A mensagem de Natal de Passos Coelho e o seu "milagre" da
redução do desemprego
A dimensão do falso emprego, a baixa de salários promovida
pelo governo e a milagrosa redução do número de inscritos
nos centros de
emprego
Na mensagem do Natal de 2014 aos portugueses, Passos Coelho afirmou: "
Entramos numa nova fase. Uma fase de crescimento, de aumento do emprego e de
recuperação dos rendimentos das famílias
". Será que estas palavras têm alguma correspondência
com a realidade? Para responder a esta pergunta vamos utilizar dados do
próprio governo.
O CRESCIMENTO RÁPIDO DO FALSO EMPREGO EM PORTUGAL
Em estudo anterior mostramos como o governo, recorrendo à
formação profissional, aos contratos emprego
inserção, aos estagiários, e aos "inativos
disponíveis" estava, administrativamente, a reduzir os
números do desemprego oficial. Agora vamos mostrar como o governo
utilizando também o mesmo processo medidas administrativas
está empolar os dados do emprego com falso emprego. O quadro 1, com
dados oficiais divulgados pelo Instituto de Emprego e Formação
Profissional (IEFP), uma entidade tutelada pelo Ministério do Trabalho,
Segurança Social e Solidariedade, mostra como o falso emprego tem
aumentado em Portugal.
Quadro 1 CEIs e estagiários considerados nos
números oficiais de emprego
|
Trimestre/Ano
|
FALSO EMPREGO
|
|
Contratos Emprego -Inserção (CEI´s)
|
Estagiários
|
TOTAL
|
% do emprego oficial Total
|
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4º Trimestre 2011
|
23.228
|
3.388
|
26.616
|
0,6%
|
|
1º Trimestre 2012
|
23.568
|
6.201
|
29.769
|
0,6%
|
|
2º Trimestre 2012
|
24.010
|
8.516
|
32.526
|
0,7%
|
|
3º Trimestre 2012
|
20.729
|
8.699
|
29.428
|
0,6%
|
|
4º Trimestre 2012
|
25.784
|
9.815
|
35.599
|
0,8%
|
|
1º Trimestre 2013
|
25.961
|
10.283
|
36.244
|
0,8%
|
|
2º Trimestre 2013
|
26.280
|
12.672
|
38.952
|
0,9%
|
|
3º Trimestre 2013
|
26.947
|
17.603
|
44.550
|
1,0%
|
|
4º Trimestre 2013
|
29.833
|
27.935
|
57.768
|
1,3%
|
|
1º Trimestre 2014
|
29.723
|
35.204
|
64.927
|
1,5%
|
|
2º Trimestre 2014
|
31.190
|
43.108
|
74.298
|
1,6%
|
|
3º Trimestre 2014
|
31.872
|
41.637
|
73.509
|
1,6%
|
|
Variação entre 2011-14
|
37,2%
|
1129,0%
|
176,2%
|
186,5%
|
Fonte: IEFP - Ministério Trabalho, Segurança Social e
Solidariedade
Os desempregados inseridos à força
(se não aceitarem perdem o direito ao subsidio de desemprego ou ao
rendimento social de inserção que eventualmente estejam a receber)
nos Contratos Emprego-Inserção (CEIs) e os estagiários,
ambos considerados nos números oficiais de emprego, empolam assim de uma
forma artificial o emprego oficial, e representam, como os dados do quadro
revelam, uma percentagem cada vez maior do "
emprego criado
" em Portugal nos últimos trimestres. Entre o 4º Trim/2011 e o
3º Trim/2014, em número aumentou 176,2% e, em percentagem do
emprego total, subiu 186,5%
(representam já 1,6% de todo o emprego)
. É um aumento impressionante, que contribui para o "aumento"
do emprego de que se gaba o 1º ministro na sua mensagem de Natal. Mas
é um crescimento falso do emprego que só engana os que não
estão informados, de que se aproveita o governo para manipular a
opinião pública. Para Passos Coelho tudo serve, mesmo o falso
emprego.
GOVERNO PROMOVE BAIXOS SALÁRIOS E A EXPLORAÇÃO COM FUNDOS
PÚBLICOS
Mas para que a natureza desta "criação falaciosa" do
emprego ainda se torne mais clara interessa analisar as características
deste "falso emprego", já que ele está associado a uma
exploração acrescida dos desempregados que são obrigados,
pelo governo, a se sujeitar a ele. Manuela Ferreira Leite do partido do governo
(PSD), no seu programa de televisão, chamou aos Contratos
Emprego-Inserção "trabalho semi-escravo".
