O investimento afunda-se em Portugal
Em consequência, agrava-se o desemprego e a recessão
económica
Apesar disso 5.867,4 milhões de fundos comunitários
ficaram por utilizar até Dez/2012
Segundo dados sobre a execução do QREN divulgados recentemente no
Boletim
Informativo nº 18 de Janeiro de 2013, a um ano do fim do QREN apenas foi
executado, até 31/12/2012, pouco mais metade. E isso foi deliberadamente
omitido pelo ministro da Economia em declarações eufóricas
sobre a execução do QREN feitas recentemente. Mas antes de
mostrar isso, interessa tornar claro o impacto muito negativo para o
país desta baixa taxa de execução do QREN, já que
tem contribuído também para agravar a recessão
económica e a situação social.
A política recessiva pro-cíclica do governo e da
"troika" está a agravar muito os efeitos da crise
internacional. Portugal entrou numa espiral recessiva que está a
destruir a economia e a sociedade portuguesa, que os próprios dados
oficiais confirmam, e as sucessivas declarações de membros do
governo, desfasadas da realidade, já não conseguem nem esconder
nem enganar os portugueses. Não deixa de ser chocante a forma como
Vítor Gaspar, um homem que parece alucinado com tantas certezas, vem
agora dar o dito por não dito, esquecendo o mal que tem feito e
está a fazer com tantos "enganos" aos portugueses e ao
país. Segundo ele, "
como habitualmente, haverá uma revisão das perspectivas
económicas no 7º exame regular que tem inicio já na
próxima 2ª feira
" (discurso de Vítor Gaspar ma Assembleia da República em
20/2/2012), portanto, a correção dos "enganos" passou a
ser um hábito deste governo. O gráfico 1, construído com
dados do INE, mostra as consequências dos "enganos" do governo
e da"troika".
Gráfico 1
Após Dezembro de 2007, ou seja, após o início da crise
internacional observa-se em Portugal uma tendência de agravamento, mas
depois do inicio de 2011, com o governo PSD/CDS e com a entrada da
"troika", verifica-se uma aceleração clara desse
agravamento nomeadamente a nível do investimento. Associado a isso
regista-se uma quebra no PIB e no consumo das famílias. Mesmo as
exportações, com as quais o governo e "troika", durante
algum tempo, procuraram alimentar o mito da recuperação e iludir
os portugueses sofreu, no último trimestre de 2012, uma
redução impressionante. O PIB (riqueza produzida), no 4º
Trim.2012 foi inferior ao valor do 4ºTrim.2011, em 3,8%; o consumo das
famílias caiu num ano em 6%, o que revela uma degradação
importante nas condições de vida dos portugueses; o crescimento
nas exportações baixou para apenas 1%, mas foi fundamentalmente
no investimento que se verificou uma redução drástica de
(menos) 15% entre o 4ªTrim.2011 e o 4ºTrim.2012. Para o país,
em termos económicos, este período foi um autêntico
desastre com consequências sociais dramáticas, que a
explosão do desemprego e a generalização da miséria
confirmam e são as faces mais visíveis. A quebra que se
está a verificar no investimento em Portugal é preocupante
não só porque tem consequências imediatas dramáticas
(sem investimento não se criam empregos nem se consegue reduzir o
desemprego), mas também porque põe em causa a
recuperação futura da economia portuguesa e o desenvolvimento do
país, e o aumento do bem- estar dos portugueses, na medida em que o
aparelho produtivo nacional está a ser destruído e, o que
não está a ser, está a envelhecer, não sendo nem
renovado nem modernizado. Apesar do investimento ser vital para o país
neste momento, o certo é que mesmo aquele que podia ser feito porque
existem meios financeiros disponíveis, que são os fundos
comunitários, esse também não está a ser realizado
na totalidade. A prová-lo está o facto de que a
execução do QREN, a um ano de fecho, é apenas de 56,9%,
tendo ficado por utilizar 5.867,4 milhões dos fundos da U.E.
