A revolução tecnológica, o impacto no emprego e na
repartição da riqueza criada
Contributos para a reflexão e o debate neste 1º de Maio de
2017
APELO AOS ASSOCIADOS DO MONTEPIO
No dia 9 de Maio de 2017, realiza-se no Coliseu em Lisboa, às 21 horas,
uma assembleia geral extraordinária em que podem participar todos os
associados, para ratificar a transformação da Caixa
Económica Montepio numa Sociedade Anónima (SA).
Faço um
apelo para que não faltem, pois a participação é
vital para defender o Montepio e os 3.500 milhões de
poupanças que os associados têm no Montepio. Brevemente vou
divulgar a INFORMAÇÃO 3/2017 AOS ASSOCIADOS DO MONTEPIO com o
objetivo de os informar da situação actual e de
como se chegou à mesma. NÃO PODEM DIZER
QUE NÃO SABIAM OU QUE NÃO FORAM INFORMADOS. Peço
ajuda a todos para que façam chegar este apelo aos associados.
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Contrariamente ao que muitos podem pensar ou dizer, a revolução
tecnológica em curso, diferente das anteriores
(esta é diferente das anteriores)
, não é nem um mito, nem uma simples criação
ideológica do capitalismo. Ela é bem real, e vai ter um profundo
impacto no emprego e na sociedade. O que está a suceder é que o
"Capital" está a utilizá-la para aumentar as
desigualdades e a exploração e para concentrar ainda mais a
riqueza. E os seus defensores estão a procurar convencer a
opinião pública que esse é o caminho inevitável,
que não há outro a não ser esse, o que não é
verdade. Afirmar também que é uma simples criação
ideológica e que, por isso, deve ser combatida apenas no plano
ideológico, e ficarmos muito convencidos e satisfeitos com isso,
é deixar o campo livre à atuação selvagem do
mercado, à logica de caça ao lucro que domina o sistema
capitalista, cujas consequências serão inevitavelmente a
destruição muito emprego, mais desigualdades e mais
miséria.
Antes de analisarmos quais serão eventualmente as consequências
desta revolução tecnológica em Portugal, interessa
analisar quais foram os efeitos da crise e da politica de austeridade no
mercado de emprego imposta a Portugal pela "troika" e pelo PSD/CDS,
pois será já nesse contexto que os efeitos da
revolução tecnológica se farão mais sentir.
A RESTRUTURAÇÃO DO MERCADO DE EMPREGO EM PORTUGAL ENTRE
2007/2016, CAUSADA PELA CRISE E POR UMA VIOLENTA POLITICA DE AUSTERIDADE
No período 2007/2016, mesmo antes do nosso país ter sofrido um
forte impacto da revolução tecnológica
(ela ainda está no início, em Portugal ela está a dar
ainda apenas os primeiros passos),
verificou-se uma profunda reestruturação do mercado do emprego
com consequências dramáticas para determinados grupos da
população. Alguns dados do INE sobre o que sucedeu nos
últimos anos em Portugal para se tornar claro o que se verificou,
já que passou despercebido a muitos portugueses:
-
Entre 2007 e 2016, foram destruídos, em Portugal, 546,5 mil postos de
trabalho
(o emprego passou de 5,15 milhões para 4,60 milhões),
mas não foi só isso.
