O orçamento de austeridade de 2021
Aumenta os impostos em 2839 milhões
Congela pensões superiores a 659
Aumenta as pensões de valor inferior apenas entre 2,6 e
4,2 por mês se considerar o ano, mas que só é pago a
partir de 1/8/2021
Congela novamente os salários dos trabalhadores da
Função Pública
Reduz a despesa com a educação
Não reforça as transferências do OE para o SNS
Investimento público insuficiente para reanimar a economia
pois é pouco superior ao consumo de capital fixo
Um comportamento que desacredita os governos a nível da opinião
pública é quando negam ou procuram esconder a realidade, ou
então quando dizem uma coisa e fazem outra, ou prometem e
sistematicamente não cumprem. Falar sempre verdade aos portugueses, por
mais dura que ela seja, devia ser um princípio sagrado para todos os
governos. Tudo isto vem a propósito do Orçamento do Estado para
2021, em relação ao qual
o governo não se cansa de repetir que não é um
orçamento de austeridade, quando na verdade é de austeridade
até porque os meios que o Estado dispõe são limitados, a
não ser que não se esteja dominado pela obsessão do
défice e se aumente a divida pública, que se corrija as graves
injustiças fiscais que beneficiam os grandes grupos económicos
nacionais e estrangeiros e que se combata com eficácia o enriquecimento
ilícito.
Mas é em demasia. Para concluir que é austeridade a mais basta
analisar o OE-2021 com objetividade e verdade.
É o que vamos fazer neste estudo utilizando os dados do próprio
governo no Relatório do OE-2021
EM 2021, UM ANO EM QUE CONTINUA A CRISE, OS IMPOSTOS AUMENTARÃO 2.839
MILHÕES
O quadro 1, com os dados dos relatórios oficiais que acompanham a lei
do O.E. mostra o aumento de impostos entre 2011 e 2021 repartido pelos governos
que se sucederam neste período de tempo.
Entre 2020 e 2021
(e 2021 é um ano que continuará a ser de grave crise),
o governo prevê que as receitas de impostos aumentem em 6,9%, ou seja,
mais 2.839 milhões do que em 2020. Um aumento superior à
previsão governamental do aumento do PIB (+5,4%) e muito superior ao
aumento dos rendimentos dos trabalhadores em 2021, como iremos mostrar. Os
dados do quadro também revelam que o aumento dos impostos durante os 4
anos de governo do PSD/CDS (+ 4.820 milhões ) foi praticamente
igual ao verificado em 6 anos de governo do PS ( + 4.866 milhões
). Estes aumentos significativos dos impostos estão associados ao
aumento das desigualdades que era urgente corrigir mas que o governo nada faz.
A provar isso, está o facto de que as receitas de impostos indiretos,
que são mais injustos porque não têm em conta o rendimento
dos contribuintes, representarem 56,6% das receitas totais de impostos,
enquanto as receitas de impostos diretos, que são mais justos porque
atendem ao volume de rendimento de cada contribuinte, representarem apenas
43,4% das receitas totais. E esta situação agravou-se com o
governo do PS (quadro 1).
CONGELAMENTO DAS PENSÕES SUPERIORES A 659 EM 2021, E AUMENTOS
MÉDIOS POR MÊS ENTRE 2,60 (0,09/dia) E 4,20
(0,14/dia) DAS PENSÕES MAIS BAIXAS
Segundo o nº 1 e 2 do artº 59º da proposta de lei do OE-2021 as
pensões terão uma "
atualização extraordinária de 10,00 por
pensionista, cujo montante global de pensões seja igual ou inferior a
1,5 vezes o valor do indexante dos apoios sociais (IAS), ou 6,00 aos
pensionistas que recebam, pelo menos, uma pensão cujo montante fixado
tenha sido atualizado no período entre 2011 e 2015
(os dois escalões mais baixos das pensões mínimas)
a partir de 1 de agosto de 2021
". Em 2021, só os reformados e aposentados com pensões
inferiores a 659 é que terão aumentos de 6 ou
10/mês
(todos os outros reformados e aposentados terão mais uma vez as suas
pensões congeladas)
, mas só a partir de 1 de agosto, o que significa que só os
receberão, em 2021, a mais 36 ou 60 (6 meses). Dividindo
estes valores (36 e 60) por 14 meses, para se obter um valor
médio mensal para o ano de 2021, obtém-se uma subida média
entre 2,6 e 4,2 por mês para os 14 meses de 2021, o que
significa, respetivamente, um aumento médio de 0,09 e 0,14
por dia. Dizer que congelar as pensões superiores a 659, e
aumentar as outras pensões entre 0,09 e 0,14 por dia
não é austeridade, é certamente não falar verdade.
É austeridade e a mais para quem recebe tão pouco.
O CONGELAMENTO DOS SALÁRIOS DOS TRABALHADORES DA FUNÇÃO
PÚBLICA EM 2021, A REDUÇÃO DA DESPESA COM PESSOAL NO
ENSINO BÁSICO E SECUNDÁRIO E O CONGELAMENTO DAS TRANSFERNCIAS DO
OE PARA O SNS
O quadro 2 mostra o que tem acontecido em toda a administração
pública
(central, local e regional)
que é diferente do que sucede nos outros setores do país, o que
confirma um tratamento desigual.
No período 2010/2021, os trabalhadores das administrações
públicas para além de sofrerem o que tiveram de suportar os
outros trabalhadores portugueses
(aumento enorme de impostos, inflação, neste período os
preços aumentaram 11,7%)
viram as suas remunerações base congeladas durante 12 anos
(excetua-se o aumento de miséria de 0,03% em 2020)
O quadro seguinte retirado do Relatório do Orçamento do Estado
para 2021 mostra de uma forma clara o reduzido investimento que nas
Administrações Públicas se pretende fazer em
trabalhadores para fazer face às necessidades, que já eram
enormes antes da pandemia, geradas pela grave crise económica e social
que o país enfrenta causada pelo "COVID 19".
Os dados do quadro mostram a diferença entre aquilo que é dito e
prometido aos portugueses e depois o que é feito. Analise-se o aumento
dos pagamentos das despesas com pessoal 2019/21.
Em 2019, o
aumento dos pagamentos
de despesas com pessoal foi de 4,7%; em 2020, em plena pandemia, a subida
diminuiu para 3,7% e, em 2021, com ameaça de uma nova onda muito maior
da pandemia que poderá causar a rutura dos serviços
públicos, nomeadamente saúde e educação, o aumento,
relativamente a 2020, é apenas de 1,8%, muito inferior ao previsto com a
"aquisição de serviços a privados"
(+3,4%) e com a despesa total das Administrações Públicas
(+3,9%). E tenha-se presente que as "despesas com pessoal" não
incluem apenas as "remunerações base", pois nesta
rúbrica são também registadas todas as
"remunerações variáveis" como também as
contribuições dos serviços públicos para a CGA e
para a Segurança Social.
O argumento do governo de que não faz aumentos gerais das
remunerações, mas existem as progressões nas carreiras que
aumentam as remunerações não colhe.
E isto porque são coisas diferentes. Em primeiro lugar, porque os
aumento gerais das remunerações de todos os trabalhadores
são para fazer face à degradação das
condições de vida causada pela inflação, enquanto
as progressões nas carreiras têm como base a
avaliação (SIADAP) e não se verificam todos os anos pois
para passar para um nível mais elevado é necessários que o
trabalhador acumule 10 pontos, o que exige 4 ou mais anos. Em segundo lugar, as
progressões nas carreiras agravam as desigualdades de
remunerações entre os trabalhadores pois o ritmo de passagem
varia de trabalhador para trabalhador
Se fizermos uma análise mais fina, concluímos que o aumento
previsto em 2021 nas "despesas com pessoal" no setor público
de saúde é apenas de 2,5%
(entre 2020 e 2021, aumentam de 4.822,1 M para 4942,2M, ou seja,
apenas em 120,1 milhões )
. E o quadro 3 retirado do Relatório do Orçamento do Estado para
2021 (pág. 262) mostra o que de falacioso tem a promessa do governo de
reforçar o SNS em 2021 pois as transferências do OE para o SNS
não aumentam em 2021. Para além disso, o Orçamento para
2021 prevê até uma diminuição das despesas com
pessoal no Ensino Básico, Secundário e
Administração Escolar de -0,1% pois passarão, entre 2020 e
2021, de 5141 milhões para 5.137,7 milhões
(Quadro 4.10 , pág. 88 do Relatório do Orçamento do Estado
para 2021),
quando é tão necessário investir na
educação.
Tudo isto é também austeridade a mais.
Em 2020, a despesa do SNS financiada com receitas de impostos atingirá
10.311,2 milhões e, em 2021, será de 10.315,2
milhões
(pág. 262 do Relatório OE-2021),
ou seja, apenas mais 4 milhões . É este o grande
reforço do SNS tão "badalado" pelo atual governo.
Será que a esquerda que defende o SNS ficará passiva perante tudo
isto, pois
é austeridade a mais e perigosa pois verifica-se na saúde.
O REDUZIDO E INSUFICIENTE INVESTIMENTO PUBLICO PARA PROMOVER A
REANIMAÇÃO DA ECONOMIA E A CRIAÇÃO DE EMPREGO PARA
SUBSTITUIR O QUE FOI JÁ DESTRUÍDO
O governo não se cansa de falar no aumento significativo do investimento
público no Orçamento do Estado para 2021. Analise-se com
atenção este ponto já que o investimento publico é
essencial para a recuperação da economia e do emprego, pois muito
investimento privado foi paralisado
(caiu 10,8% no 2º Trim.2021)
devido a insegurança no futuro
(o consumo das famílias caiu 15% no 2º Trim.2021)
e à falta de liquidez das empresas. Para podermos analisar de uma forma
objetiva esta matéria tão importante reunimos no quadro 5 dados
do INE e do O.E. referentes ao investimento público no nosso
país.
Nos últimos anos o investimento realizado pelas
Administrações Públicas
(Central, Local e Regional)
tem sido sempre inferior ao Consumo de Capital Fixo Público, ou seja,
aquilo que se degrada ou destrói pelo uso e pela obsolescência.
Daí a razão da degradação em que se encontram
muitos equipamentos e serviços públicos
(escolas, hospitais, transportes, etc.).
Em 2020, segundo dados da Conta das Administrações Publicas
(contabilidade nacional)
estima-se que o investimento público será inferior ao consumo de
capital fixo publico em 507 milhões , ou seja, insuficiente para
compensar o que "desapareceu". Em 2021, se o investimento
público previsto no Orçamento do Estado for efetivamente todo
realizado
(e na maioria dos anos isso nunca aconteceu devido a atrasos e
cativações),
mesmo assim o saldo positivo será apenas de 628 milhões ,
um valor insuficiente para reanimar a economia e criar emprego. É
necessário que a Assembleia da República não deixe passar
esta situação sem a ver com a desculpa da "bazuca de
Bruxelas" que vem aí mas que não se sabe quando
chegará.
A austeridade a mais aqui pode lançar o país numa crise mais
profunda.
O APOIO EXTRAORDINÁRIO AOS TRABALHADORES QUE PERDERAM OS SEUS
RENDIMENTOS, UMA MEDIDA POSITIVA MAS INSUFICIENTE
Em estudos anteriores tínhamos chamado a atenção para a
necessidade urgente de criar um apoio extraordinário para aqueles
trabalhadores que perderam o emprego e ficaram sem qualquer rendimento por
não terem direito ao subsídio de desemprego. E eram muitos, pois
apenas 34 em cada 100 desempregados é que estavam a receber
subsídio. O desemprego é uma causa importante da miséria
em Portugal. Antes da pandemia, 44% dos desempregados viviam no limiar da
pobreza. Com a crise económica grave causada pelo COVID 19 o desemprego
aumentou significativamente e a miséria está-se a alastrar
rapidamente por todo o país. A proposta de Lei OE-2021 prevê, e
bem, a criação de um apoio extraordinário mais ainda
insuficiente no seu âmbito como vamos mostrar.
Segundo o nº1 do artº 112 da proposta de Lei do OE-2021 "
É criado o
Apoio Extraordinário ao Rendimento dos Trabalhadores,
com o objetivo de assegurar a continuidade dos rendimentos das pessoas em
situação de particular desproteção económica
causada pela pandemia da doença COVID 19".
E os números seguintes do mesmo artigo dispõem que
"São abrangidos pelo apoio os trabalhadores que, a partir de 1 de
janeiro de 2021, se enquadrem nas seguintes situações:
a) Os trabalhadores por conta de outrem, incluindo os trabalhadores do
serviço doméstico, e os trabalhadores independentes, cuja
prestação de proteção no desemprego
termine após a data de entrada em vigor da presente lei;
b) Os trabalhadores por conta de outrem, incluindo os trabalhadores do
serviço doméstico e os trabalhadores independentes economicamente
dependentes que, por razões que não lhes sejam imputáveis,
ficaram em situação de desemprego, sem acesso à respetiva
prestação, e que tenham, pelo menos, três meses de
contribuições nos 12 meses imediatamente anteriores à
situação de desemprego;
c) Os trabalhadores independentes e os trabalhadores do serviço
doméstico com regime diário ou horário que tenham, pelo
menos, três meses de contribuições nos 12 meses
imediatamente anteriores ao requerimento do apoio e que apresentem uma quebra
do rendimento relevante médio mensal superior a 40 % no período
de março a dezembro de 2020 face ao rendimento relevante médio
mensal de 2019 e, cumulativamente, entre a última
declaração trimestral disponível à data do
requerimento do apoio e o rendimento relevante médio mensal de
2019".
E o nº3 do mesmo artigo dispõe que
"O apoio para os trabalhadores por conta de outrem, incluindo os
trabalhadores do serviço doméstico, consiste numa
prestação de caráter diferencial, entre o valor de
referência mensal 501,16 e o rendimento médio mensal por
adulto equivalente do agregado familiar, não podendo o valor do apoio
ser superior ao rendimento líquido da remuneração de
referência que o trabalhador auferia, atribuída mediante
condição de recursos".
Portanto, é garantido ao trabalhador que perdeu o direito ao
subsídio de desemprego após a entrada em vigor desta lei,
mas não aos que o perderam antes
, um rendimento de 501,16/mês que, na prática, corresponde
ao subsídio médio de desemprego.
Segundo o Relatório do OE-2021 (pág. 33), esta medida
abrangerá 170.000 trabalhadores e custará entre 400 a 450
milhões . Em agosto de 2020, o desemprego efetivo
(o real, e não o oficial )
atingia 658.200 trabalhadores segundo dados do INE, que incluía o
desemprego oficial e os inativos disponíveis, mas os desempregados que
estavam a receber subsídio de desemprego eram apenas 224.570 de acordo
com dados da Segurança Social. Portanto, 433.600 não recebiam
subsídio de desemprego. Por esta razão, o número referido
de 170.000 é claramente insuficiente.
Era importante que a Assembleia da República alterasse o âmbito
deste apoio extraordinário para evitar que a miséria aumente
ainda mais no país.
17/Outubro/2020
[*]
edr2@netcabo.pt
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