A crise não está a atingir todas as empresas
– Lucros líquidos das grandes aumentaram 154,6% em 2010

por Eugénio Rosa [*]

O INE acabou de divulgar uma publicação importante com o título Evolução do Sector Empresarial em Portugal 2004/2010 . E os dados nela constantes revelam que as grandes empresas (com mais de 250 trabalhadores e com um volume de negócios superior a 50 milhões €/ano) estão a obter elevados lucros. Por outras palavras, nem todas as empresas estão a perder com a crise como os patrões e o governo pretendem fazer crer à opinião pública Para concluir isso observe-se o quadro seguinte, construído com dados constantes daquela publicação do INE.

Quadro 1- Lucros das empresas não financeiras segundo a sua dimensão – Período 2006/2010
RUBRICA / ANOS
2006
2007
2008
2009
2010
Variação em %
2006-10
2009-10
LUCROS LÍQUIDOS ANUAIS DAS EMPRESAS NÃO FINANCEIRAS SEGUNDO DIMENSÃO- Mil €
TOTAL 15 058 852 15 235 377 10 455 527 11 310 821 20 082 675 33,4% 77,6%
PME 8 386 437 9 156 957 6 153 914 6 506 737 7 853 275 -6,4% 20,7%
Micro 6 084 588 6 408 630 5 241 567 4 894 997 5 326 376 -12,5% 8,8%
Pequenas 1 103 254 1 264 750 520 444 727 854 858 147 -22,2% 17,9%
Médias 1 198 595 1 483 577 391 904 883 887 1 668 752 39,2% 88,8%
Grandes 6 672 415 6 078 419 4 301 613 4 804 084 12 229 400 83,3% 154,6%
NÚMERO DE EMPRESAS NÃO FINANCEIRAS SEGUNDO A SUA DIMENSÃO
TOTAL 1 143 648 1 206 116 1 235 093 1 198 781 1 144 150 0,0% -4,6%
PME 1 142 602 1 205 002 1 233 970 1 197 719 1 143 068 0,0% -4,6%
Micro 1 091 014 1 152 310 1 181 213 1 147 386 1 094 125 0,3% -4,6%
Pequenas 45 147 46 020 46 030 43 882 42 662 -5,5% -2,8%
Médias 6 441 6 672 6 727 6 451 6 281 -2,5% -2,6%
Grandes 1 046 1 114 1 123 1 062 1 082 3,4% 1,9%
LUCRO MÉDIO POR EMPRESA NÃO FINANCEIRAS SEGUNDO A SUA DIMENSÃO- Mil €
TOTAL 13,2 12,6 8,5 9,4 17,6 33,3% 86,0%
PME 7,3 7,6 5,0 5,4 6,9 -6,4% 26,5%
Micro 5,6 5,6 4,4 4,3 4,9 -12,7% 14,1%
Pequenas 24,4 27,5 11,3 16,6 20,1 -17,7% 21,3%
Médias 186,1 222,4 58,3 137,0 265,7 42,8% 93,9%
Grandes 6.379,0 5.456,4 3.830,5 4.523,6 11.302,6 77,2% 149,9%
Fonte: INE, Evolução do Sector Empresarial em Portugal - 2004/2010, Edição 2012

Comecemos por analisar a variação dos lucros totais das empresas não financeiras segundo a sua dimensão (as PME subdividem-se em Micro, Pequenas e Médias empresas) no período 2006/2010, ou seja, os lucros de todas as empresas antes da crise (2006) e depois da crise (2007/2010). E a conclusão que se tira é a seguinte: Entre 2006 e 2010, os lucros totais líquidos das empresas não financeiras aumentaram em 33,4%, pois passaram de 15.058,8 milhões € para 20.082,6 milhões €. No entanto, o aumento não foi igual para todas as empresas, pois as micro e pequenas empresas até registaram diminuição. Segundo o INE, entre 2006/2010, os lucros das grandes empresas (1082 empresas em 2010) aumentaram em +83,3%; os lucros líquidos obtidos pelas médias empresas (6.281 empresas) subiram em 39,2%, mas os lucros das pequenas empresas (42.662 empresas) diminuíram em -22,2%, e os lucros das micro empresas (1.094.215 empresas) reduziram-se em -12,5%. Se a analise se restringir ao período 2009/2010, a desigualdade das situações é ainda maior. E isto porque em 2010 os lucros líquidos das grandes empresas aumentaram em 154,6%; os das médias empresas subiram em 88,8%; mas os das pequenas empresas cresceram em 17,9%, e os lucros das micro empresas tiveram um aumento de apenas 8,8%

E não se pense que esta diferença tão grande na taxa de aumento dos lucros se deve a alteração do número de empresas entre 2006 e 2010. Se analisarmos o lucro médio por empresa conclui-se que, entre 2006 e 2010, o das grandes empresas aumentou +77,2%, o das médias empresas subiu em +42,8%, e o das pequenas e micro empresas diminui, respectivamente, em -17,7% e – 12.7%. E que, entre 2009 e 2010, segundo os dados divulgados pelo INE, o lucro liquido obtido em média por uma grande empresa aumentou em +149,9%, por uma média empresa cresceu em +93,3%, enquanto o das pequenas e micro empresas tiveram, cada uma delas, um aumento médio de lucros, respectivamente, de +21,3% e +14,1%. Em 2010, cada uma das grandes empresas teve em média um lucro liquido de 11,3 milhões € (6,3 milhões € em 2006) enquanto o lucro obtido por uma empresa média foi de 265.700 €; o de uma pequena empresa foi de 20.100 euros, e o de uma micro empresa foi apenas de 4.900 euros (5.600 € em 2006); por outras palavras, o lucro liquido médio de uma grande empresa foi 2.306 vezes superior ao de uma micro empresa.

