O desperdício capitalista nos transportes
"A América está viciada em petróleo". Assim
falou George W. Bush no seu discurso "Estado da União" de 2006.
À primeira vista, isto soa como um notável progresso no discurso
público. Um presidente americano a admitir que o relacionamento do
país com o petróleo é
vicioso
? Soa como um grande avanço em honestidade, não parece? E
ouvir acerca deste vício da parte de Bush-o-Jovem é como se W. C.
Fields
[1]
lhe dissesse que você é bêbado. Mas a verdade é a
verdade, por mais hilariante que seja a fonte.
O problema, contudo, é que dizer "a América está
viciada em petróleo" é espalhar uma dupla confusão.
Em primeiro lugar, ao falar da "América" a
declaração culpa a todos nós ricos e pobres,
capitalistas e plebeus por igual. Mas alguns "americanos"
são de longe mais viciados do que outros em substâncias e arranjos
conectados com o que Bush chama "petróleo". Em segundo lugar,
apesar da aparente concessão ao realismo, dizer que "a
América está viciada em petróleo" é errar no
diagnóstico dos problemas, tratar um sintoma como uma causa.
Na realidade, como observa o analista e historiador
Kevin Philips
, na América o uso não automotivo do petróleo
"é pequeno em relação ao transporte".
"Carros e camiões"
, nota Philips,
"queimam de forma impressionante dois de cada três barris do petróleo usado nos Estados Unidos"
. Como diz Philips, isto significa que "o parâmetro
crítico" para pensar realisticamente nos nossos supostos problemas
"de petróleo" deve ser "a indústria
automotiva".
Carros,
não barris de petróleo, são na verdade o objecto da
"nossa" debilitante dependência.
CAUSAS RAÍZES DO VÍCIO EM CARROS
A edição mais recente do famoso livro dos Alcoólicos
Anónimos diz que "O facto é que a maior parte dos
alcoólicos,
por alguma razão ainda obscura,
perdeu o poder de escolha na bebida". Por outras palavras, apesar dos
enormes avanços nas ciências do cérebro a confirmarem que
dependências da droga na verdade têm uma base fisiológica,
A.A. ainda não está suficientemente confortável "para
escrever um livro que não contivesse qualquer base para disputa ou
controvérsia" acerca das causas do alcoolismo. "Da
necessidade", dizem os A.A., de entender a dependência da droga
"haverá discussão de aspectos médicos,
psiquiátricos, sociais e religiosos. Estamos conscientes de que estas
matérias são, pela sua própria natureza,
controversas".
No caso do vício em carros, contudo, o cerne do assunto é
realmente muito mais simples e mais fácil de entender, se alguém
estiver disposto a ver. A verdade central é que, ao contrário do
dogma há muito sustentado, são os capitalistas e não os
plebeus os que não podem viver sem a perpetuação do
autos-über-alles na América. Possivelmente nenhum outro produto
capitalista poderia manter o status quo senão o carro.
Para entender porque isto é assim, convém entender que todos os
capitalistas enfrentam aquilo a que chamo "o problemas dos produtos".
A realidade é que apenas certas coisas dão bons produtos de
comércio (também conhecidas como "mercadorias", na
expressão de Marx). Veja-se o oxigénio por exemplo. Como o ar
é um brinde da natureza que habitualmente não necessita de
trabalho para ser fornecido, excepto em hospitais, não se pode fazer
lucros a vender garrafas de ar às pessoas, apesar do seu extremo valor
para todos nós. Da mesma forma, apesar de se poder fazer lucros a
contratar trabalhadores assalariados para fabricar e distribuir velas, a vela
é extremamente simples e barata, de modo que está obrigada a
permanecer como uma mercadoria capitalista menor.
Assim, como é que um investidor audaz se qualifica para recolher lucros
grandes, crescentes e constantes, a raison d'etre do esforço
capitalista? Que produtos são realmente ideais como mercadorias?
A resposta é: produtos que sejam grandes, complexos e sujeitos a
reparações e substituições tão frequentes
quanto possíveis, dentro dos limites de manter os clientes
suficientemente felizes para continuarem a utilizá-los e a
comprá-los. Todos os outros factores permanecendo constantes, o quanto
maior o produto e mais partes ("partes" pode ser tanto materiais
físicos como serviços humanos) tiver o produto, mais
oportunidades existem para os capitalistas de controlarem a cadeia de
produção a partir da qual eles "fabricam" o seu
dinheiro nomeadamente, ao pagar aos trabalhadores menos do que o valor
final dos produtos que os trabalhadores contratados fizeram. Portanto, mesmo
no tempo do Adam Smith, fabricar e vender carruagens puxadas a cavalo ou
máquinas a vapor era muito mais excitante e importante do que fabricar
alfinetes.
Agora, aqueles já familiares com a grande obra de Baran e Sweezy (que
pessoalmente classificaria como a mais poderosa obra de ciências sociais
do século XX),
Monopoly Capital
, saberá que o triunfo do
capitalismo corporativo nos fins do século XIX produziu rapidamente um
salto quantitativo no "problema dos produtos". Uma vez que os
principais capitalistas conseguiram desfrutar das vantagens das grandes
corporações da fixação de
preços, financeiras e organizacionais , eles descobriram-se a viver num
clima de
negócios muito mais estável e estratificado ou seja, o
Jardim do Paraíso capitalista. Infelizmente, como Baran e Sweezy
explicaram, para a classe investidora a única grande desvantagem deste
triunfo era a tendência para a super-acumulação, a
consequência sistémica da demasiada acumulação de
riqueza no topo, de criar excesso de capital. Tal como um jogador de poquer
que vence muito frequentemente, as grandes corporações
capitalistas, graças aos poderes acrescidos, descobrem-se a tornar-se
cada vez mais dependentes de artifícios políticos e empresariais
tanto para estimular novas oportunidades de investimento como para sustentar as
antigas.
