Desequilíbrios comerciais mundiais e no seio da UE contribuem para as
crises e para a desindustrialização de muitos países
RESUMO DESTE ESTUDO
Um aspeto importante da realidade atual que tem sido ignorado ou subestimado
pelo pensamento económico de quadrantes políticos opostos, embora
por razões diferentes, é o papel que têm os
desequilíbrios do comércio mundial e também na U.E. no
eclodir das crises financeiras que abalam com frequência crescente
países, regiões e agora o mundo, crises essas que depois se
repercutem, com efeitos devastadores, a nível económico e social,
contribuindo (aqueles desequilíbrios) para a
desindustrialização crescente de muitos países o que
agrava mais os défices das suas contas externas.
Segundo a OCDE, no período 2003-2010, os Estados Unidos e os
países da U.E. acumularam, nas suas balanças comerciais,
respetivamente um défice de 5.953 mil milhões de dólares e
de 1.153 mil milhões de dólares, enquanto, no mesmo
período, a China acumulou um saldo positivo de 1.277 mil milhões
de dólares, a Federação Russa também um saldo
positivo de 1.129 mil milhões de dólares, e o Brasil um saldo
positivo de 260 mil milhões de dólares na sua balança
comercial. Os desequilíbrios também se verificam no seio da
própria União Europeia. Segundo o Eurostat, no período
2002-2011 (o período do euro), a Alemanha acumulou na sua balança
comercial um saldo positivo de +1.558.452 milhões ; a Holanda de
+364.534 milhões ; enquanto a Grécia acumulou um saldo
negativo de -317.329 milhões ; a Espanha de -662.104
milhões ; a França de -412.492 milhões ; a
Itália de -103.719 milhões , e Portugal um défice de
-187.317 milhões . E as causas desta situação ainda
se tornam mais claras, se se tiver presente que, neste período, cerca de
63,1% das exportações da Alemanha e 78,9% das
exportações da Holanda foram para países da União
Europeia. No período 2007-2011, Portugal teve sempre com a China,
Alemanha e Holanda, balanças comerciais altamente deficitárias,
tendo a soma dos saldos negativos acumulados atingido, só em
relação a estes 3 países, -27 125 milhões .
É impossível compreender, a nosso ver, a crise atual do
capitalismo ignorando estes desequilíbrios.
Face a estes dados, torna-se claro que os saldos positivos verificados, de uma
forma persistente, nas balanças comerciais de certos países
são conseguidos à custa de contínuos défices
registados nas balanças de outros, o que leva à
acumulação de reservas enormes nuns países e de
dívidas elevadas em outros. Como a crise atual mostrou, esses enormes
meios financeiros acumulados em certos países acabam por alimentar
fluxos de capitais geradores de especulação financeira e de
crises, como a que atualmente o mundo enfrenta. O exemplo paradigmático
é o caso da China que, com as reservas assim acumuladas, por um lado,
adquiriu, até Setembro de 2012, cerca de 1.155,5 mil milhões
dólares da divida pública americana, alimentando desta forma
também a especulação nos E.U.A. que contribuiu para a
atual crise global e, por outro lado, tem-se aproveitado da crise dos
países endividados para adquirir empresas estratégicas a
preço de saldo, como aconteceu em Portugal com a EDP e a REN, onde duas
empresas estatais chinesas se tornaram, de um momento para o outro, os seus
principais acionistas.
