Como foi conseguida a redução do défice em 2016
À custa da Segurança Social, da função
pública, do investimento público e da contenção da
despesa do SNS
RESUMO DESTE ESTUDO
Neste estudo, utilizando dados oficiais, mostro:
(1) A redução do défice global das
Administrações Públicas em 2016
(para 2,3% ou 2,1% do PIB)
, foi conseguido fundamentalmente à custa de um elevado excedente obtido
na Segurança Social (+1.559 milhões ) e na
Administração Local (+662 milhões );
(2) O aumento reduzido do défice na Administração Central
foi possível através da manutenção do congelamento
das remunerações e das carreiras dos trabalhadores
Função Pública
( o aumento de despesa de Pessoal registado resultou fundamentalmente da
reposição do corte nos salários),
e por meio do corte significativo do investimento público com efeitos
negativos significativos;
(3) A existência de uma situação preocupante, que é
o facto dos juros e encargos com a divida pública representarem
já mais de 58% das remunerações anuais de todos os
trabalhadores de todas as Administrações Públicas e, em
2016, foram 2,1 vezes superiores a todo o investimento, o que estrangula o
Estado, impedindo-o de ter uma função de
dinamização na recuperação da economia e no
desenvolvimento, e está a ser utilizado como justificação
para manter congelados os salários e carreiras dos trabalhadores da
Função Pública;
(4) O elevado excedente obtido pela Segurança Social
(1.559 milhões em 2016)
foi obtido por meio da redução do numero de beneficiários
de prestações sociais de combate à pobreza
(subsidio de desemprego, RSI, CSI, e abono de família)
, cujo total, entre Dez.2015 e janeiro de 2017, diminuiu em 126.609, pois o
numero de beneficiários passaram de 1.769.450 para 1.642.850;
(5) É extremamente preocupante a situação a nível
do subsidio de desemprego em que a taxa de cobertura em Dez.2016 era apenas de
28,8%
(menos de 29 desempregados em cada 100 é que estavam a receber o
subsidio de desemprego),
inferior mesmo à de Dez.2015 que era 29,5%;
(6) A nível do SNS verificou-se em 2016 uma forte
contenção da despesa, com efeitos inevitáveis nos
serviços de saúde prestados à população. E
isto porque, entre 2015 e 2016, a despesa do SNS aumentou apenas em 105,5
milhões (+1,2%), quando a despesa com Pessoal, causada
fundamentalmente pela reposição do corte nos salários,
cresceu 171,5 milhões .
Face a estes dados é urgente
reformular a politica social deste governo de combate à pobreza pois os
resultados que está a obter são muito reduzidos.
|
O governo e seus defensores na comunicação social gabam-se de ter
conseguido reduzir o défice orçamental em 2016 para além
do que era exigido pela própria Comissão Europeia, e de ser mesmo
o mais baixo depois do 25 de Abril, como se a redução do
défice fosse o objetivo mais importante a alcançar. Em tais
comentários parece estar implícito, embora o não afirmem,
que tudo, ou quase tudo, se deve sacrificar no altar da redução
do défice. Mas mais importante que a redução do
défice,
embora a redução do défice sustentada deste seja
também importante pois o défice aumenta a divida
, é saber como em 2016o défice de 2,3% ou mesmo de 2,1% foi
conseguido, se a redução é sustentada e quais os seus
efeitos. É o que vamos esclarecer, utilizando os dados divulgados em
Jan.2017 pelo Ministério das Finanças sobre a
execução orçamental das Administrações
Públicas.
O DÉFICE DO ESTADO AUMENTOU EM 2016, MAS O DÉFICE DAS
ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS DIMINUIU À CUSTA DOS
EXCEDENTES DA SEGURANÇA SOCIAL E DA ADMINISTRAÇÃO LOCAL
O quadro seguinte, com as variações dos saldos das diferentes
Administrações Públicas
(dados do Ministério das Finanças),
mostra como foi obtida a redução do défice global em
2016.