Os Contratos Emprego-Inserção (CEI e CEI+) encontram-se
regulamentados na Portaria 20-B/2014. Segundo o art.5-A desta portaria
são abrangidos por esta medida, entre outros, "
os desempregados a receber subsídio de desemprego ou subsídio
social de desemprego e os desempregados beneficiários do rendimento
social de inserção".
Os contratos têm a duração máxima de 12 meses, mas
podem ser renovados durando, no entanto, enquanto durar a concessão do
subsidio de desemprego (artº 8º) e os desempregados forçados a
aceitarem estes contratos recebem apenas, de acordo com o nº1 do artº
13º da mesma Portaria, para além do subsidio de desemprego ou do
subsídio social de desemprego que estavam a receber,
"uma bolsa complementar de montante correspondente a 20% do indexante de
apoios sociais
", ou seja, a 83,8 por mês, sendo 50% pago pela IEFP do
Ministério do Trabalho, Segurança Social e Solidariedade. Se se
tiver presente que, de acordo com informação constante do site da
Segurança Social (ver
www4.seg-social.pt/estatisticas
), em Outubro de 2014, o subsidio médio de desemprego que estava a ser
pago era apenas 466,22, adicionando a este montante os 83,4,
obtém-se uma valor médio 549,62.
Mas a situação é ainda pior para os desempregados que
recebem o rendimento de inserção. A estes, segundo o nº 3 do
artº 13º, como contrapartida do trabalho que são
forçados a realizar (CEI+) apenas têm "
direito a uma bolsa de ocupação mensal de montantes
correspondente ao valor do indexante dos apoios sociais (IAS)"
, ou seja, a 419,22 por mês, sendo entre 80% e 90% pagos
também pelo IEFP, e que, somados ao RSI que estes desempregados recebiam
(em Outubro de 2014, apenas 91,4 por mês segundo também
dados do "site" da Segurança Social) dá somente
510,62 por mês.
São estes "salários de miséria" financiados com
fundos públicos que são pagos a estes trabalhadores, que
são forçados a aceitarem este trabalho nestas
condições, pois caso contrário, perdem o direito ou ao
subsídio de desemprego ou ao rendimento social de inserção
(RSI) que estão a receber. E isto apesar de realizarem um trabalho como
qualquer outro trabalhador. O governo, as autarquias, as IPSS, etc.
estão a utilizar maciçamente esta mão-de-obra barata e
sujeita a trabalho forçado (CEIs) para substituir trabalhadores ou que
despedem, ou que empurram para a reforma ou aposentação
prematura, ou então que deixam de recrutar. Segundo dados do IEFP
referentes aos CEIs, em Dez/2013 as autarquias já utilizavam 27.720
destes trabalhadores, o Ministério da Educação 8.344, o
Ministério da Saúde 2.183; as IPSS, misericórdias e outras
entidades semelhantes 8.933; etc. É exploração
maciça de mão-de-obra barata e forçada promovida pelo
governo atual que serve de exemplo a seguir pelos patrões privados
condenada pelo Provedor de Justiça (ver:
www.provedor-jus.pt/...
)
Mas esta politica de fomento de baixos salários levada a cabo por este
governo não se limita à medida anterior. Ela estende-se aos
estágios financiados com dinheiros públicos regulados pela
Portaria 204-B/2013, que beneficiam empresas privadas e públicas,
autarquias, e outras entidades com ou sem fins lucrativos (artº 4º).
Segundo o artº 9º desta Portaria
"o estágio tem a duração de 12 meses"
podendo, no entanto, ter uma duração superior a um ano
(artº11º) e, de acordo com artº 12º, os estagiários
recebem uma bolsa mensal, paga com dinheiros públicos, cujo valor varia
com as habilitações escolares do estagiário: (a) 3º
ciclo básico: 419,22; (b) Ensino secundário: 503 por
mês; (c) Licenciados, com o Mestrado e doutorados: 691,7 E estes
trabalhadores, apesar de receberem estas remunerações realizam um
trabalho idêntico ao de qualquer outro trabalhador. Findo o
estágio, são obrigados a abandonar a empresa e, como a lei
não estabelece qualquer limite à utilização de
estagiários, são substituídos por novos
estagiários. Desta forma os patrões privados e públicos
utilizam de uma forma crescente esta mão-de-obra barata e qualificada
paga com fundos públicos, evitando assim contratar trabalhadores
permanentes para as tarefas permanentes da empresa ou entidade, já que o
governo não impõe às empresas que nos fins dos
estágios faça quaisquer contratações. É mais
um instrumento utilizado pelo governo para promover uma politica de baixos
salários, funcionando esta medida e a anterior também como
instrumentos de pressão sobre os salários dos restantes
trabalhadores, sendo um exemplo a seguir pelos patrões
(entre 2012 e 2014, o salário médio diminuiu de 962 para
948 e a percentagem de trabalhadores a receber apenas o salário
mínimo atingia já 12,9% segundo Ministério da Economia).
O "MILAGRE" DA REDUÇÃO DOS DESEMPREGADOS INSCRITOS NOS
CENTROS DE EMPREGO
Embora o chamado desemprego registado, ou seja, o numero de desempregados
inscritos nos Centros de Emprego, não dê uma
informação completa sobre o desemprego no país, já
que muitos desempregados não se inscrevem nos Centros de Emprego, pois
não têm qualquer beneficio nisso, mesmo assim, como o governo
utiliza os dados do desemprego registado para convencer a opinião
pública de que o desemprego está a diminuir no país,
interessa analisar com objetividade os dados que são divulgados
mensalmente pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional
(IEFP). Para isso observe-se com cuidado o Quadro 2, que contém os dados
divulgados mensalmente pelo IEFP durante o ano de 2014.
Segundo os dados divulgados mensalmente nas Estatísticas dos Centros de
Emprego, de Janeiro a Novembro de 2014, inscreveram-se de novo nos Centros de
Emprego 666.758 desempregados, e os Centros de Emprego só conseguiram
arranjar trabalho para 96.460. Isto significa que não conseguiram
arranjar emprego para 570.298 desempregados que se inscreveram nos Centros de
Emprego durante o ano
de 2014. Apesar disso, entre 1/Jan/2014 e 30/Nov/2014, o chamado desemprego
registado diminuiu em 92.452, pois passou de 690.535 (numero de desempregados
em 31/12/2013 que transitou para 1/Jan/2014) para 598.083. E como foi
conseguido este "milagre de redução de desemprego"?
Através do abate administrativo maciço de desempregados nos
ficheiros dos centros de emprego, como provam os dados do quadro (coluna 5),
utilizando uma multiplicidade de pretextos (por ex., o desempregado não
respondeu ao postal enviado pelo IEFP). Nos onze primeiros meses de 2014
(Jan-Nov/2014), foram abatidos nos ficheiros dos Centros de Emprego 662.750
desempregados que se encontravam neles inscritos e não foi dada qualquer
explicação pública desse facto. É desta forma
também que o IEFP e o governo conseguem reduzir os números do
desemprego registado que depois utilizam na sua campanha de propaganda e de
manipulação da opinião pública,
UMA PALAVRA FINAL DE DESPEDIDA DO ANO DE 2014 A TODOS OS LEITORES
Este é o 58º e último estudo que publicamos em 2014. Foi o
nosso contributo na batalha contra a ideologia neoliberal dominante nos media e
contra a manipulação da opinião pública. Esperemos
que o nosso trabalho ao longo deste ano tenha sido útil aos leitores.
Através da linguagem objetiva dos dados estatísticos que
disponibilizamos, muitos deles oficiais cuja fonte sempre indicamos para que o
leitor possa ter acesso também direto a eles, e das reflexões e
conclusões que, com base sempre neles, tiramos procuramos apresentar uma
análise/visão alternativa dos problemas nacionais diferente da do
pensamento económico único dominante nos media. Confrontando
dados e opiniões diferentes, o leitor poderá formar, de uma forma
fundamentada, a sua própria opinião (esse é o nosso
objetivo), que é o que mais importa.
Para terminar, queremos desejar a todos os leitores e aos seus familiares Boas
Entradas, Boas Festas e um 2015 melhor do que 2014.
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29/Dezembro/2014
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edr2@netcabo.pt
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