As consequências dos desequilíbrios que se verificam no
comércio mundial e também dentro da U.E., possibilitados pela
liberalização e desregulamentação do
comércio internacional, não se limitam aos anteriores. Eles
também contribuíram para a desindustrialização
crescente de muitos países, incluindo Portugal. É certo que
não foram a única razão, mas certamente tiveram e
têm um papel importante que não deve ser subestimado, mas que
é ignorado por muitos analistas e políticos. Nesta
estratégia encontram-se associados as principais economias emergentes
(China, Brasil, India, Coreia do Sul, etc.) e grandes empresas transnacionais,
embora por razões diferentes. Os países emergentes, com o
objetivo de alcançar elevadas taxas de crescimento e assim ascenderem a
patamares de desenvolvimento mais elevados, adotaram modelos de crescimento
económico baseados fundamentalmente nas exportações e na
acumulação de elevadas reservas através de um reduzido
consumo interno (publico e privado). Para isso, utilizam dois instrumentos para
tornarem os seus produtos competitivos no mercado global: baixos
salários e moeda subvalorizada através do controlo cambial
estatal. Nesta estratégia têm tido um poderoso aliado os
grandes grupos transnacionais já que tal estratégia tem
permitido também a estes grupos obterem elevados lucros. E isto porque
esses grupos económicos, aproveitando-se das facilidades concedidas
pelos governos desses países, criam filiais nesses países ou
associam-se com empresas locais e, tirando partido dos baixos custos do
trabalho e da moeda subvalorizada para tornar ainda mais competitivos (baratos)
os produtos fabricados nesses países, apoderarem-se não apenas de
uma parte do mercado desses países, mas também concorrerem, em
conjunto com as empresas dos países emergentes, nos mercados dos
países desenvolvidos, eliminando competidores e provocando a
desindustrialização, agravada pela deslocalização
de empresas com o objetivo de manterem as taxas de lucro ou de sobreviverem,
aproveitando, para isso, a desregulamentação e a
liberalização do comercio internacional policiada pela OMC. Os
grupos económicos transnacionais funcionam como autênticos cavalos
de troia instalados nos países desenvolvidos, constituindo poderosos
aliados dos países emergentes, como sucede nos próprios EUA e
França, onde ex-membros dos governos americano e francês integram
poderosos
lobbys
que defendem o comercio livre com a China confirmando, mais uma vez, que
o capital não tem pátria. O que aconteceu em
relação aos têxteis portugueses, cujo acordo assinado pela
Comissão Europeia no âmbito da OMC, conduziu à
destruição de uma parte significativa da industria têxtil e
de vestuário em Portugal e em mais países da U.E. é um
exemplo, entre muitos, das consequências de tal estratégia em que
estão associados os países "emergentes", as empresas,
muitas delas multinacionais, e poderosos interesses internos também
altamente beneficiados com tal politica.
|
Alguns dados oficiais tornam claro a dimensão dos desequilíbrios
existentes quer a nível mundial quer na própria União
Europeia e, consequentemente, também mais fácil a
compreensão dos seus efeitos devastadores . O quadro 1,
construído com dados divulgados pela OCDE, dá uma ideia dos
desequilíbrios que se têm vindo acumular no comercio mundial mesmo
em período de crise
Quadro 1 - SALDO DA BALANÇA DE BENS (Exportações menos
importações de mercadorias)
un.: Mil milhões de dólares
|
PAÍSES
|
2003
|
2004
|
2005
|
2006
|
2007
|
2008
|
2009
|
2010
|
Soma
|
|
Japão
|
88,5
|
110,5
|
79,1
|
67,7
|
92,1
|
18,9
|
28,7
|
75,7
|
+561
|
|
Coreia do Sul
|
15,0
|
29,4
|
23,2
|
16,1
|
14,6
|
-13,3
|
40,4
|
..
|
+125
|
|
Turquia
|
-22,1
|
-34,4
|
-43,3
|
-54,0
|
-62,8
|
-70,0
|
-38,8
|
-71,6
|
-397
|
|
Estados-Unidos
|
-581,4
|
-707,4
|
-828,0
|
-882,0
|
-854,6
|
-864,9
|
-545,2
|
-689,4
|
-5.953
|
|
UE 27
|
.. (?)
|
(?)..
|
-157,8
|
-230,1
|
-263,5
|
-358,4
|
-143,5
|
(?)..
|
-1.153
|
|
OCDE (total dos países)
|
-414,8
|
-515,8
|
-737,5
|
-871,0
|
-832,3
|
-1 006,7
|
-477,1
|
..
|
-4.855
|
|
Brasil
|
24,9
|
33,8
|
44,9
|
46,5
|
40,0
|
24,7
|
25,3
|
20,3
|
+260
|
|
China
|
25,5
|
32,1
|
102,0
|
177,5
|
263,9
|
298,1
|
196,1
|
181,8
|
+1.277
|
|
India
|
-13,1
|
-23,1
|
-40,5
|
-57,0
|
-72,7
|
-133,9
|
-89,6
|
..
|
-430
|
|
Rússia (Federação)
|
76,3
|
106,0
|
142,7
|
163,4
|
152,5
|
200,9
|
131,0
|
155,6
|
+1.129
|
|
Africa do Sul
|
-2,9
|
-7,3
|
-8,0
|
-15,9
|
-15,8
|
-13,6
|
-9,9
|
-8,7
|
-82
|
Fonte: Panorama das Estatísticas da OCDE.