Entre 2015 e 2016, o saldo negativo (défice) da
Administração Central, que inclui o subsetor Estado e os
Serviços e Fundos Autónomos, aumentou em 113 milhões
pois passou de -6.337 milhões para -6.450
milhões. Este aumento foi mais que compensado pela subida do saldo
positivo (excedente) da Segurança Social que, no mesmo período,
aumentou de 1.037 milhões para 1.559 milhões (+522
milhões ). E entre 2015 e 2016, a Administração
Regional conseguiu reduzir o défice em 167 milhões , pois
passou de -194 milhões para apenas -27 milhões , e
Administração Local, embora o seu excedente tenha
diminuído em 79 milhões , o seu saldo manteve-se positivo
em 2016 pois foi de 662 milhões . Em resumo, a
redução do défice global das Administrações
Públicas (497M) foi conseguido à custa do aumento
significativo do excedente da Segurança Social (+50,4%,) que, em 2016,
atingiu +1559 milhões e do excedente da
Administração Local. Mas o aumento reduzido do défice da
Administração Central foi conseguido à custa do
congelamento dos salários e das carreiras dos trabalhadores da
Função Pública e de um corte significativo no investimento
como vamos ver.
OS JUROS DA DIVIDA PÚBLICA JÁ REPRESENTAM 58% DAS
REMUNERAÇÕES CERTAS E PERMANENTES DAS
ADMINISTRAÇÕES PÚBLICAS E, EM 2016, FORAM 2,1 VEZES
SUPERIOR AO INVESTIMENTO
Este quadro, com dados do Ministério das Finanças, mostra o que
sucedeu em 2016:
Como os dados do Ministério das Finanças do quadro anterior
revelam, o aumento registado nas Remunerações Certas e
Permanentes de todos os trabalhadores da Função Pública
(355 milhões ) foi fundamentalmente determinado pela
reposição dos cortes salariais feitos pelos governos de
Sócrates e Passos Coelho, mantendo-se o congelamento das
remunerações e das carreiras dos trabalhadores da
Função Pública, o primeiro desde 2009 e o segundo desde
2000, o que tem causado a degradação das condições
de vida destes trabalhadores. Uma parte destes trabalhadores (cerca de 300
mil), com remunerações mais baixas, nem tiveram a ilusão
da reposição dos cortes. Para além disso, e como mostra o
quadro anterior, a redução do défice foi conseguida
também através de um corte importante de 9,9% no já
reduzido investimento público
(-433 milhões do que em 2015, e -956 milhões do que
constante nos orçamentos aprovados para 2016)
, com efeitos negativos significativos na recuperação
económica e no desenvolvimento do país.
Os dados do quadro anterior revelam também uma situação
preocupante que deve merecer grande atenção e reflexão por
parte dos portugueses.
Os juros pagos pelo Estado, aqui no sentido mais amplo, já representam
42% das Despesas de Pessoal de todas as Administrações
Públicas (Central, Regional e Local) e mais de 58% das
Remunerações Certas e Permanentes de todos os trabalhadores da
Função Pública. Em 2016, o gasto com juros correspondeu a
2,1 vezes o Investimento realizado por todas as Administrações
Públicas neste ano
. E o défice global de todas as Administrações
Públicas em 2016 somou -4.256 milhões, mas se retirarmos os
juros, este elevado défice transforma-se num enorme saldo positivo
(excedente) de 4.029 milhões .
Em conclusão, os juros e os encargos com a divida publica já se
transformaram num grave obstáculo à recuperação
económica e ao desenvolvimento do país, pois estão a
impedir que o Estado assuma a sua função importante de
dinamizador da recuperação económica e do desenvolvimento.
A despesa com juros, já que é a causa do défice,
está a ser utilizada para justificar a degradação das
condições de vida dos trabalhadores das
Administrações Públicas através da
manutenção do congelamento de salários e das carreiras
desde 2009 (as carreiras desde 2000). Portanto, na análise da
redução do défice é preciso ter presente o que
está por detrás, e analisar como foi conseguida, se foi de uma
forma sustentável e justa ou não. É preciso que
"arvore não oculte a floresta"
e não cegar.
COMO ESTÃO A SER OBTIDOS OS ELEVADOS EXCEDENTES NA SEGURANÇA
SOCIAL QUE TÊM SIDO UTILIZADOS PARA REDUZIR O DÉFICE GLOBAL PARA
"VALORES HISTÓRICOS"
Para compreender corretamente o que está a suceder na Segurança
Social é importante ter presente alguns dados oficiais. Eles constam do
quadro seguinte.