-
Se a análise for feita por níveis de escolaridade
a conclusão que se tira é que, entre 2007 e 2016, a
destruição de emprego atingiu quase exclusivamente o emprego
ocupado por
trabalhadores com o nível de escolaridade até ao 3º ciclo do
ensino básico, cujo número de empregos diminuiu em 1,4
milhões
, tendo a maior parte deles sido excluídos definitivamente do mercado de
trabalho;
-
Uma parte destes empregos foram ocupados por trabalhadores com o ensino
secundário
(o emprego destes aumentou, neste período, em 405,5 mil)
e com o ensino superior
(+ 462,8 mil),
muitos deles a receber salários muito baixos;
-
Entre 2007 e 2017, os trabalhadores por conta de outrem sofreram uma
redução de 115 mil, mas registou-se um crescimento no emprego de
mulheres (+ 102,2 mil) e uma diminuição do emprego de homens
(-217,2 mil);
-
Um grupo afetado profundamente pela crise foram os
"trabalhadores por conta própria como isolados"
, também conhecidos por "independentes", ou
"empreendedores",
para utilizar um termo muito em voga, cujo numero, entre 2007 e 2016,
diminuiu em 330,5 mil
(passou de 952,5 mil para 569,6 mil);
-
Se a análise for feita por idades
, entre 2007 e 2016, a redução maior teve lugar na
população empregada com idade entre 25 e 34 anos, cujo numero
diminuiu em 408,8 mil
, portanto no grupo etário potencialmente com maior capacidade
produtiva, certamente consequência da emigração em massa de
jovens altamente qualificados que não encontraram um emprego condigno em
Portugal, o que mostra bem que este tipo de reestruturação foi
altamente lesiva para o presente e o futuro do país.
-
Se a análise for feita por profissões
, conclui-se que, entre 2007 e 2016,:
-
O emprego de "Especialistas intelectuais e científicos"
aumentou em 384,5 mil,
mas foi inferior ao aumento do emprego de trabalhadores com o ensino superior
que aumentou em 462,8 mil neste período;
-
O emprego de
"Técnicos de nível intermédio"
também aumentou mas apenas em 91,7 mil
, portanto muito menos que o aumento do emprego
de trabalhadores com o ensino secundário que cresceu em 405,5 mil,
-
O emprego de
"Pessoal administrativo"
diminuiu em 131,5 mil;
-
O emprego na
"Agricultura e pescas"
também diminuiu em 270,8 mil
-
O emprego de
"Operários"
reduziu-se quase para metade,
pois diminuiu em 439,2 mil
(entre 2007 e 2016, passou de 1,02 milhões para 581,6 mil)
-
E o emprego de
"Trabalhadores não qualificados"
caiu em 172,7 mil.
Portanto, neste período de crise e de política de austeridade
imposta pelo governo PSD/CDS e pela "
troika
", registou-se em Portugal uma violenta reestruturação do
mercado de emprego que atingiu, de uma forma particular, as camadas mais
débeis da população trabalhadora, o que é muitas
vezes ignorado nas análises sobre o emprego. E é neste novo
contexto que se está a desenvolver em Portugal a revolução
tecnológica.
A REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA ATUAL É DIFERENTE DAS
ANTERIORES, TERÁ UM GRANDE IMPACTO NO EMPREGO E AGRAVARÁ AS
DESIGUALDADES SE FOR ORIENTADA APENAS PELO MERCADO COMO ESTÁ A SUCEDER
A revolução tecnológica em curso não é um
mito nem é apenas uma criação ideológica do
capitalismo como alguns ainda podem pensar. Alguns exemplos portugueses para
convencer aqueles que se mantêm ainda
"cegos, surdos e mudos"
a ela.
Comecemos pelos
CTT
, uma empresa que todos os portugueses conhecem e que foi privatizada pelo
governo PSD/CDS. A simples automatização da
separação da correspondência e de outras tarefas
rotineiras, associada à concorrência da comunicação
digital, e à alternância da distribuição do correio
por zonas geográficas, levou à redução do numero de
carteiros de 22 mil para 8 mil, e ao aumento do chamado "giro"
diário de cada carteiro de 8 km para 11 km, portanto causou uma grande
destruição de emprego e um aumento da exploração
associado a uma subida significativa do desgaste físico e de
doenças profissionais dos trabalhadores.
Na banca
a digitalização dos serviços, a
generalização do
"self-service on-line"
, associada à redução do negócio bancário
levou à diminuição significativa dos trabalhadores.
Segundo a Associação Portuguesa de Bancos, o número de
trabalhadores dos seus associados diminuiu, entre 2009 e 2016, em 22,6%, pois
passou de 60.046 para apenas 46.962 (-13.084). E os bancos ainda não
pararam de digitalizar os serviços e de destruir emprego
(o plano da CGD imposto por Bruxelas prevê a redução de
2.200 trabalhadores; o Novo Banco, após ter despedido 1000 trabalhadores
anuncia novos despedimentos a realizar depois da sua
privatização, e previsivelmente o BPI, agora capturado totalmente
pelos espanhóis, procurará fazer o mesmo).
