A desindustrialização de Portugal e da União Europeia
Causas: o domínio dos grupos económicos e financeiros e a
liberalização
RESUMO DESTE ESTUDO
A desindustrialização de Portugal e a destruição da
agricultura e da pesca nacional é uma questão que preocupa
naturalmente muitos portugueses porque um país sem as suas atividades
produtivas por excelência agricultura, pescas e indústria
transformadora não tem possibilidades de ser verdadeiramente
independente. No entanto, é importante não confundir
industrialização com aumento de produção pois este
também pode ser alcançada com um melhor e mais intenso
aproveitamento da capacidade produtiva já instalada até porque
está subutilizada.
Segundo dados do Banco Portugal, nos 20 anos anteriores ao 25 de Abril
(1954/1974), a contribuição da Agricultura, Pescas e
Indústria para o PIB, ou seja, para a riqueza criada anualmente,
diminuiu de 55% para 40,6% do PIB, isto é em 14,4 pontos percentuais
(-26,1%), enquanto nos 21 anos posteriores ao 25 de Abril (1974/1995), a
diminuição foi de 40,6% para 27,4% do PIB, ou seja, em 13,2
pontos percentuais (-32,6%).E segundo dados do INE, entre 1995 e 2002, ou seja,
depois de Portugal ter entrado para a União Europeia mas antes da Zona
Euro, portanto em 7 anos, a contribuição da Agricultura, Pescas e
Indústria para o PIB diminuiu de 21,4% para 17,3% do PIB, isto é
em 4,1 pontos percentuais (-19%), enquanto no período 2002/2012, ou
seja, em 10 anos de euro a contribuição da Agricultura, Pescas e
Indústria para o PIB diminuiu de 17,3% para apenas 14,7% do PIB ou seja,
em 2,6 pontos percentuais (-15%). Portanto, afirmar que a
desindustrialização do país e a destruição
da agricultura e pescas é apenas consequência da entrada do nosso
pais na U.E. e na Zona Euro não tem qualquer sustentação
na realidade e só torna mais difícil identificar as verdadeiras
causas do problema e, também, mais difícil resolvê-lo No
entanto, é certo que a entrada de Portugal na Zona Euro agravou ainda
mais o problema na medida em que, por um lado, o país estava
profundamente debilitado e com problemas estruturais graves (78% da
população empregada tinha o 3º ciclo do ensino básico
ou menos) tendo a destruição continuado e, por outro lado, tornou
muito mais difícil inverter o processo já que o país
perdeu instrumentos importantes de politica macroeconómica (a politica
aduaneira, cambial, monetária, orçamental, de investimentos,
etc.).
Por outro lado, segundo dados divulgados pelo Eurostat, no período
2000-2010, verificou-se em toda a União Europeia uma
diminuição da contribuição da Industria e Energia
para o PIB (nos 27 países das União Europeia, em média o
peso da Industria e da Energia no PIB diminui de 22,4% para 18,7% do PIB, ou
seja, em 3,7 pontos percentuais, sendo superior mesmo à
redução verificada em Portugal, no mesmo período, que foi
de -3,6 pontos percentuais). A Alemanha foi o país onde a quebra foi
menor (apenas menos 1,5 pontos percentuais, pois passou de 25,3% para 23,8%
PIB), continuando a possuir a indústria mais poderosa da Europa.
Portanto, aquilo que se convencionou chamar
"desindustrialização" é um processo que abrange
todos os países da União Europeia, embora com graus de
intensidade diferentes. No entanto, é importante não ignorar que
o crescimento económico e o desenvolvimento, na época atual,
estão associados ao crescimento dos serviços e, consequentemente,
à diminuição da contribuição da agricultura,
pescas e indústria.
