscura, perdeu o poder de escolha na bebida". Por outras palavras, apesar dos enormes avanços nas ciências do cérebro a confirmarem que dependências da droga na verdade têm uma base fisiológica, A.A. ainda não está suficientemente confortável "para escrever um livro que não contivesse qualquer base para disputa ou controvérsia" acerca das causas do alcoolismo. "Da necessidade", dizem os A.A., de entender a dependência da droga "haverá discussão de aspectos médicos, psiquiátricos, sociais e religiosos. Estamos conscientes de que estas matérias são, pela sua própria natureza, controversas".

No caso do vício em carros, contudo, o cerne do assunto é realmente muito mais simples e mais fácil de entender, se alguém estiver disposto a ver. A verdade central é que, ao contrário do dogma há muito sustentado, são os capitalistas e não os plebeus os que não podem viver sem a perpetuação do autos-über-alles na América. Possivelmente nenhum outro produto capitalista poderia manter o status quo senão o carro.

Para entender porque isto é assim, convém entender que todos os capitalistas enfrentam aquilo a que chamo "o problemas dos produtos". A realidade é que apenas certas coisas dão bons produtos de comércio (também conhecidas como "mercadorias", na expressão de Marx). Veja-se o oxigénio por exemplo. Como o ar é um brinde da natureza que habitualmente não necessita de trabalho para ser fornecido, excepto em hospitais, não se pode fazer lucros a vender garrafas de ar às pessoas, apesar do seu extremo valor para todos nós. Da mesma forma, apesar de se poder fazer lucros a contratar trabalhadores assalariados para fabricar e distribuir velas, a vela é extremamente simples e barata, de modo que está obrigada a permanecer como uma mercadoria capitalista menor.

Assim, como é que um investidor audaz se qualifica para recolher lucros grandes, crescentes e constantes, a raison d'etre do esforço capitalista? Que produtos são realmente ideais como mercadorias?

A resposta é: produtos que sejam grandes, complexos e sujeitos a reparações e substituições tão frequentes quanto possíveis, dentro dos limites de manter os clientes suficientemente felizes para continuarem a utilizá-los e a comprá-los. Todos os outros factores permanecendo constantes, o quanto maior o produto e mais partes ("partes" pode ser tanto materiais físicos como serviços humanos) tiver o produto, mais oportunidades existem para os capitalistas de controlarem a cadeia de produção a partir da qual eles "fabricam" o seu dinheiro — nomeadamente, ao pagar aos trabalhadores menos do que o valor final dos produtos que os trabalhadores contratados fizeram. Portanto, mesmo no tempo do Adam Smith, fabricar e vender carruagens puxadas a cavalo ou máquinas a vapor era muito mais excitante e importante do que fabricar alfinetes.

Agora, aqueles já familiares com a grande obra de Baran e Sweezy (que pessoalmente classificaria como a mais poderosa obra de ciências sociais do século XX), Monopoly Capital , saberá que o triunfo do capitalismo corporativo nos fins do século XIX produziu rapidamente um salto quantitativo no "problema dos produtos". Uma vez que os principais capitalistas conseguiram desfrutar das vantagens das grandes corporações da fixação de preços, financeiras e organizacionais , eles descobriram-se a viver num clima de negócios muito mais estável e estratificado — ou seja, o Jardim do Paraíso capitalista. Infelizmente, como Baran e Sweezy explicaram, para a classe investidora a única grande desvantagem deste triunfo era a tendência para a super-acumulação, a consequência sistémica da demasiada acumulação de riqueza no topo, de criar excesso de capital. Tal como um jogador de poquer que vence muito frequentemente, as grandes corporações capitalistas, graças aos poderes acrescidos, descobrem-se a tornar-se cada vez mais dependentes de artifícios políticos e empresariais tanto para estimular novas oportunidades de investimento como para sustentar as antigas.

Agora, se a simples verdade for contada, isto é de longe o mais importante aspecto do trágico domínio do automóvel na vida americana. Especule-se tudo o que se quiser acerca do "caso de amor com o carro" dos americanos comuns, mas permanece o facto institucional de que o triunfo e perpetuação de um modo automóvel-intensivo de andar nas cidades dos Estados Unidos tem sido, nas palavras da Associação Nacional de Fabricantes, o "sangue vital" do capitalismo nos Estados Unidos e por todo o globo.