É evidente que a taxa de exploração dos trabalhadores, que tem como a base a mais-valia criada pelo trabalho não pago, é muito maior nas grandes empresas como facilmente se conclui do quadro seguinte cujos valores foram calculados utilizando os dados do INE

Quadro 2 – Lucro médio por trabalhador obtido pelas empresas de acordo com a sua dimensão -2010
RUBRICAS
Trabalhadores
2010
Lucro Total
Mil euros
2010
Lucro Médio por trabalhador em 2010
Euros
Nº de vezes que o lucro médio por trabalhador das grandes empresas é superior ao das outras
Gastos com Pessoal per capita anuais
2010
Nº de vezes que o gasto médio por trabalhador nas grandes empresas é superior ao das outras
Total 3 843 268 20 082 675 5.225 € 2,9 13.590 € 1,7
PME 3 025 155 7 853 275 2.596 € 5,8 11.110 € 2,0
Micro 1 701 959 5 326 376 3.130 € 4,8 6.170 € 3,7
Pequenas 772 512 858 147 1.111 € 13,5 15.700 € 1,4
Médias 550 684 1 668 752 3.030 € 4,9 19.950 € 1,1
Grandes 818 113 12 229 400 14.948 € 22.750 €
Fonte: INE, Evolução do Sector Empresarial em Portugal - 2004/2010- Edição 2012

Em 2010, segundo o INE, o lucro liquido médio por trabalhador obtido nas grandes empresas foi 4,9 vezes superior ao obtido por trabalhador numa empresa média, mas o gasto com pessoal per capita foi na grande empresa apenas 1,1 vezes superior ao da empresa média; em relação às pequenas empresas, o lucro médio por trabalhador de uma grande empresa foi 13,5 vezes superior ao obtido por uma pequena empresa, mas o gasto com pessoal per capita na grande empresa foi somente 1,4 vezes superior ao de uma pequena empresa; em relação às micro empresas, o lucro médio obtido por trabalhador numa grande empresa foi 4,8 vezes superior ao obtido numa micro empresa por trabalhador, mas o gasto com pessoal per capita numa grande empresa foi superior apenas em 3,7 vezes superior ao suportado por trabalhador numa micro empresa. Fica assim claro que nas grandes empresas o nível de exploração dos trabalhadores (mais valia criada pelo trabalho não pago) é superior ao verificado nas restantes empresas. Daí a necessidade de um imposto que incida sobre estes sobre-lucros, nomeadamente sobre os dividendos distribuídos que não são nem investidos, nem criam emprego, e a maior parte deles nem paga impostos.,

AS GRANDES EMPRESAS EMPREGAM APENAS 21,3% DOS TRABALHADORES MAS APROPRIAM-SE DE 60,9% DOS LUCROS LIQUIDOS TOTAIS DAS EMPRESAS NÃO FINANCEIRAS

As grandes empresas eram apenas 1.082 em 2010 (em 2006 eram 1046), ou seja, 0,1% do total de empresas existentes no nosso país. No entanto, elas apropriam-se de mais de metade dos lucros líquidos de todas as empresas, como revelam os dados do INE constantes do quadro 3

Quadro 3 – Lucros líquidos e número de trabalhadores segundo a dimensão - Empresas não financeiras
RUBRICA
LUCROS - 2010
TRABALHADORES - 2010
Mil - Euros
% do TOTAL
Nº Trabalhadores
% do TOTAL
TOTAL 20 082 675 100,0% 3 843 268 100,0%
PME 7 853 275 39,1% 3 025 155 78,7%
Micro 5 326 376 26,5% 1 701 959 44,3%
Pequenas 858 147 4,3% 772 512 20,1%
Médias 1 668 752 8,3% 550 684 14,3%
Grandes (*) 12 229 400 60,9% 818 113 21,3%
(*) Grande empresa – empresa com mais de 250 trabalhadores e com um volume de negócios superior a 50 milhões €/ano
Fonte: INE, Evolução do Sector Empresarial em Portugal - 2004/2010- Edição 2012

Em 2010, segundo o INE, as grandes empresas empregavam apenas 21,3% (818.113) do total dos trabalhadores, mas obtiveram 60,9% (12.229,4 milhões €) dos lucros líquidos totais alcançados pelas empresas não financeiras nesse ano, enquanto as micro empresas, que empregavam 44,3% (1.701.959 trabalhadores) do total de trabalhadores, os seus lucros representaram apenas a 26,5% (5.326,3 milhões €) dos lucros líquidos totais das empresas.

Fica assim claro, que contrariamente à mensagem que o governo e o patronato pretendem fazer passar junto da opinião pública, para impor mais sacrifícios aos trabalhadores, nem todas as empresas estão a ter prejuízos, e as grandes empresas já estão a ganhar muito com a crise. É evidente que a crise não está a atingir nem todos nem todas as empresas (alguns estão a ganhar muito com ela), o que é ainda agravado mais pela politica de classe iníqua deste governo e da "troika" em que os mais atingidos são os trabalhadores, os aposentados e os pensionistas, e aqueles que para sobreviverem precisam de apoios sociais que estão a sofrer grandes cortes.

06/Agosto/2012
[*] Economista, edr2@netcabo.pt

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
09/Ago/12