Os grupos económicos, aproveitando as facilidades concedidas pelos
governos dos chamados países emergentes (ex.: China, Índia,
Brasil, Paquistão, etc.) instalaram-se nesses países,
deslocalizando a sua produção, tirando proveito das vantagens
competitivas oferecias por esses países (mão de obra barata e
pouco reivindicativa, baixos impostos, etc.), controlam uma parte importante da
industria desses países (de acordo com estudos divulgados, cerca de
metade da industria chinesa é controlada por empresas estrangeiras)
assim como uma parte importante do mercado desses países e, aproveitando
a liberalização do comercio internacional, "atacam" os
mercados dos países mais desenvolvidos levando à falência
milhares de empresas nesses países, provocando a
desindustrialização e fazendo disparar o desemprego
Neste contexto, para que a reindustrialização de Portugal e a
recuperação da agricultura e pescas seja possível,
é necessário que o comercio internacional seja regulamentado,
substituindo o atual comercio internacional totalmente liberalizado em que as
grandes empresas multinacionais fazem uma concorrência desleal,
através da deslocalização da produção,
obtendo assim grandes benefícios e, se isso não for
possível, é necessário que Portugal recupere rapidamente
os instrumentos de politica macroeconómica que perdeu com a sua
integração na U.E. e na Zona euro politica aduaneira,
cambial, orçamental, monetária, etc. para se poder
defender de um comercio internacional sem regras, e simultaneamente que o
Estado controle as empresas estratégicas que dominam setores
estratégicos para que os seus objetivos passem a ser os do crescimento
económico e de desenvolvimento do pais, o que não acontece
atualmente. Pensar que é possível a
industrialização do país e a recuperação da
agricultura e das pescas sem tais condições é, para
nós, uma ilusão e engana a opinião pública.
|
Face ao estado a que chegou o país, uns afirmam que a
destruição da atividade produtiva em Portugal começou
fundamentalmente com a entrada na União Europeia e, nomeadamente, na
Zona do Euro, e que basta sair para que o problema se resolva; outros dizem que
é possível a industrialização do país e a
recuperação da agricultura e pescas, mantendo Portugal na zona
euro, sendo suficiente a substituição do governo pois, com outro
governo, é já possível uma política de
industrialização do país e de recuperação da
agricultura e das pescas; o governo do PSD/CDS, através do ministro da
economia, procura criar a ilusão que tudo isso é possível
com o atual governo, com o atual quadro económico e politico, e com pais
na UE e na zona euro, e aplicando uma política recessiva em plena
recessão económica. Face posições tão
contraditórias e mesmo opostas, interessa analisar esta questão
importante com objetividade e de uma forma fundamentada, até para que
não se acalente ou semeie ilusões.
A DESINDUSTRIALIZAÇÃO DO PAÍS E A DESTRUIÇÃO
DA AGRICULTURA E PESCAS COMEÇOU ANTES DO 25 DE ABRIL, NÃO
É APENAS UMA CONSEQUÊNCIA DA ENTRADA DE PORTUGAL NA UE E NA ZONA
EURO, EMBORA ESTA TENHA AGRAVADO MUITO A SITUAÇÃO
Observem-se os dados do Banco de Portugal e do INE constantes do quadro 1.
Quadro 1- Variação do peso percentual de cada setor da atividade
económica no PIB -1954/2012
|
ANO
|
PORTUGAL
|
|
Agricultura, silvicultura e pesca
|
Indústria
|
Energia, água e saneamento
|
Construção
|
Comércio e reparação de veículos; alojamento e
restauração
|
Transportes e armazenagem; atividades de informação e
comunicação
|
Atividades financeiras, de seguros e imobiliá-rias
|
Outras Atividades de serviços
|
AGRICULTURA + INDÚSTRIA
|
|
1954
|
29,0%
|
26,0%
|
1,4%
|
5,3%
|
12,1%
|
3,7%
|
10,3%
|
12,2%
|
55,0%
|
|
1960
|
21,7%
|
27,0%
|
1,9%
|
7,2%
|
14,7%
|
3,8%
|
10,5%
|
13,1%
|
48,7%
|
|
1970
|
13,4%
|
30,7%
|
1,9%
|
8,7%
|
15,1%
|
5,1%
|
11,4%
|
13,6%
|
44,1%
|
|
1973
|
11,6%
|
28,2%
|
1,8%
|
10,9%
|
15,8%
|
4,8%
|
12,1%
|
14,9%
|
39,8%
|
|
1974
|
11,7%
|
29,0%
|
1,7%
|
9,4%
|
17,0%
|
4,4%
|
12,0%
|
14,9%
|
40,6%
|
|
1975
|
11,6%
|
25,4%
|
1,2%
|
11,7%
|
17,4%
|
5,4%
|
10,5%
|
16,8%
|
37,0%
|
|
1980
|
10,3%
|
28,2%
|
1,9%
|
9,1%
|
18,6%
|
5,4%
|
9,3%
|
17,2%
|
38,5%
|
|
1985
|
10,2%
|
27,0%
|
4,5%
|
6,7%
|
19,3%
|
7,5%
|
9,6%
|
15,2%
|
37,2%
|
|
1990
|
8,4%
|
26,5%
|
3,6%
|
5,9%
|
16,9%
|
6,0%
|
12,1%
|
20,6%
|
34,9%
|
|
1995
|
6,0%
|
21,4%
|
3,6%
|
6,1%
|
17,5%
|
6,4%
|
12,8%
|
26,2%
|
27,4%
|
|
QUEBRA DE SÉRIE: PASSA DO BANCO DE PORTUGAL PARA O INE
|
|
1995
|
4,9%
|
16,6%
|
2,6%
|
6,2%
|
16,6%
|
6,6%
|
11,7%
|
22,9%
|
21,4%
|
|
1996
|
4,6%
|
17,1%
|
2,7%
|
6,2%
|
16,3%
|
6,6%
|
11,1%
|
23,0%
|
21,7%
|
|
1998
|
3,6%
|
16,4%
|
2,6%
|
6,8%
|
16,7%
|
6,6%
|
11,6%
|
23,1%
|
20,0%
|
|
1999
|
3,3%
|
16,1%
|
2,5%
|
6,9%
|
16,3%
|
6,8%
|
11,9%
|
23,4%
|
19,4%
|
|
2000
|
3,2%
|
15,4%
|
2,3%
|
7,2%
|
16,5%
|
6,9%
|
11,8%
|
24,4%
|
18,6%
|
|
2001
|
3,0%
|
15,0%
|
2,3%
|
7,3%
|
16,5%
|
7,0%
|
12,0%
|
24,6%
|
18,0%
|
|
2002
|
2,8%
|
14,6%
|
2,4%
|
7,2%
|
16,5%
|
7,0%
|
11,9%
|
25,1%
|
17,3%
|
|
2003
|
2,7%
|
13,9%
|
2,7%
|
6,7%
|
16,3%
|
7,0%
|
12,4%
|
25,6%
|
16,6%
|
|
2005
|
2,4%
|
13,0%
|
2,5%
|
6,5%
|
16,2%
|
7,1%
|
12,3%
|
26,4%
|
15,4%
|
|
2006
|
2,3%
|
12,8%
|
2,8%
|
6,2%
|
16,0%
|
7,3%
|
12,9%
|
25,7%
|
15,1%
|
|
2007
|
2,1%
|
12,6%
|
2,9%
|
6,3%
|
15,8%
|
7,5%
|
13,5%
|
25,6%
|
14,7%
|
|
2009
|
2,0%
|
11,5%
|
3,2%
|
5,9%
|
16,7%
|
7,7%
|
13,4%
|
27,9%
|
13,5%
|
|
2010
|
2,0%
|
12,1%
|
3,4%
|
5,5%
|
16,4%
|
7,5%
|
13,4%
|
27,4%
|
14,1%
|
|
2011
|
1,9%
|
12,6%
|
3,2%
|
5,0%
|
16,5%
|
7,6%
|
13,9%
|
26,5%
|
14,5%
|
|
2012-3Trim
|
1,9%
|
12,8%
|
3,2%
|
4,4%
|
16,8%
|
7,8%
|
14,3%
|
25,9%
|
14,7%
|
Fonte. 1954/1995: Séries Longas: Banco de Portugal; 1995/2012: CNAP- INE
De acordo com os dados do Banco Portugal, referentes ao período
1954/1995, conclui-se o seguinte: (1) Nos 20 anos anteriores ao 25 de Abril
(1954/1974), a contribuição da Agricultura, Pescas e
Indústria para o PIB, ou seja, para a riqueza criada anualmente,
diminuiu de 55% para 40,6%, isto é em 14,4 pontos percentuais (-26,1%),
o que representou uma redução de 0,72 pontos percentuais por ano,
enquanto nos 21 anos posteriores ao 25 de Abril (1974/1995), a
diminuição foi de 40,6% para 27,4% do PIB, ou seja, em 13,2
pontos percentuais (-32,6%), o que significou uma redução de 0,62
pontos percentuais por ano.
Por outro lado, segundo dados do INE, entre 1995 e 2002, ou seja, depois de
Portugal ter entrado para a União Europeia mas antes de ter
começado a funcionar a Zona Euro, portanto num período de 7 anos,
a contribuição da Agricultura, Pescas e Indústria para o
PIB diminuiu de 21,4% para 17,3% do PIB, isto é em 4,1 pontos
percentuais (-19%), o que representou um redução de 0,59 pontos
percentuais por ano, enquanto no período 2002/2012, ou seja, em 10 anos
de euro a contribuição da Agricultura, Pescas e Indústria
para o PIB diminuiu de 17,3% para apenas 14,7%, ou seja, em 2,6 pontos
percentuais (-15%), o que significa uma redução de 0,26 pontos
percentuais por ano.
Embora estas diminuições tenham características diferentes
(numa primeira fase assentou numa forte quebra da importância da
agricultura, depois de ambas as atividades agricultura e
indústria-; e, seguidamente, principalmente da indústria), os
dados do Banco de Portugal e do INE mostram de uma forma clara que a
diminuição da contribuição da Agricultura, Pescas e
Indústria para o PIB, ou seja, aquilo que é normalmente designado
por desindustrialização do pais e destruição da
agricultura e pescas é um fenómeno que começa antes do 25
de Abril, é muito anterior à entrada de Portugal na União
Europeia e ao ingresso na Zona Euro. Portanto, considerá-lo como
consequência da entrada do nosso pais na U.E. e na Zona Euro não
tem qualquer sustentação na realidade. No entanto, é
importante dizer que a entrada de Portugal na Zona Euro agravou ainda mais o
problema na medida em que, por um lado, o país estava profundamente
debilitado e com problemas estruturais graves (78% da população
empregada tinha o 3º ciclo do ensino básico ou menos) tendo a
destruição continuado e agravado ainda mais a
situação e, por outro lado, tornou muito mais difícil
inverter o processo já que o país perdeu instrumentos importantes
de politica macroeconómica (a politica cambial, monetária,
orçamental, de investimentos, etc.). Ao mesmo tempo, ao ingressar num
espaço económico com países, em termos de desenvolvimento,
muito diferentes uns dos outros e com interesses contraditórios, para
não dizer mesmo antagónicos, sujeitou-se a choques
assimétricos com efeitos devastadores como a crise atual tornou ainda
mais visível. A desindustrialização de Portugal
está-se a agravar com a crise. Os dados do comércio externo
mostram isso, apesar de ser um dos "êxitos" que este governo
não se cansa de referir na ausência de qualquer outro. Entre 2007
e 2012, as exportações portuguesas aumentaram de 37.400
milhões para 45.344 milhões , mas as
exportações de "máquinas ferramentas e outros bens de
capital" diminuíram de 15,7% para 12,4%, e as de "material de
transporte" caíram de 17,9% para 16,4%. As
exportações que aumentaram foram as de "produtos alimentares
e bebidas" que subiram de 7,9% para 10%, e as de "combustíveis
e lubrificantes" que passaram de 3,9% para 8,1%. Portanto caíram as
exportações de produtos de tecnologia mais elevada e subiram as
de grau tecnológico mais baixo. Idêntica situação se
verificou em relação às importações. Entre
2007 e 2012, o valor das importações praticamente manteve-se
(56.756 milhões em 2007 e 56.153 milhões em 2012),
mas as importações de "Máquinas e outros bens de
capital", tão necessárias à
industrialização do país e à
modernização do parque produtivo, caíram de 18,3% para
13,4%, enquanto a importação de "produtos alimentares e
bebidas", que podiam e deviam ser produzidos internamente aumentaram de
11,2% para 13,4% E entre os 10 maiores importadores estão três
grupos económicos da distribuição: Continente, Pingo Doce
e LIDL Mas se as verdadeiras causas do declínio agrícola,
pesqueiro e industrial de Portugal não estão na entrada na UE e
na Zona Euro, embora este ingresso tenha agravado a situação,
quais serão essas causas? É a pergunta que se coloca naturalmente
e que interessa procurar responder.
O DOMÍNIO DOS GRUPOS ECONÓMICOS ANTES DO 25 DE ABRIL, E O
CONDICIONAMENTO DE TODA A POLITICA ECONÓMICA POR ELES
Uma causa que é importante não esquecer, pois a evidência
empírica tem salientado, é precisamente o facto de que o
crescimento e o desenvolvimento estão associados, na época atual,
ao aumento da importância do setor de serviços e,
consequentemente, à diminuição da importância dos
outros dois setores que são a Agricultura e Pescas, e a
Indústria. No entanto, uma análise mais profunda do processo de
desenvolvimento em Portugal revela que os grupos económicos e
financeiros, pela sua importância e pelo domínio que exercem sobre
a economia, sobre a sociedade e sobre o poder politico, condicionam, de uma
forma clara, as estratégias e os objetivos de crescimento
económico e de desenvolvimento podendo-se mesmo dizer, parafraseando a
celebre afirmação do ex-CEO da General Motors, que "o que
é bom para a General Motors é bom para os Estados
Unidos"", em Portugal o que é bom para os grupos
económicos e financeiros é bom para o país, ou seja, as
estratégias e os objetivos dos grupos económicos e financeiros
acabam por se sobrepor e determinar as do próprio país.
Foi isso que aconteceu no período anterior ao 25 de Abril, em que 16
grupos económicos, sendo 8 principais (Grupos CUF, Champalimaud, BPA,
BNU, Banco Borges & Irmão, Banco Fonsecas e Irmão, BES, e Banco
Pinto de Magalhães) e 8 mais pequenos (grupos BIP, Banco de Agricultura,
Sociedade Central de Cervejas, Conde de Carias, SONAP, Entreposto e
ITT),dominavam completamente a economia portuguesa e todo o processo de
desenvolvimento. Para além disso, este domínio e condicionamento
do desenvolvimento era ainda reforçada pela politica do fascismo que
aprovou uma lei a lei do condicionamento industrial que dava aos
grupos económicos e financeiros existentes o poder de condicionar a
entrada, nos respetivos setores, de concorrentes. Nesta situação
concreta era claro que os grupos económicos e financeiros determinaram o
processo de desenvolvimento em Portugal, sendo também clara a
responsabilização pela perda de importância da Agricultura
e Pescas, e da Indústria.
O DOMÍNIO ATUAL DA ECONOMIA E DA SOCIEDADE PORTUGUESA PELOS GRUPOS
ECONÓMICOS E A FORMA COMO CONDICIONAM O CRESCIMENTO E O DESENVOLVIMENTO
EM PORTUGAL
E atualmente o que sucede? É a pergunta que imediatamente se
coloca. De acordo com uma investigação que realizamos durante
quatro anos para a elaboração de uma tese de doutoramento, com o
título "
Grupos Económicos e desenvolvimento em Portugal no contexto da
globalização
", que defendemos no ISEG em 2012 e que será publicada em livro
ainda no 1º semestre deste ano, concluímos o seguinte: Em 12
subsetores estratégicos da economia portuguesa que analisamos, que
são os mais importantes (financeiro, comunicações,
eletricidade, gás combustíveis, cimentos, pasta de papel e papel,
construção, distribuição, etc) concluímos,
em primeiro lugar, que o domínio de cada um deles por um número
reduzido de grupos económicos e financeiros (entre 2 e 6) era esmagador;
em segundo lugar, que a participação de capital estrangeiro
(empresas multinacionais) no capital desses grupos, a nível de
"participações qualificadas" (as que "mandam"
efetivamente nesses grupos), em muitos deles era já maioritária
(por ex. no grupo BES, 54% das
"participações qualificadas",
pertencem já a grupos estrangeiros; no BPI 95.9%; na GALP 64,7%; na
EDP: 74,2%; na PT:61,7%; etc.); e, finalmente, existe uma grande
fusão/subordinação do poder político ao poder
económico (identificamos 112 ex-governantes que foram ocupar lugares nos
conselhos de administração de grupos económicos e, como
uma investigação do próprio Banco Mundial mostrou,
não é pelo facto dos ex-governantes serem bons gestores que
são contratados pelos grupos económicos). Como consequência
deste domínio esmagador da economia e da sociedade portuguesa pelos
grupos económicos, e como a maior parte deles já estão
integrados em grupos transnacionais e na lógica de funcionamento da
globalização capitalista dominante, as suas estratégias
assim como os seus objetivos já não têm nada ver com as
estratégias e objetivos de crescimento e de desenvolvimento do
país, sendo a sua principal preocupação a
"criação de valor para os acionistas". Como um dos
responsáveis de um dos principais grupos nos disse numa entrevista que
nos concedeu, e que consta também do livro a publicar, a
responsabilidade principal do grupo é em relação aos seus
acionistas, que é a de "
criar valor para os seus acionistas"
. A responsabilidade pelo desenvolvimento do país é apenas do
governo. E isto apesar dos grupos económicos condicionarem o crescimento
económico e o desenvolvimento em Portugal, e de estarem permanentemente
a exigirem benesses e tratamento mais favorável ao poder
político. O domínio esmagador dos grupos económicos e
financeiros no nosso país associados a uma liberalização
quase absoluta de circulação de capitais e do comércio
internacional cria obstáculos poderosos ao desenvolvimento da
agricultura, das pescas e da indústria em Portugal, obstáculos
esses que ainda são reforçados pela política da U.E.