Na Administração Pública
, após a destruição de 70.000 empregos pelo governo
PSD/CDS, procura-se agora com o chamado
SIMPLEX+
, não só
"tornar mais fácil a vida dos cidadãos",
mas também suprir a falta de trabalhadores indispensáveis
para prestar serviços públicos de qualidade. Em 2018 e 2019, este
governo pretende "poupar" 31 milhões /ano destruindo
mais emprego. A
informatização do IRS
, embora facilitando a vida diária do cidadão, destruiu muitos
empregos, já que as tarefas agora automatizadas eram feitas por muitos
trabalhadores.
Em resumo, todas estas soluções têm sempre duas faces que
interessa analisar.
E se sairmos do nosso país, os exemplos multiplicam-se em todas as
áreas da economia e da sociedade. Em Singapura, o metro já
funciona sem maquinistas. No Japão já existem restaurantes onde
os empregados de mesa foram eliminados. O WATSON, um computador da IBM,
instalado num hospital oncológico do Texas, já faz
diagnósticos que ajudam os médicos a decidir. Muitos artigos de
grandes revistas já são "escritos" por computadores.
Milhões de robôs já existem no mundo e o seu crescimento
é exponencial. Num interessante estudo publicado na
Harvard Business Review
em 12 Abril de 2017 por três investigadores com o titulo esclarecedor
"Os países mais e menos afetados pela automação"
concluíram que
"Atualmente, cerca de metade das atividades remuneradas na economia global
têm o potencial de serem automatizadas por tecnologia já
existente".
E no estudo apresentam uma lista de países da África, da
Ásia, da Europa, e da América, onde a percentagem das atividades
que podiam ser automatizadas já com a tecnologia existente varia entre
41% e 55,7% (nos países da UE entre 42% e 52%). A sua
concretização é uma questão de custos, oportunidade
e tempo.
A ausência das organizações de trabalhadores num debate
fundamentado sobre o que está a suceder facilita e permite a
apropriação da revolução tecnológica e dos
seus resultados por parte do grande Capital.
ESTA REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA É DIFERENTE DAS
ANTERIORES
Muitos que ainda não se deram ao trabalho de estudar com profundidades
as caraterísticas da atual revolução tecnológica
concluem apressadamente que esta revolução é igual
às anteriores e, como aconteceu passado, ela acabará por criar
muito mais emprego do que aquele que destruiu ou destruirá, e o aumento
enorme da riqueza que vai criar acabará por ser distribuída por
todos, e a todos beneficiará, portanto tudo acabará por se
resolver.
Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, dois cientistas do MIT, no seu livro
The Second Machine Age
designam a revolução a revolução
tecnológica atual como a
"2ª era das máquinas".
Segundo eles, a 1ª revolução foi a
revolução industrial com máquina de vapor e depois com a
descoberta da eletricidade que multiplicou de uma forma gigantesca a nossa
força mecânica, enquanto a atual é uma
revolução em que
"os computadores e outros avanços digitais estão a fazer
pela nossa força mental (capacidades para dominar e moldar os
ambientes) o que o motor a vapor e os seus descentes fizeram em
relação à nossa força bruta",
Portanto a revolução tecnológica atual tem
características muito diferentes da(s) anterior(es). A
revolução tecnológica atual baseia-se na
digitalização crescente de toda a economia e da sociedade, o que
permite o seu tratamento por computadores cuja potencia tem duplicada em cada
18 meses
(Lei de Moore),
e cujo custo, atendendo à sua potencia, tem-se reduzido para metade em
cada ano, o que torna a sua utilização cada vez mais
acessível e rentável nomeadamente às empresas, e baseia-se
em algoritmos cada vez mais "inteligentes", que "aprendem"
como a própria atividade que realizam, e que estão a substituir o
trabalho dos humanos num número crescente de profissões.
UMA REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA QUE ESTÁ A SER DOMINADA
PELAS LEIS DO MERCADO CAPITALISTA E QUE PODE LEVAR A UMA
DESTRUIÇÃO DE MUITO EMPREGO
A inovação e o desenvolvimento tecnológico, bem como a sua
aplicação pelas empresas, estão a ser feitas tendo como
base a lógica de mercado capitalista, o que significa que têm
como objetivo fundamental o lucro
(só é introduzida se aumenta a competitividade e dá lucro
e o seu desenvolvimento é feito com esse objetivo)
e o aumento do domínio dos grandes grupos económicos e
financeiros ou, como refere o conhecido economista inglês que dedicou a
sua vida ao estudo das desigualdades Anthony Atkinson,
"o rumo das evoluções tecnológicas tem sido
analisado em termos do desenvolvimento da produtividade do capital ou do
trabalho
" para assim alcançar maior lucro. Segundo ele, os governos deviam
orientar e encorajar
"a evolução de forma que aumente a empregabilidade dos
trabalhadores e acentue a dimensão humana da prestação dos
serviços" (Desigualdade - O que fazer? pág.168)
, utilizando para isso a sua influência e o facto de financiarem a maior
parte da investigação básica aproveitada depois pelas
empresas.
Muito recentemente o próprio FMI divulgou um estudo com o título
"
Compreender as causas da diminuição da taxa de
participação dos rendimentos do Trabalho no Rendimento Nacional
" o 3º Capitulo da sua publicação "
Perspetivas da Economia Mundial Abril de 2017
" em que analisa os efeitos da revolução
tecnológica em curso, nomeadamente, a forma como as empresas, e
particularmente as grandes empresas, tomam as suas decisões sobre a
introdução da automação, da
robotização e de "
algoritmos inteligentes
". Segundo o FMI, as decisões das empresas são tomadas com
base na "
elasticidade de substituição entre Capital e Trabalho
" visando precisamente avaliar qual o "fator de
produção" que utilizado permite às empresas obter
maior lucro
(calculam se a elasticidade é maior ou menor que 1, e é
função do valor obtido que é tomada a decisão de
substituir ou não o trabalhador por uma "máquina").
Por esta razão à medida que a revolução
tecnológica avança, e que os computadores se tornam mais potentes
e mais baratos, a possibilidade de substituir homens por máquinas e por
"algoritmos inteligentes", que exigem computadores com cada vez maior
velocidade e capacidade de cálculo, torna-se rentável para as
empresas e, consequentemente, a aplicação das "novas
tecnologias" avançará nas empresas rapidamente. Para muitas
profissões, os trabalhadores serem substituídos por
"máquinas"
é uma questão de tempo, se a aplicação dos
avanços tecnológicos continuar a ser dominado pelas leis do
mercado como atualmente sucede.
UMA REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA QUE LEVARÁ A UM ENORME
AUMENTO DAS DESIGUALDADES SE FOR DOMINADA PELAS LEIS DO MERCADO CAPITALISTA
Erik e Andrew no livro referido anteriormente afirmam que, no futuro,
poderá vingar
"uma economia dominada pelos mercados do tipo vencedor-leva-tudo",
em que os grandes grupos económicos vencedores se apropriam da
maior parte da riqueza. Mesmo para estes dois cientistas do MIT a
inovação e a revolução tecnológica em curso
promove o aumento de riqueza mas é também "
um mecanismo que promove a desigualdade, criando diferenças cada vez
maiores ao longo do tempo em áreas muito importantes, como saúde,
rendimento, padrões de vida e oportunidades de progresso"
(pág. 186). E finalizam o livro com estas palavras importantes para
reflexão.
"A tecnologia cria possibilidades e potencial, mas, no final de contas, o
futuro
que teremos vai depender da escolha que fizermos. Podemos colher uma riqueza e
uma liberdade sem precedentes ou o maior desastre que a humanidade já
viu".
"Na 2ª era das maquinas, precisamos pensar muito mais profundamente
sobre o
que é que realmente valorizamos, tanto como indivíduos quanto
como sociedade".
