A "objetividade" do jornalismo em Portugal e a degradação dos serviços públicos essenciais à população
por Eugénio Rosa
[*]
Nas últimas semanas os portugueses têm assistido a um
espetáculo que merece uma reflexão séria. Jornalistas e
comentadores, que perdem a objetividade e o bom senso, e procurando condicionar
o PS e a opinião pública, destilam um discurso agressivo contra
aquilo que designam por "
esquerda radical
", e mesmo um anticomunismo primário e serôdio, que se
pensava que já tinha desaparecido do país. Um presidente da
República que, perdendo o sentido de Estado e à velha maneira de
Salazar, divide os portugueses em bons e maus portugueses e decide que os
representantes destes últimos não têm o direito de estar no
governo e, se pudesse, substituiria a velha declaração
salazarista que era obrigatória para ingressar no Estado "
ativo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas"
por uma outra com os seguintes dizeres:
"ativo repúdio das ideias contrárias ao euro, ao Tratado
Orçamental, à União Europeia, e aos mercados
".
Entre 2010 e 2015, o corte na despesa pública total, em valores
nominais, portanto antes de deduzir o efeito do aumento de preços,
atinge 2.784 milhões , mas o corte nas despesas com pessoal somou,
no mesmo período, 4.930 milhões , ou seja, foi superior ao
corte na despesa total em 77%. E a redução no investimento
público, essencial para se poder prestar serviços públicos
de qualidade e para promover a recuperação económica, pois
o investimento privado tem sido incapaz de o fazer, atingiu 40,1%, ou seja, o
de 2015 será inferior ao de 2010, em 2.923 milhões. Isto
significa que os cortes nos rendimentos dos trabalhadores da
Função Pública e no investimento público, têm
sido feitos, não só para reduzir o défice
orçamental, que tem sido muito aquém do corte feito naquelas
despesas, mas sim para fazer face ao aumento de outro tipo de despesas.
E as conclusões que se tiram são as seguintes: (1) O ganho
médio mensal liquido de 2015, após a dedução das
contribuições para a CGA e ADSE, e do IRS e sobretaxa de IRS
é inferior ao de 2010 em 10,8%; (2) Se deduzirmos o efeito do aumento de
preços verificado neste período, o poder de compra do ganho
médio liquido dos trabalhadores da Função Pública
em 2015 é inferior, ao de 2010, já em 17%; (3) Mas se entramos em
conta com o aumento do horário semanal de trabalho de 35 horas para 40
horas, sem qualquer compensação (trabalho gratuito) imposto aos
trabalhadores da Função Pública pelo PSD/CDS, constatamos
que o ganho médio real por hora (valor/hora) nas
Administrações Públicas é, em 2015, inferior ao de
2010 em 27,5%. É uma situação inaceitável que
necessita de ser rapidamente corrigida.
Entre 31/12/2011 e 30/6/2015, o número de trabalhadores foi reduzido em
72.694 (-10%), Mas existem categorias profissionais em que o corte foi muito
superior, nomeadamente dirigentes (-16%); assistentes técnicos e
operacionais (-13%); pessoal de investigação científica
(-22,9%); e educadores de infância e docentes do ensino básico e
secundário (-14,9%). Categorias profissionais fundamentais para o
funcionamento de todos os serviços e para o desenvolvimento do
país, como são as dos assistentes técnicos e operacionais,
e professores, sofreram cortes que somam 58.515, ou seja, 80,5% do corte total.
O aumento de 8,7% dos médicos é ilusório pois oculta o
facto de se ter verificado a substituição de muitos
médicos com horários completos por médicos que fazem
apenas poucas horas semanais, o que determina que também nesta categoria
se verificou uma redução real. Categoriais profissionais, onde o
número de trabalhadores já era insuficiente enfermeiros,
técnicos de diagnósticos e terapêutica, técnicos
superiores, pessoal de investigação científica, pessoal de
inspeção, oficiais de justiça, guardas prisionais
sofreram também cortes.
24/Outubro/2015
[*]
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