A DESINDUSTRIALIZAÇÃO DOS PAÍSES DA UNIÃO EUROPEIA
CAUSADA PELA LIBERALIZAÇÃO DA CIRCULAÇÃO DOS
CAPITAIS E DO COMERCIO INTERNACIONAL QUE TEM BENEFICIADO FUNDAMENTALMENTE OS
GRANDES GRUPOS TRANSNACIONAIS
A
"desindustrialização"
não é apenas um problema português como mostra o quadro 2,
construído com dados divulgados pelo Eurostat referente ao
período 1996/2010.
Quadro 2- Contribuição da Indústria e Energia para o PIB
nos países da U.E. 2000/2010
|
ANO
|
INDUSTRIA E ENERGIA % do PIB
|
|
UE-27
|
Alemanha
|
Portugal
|
Irlanda
|
Espanha
|
França
|
Grécia
|
|
2000
|
22,4%
|
25,3%
|
20,4%
|
34,1%
|
20,9%
|
17,8%
|
13,9%
|
|
2001
|
21,8%
|
25,0%
|
19,9%
|
33,4%
|
20,3%
|
17,2%
|
13,2%
|
|
2002
|
21,1%
|
24,7%
|
19,4%
|
34,1%
|
19,5%
|
16,6%
|
13,3%
|
|
2003
|
20,5%
|
24,7%
|
19,0%
|
30,1%
|
19,0%
|
16,0%
|
12,5%
|
|
2004
|
20,4%
|
25,3%
|
18,6%
|
27,2%
|
18,5%
|
15,5%
|
12,3%
|
|
2005
|
20,2%
|
25,4%
|
18,0%
|
25,0%
|
18,2%
|
15,1%
|
12,3%
|
|
2006
|
20,3%
|
26,1%
|
18,1%
|
23,9%
|
17,8%
|
14,5%
|
13,0%
|
|
2007
|
20,2%
|
26,5%
|
18,0%
|
24,0%
|
17,3%
|
14,3%
|
12,8%
|
|
2008
|
19,8%
|
25,7%
|
17,3%
|
24,1%
|
17,0%
|
13,7%
|
12,5%
|
|
2009
|
18,1%
|
22,4%
|
16,8%
|
26,4%
|
15,4%
|
12,5%
|
13,4%
|
|
2010
|
18,7%
|
23,8%
|
|
25,9%
|
15,9%
|
|
13,6%
|
|
2000-10 (*)
|
-3,7 p.p.
|
-1,5 p.p.
|
-3,6 p.p.
|
-8,2 p.p.
|
-5,0 p.p.
|
-5,3 p.p.
|
-0,5 p.p.
|
Fonte: Eurostat; (*) Portugal e França : 2000/2009; p.p. = pontos
percentuais
No período 2000-2010, observou-se na União Europeia uma
diminuição da contribuição da Industria e Energia
para o PIB (nos 27 países da União Europeia, em média o
peso da Industria e da Energia no PIB diminui de 22,4% para 18,7%, ou seja, em
3,7 pontos percentuais, sendo superior mesmo à redução
verificada em Portugal, no mesmo período, que foi de -3,6 pontos
percentuais). A Alemanha foi o país onde a quebra foi menor (apenas
menos 1,5 pontos percentuais, pois passou de 25,3% para 23,8%), continuando a
possuir a indústria mais poderosa da Europa. Portanto, aquilo que se
convencionou chamar "desindustrialização" é um
processo que abrange todos os países da União Europeia, embora
com graus de intensidade diferentes. No entanto, nunca esquecer que o
crescimento económico e o desenvolvimento, na época atual,
está associada ao crescimento dos serviços.