Quadro 1 Fundos comunitários disponíveis até
31/12/2012 e fundos utilizados até 31/12/2012
|
PROGRAMAS OPERACIONAIS
|
FUNDOS COMUNITÁRIOS ORÇAMENTADOS PARA O PERIODO 2007 A 2013
(Período total de execução do QREN)
|
FUNDOS COMUNITÁRIOS ORÇAMENTADOS PARA O PERIODO 1/1/2007
ATÉ 31/12/2012
(Fundos Comunitários que podiam ter sido utilizados até
31/12/2012)
|
FUNDOS COMUNITÁRIOS UTILIZADOS NO PERIODO DE 1/1/2007 ATÉ
31/12/2012
(Despesa validada até 31/12/2012)
|
FUNDOS COMUNITÁRIOS ORÇAMENTADOS ATÉ 31/12/2012 QUE
NÃO FORAM UTILIZADOS
|
Fundos Comunitários utilizados até 31/12/2012 em % do
orçamentado para o período 2007-2013
|
|
Milhões euros
|
Milhões euros
|
Milhões euros
|
Em % do orçamen-tado até 31/12/2012
|
Milhões euros
|
|
POT Factores Competitividade
(FEDER+FC)
|
3.103,8
|
2.633,6
|
1.609,7
|
61,1%
|
1.024,0
|
51,9%
|
|
POT Potencial Humano
(FSE)
|
6.453,0
|
5.202,8
|
4.117,0
|
79,1%
|
1.085,8
|
63,8%
|
|
POT Valorização Território
(FEDER+FC)
|
4.342,5
|
3.758,4
|
2.421,9
|
64,4%
|
1.336,5
|
55,8%
|
|
POR Norte
(FEDER)
|
2.711,6
|
2.301,2
|
1.393,1
|
60,5%
|
908,1
|
51,4%
|
|
POR Centro
(FEDER)
|
1.701,6
|
1.443,9
|
957,4
|
66,3%
|
486,5
|
56,3%
|
|
POR Alentejo
(FEDER)
|
868,9
|
737,3
|
359,5
|
48,8%
|
377,8
|
41,4%
|
|
POR´s Açores
(FEDER+FSE+DE)
|
1.156,3
|
981,2
|
763,7
|
77,8%
|
217,5
|
66,0%
|
|
PO Assistência Técnica
|
146,1
|
141,6
|
73,2
|
51,7%
|
68,3
|
50,1%
|
|
QREN -Total -Convergência
|
20.483,8
|
17.199,9
|
11.695,4
|
68,0%
|
5.504,5
|
57,1%
|
|
POR Lisboa
|
306,7
|
260,2
|
162,7
|
62,5%
|
97,5
|
53,1%
|
|
POR Algarve
|
175,0
|
169,0
|
67,2
|
39,8%
|
101,8
|
38,4%
|
|
PO´s Madeira
(FEDER+FSE)
|
445,9
|
429,3
|
265,7
|
61,9%
|
163,6
|
59,6%
|
|
QREN-TOTAL
|
21.411,4
|
18.058,4
|
12.191,1
|
67,5%
|
5.867,4
|
56,9%
|
Fonte: QREN, Boletim Informativo nº 18; Programação
Financeira de cada um dos programas operacionais
Para o período 2007/2013 Portugal tinha 21.411,4 milhões
de fundos comunitários, e até ao fim de 2012 só utilizou
12.191,1 milhões , ou seja, somente 56,9%. Se a análise for
feita com base no orçamentado pela União Europeia para o
período 2007/2012, ou seja, o que Portugal podia ter utilizado
até ao fim de 2012, que eram 18.191,1 milhões de fundos
comunitários, o nosso país só utilizou 12.191,1
milhões , ficando por utilizar 5.867,4 milhões , como
mostra o quadro 1. E isto quando o pais está já mergulhado numa
recessão profunda, e quando é necessário mais do que
nunca, para o fazer sair dessa situação, investimento e gasto
público.
Se a análise for feita por programa operacional, como os dados do quadro
1 permitem, conclui-se que aqueles programas que estão mais orientados
para o apoio, a modernização e o aumento da competitividade das
empresas, assim como aqueles que têm como objetivo o desenvolvimento
regional e o combate à desertificação, são
precisamente aqueles que apresentam taxas de execução mais
baixas. Por ex., o COMPETE (Fatores de Competitividade), cujo objetivo é
apoiar a modernização e competitividade das empresas, apresenta
ao fim de seis anos uma taxa de execução de apenas 51,9%, tendo
ficado por utilizar, até 31/12/2012, precisamente 1.024 milhões
; a nível dos programas que têm como objetivo o
desenvolvimento regional e o combate à desertificação
(POVT, e todos os programas operacionais regionais: Norte, Centro, Alentejo,
Algarve, Madeira e Açores), a taxa de execução, até
31/12/2012, foi apenas de 54,6%, tendo ficado por utilizar, até ao fim
de 2012 como consta de quadro, 3.591,8 milhões .
Como os sucessivos governo foram incapazes de utilizar dentro do período
programado 2007/2013 a totalidade dos fundos comunitários
atribuídos, será concedido pela UE mais dois anos para o nosso
país utilizar o que foi incapaz de o fazer nos já seis anos do
QREN. Mas como é evidente tal atraso tem um preço elevado para o
país e para os portugueses. São investimentos que podiam ter sido
feitos até 2012 que não foram; eram postos de trabalho que podiam
ter sido criados que o não o foram; e foi poder de compra que se perdeu
pelo facto dos fundos comunitários poderem ser utilizados mais cedo mas
que não foram. Portanto, apesar do aumento da execução
verificada em 2012 (passou de 8.347 milhões para 12.191
milhões ) os problemas a nível de execução
do QREN mantêm-se. E vai-se ter de prolongar o período de
aplicação do QREN por mais dois anos para que se possa utilizar a
totalidade dos fundos comunitários. É esta a verdade omitida pelo
ministro.
22/Fevereiro/2013
[*]
edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
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