O próprio titulo do estudo do FMI que citamos anteriormente
"Compreender as causas da diminuição da taxa dos
rendimentos
do Trabalho no Rendimento Nacional"
é elucidativo. Segundo o FMI, desde 1980, tem-se verificado que a
participação dos rendimentos do Trabalho no Rendimento nacional
tem diminuído
(em Portugal, entre 2002 e 2016, diminuiu de 38,7% do PIB para 34,2% do PIB).
E que
"se estima que nas economias avançadas , aproximadamente metade da
diminuição da participação dos rendimento do
Trabalho no Rendimento Nacional pode-se atribuir ao impacto da tecnologia".
A globalização contribui para a redução com um
valor que é
"metade do da tecnologia". E
"juntas, a tecnologia e integração mundial explicam cerca de
75% da diminuição da participação do Trabalho no
Rendimento Nacional da Alemanha e Itália, e cerca de 50% nos Estados
Unidos".
Não deixa de ser insólito constatar que o FMI esteja mais
preocupado com os efeitos negativos da revolução
tecnológica nos rendimentos do trabalho do que muitas
organizações de trabalhadores que parecem não se preocupar
(para elas, esse problema é como se não existisse pois o seu
silencio é ensurdecedor)
sobre esta revolução tecnológica cuja
aplicação está a ser dominada pelas leis do mercado
capitalista, nomeadamente pela lei de maximização do lucro.
E isto porque a revolução tecnológica em curso é
inevitável, o que não é inevitável é que ela
seja um instrumento de aumento de domínio e de exploração.
E terminamos este ponto com uma transcrição do estudo do FMI, que
se deixa aqui para reflexão, pois ela traduz bem uma tendência que
já se sente e é visível em Portugal, e que á
seguinte:
"Isto finalmente corrobora a existência de evidência nas
economias
avançadas que a automação, a globalização e
deslocalização determinam perdas para as profissões de
qualificações médias e a deslocação dos
trabalhadores destas para empregos de baixos salários" (pag.20).
O DESEMPREGO TECNOLÓGICO É UMA AMEAÇA REAL QUE NÃO
DEVE SER SUBSESTIMADA
Contrariamente ao que muitos podem pensar, o desemprego tecnológico
é uma ameaça real, motivado por um desajustamento entre as
competências dos trabalhadores e as exigências determinadas pelo
rápido desenvolvimento técnológico. As crises agravam todo
este processo, de que é exemplo a destruição em Portugal,
entre 2007 e 2016, de 1,4 milhões de empregos ocupados por trabalhadores
de baixa escolaridade e de quase metade do operariado. Martin Ford, no seu
livro
Robôs: a ameaça de um futuro sem emprego,
põe a tónica não só no agravamento das
desigualdades mas fundamentalmente na destruição de emprego que
as tecnologias determinarão num futuro próximo. Considera que
à medida que a fronteira tecnológica avança, muitos
empregos que hoje consideramos não rotineiros, e portanto protegidos da
automação, acabarão por ser arrastados para a
previsível categoria de rotina" E menciona um estudo feito em 2013
nos EUA por dois investigadores da Universidade de Oxford o qual
"conclui que as ocupações que significam quase metade do
emprego
total nos EUA podem ser vulneráveis à automação
sensivelmente dentro das próximas duas décadas"
(pág. 90). E conclui, pondo o dedo na ferida, que é uma
das contradições fundamentais do sistema capitalista:
"A automação elimina uma parte substancial dos postos de
trabalho
de que os consumidores dependem (a esmagadora maioria são também
trabalhadores), ou se os salários baixarem tanto que muitas poucas
pessoas tenham rendimento disponível, então é
difícil ver como uma economia de mercado pode continuar e prosperar"
(pág. 250). E isto porque
"como é evidente, quase ninguém conseguia obter rendimento
suficiente do trabalho. O rendimento do capital com efeito da
propriedade das maquinas, incluindo dos robôs concentrar-se-ia nas
mãos de uma ínfima minoria. Os consumidores não teriam
rendimentos suficientes para comprar a produção gerada por todas
as máquinas inteligentes"
(pág. 300). E o resultado, afirmamos nós, seria a
implosão social.
