A pesada herança deixada por Tomás Correia no Montepio
Destruição demorará muito tempo a recuperar
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O primeiro episódio refere-se à realização da festa de Natal do Montepio no Altice Arena , um espaço caro e, segundo o jornal Observador, "a festa vai ser de arromba e não se poupa despesas". "A refeição será servida pela Casa do Marquês , a cozinha oficial do Protocolo de Estado, e o custo por pessoa será de 235 euros" que foi naturalmente paga pelos associados do Montepio. Embora a maioria dos trabalhadores do grupo Montepio se tenham recusado a participar na dita festança, ela foi ofensiva para com os associados e mais ainda numa altura em que as empresas do grupo Montepio enfrentam sérias dificuldades (acumularam enormes prejuízos, não têm rentabilidade suficiente para transferir excedentes para a AMMG e esta poder distribuir benefícios aos associados nem para recuperar as poupanças que foram delapidadas pela gestão de Tomás Correia). Apesar da reduzida participação, o grupo Montepio despendeu cerca de 400.000 com a "festança", como informa o jornal. O segundo episódio, também caraterizador da cultura de desprezo pelos associados, é a marcação da assembleia geral de associados precisamente para 30 de Dezembro de 2019, pelas 21 horas, na Rua Áurea, 219-241, em Lisboa, para debater o "Programa e o Orçamento para 2020", um dia em que os associados do Montepio estão naturalmente a preparar a passagem do ano ou em deslocação para estarem com os seus familiares, portanto um dia não apropriado para a realização de uma assembleia, a não ser que o objetivo deliberado seja dificultar a participação dos associados (certamente foi esse o objetivo). Para os associados que tenham a possibilidade de participar nessa assembleia a convocatória e o Programa e Orçamento estão disponíveis em https://www.montepio.org/institucional/informacao-legal/ . |
O AGRAVAMENTO DA SITUAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO MUTUALISTA
MONTEPIO GERAL: a diminuição de associados, a
redução da liquidez imediata, uma margem associativa que
não garante o reembolso das poupanças dos associados, uma
Situação Líquida real negativa
O quadro 1, com os dados mais importantes dos Relatórios e contas
individuais e dos Programas de Ação e Orçamento da
Associação Mutualista permite tirar algumas conclusões
importantes sobre a evolução da situação real da
Associação Mutualista no período 2016/2019 e conhecer a
sua situação atual, ou seja, a herança deixada pela
administração ruinosa de Tomás Correia.
A primeira conclusão que se tira dos dados do período 2016/2019
é diminuição dos associados em todos os anos. Em 2016 eram
632.447 e, em 2019, tinham-se reduzido para 604.500.
A segunda conclusão importante que se tira é que existe uma
grande diferença entre as previsões fantasiosas da
administração de Tomás Correia, constantes do
Orçamento que apresenta todos os anos e o que depois é realizado.
Para concluir isso basta analisar os dados que estão nas colunas a
laranjas, onde constam as diferenças entre o previsto (Orçamento)
e o realizado (o constante das Contas finais ou das estimativas feitas no fim
de cada ano). Uma dúvida legítima que se coloca é em
relação ao Orçamento para 2020. Acontecerá o mesmo?
Mas os dados do quadro 1 levantam outras questões que são ainda
mais preocupantes. Em primeiro lugar, que as saídas de poupanças
da Associação Mutualista tem sido superiores às entradas.
Esse facto é revelado pela Margem Associativa negativa (em 2016, -122,4
milhões ; em 2017: - 373,9 milhões ; em 2018 :-191,2
milhões , o soma que as saídas de dinheiro foram superiores
às entradas em 687,5 milhões ) . A pequena Margem
associativa positiva de 43,3 milhões em 2019, que tem ainda de
ser confirmada quando forem publicadas as Contas de 2019, não compensa o
ritmo de saídas de poupanças verificado neste período,
naturalmente devido à falta de confiança que a
administração de Tomás Correia inspirava. E a
previsão constante do Orçamento para 2020 (+60,6 milhões
) revela por quem fez tal previsão falta de confiança no
futuro, até porque existe, como os dados do quadro revelam, uma
diferença grande entre o que se prevê e o que se realiza para
muito menos. Devido aos maus investimentos que a administração de
Tomás Correia fez, investimentos de elevado risco porque concentrado
fundamentalmente em duas empresas Caixa Económica e
Lusitânia SA e devido aos enormes prejuízos acumulados e
à falta de rentabilidade destas empresas, a Associação
Mutualista só se aguentará enquanto as entradas de dinheiro forem
superiores às saídas, à semelhança de uma
"pirâmide de PONZI".
