A repartição entre o "Trabalho" e o "Capital" da riqueza criada em Portugal, 2010-2014
por Eugénio Rosa
[*]
O Instituto Nacional de Estatística publica todos os anos, embora com
grande atraso relativamente à rubrica de "Ordenados e
salários", dados referentes às contas nacionais. Elas
dão uma informação importante sobre a forma como a riqueza
criada anualmente no país é repartida entre o Trabalho e o
Capital, o que permite ficar a saber quem está a ganhar e quem
está a perder com a crise. Nos quadros que a seguir se apresentam
reunimos os dados mais importantes divulgados pelo INE e pelo Ministério
das Finanças sobre esta matéria que permitem uma reflexão
e tirar algumas conclusões importantes.
No período 2010-2014, o valor do "VAB a preços de
base", ou seja, a riqueza criada diminuiu 4,5%, pois passou de 158.325,9
milhões para 151.190,4 milhões , enquanto o valor
das remunerações baixou em 10% pois passou de 84.841,6
milhões para 76.362,5 milhões . Como
consequência a parcela de riqueza criada no país que reverte para
os trabalhadores diminuiu de 53,6% para 50,5%.
Entre 2010 e 2012, ou seja em apenas dois anos de "troika" e de
governo PSD/CDS, o emprego remunerado reduziu-se em 270,9 mil trabalhadores, e
a remuneração media anual por trabalhador diminuiu em
1.023,7. Por outro lado, a redução no valor do
salário médio anual foi de 807 euros por trabalhador remunerado
entre 2010 e 2012. Se a análise for feita para o período
2010-2014, conclui-se que a destruição de emprego remunerado
atingiu neste período 307,9 mil trabalhadores, e que a
redução na remuneração media anual foi de 546,9
euros por trabalhador remunerado.
Entre 2010 e 2015, as receitas fiscais do IRS e IVA aumentaram 6.610
milhões (+30,2%), pois passaram de 21.249 milhões
para 27.659 milhões , o que correspondeu a 93,8% do aumento
verificado nas receitas fiscais totais que foi de 6.835 milhões .
A maior parcela do aumento enorme de impostos registado no período da
"
troika
" e do governo PSD/CDS incidiu principalmente sobre trabalhadores e
pensionistas
(90% dos rendimentos declarados para efeitos de IRS são rendimento do
trabalho e pensões)
o que contribuiu para reduzir ainda mais o seu poder de compra e agravar as
suas difíceis condições de vida. E é
previsível que um futuro governo não tome qualquer medida de
redução significativa desta enorme carga fiscal, a não ser
que se verifique uma enorme pressão social nesse sentido como
necessário.
01/Junho/2015
[*]
edr2@netcabo.pt
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Encomendas: www.wook.pt/ficha/os-numeros-da-desigualdade-em-portugal/a/id/16481904 Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ . |