O aumento dos desequilíbrios entre os países da UE agrava a crise
europeia
Uma das causas da crise profunda que enfrenta atualmente a União
Europeia que fez disparar o desemprego e tem determinado um crescimento
anémico, e que está a provocar o atraso da UE no contexto global,
são os fortes e crescentes desequilíbrios que se verificam entre
os diferentes países da União Europeia.
Contrariamente à promessa inicial feita aos povos da Europa de
que a criação da UE iria determinar maior coesão
económica e social e um desenvolvimento elevado e sustentado (era o mito
do crescimento baseado num mercado de mais de 500 milhões de
consumidores) ? o que de facto tem acontecido é precisamente o
contrário: o crescimento económico tem sido anémico, as
desigualdades têm-se agravado entre os países, e os países
mais fortes e mais desenvolvidos têm-se aproveitado do seu poder para
impor a sua política, os seus interesses e para explorar os
países mais fracos.
AS DESIGUALDADES SALARIAIS E DO CUSTO DE MÃO-DE-OBRA AGRAVARAM-SE NOS
ÚLTIMOS ANOS ENTRE PORTUGAL E A MÉDIA DA UE, DA ZONA EURO E A
ALEMANHA
Um aspeto essencial, até porque isso determina as
condições de vida da maioria dos europeus, são os
níveis de salários praticados nos diferentes países. Uma
das promessas também feitas é que as diferenças tenderiam
com o tempo a atenuar-se entre os diferentes países, contribuindo assim
para coesão económico e social da UE. Ora o que tem acontecido
é precisamente o contrário como os últimos dados
divulgados pelo Eurostat constantes do quadro 1 revelam.
Os dados do Eurostat revelam o crescente agravamento das desigualdades dos
salários e dos custos da mão-de-obra entre Portugal e a
média da União Europeia, da Zona do Euro, e também da
Alemanha.
Em 2008, o salário médio em Portugal (9,9/hora)
correspondia a 60,4% da média da União Europeia (16,4), a
52,4% da média dos salários da Zona Euro (18,9/hora) e
apenas a 45,4% da média dos salários da Alemanha
(21,8/hora).
Cinco anos depois, ou seja, em 2013, as desigualdades salariais já eram
muito maiores. Enquanto em Portugal os salários diminuíram, a
média dos salários na U.E., na Zona Euro e na Alemanha, apesar da
crise, aumentaram. Como revelam os dados do Eurostat, em 2013, o salario
médio em Portugal (9,3/hora) correspondia apenas 51,4% da
média da União Europeia (em 2008, era 60,4%); a 44,5% da
média da Zona do Euro (em 2018, era 52,4%), e somente a 38% do
salário médio alemão (em 2018, correspondia a 45,4%).
E após 2013, este fosso não deixou de aumentar. Segundo o
próprio Ministério da Economia, a remuneração base
média mensal em Portugal que era de 963 em Abril de 2013 diminuiu
para 948,8 em Abril de 2014. Portanto, a tendência continua a ser
de baixa agravando ainda mais o fosso entre Portugal e média dos
países da U.E..
Mesmo em relação às cotizações sociais e
outros encargos suportados pelas empresas, que tem sido um cavalo de batalha em
Portugal dos patrões e do governo contra os trabalhadores, os dados do
Eurostat revelam que elas representam muito menos de metade do que se verifica
em relação à média da União Europeia, da
Zona do Euro e da Alemanha. E, entre 2008 e 2013, a proporção
diminuiu acentuadamente. Assim, em 2008 os encargos patronais em Portugal
correspondiam, em euros, a 45,1% da média dos países da U.E., a
34,8% da média da Zona do Euro e 37,7% da média na Alemanha,
enquanto em 2013 já apenas a 39,3 % da média dos países da
U.E., a 30,1% da média dos países das Zona do Euro, e a 32,4% da
Alemanha.
Como resultado deste agravamento das desigualdades com consequência
dramáticas para os trabalhadores portugueses, o chamado custo da
mão-de-obra em Portugal, quando o comparamos com a média dos
países da União Europeia, da Zona do Euro e da Alemanha caiu
significativamente. Em 2008, o custo total da mão-de-obra em Portugal
(inclui salários mais outros encargos patronais) que era de
12,2/hora correspondia apenas a 56,7% da média da UE; a 47,8% da
média da Zona euro e a 43,7% da média da Alemanha. E em 2013, o
custo total da mão-de-obra em Portugal para as empresas, caiu para
11,5/hora, representando somente 48,5% da média da UE; 40,8% da
média da Zona do euro e apenas 36,7% do custo médio da
mão de obra na Alemanha. Portugal, tal como no passado, está a
transformar-se num país de mão-de-obra cada vez mais barata para
os patrões europeus, americanos, chineses, etc. explorar.