Aceitemos ou não o alarmismo das previsões destes autores, o
certo é que a atual revolução tecnológica,
diferente das anteriores, impulsionada pela lógica do mercado
(maximização do lucro)
e pelos grandes grupos económicos e financeiros poderá
conduzir-nos, se não for reorientada pela luta dos trabalhadores e das
suas organizações, a um mundo de trabalho maioritariamente
precário e de desemprego, um mundo cada vez mais desigual onde a riqueza
se concentrará numa minoria cada vez mais reduzida, a um mundo cada vez
mais inseguro nomeadamente para a maioria da população.
São os seus próprios defensores que reconhecem esse facto. Os
computadores cada vez mais potentes e baratos, a digitalização
crescente de tudo, a era dos
Bigdata, "de algoritmos inteligentes"
e de tudo que possibilitam, a enorme criação de riqueza criada
que podia ser um instrumento de libertação dos trabalhadores pode
acabar por ser um instrumento de domínio e de exploração
de poucos sobre muitos. Em suma, se deixarmos que tais previsões se
concretizem teremos um país e um mundo em que, para além desta
minoria detentora de uma riqueza gigantesca, existiria outra minoria, um pouco
maior, constituída por trabalhadores altamente qualificados e bem pagos,
e ao lado de tudo isto, tinha-se a maioria de trabalhadores, com trabalho pouco
qualificado, mal pago ou precário, ou então no desemprego.
É um mundo que não queremos, que devemos combater, mas as
ameaças são reais e não devemos, nomeadamente as
organizações de trabalhadores, nem subestimar nem ignorar, pois
não podem esperar que estas ameaças desapareçam por si
próprias.
A revolução tecnológica é irreversível, o
que não é inevitável é que ela se faça
dominada pelas leis do mercado capitalista, nomeadamente a caça ao
lucro, como os defensores do capitalismo pretendem fazer crer
. E isso não pode ser combatido com declarações,
comunicados e debates pontuais, muitas vezes pouco preparados, por parte das
organizações de trabalhadores.
É urgente um debate fundamentado e uma ação firme para
que esta "revolução" em curso sirva o Trabalho e
não o Capital, como está a suceder.
26/Abril/2017
[*]
Este estudo tem como base uma intervenção feita no debate
"Capitalismo, Soberania, desenvolvimento tecnológico: novas e velhas
questões"
organizado pelo PCP em 4 de Abril de-2017 em Lisboa. Nele procuro
mostrar que a atual revolução tecnológica não
é um mito nem apenas uma criação ideológica do
capitalismo, mas sim um facto real com que somos confrontados diariamente,
muitas vezes de uma forma silenciosa e "natural". E a forma como ela
está a ser feita orientada fundamentalmente pelas leis do
mercado
está a causar a destruição de muito emprego, o
agravamento das desigualdades e miséria. Para impedir isso, e para que
ela seja um instrumento de libertação e de melhores
condições de vida para os trabalhadores não são
suficientes simples declarações, comunicados ou debates pontuais,
muito vezes mal preparados mas sim uma intervenção permanente,
estudada e fundamentada das organizações de trabalhadores. A
revolução tecnológica em curso é
irreversível e inevitável, disso não devemos ter
dúvidas, o que não é nem irreversível nem
inevitável é a
forma como ela está a ser feita dominada pelas leis do mercado
capitalista, de maximização do lucro, de aumento do
domínio e da
exploração dos grupos económicos e financeiros,
como os defensores do capitalismo pretendem fazer crer.
. Este texto pretende apenas ser um contributo, um alerta,
, neste 1º de Maio de 2017 para esse debate que é urgente fazer mas
que têm estado demasiadamente ausente, a meu ver, das
preocupações das organizações dos trabalhadores com
consequências nefastas no emprego e no seus rendimento, como
os próprios defensores da forma como a revolução
tecnológica está a ser feita reconhecem.
edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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