Entre Dezembro de 2015 e Janeiro de 2016, o numero de beneficiários a
receberem prestações sociais que se podem considerar de combate
à pobreza
(subsidio de desemprego, RSI, CSI e Abono de família)
diminuiu em 126.609, pois o seu numero passou de 1.769.459 para 1.642.850. A
situação mais grave é certamente a nível da
cobertura do subsidio de desemprego cuja taxa já era muito reduzida em
Dezembro de 2015 (apenas 29,5%), mas que em Dezembro de 2015 tinha
diminuído para 28,8%
(menos de 29 desempregados em cada 100 é que estão a receber
subsidio de desemprego).
E como se sabe o desemprego é uma das principais causas da pobreza em
Portugal. Segundo o INE 42% dos desempregados estão no limiar da
pobreza. É evidente que face a estes números é urgente uma
profunda reformulação da politica de combate à pobreza
deste governo, já que ela tem-se traduzido mais em
declarações e intenções, do que em medidas
concretas com efeitos reais, a cuja elaboração não se
podem furtar todos os partidos que apoiam este governo.
Se juntarmos a isto a situação dos reformados, a esmagadora
maioria com pensões de miséria, e cujos aumentos têm sido
irrisórios de 0,4% em 2016, e de 0,5% em 2017
(e não todos, os com pensões superiores a 2534 têm as
suas pensões congeladas desde 2010)
. Desta situação apenas se exclui em 2017 os pensionistas com
pensões até 632. Efetivamente, segundo o artº 88º
da Lei do OE-2017 só terão direito ao aumento
extraordinário de 10, que terá lugar apenas em Agosto deste
ano, deduzido do aumento de Janeiro ( os 0,5%), os pensionistas com
pensões de "valor igual ou inferior a 1,5 vezes o Indexante dos
Apoios Sociais". Atualizando o valor com a inflação de 2016
utilizada pelo governo (0,5%), 1,5 IAS corresponde apenas a 632.
Portanto, só os pensionistas da Segurança Social e da CGA com
pensões iguais ou inferiores a 632 é que terão em
Agosto de 2017 um aumento na pensão que, somado com o de janeiro de
2017, será igual a 10. E isto depois de muita pressão dos
partidos de esquerda que apoiam o atual governo.
Como consequências desta compressão nas prestações
sociais, entre 2015 e 2016, a despesa da Segurança Social com o abono de
família, subsidio de desemprego, com o RSI, e com o CSI aumentou apenas
em 379 milhões , quando as receitas das
contribuições crescerem em 733 milhões . E as
despesas com o RSI e CSI, por lei, não são suportadas pelas
contribuições mas sim pelo Orçamento do Estado. Mas esta
é a politica social do atual governo, e é desta forma, à
custa também dos mais pobres, que são conseguidos elevados
excedentes na Segurança Social que têm sido utilizados para
reduzir o défice global que depois o governo apresenta à
Comissão Europeia. É urgente a reformulação da
politica social deste governo de combate à pobreza, pois a que tem sido
seguida, como os dados oficiais claramente provaram, não está a
ter efeitos significativos.
A CONTENÇÃO DA DESPESA NO SNS PARA EFEITOS DE
REDUÇÃO DO DÉFICE, E AS CONSEQUÊNCIAS QUE
ESTÁ A TER
A análise das contas do SNS divulgadas pelo Ministério das
Finanças no "site" da D.G.O. mostra que, em 2016, se verificou
uma forte contenção das despesas, nãos se tendo conseguido
inverter de uma forma significativa o ciclo de dificuldades anterior apesar dos
esforços desenvolvidos. E isto porque a despesa do SNS aumentou apenas
105,5 milhões entre 2015 e 2016
(passou de 9.025,5 milhões para 9.130,8 milhões ),
quando a despesa com Pessoal cresceu em 171,5 milhões
(passou de 3.467,3 milhões e para 3.639 milhões ).
E como se sabe a maior parte deste aumento da despesa com Pessoal resulta da
reposição dos cortes feitos pelos governos de Sócrates e
de Passos Coelho nas remunerações dos profissionais de
saúde, que neste setor tiveram um impacto muito grande devido ao
nível de salários praticados. E durante o ano de 2016 não
se verificaram alterações significativas no funcionamento do SNS
que tenham originado poupanças elevadas devido ao aumento significativo
da eficiência com que são utilizados os recursos existentes, o que
é urgente fazer para garantir a sustentabilidade do SNS e a
prestação de um serviço de qualidade à
população.
22/Fevereiro/2017
[*]
edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|