Agora, se a simples verdade for contada,
isto
é de longe o mais importante aspecto do trágico domínio
do automóvel na vida americana. Especule-se tudo o que se quiser acerca
do "caso de amor com o carro" dos americanos comuns, mas permanece o
facto institucional de que o triunfo e perpetuação de um modo
automóvel-intensivo de andar nas cidades dos Estados Unidos tem sido,
nas palavras da Associação Nacional de Fabricantes, o
"sangue vital" do capitalismo nos Estados Unidos e por todo o globo.
E a razão mais importante para este facto institucional reside no
próprio automóvel, o qual está tão próximo
quanto se poderia realisticamente imaginar da mercadoria capitalista ideal.
Considere-se a realidade trivial. Carros são máquinas
fantasticamente grandes e complicadas. Para fabricar, entregar, manter, fazer
estradas para eles, segurar, armazenar e abastece-los nos Estados Unidos
exige-se um complexo mega-industrial de mais de um milhão de
milhões
(trillion)
de dólares por ano, dos quais quase todos os elementos são
fornecidos por empregados de negócios lucrativos. E isto sem mencionar
os enormes gastos económicos secundários com os médicos e
advogados necessários devido a outra grande virtude capitalista dos
carros: sua tendência para colidirem uns com os outros. E o
açúcar deste bolo capitalista? A caracteristicamente grande
"fetichibilidade" dos carros: através da
alteração do tamanho, estilo e dispositivos dos carros, os
capitalistas são capazes de extrair um vasto conjunto de métodos
para encorajar as pessoas comuns a perceberem os seus automóveis como
importantes extensões da sua personalidade.
É difícil exagerar a importância de tudo isto para a
perpetuação do capitalismo corporativo. Se tem dúvidas,
imagine o que aconteceria se um génio mágico irrompe-se dos seus
dedos e convertesse os Estados Unidos de uma sociedade construída para
encorajar a condução de carros para uma centrada no passeio a
pé, na bicicleta e nas viagens em comboio. Mesmo com
distribuição universal dos mais luxuosos sapatos
imagináveis, bicicletas e comboios, as consequências da
conversão do génio seria extremamente sombrias para os
capitalistas. Sem a capacidade de vender dezenas de milhões de pomposas
caixas de aço, plástico e vidro, juntamente com os seus
serviços de apoio e de combustíveis, todos os anos, a economia
dos grandes negócios implodiria. Em comparação, o
encerramento instantâneo e completo das forças armadas americanas
pareceria um simples soluço. O capitalismo simplesmente estaria
condenado.
O QUE DEVE SER FEITO?
A verdade é que, quando utilizado como modo de transporte dominante, o
automóvel é a tecnologia do desperdício supremo,
destrutiva e insustentável. A partir de uma perspectiva pública
(ao invés daquela capitalista), seria preciso uma equipe dos mais
fantásticos escritores de ficção científica para
imaginar um sistema de transporte mais custo e desperdiçador do que este
que temos agora nos Estados Unidos. É como se todos nós
tivéssemos nosso próprio comboio-carro estacionado na nossa
garagem, e cada um de nós tivesse, devido às leis da
física e às realidades da estrada, de substitui-lo a cada 7 a 10
anos. E a maciça dissipação de energia à qual
"nós" todos estamos consequentemente viciados não
é mais do que um elemento subordinado de um país capitalista
extasiado.
Portanto, apesar de uma boa petro-política ser certamente crucial, o
genuíno avanço revolucionário no nosso debate
democrático virá quando começarmos a reconhecer e a
discutir a realidade de que os capitalistas estão viciados em fabricar
vender automóveis, quaisquer que sejam os custos e perigos gerais que
fazer isso possam ter. Como drogados empedernidos, enquanto e até que
intervenhamos, nossos soberanos dos negócios simplesmente
continuarão a empurrar seu produto preferido, o automóvel
privado, o mundo estará condenado. A razão para este
comportamento inteiramente previsível e intratável da elite jaz
na própria finalidade e estrutura do sistema da qual eles retiram seus
poderes e privilégios distintivos.
Assim, ajude a difundir o diagnóstico real: "Os capitalistas
estão viciados em carros".
[1]
Actor, humorista e realizador de cinema. Autor de frases como
"Não acredito em jantar sobre um estômago vazio",
"Não diga que é difícil abandonar a bebida, fiz isso
milhares de vezes", "Não cobiçarás a casa do
teu vizinho, a menos que ele tenha um bar bem abastecido", "Quem foi
o patife que colocou sumo de ananás no meu sumo de ananás?",
"Tenho um extremo auto-controle: nunca bebo qualquer coisa mais forte do
que gim antes do pequeno-almoço", "Nunca bebi nada mais forte
do que cerveja antes dos 12 anos", "Certamente não bebo o
tempo todo, também tenho de dormir", "Minha doença
deve-se à insistência do médico para que beba leite, um
líquido esbranquiçado que eles aplicam a bebés
indefesos", "Mais pessoas são levadas à insânia
devido à histeria religiosa do que pela ingestão de
álcool", "Uma mulher levou-me à bebida: estou em
dívida para com ela".
[*]
Professor de sociologia em Portland, Oregon. Actualmente está a
escrever o livro
Automobiles Ueber Alles: Corporate Capitalism and
Transportation in America,
a ser publicado pela Monthly Review Press.
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/dawson050706.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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