Outro aspeto preocupante, que está também associada a referida
anteriormente, é a quebra brutal da "Liquidez imediata"
(soma dos "Depósitos em bancos" e dos "investimentos
financeiros", nomeadamente obrigações que podem ser
facilmente resgatadas e transformadas em dinheiro
) da Associação Mutualista para acudir a dificuldades de
tesouraria. Foi o que ocorreu em 2018, quando Tomás Coreia desencadeou
uma campanha nos media contra Félix Morgado, o que causou forte
turbulência no grupo Montepio, e levou muitos associados a levantarem as
suas poupanças por sentirem insegurança. E a
"Liquidez imediata" diminuiu entre 2016 e 2019, como revelam os dados
do quadro 1, de 1.510 milhões para apenas 541 milhões
, ou seja, reduziu-se para um terço (-64,2%) em apenas 3 anos
. Basta qualquer turbulência na Associação Mutualista ou
qualquer insegurança que se alastre para Associação
Mutualista enfrentar problemas de liquidez, até porque a Caixa
Económica está limitada pelo supervisor no apoio que pode dar
à Associação Mutualista. E será muito
difícil, a não ser que seja a saldo, vender as empresas em que as
poupanças dos associados estão aplicadas (BM, Lusitânia
SA).
Finalmente, um outro aspeto preocupante é que, em 2019, o ATIVO da
Associação Mutualista, ou seja, aquilo que ela possui ou tem a
receber, era já inferior ao seu PASSIVO, ou seja, aquilo que ela deve ou
tem de pagar. Como mostram os dados do quadro 1, se se deduzir ao valor do
ATIVO os chamados "Ativos por impostos diferidos", que não
são verdadeiramente ativos, pois com eles não se pode pagar
qualquer divida
(por ex. não se pode reembolsar as poupanças aos associados),
conclui-se que,
em 2019, o ATIVO da Associação Mutualista sem "Ativos por
impostos diferidos", era inferior ao seu PASSIVO em 73 milhões
. Se fosse uma empresas diríamos que ela estava tecnicamente
falida.
É esta a pesada herança deixada pela administração
de Tomás Correia que ele tem procurado esconder, com mentiras e
realizando "festanças" com dinheiro dos associados, mas que a
realidade fria e objetiva dos números divulgados pela
Associação Mutualista revelam. E é preciso que se diga com
clareza, até para que não existam ilusões: a
recuperação da enorme destruição levada a cabo pela
gestão de Tomás Correia durante vários anos vai ser
difícil e demorada. Só quem ainda acredita em milagres é
que pode acreditar o contrário. É por isso que defendo que seja
constituída uma lista de unidade alargada de todos aqueles que
estão interessados em salvar o Montepio, o que não será
possível por uma administração de continuidade.
A CAIXA ECONÓMICA, AGORA BANCO MONTEPIO, CONTINUA A NÃO REVELAR
SINAIS DE RECUPERAÇÃO E NA NUMEROSA ADMINISTRAÇÃO
NÃO HÁ QUEM POSSA IMPULSIONAR A REDE
O Banco Montepio, é o principal ativo da Associação
Mutualista, onde estão investidos mais de 1.800 milhões de
poupanças dos associados, e portanto o principal garante dessas
poupanças. E continua a não dar sinais de
recuperação, como mostram as contas de Set/2019:
Comecemos por analisar a
evolução da Margem financeira
, que resulta fundamente da atividade "core" de qualquer banco de
retalho que é a concessão de crédito. E a conclusão
que se tira, é que a Margem Financeira obtida nos primeiros 9 meses de
2019 (180 milhões ) foi inferior à obtida nos primeiros 9
meses de 2018 (189 milhões ), o que revela naturalmente a
incapacidade do banco, da sua administração e da rede comercial
para aumentar a carteira de crédito, o que é muito grave. A
confirmar esta incapacidade está a estagnação das
Comissões líquidas
(87 milhões em 2018 e 2019).
Infelizmente uma parte importante são ainda as cobradas aos depositantes.
Outro aspeto importante são os
Resultados das Operações Financeiras (ROF´s):
47 milhões nos primeiros 9 meses de 2019 quando se tinha obtido
apenas 6 milhões em igual período de 2018. Se analisarmos
este valor 47 milhões - conjuntamente com os resultados
líquidos obtidos até Set.2019 que foram de apenas 17,7
milhões , quando em igual período de 2018 tinham sido 22,4
milhões , é fácil de concluir que
o Resultado liquido de 17,7 milhões em 2019 só foram
possíveis com as mais-valias obtidas com a venda de títulos da
divida portuguesa. Se não tivesse acontecido isso, o Banco Montepio
teria certamente registado prejuízos no 3º Trim.2019.
No entanto isto tem o inconveniente de mais-valias não serem
necessariamente repetíveis e não fazem parte da atividade
"core" do Banco Montepio.
De positivo, revelado pelos dados do quadro 2, interessa referir a
diminuição do
"Cost-to-income"
que, entre 2018 e 2019, diminui de 68% para 58,8% e o
elevado rácio de liquidez (LCR): 183,3%.
Um elevado rácio liquidez 183,3% - portanto um valor muito
superior ao exigido pelo Banco de Portugal (exige apenas 100%) tem ao mesmo
tempo um lado positivo mas também um lado negativo. O lado positivo
é de dar segurança e revelar confiança dos clientes; o
lado negativo é liquidez que não é aproveitada devido
à fraca concessão crédito. Para além disso, aquela
elevada liquidez não gera receitas, e os depósitos geram custos,
mesmo que sejam reduzidos.
Os
rácios de Capital CET 1 e Tier 1
registaram uma melhoria embora diminuta. O Rácio de Capital total
aumentou 1,8 pontos percentuais. O certo é que apesar destas
alterações, os valores dos rácios de capital continuam
muito próximos dos mínimos exigidos pelo supervisor e qualquer
alteração verificada nos pressupostos traduzir-se-á em
necessidades de aumentar o Capital do Banco Montepio. E a
Associação Mutualista já não possui capacidade para
o fazer. Esta situação é muito provável que
aconteça por isso é importante começar a pensar nela.
Analisemos agora o Balanço do Banco Montepio para completar a
análise que foi realizada
Um aspeto preocupante revelado pelos dados do quadro 3, são as enormes
aplicações em títulos: 3.256 milhões , ou
seja, 17,4% do Ativo líquido. Tal facto, para além de não
fazer parte da atividade normal de um banco de retalho, tem ainda o
inconveniente de incorporar no Banco Montepio o risco de taxa de juro, portanto
qualquer alteração nesta poderá ter um impacto
dramático na estabilidade da Caixa Económica, embora tenha a
vantagem de diminuir os RWA, contribuindo assim para o aumento indireto dos
rácios de capital sem ter de aumentar o capital.
O aspeto mais preocupante revelado pelo Balanço é a
continuação da queda do crédito bruto e do crédito
ilíquido.
Em apenas 9 meses, verificou-se uma redução de 500
milhões no crédito bruto, e de 577 milhões
no crédito líquido, a adicionar à perda de 1.000
milhões registada durante o ano de 2018. Uma análise mais
fina revela que o Banco Montepio nem consegue compensar o crédito que
é liquidado mais o crédito que é amortizado.
Se retirarmos aos 500 milhões , a carteira vendida (268M) e
os
writte-offs (108M ),
ainda sobram 124 milhões . Esta incapacidade já revelada
pela atual administração para inverter a queda continuado do
crédito é extremamente preocupante pois o Banco Montepio
não tem possibilidades de sobreviver sem aumentar o negócio
bancário.
É inaceitável que na constituição da atual
administração, que é excessivamente numerosa para um banco
com a dimensão que tem o do Montepio, poucos membros tenham
experiência de banca de retalho, e mesmo aqueles que têm é
reduzida ou longínqua, e nenhum tenha de rede comercial o que
está ter consequências graves na recuperação do
banco. É evidente que a sua constituição não foram
tidos em conta os interesses do Montepio nem dos associados. Mais uma
herança deixada por Tomás Correia que a futura
administração da Associação Mutualista terá
de resolver.
É importante ainda referir que no período 2011/Set.2019, o total
de crédito abatido ao ATIVO (writte-offs) por se terem considerados
totalmente perdidos atingiu 1.812,5 milhões , o que obrigou a
Associação Mutualista a fazer sucessivas
recapitalizações da Caixa com as poupanças dos associados.
Não se teve de recorrer à ajuda do Estado como aconteceu com os
outros bancos gabava-se TC, mas teve-se de utilizar as poupanças dos
associados, delapidando-as
, o que dá bem uma ideia da dimensão destruição de
valor feita pela administração de Tomás Correia.
A nível de
recursos de clientes (depósitos),
os dados do quadro revelam que o valor de Set.2019 (12.574 milhões
) é praticamente igual ao valor de Dez.2018 (12.675 milhões
), no entanto se adicionarmos aos depósitos as
"Responsabilidades representadas por títulos
", que são outra meio de financiamento da banca pelos clientes,
então já se verifica uma redução de 151
milhões entre Dez.2018 e Set.2019.
O
Rácio de transformação,
que dá a quantidade de euros de crédito que o banco concede por
cada 100 euros de depósitos, revela também uma
evolução preocupante. Em 2017, último ano da
administração de Félix Morgado, por cada 100 de
depósitos a Caixa Económica concedia 103,7 de
crédito, em Set.2019 o Banco Montepio por cada 100 de
depósitos concedia apenas 91,8 de crédito. Estes dados
confirmam a incapacidade da atual administração para inverter a
queda continuada do crédito concedido pelo Banco Montepio, sem o qual
não pode sobreviver.
Outra situação que deve merecer uma séria reflexão
pela sua gravidade é a
redução significativa nos Capitais Próprios do Banco
Montepio
que pode obrigar brevemente a mais uma recapitalização. Como
revelam os dados do seu Balanço, entre 2017 e Set.2019, com a atual
administração, os Capitais Próprios do Banco Montepio
passaram de 1.763 milhões para apenas 1.523 milhões
, ou seja, sofreram uma redução de 240 milhões
. Tal evolução é explicada pelo enorme aumento
verificado nas "
Outras reservas e resultados transitados
" que, no mesmo período, passaram de -731 milhões
para -959 milhões , onde são registados os
prejuízos, imparidades, diferenças de câmbio,
reforço do fundo de pensões, etc. que vão diretamente
à conta de Capital não afetando a conta de resultados (
alguns destes valores irão afetar os resultados de anos futuros)
. A descapitalização da Caixa Económica continuou embora
de uma forma menos visível.
A LUSITÂNIA SA
(não vida)
ACUMULOU ENORMES PREJUIZOS E OBRIGOU A RECAPITALIZAÇÕES
A falta de rentabilidade do Banco Montepio, que determina a impossibilidade de
transferir excedentes para a Associação Mutualista, e esta de
obter quaisquer rendimentos pelos mais de 1.800 milhões que
aplicou na Caixa Económica/Banco Montepio está a por em perigo a
sustentabilidade da Associação Mutualista. Mas não
é só o Banco Montepio, que devido à sua falta de
rentabilidade, está a pôr em perigo a Associação
Mutualista. O mesmo acontece com a Lusitânia SA (não vida), cujos
enormes prejuízos acumulados estão a obrigar a sucessivas
recapitalizações (quadro 4).
Até 2018, a Lusitânia SA acumulou 112,69 milhões de
prejuízos e obrigou o grupo Montepio a recapitalizar esta empresa com
141,16 milhões (instrumentos de capital) para que ela pudesse
cumprir os rácios de solvência. Foi a consequência da
má gestão de Fernando Nogueira, amigo de TC, que felizmente foi
afastado pela ASF por falta de idoneidade. Até Outubro de 2019, a
Lusitânia SA apresentou prejuízos de 4,5 milhões ,
apesar disso foi obrigada a absorver a N Seguros
(Expresso Online 16/12/2019)
que acumulou também prejuízos (até Out.2019 já
tinha 2,5 milhões ), o que contribuirá para um maior
desequilíbrio da Lusitânia SA, e para novas
recapitalizações.