E a razão mais importante para este facto institucional reside no próprio automóvel, o qual está tão próximo quanto se poderia realisticamente imaginar da mercadoria capitalista ideal. Considere-se a realidade trivial. Carros são máquinas fantasticamente grandes e complicadas. Para fabricar, entregar, manter, fazer estradas para eles, segurar, armazenar e abastece-los nos Estados Unidos exige-se um complexo mega-industrial de mais de um milhão de milhões (trillion) de dólares por ano, dos quais quase todos os elementos são fornecidos por empregados de negócios lucrativos. E isto sem mencionar os enormes gastos económicos secundários com os médicos e advogados necessários devido a outra grande virtude capitalista dos carros: sua tendência para colidirem uns com os outros. E o açúcar deste bolo capitalista? A caracteristicamente grande "fetichibilidade" dos carros: através da alteração do tamanho, estilo e dispositivos dos carros, os capitalistas são capazes de extrair um vasto conjunto de métodos para encorajar as pessoas comuns a perceberem os seus automóveis como importantes extensões da sua personalidade.

É difícil exagerar a importância de tudo isto para a perpetuação do capitalismo corporativo. Se tem dúvidas, imagine o que aconteceria se um génio mágico irrompe-se dos seus dedos e convertesse os Estados Unidos de uma sociedade construída para encorajar a condução de carros para uma centrada no passeio a pé, na bicicleta e nas viagens em comboio. Mesmo com distribuição universal dos mais luxuosos sapatos imagináveis, bicicletas e comboios, as consequências da conversão do génio seria extremamente sombrias para os capitalistas. Sem a capacidade de vender dezenas de milhões de pomposas caixas de aço, plástico e vidro, juntamente com os seus serviços de apoio e de combustíveis, todos os anos, a economia dos grandes negócios implodiria. Em comparação, o encerramento instantâneo e completo das forças armadas americanas pareceria um simples soluço. O capitalismo simplesmente estaria condenado.

O QUE DEVE SER FEITO?

A verdade é que, quando utilizado como modo de transporte dominante, o automóvel é a tecnologia do desperdício supremo, destrutiva e insustentável. A partir de uma perspectiva pública (ao invés daquela capitalista), seria preciso uma equipe dos mais fantásticos escritores de ficção científica para imaginar um sistema de transporte mais custo e desperdiçador do que este que temos agora nos Estados Unidos. É como se todos nós tivéssemos nosso próprio comboio-carro estacionado na nossa garagem, e cada um de nós tivesse, devido às leis da física e às realidades da estrada, de substitui-lo a cada 7 a 10 anos. E a maciça dissipação de energia à qual "nós" todos estamos consequentemente viciados não é mais do que um elemento subordinado de um país capitalista extasiado.

Portanto, apesar de uma boa petro-política ser certamente crucial, o genuíno avanço revolucionário no nosso debate democrático virá quando começarmos a reconhecer e a discutir a realidade de que os capitalistas estão viciados em fabricar vender automóveis, quaisquer que sejam os custos e perigos gerais que fazer isso possam ter. Como drogados empedernidos, enquanto e até que intervenhamos, nossos soberanos dos negócios simplesmente continuarão a empurrar seu produto preferido, o automóvel privado, o mundo estará condenado. A razão para este comportamento inteiramente previsível e intratável da elite jaz na própria finalidade e estrutura do sistema da qual eles retiram seus poderes e privilégios distintivos.

Assim, ajude a difundir o diagnóstico real: "Os capitalistas estão viciados em carros".

[1] Actor, humorista e realizador de cinema.   Autor de frases como   "Não acredito em jantar sobre um estômago vazio", "Não diga que é difícil abandonar a bebida, fiz isso milhares de vezes", "Não cobiçarás a casa do teu vizinho, a menos que ele tenha um bar bem abastecido", "Quem foi o patife que colocou sumo de ananás no meu sumo de ananás?", "Tenho um extremo auto-controle: nunca bebo qualquer coisa mais forte do que gim antes do pequeno-almoço", "Nunca bebi nada mais forte do que cerveja antes dos 12 anos", "Certamente não bebo o tempo todo, também tenho de dormir", "Minha doença deve-se à insistência do médico para que beba leite, um líquido esbranquiçado que eles aplicam a bebés indefesos", "Mais pessoas são levadas à insânia devido à histeria religiosa do que pela ingestão de álcool", "Uma mulher levou-me à bebida: estou em dívida para com ela".

[*] Professor de sociologia em Portland, Oregon. Actualmente está a escrever o livro Automobiles Ueber Alles: Corporate Capitalism and Transportation in America, a ser publicado pela Monthly Review Press.

O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/dawson050706.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
12/Jul/06