Face a esta tendência geral, é-se levado a concluir imediatamente
que, para além de condições específicas
próprias de cada país, também existem causas comuns. E
elas são certamente as mesmas que identificamos na
investigação que realizamos sobre a economia e a sociedade
portuguesa: (1) A existência em cada país de grupos
económicos e financeiros poderosos que dominam os setores
estratégicos, mas cuja lógica de funcionamento,
estratégias e objetivos já não têm nada a ver com os
objetivos de crescimento económico e de desenvolvimento dos país
onde operam, integrando-se na lógica de funcionamento da
globalização capitalista dominante e submetendo aos seus
interesses os dos países onde operam; (2) A existência de uma
liberalização quase total e desregulada de
circulação dos capitais e do comercio internacional que serve
fundamentalmente os interesses desses grupos na suas estratégias de
domínio global e de intensificação da
exploração.
ALGUMAS CONCLUSÕES FINAIS QUE SÃO CONTRIBUTOS PARA A
REFLEXÃO E DEBATE
A liberalização da circulação dos capitais e do
comércio internacional, associada ao domínio crescente dos
grandes grupos económicos e financeiros transnacionais que, por sua vez
integram e dominam muitos dos grupos económicos que operam em cada
país, como acontece em Portugal, está a provocar a
desindustrialização crescente dos países desenvolvidos, a
que poucos conseguem resistir. Os grupos económicos a aproveitando as
facilidades concedidas pelos governos dos chamados países emergentes
(ex.: China, Índia, Brasil, Paquistão, etc.) instalam-se nesses
países, tirando proveito das suas vantagens competitivas
(mão-de-obra barata e pouco reivindicativa), controlam uma parte
importante da industria desses países (de acordo com estudos
divulgados, cerca de metade da industria chinesa é já controlada
por empresas estrangeiras) assim como uma parte importante do mercado desses
países e, aproveitando a liberalização do comercio
internacional, "atacam" os mercados dos países mais
desenvolvidos levando à falência milhares de empresas nesses
países e fazendo disparar o desemprego.
Num contexto desta natureza, e ainda por cima integrado no espaço
económico da União Europeia, que é constituído por
países com interesses e objetivos contraditórios (por ex., a
Alemanha está interessada na liberalização do comercio
internacional dos têxteis para poder exportar as suas máquinas e
ferramentas, enquanto países com uma industria têxtil importante,
que não é o caso da Alemanha, a liberalização do
comercio internacional levou à destruição de uma grande
parte daquela indústria, como aconteceu em Portugal); repetindo, num
contexto desta natureza, pensar que Portugal, um pequeno país com uma
estrutura produtiva débil, e com graves problemas estruturais,
poderá reindustrializar-se é, a nosso ver, uma miragem, uma pura
ilusão. E ainda por cima sujeito a uma política de austeridade
violenta e recessiva aplicada em plena recessão que está a
destruir a sua economia e o tecido social.
Para que a reindustrialização do país e a
recuperação da agricultura e pescas seja possível, e isso
será sempre um caminho muito difícil e por vezes doloroso de
trilhar, é necessário que seja estabelecido um comercio
internacional cooperativo regulamentado, em substituição do atual
comercial internacional fortemente agressivo de que tiram largos
benefícios as empresas multinacionais, que permita o desenvolvimento de
cada país e, se isso não for possível, torna-se
necessário que o pais recupere os instrumentos de politica
macroeconómica que perdeu com a sua integração na UE e na
Zona euro politica aduaneira, cambial, orçamental,
monetária, etc. para se poder defender de um comercio
internacional sem regras, e simultaneamente que o Estado controle as empresas
estratégicas que dominam setores estratégicos para que os seus
objetivos passem a ser os do crescimento económico e de desenvolvimento
do pais, o que não acontece atualmente (por ex., investem no
estrangeiro, mas não em Portugal como faz Jerónimo Martins na
Colômbia). Pensar que é possível no contexto em que se
encontra Portugal, a industrialização e a
recuperação da agricultura e das pescas sem tais
condições é, para nós, uma ilusão e enganar
a opinião pública.
13/Abril/2013
[*]
eugeniorosa@zonmail.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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