PORTUGAL IMPORTA PRODUTOS QUE PODIA PRODUZIR INTERNAMENTE REDUZINDO ASSIM A
DEPENDÊNCIA EXTERNA E O DESEMPREGO
Um dos problemas mais graves que o país enfrenta é
desequilíbrio crescente na Balança Comercial. Portugal não
consegue compensar com as exportações uma parte importante
daquilo que importa. É suficiente um crescimento anémico de 0,9%,
como sucedeu em 2014, para que o crescimento nas importações
fosse muito superior ao das exportações (+67,2%), o que mostra
também o "milagre" do aumento das exportações
tão apregoado pelo governo e seus defensores nos media. Como não
é possível aumentar rapidamente as exportações
até porque todos os países querem o mesmo, e a concorrência
a nível do mercado mundial é cada vez maior e mais violenta, uma
alternativa importante, até porque tornaria o país mais
sustentável e independente, seria fomentar a produção
interna para substituir uma parte do que se importa. Mas o governo PSD/CDS,
submetido a interesses que não são os portugueses, recusa tal via
de crescimento e desenvolvimento, como prova os objetivos do chamado
Portugal-2020, que é o programa de aplicação dos fundos
comunitários no período 2015-2020 (mais de 25.000 milhões
). Este programa está orientado para apoiar as empresas
exportadoras, esquecendo o papel importantíssimo que têm as
empresas que produzem bens transacionáveis para o mercado interno, que
substituem importações, poupando divisas ao país, e
contribuindo para o equilíbrio das suas contas externas.
E não se pense que as importações portuguesas são
apenas produtos de alta tecnologia. Continuamos a adquirir a outros
países bens que podiam ser produzidos internamente como os dados de 2014
divulgados pelo INE, constantes do quadro 2, mostram
Portugal continua a despender muitos milhões de euros com
importações de produtos que podiam ser produzidos internamente se
as empresas de bens transacionáveis que apostam no mercado interno
fossem apoiadas quer em crédito quer através dos fundos
comunitários. Servem de ex. os bens alimentares (13,1% das
importações em 2014), os fornecimentos industriais NE (28,5% das
importações), os bens de consumo duradouros, e
não-duradouros (14,6%) e mesmo uma parte da maquinaria importada. Mas
para isso, era necessário fazer um levantamento sério daquilo que
podia ser produzido no país e depois apoiar essas indústrias como
muitos países já o fizeram. Mas nem este governo, nem a
Comissão Europeia estão interessados nisso porque tiraria mercado
para importação de produtos do exterior, através dos quais
poucos ganham muito.
A ALEMANHA É A PRINCIPAL FONTE DOS DESEQUILÍBRIOS DENTRO DA
UNIÃO EUROPEIA
Embora o Tratado da União Europeia (artº 3º) e o Tratado sobre
o Funcionamento da União Europeia (artº 119, 121 e 136) tenham
estabelecidos procedimentos relativo aos Desequilíbrios
Macroeconómicos (PDM), visando prevenir e corrigir esses
desequilíbrios dentro da U.E. definindo um painel de indicadores
(balanças de transações correntes, posições
líquidas de investimento internacional, variações reais
efetivas das taxas de câmbio nas quotas de exportação,
custos unitários do trabalho)
com os quais procura detetar os desequilíbrios entre os países
da U.E., pois estes são uma das causas das crises, o certo é que
a Comissão Europeia nunca se atreveu a levantar tal procedimento
à Alemanha embora este país seja a principal fonte desses
desequilíbrios
(a Comissão Europeia é só forte para os fracos, mesmo para
aqueles cujos governantes prestam vassalagem à Alemanha, como o de
Portugal)
O comércio do nosso país com os países da U.E. é a
principal fonte dos desequilíbrios do comércio externo
português. Entre 2013 e 2014,
o saldo negativo da Balança Comercial Portuguesa aumentou de 9.640
milhões para 10.565 milhões (eis o resultado do
milagre tão apregoado pelo governo
), e 91,9% do saldo de 2014 tem como origem o comércio com países
da U.E. A Alemanha é um dos principais causadores da subida do
défice, já que no comércio com Portugal viu o seu saldo
positivo aumentar, entre 2013 e 2014, em 70,9%, pois passou de +962
milhões para +1.645 milhões . Alemanha ao se recusar
aumentar o investimento e o consumo interno, como defende o próprio FMI,
e ao seu preocupar apenas em alcançar elevados excedentes com o seu
comércio com países da U.E. (em 2013, obteve um excedente de
44.632 milhões só com os países da U.E.) agrava os
desequilíbrios e a crise na U.E., destruindo assim a economia dos
países mais frágeis. Está a procurar dominar desta forma
os países europeus o que não conseguiu com as armas perante a
passividade da Comissão Europeia, que nada faz para impedir tal
exploração e destruição.
04/Março/2015
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edr2@netcabo.pt
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