O quadro anterior não inclui a totalidade dos países do mundo,
mas abrange a maioria do comercio internacional, e a conclusão imediata
que se tira é que a esmagadora maioria dos países desenvolvidos
(E.U.A, e U.E). apresentam balanças comerciais extremamente
deficitárias, enquanto países como o Brasil, a China, a
Rússia, o Japão e a Coreia acumulam elevados saldos positivos nas
suas balanças de bens. O desequilíbrio no comércio mundial
é evidente (os saldos negativos de uns países têm como
contrapartidas os saldos positivos de outros). A
desregulamentação total do comercio mundial está a
provocar fluxos comerciais desiguais inevitavelmente com efeitos negativos
muito grandes que não devem ser ignorados até para se poder
compreender as crises atuais.
No próprio seio da U.E. verificam-se profundos desequilíbrios
comerciais, sendo uma das causas mais importantes da grave crise que atingiu
vários países europeus.
Quadro 2 Balança Comercial (bens) Total dos países da
União Europeia
un.: Milhões euros
|
PAÍSES
|
2002
|
2003
|
2004
|
2005
|
2006
|
2007
|
2008
|
2009
|
2010
|
2011
|
SOMA
|
|
Bélgica
|
18.841
|
18.274
|
17.080
|
12.620
|
12.034
|
14.151
|
3.762
|
12.017
|
11.670
|
10.961
|
+131.410
|
|
Dinamarca
|
7.587
|
8.030
|
7.173
|
7.668
|
5.616
|
3.754
|
5.140
|
7.780
|
9.440
|
11.181
|
+73.369
|
|
Alemanha
|
132.771
|
129.905
|
156.078
|
155.809
|
160.420
|
194.259
|
177.525
|
138.868
|
153.964
|
156.853
|
+1.556.452
|
|
Irlanda
|
37.930
|
34.361
|
34.548
|
33.030
|
28.359
|
27.524
|
28.389
|
38.159
|
42.408
|
43.376
|
+348.084
|
|
Grécia
|
-22.373
|
-27.820
|
-30.108
|
-29.867
|
-34.143
|
-40.098
|
-45.008
|
-35.116
|
-31.841
|
-20.955
|
-317.329
|
|
Espanha
|
-41.685
|
-46.372
|
-60.863
|
-77.278
|
-91.573
|
-99.237
|
-94.717
|
-47.232
|
-54.762
|
-48.385
|
-662.104
|
|
França
|
2.598
|
-6.012
|
-15.145
|
-32.712
|
-36.677
|
-51.988
|
-68.367
|
-54.554
|
-65.015
|
-84.620
|
-412.492
|
|
Itália
|
7.838
|
1.604
|
-1.221
|
-9.369
|
-20.452
|
-8.596
|
-13.035
|
-5.876
|
-29.982
|
-24.630
|
-103.719
|
|
Chipre
|
-3.454
|
-3.156
|
-3.661
|
-3.899
|
-4.456
|
-5.269
|
-6.126
|
-4.716
|
-5.406
|
-4.872
|
-45.015
|
|
Letónia
|
-1.862
|
-2.070
|
-2.481
|
-2.842
|
-4.290
|
-5.117
|
-4.078
|
-1.512
|
-1.628
|
-2.236
|
-28.116
|
|
Lituânia
|
-2.422
|
-2.368
|
-2.480
|
-3.008
|
-4.167
|
-5.303
|
-5.067
|
-1.326
|
-2.002
|
-2.467
|
-30.610
|
|
Luxemburgo
|
-2.577
|
-2.535
|
-3.052
|
-2.803
|
-3.317
|
-3.718
|
-4.394
|
-2.862
|
-4.031
|
-4.989
|
-34.278
|
|
Malta
|
-654
|
-862
|
-903
|
-1.060
|
-1.204
|
-996
|
-1.237
|
-1.162
|
-1.113
|
-1.370
|
-10.561
|
|
Holanda
|
26.220
|
27.677
|
30.347
|
34.201
|
37.271
|
42.422
|
38.742
|
39.244
|
43.632
|
44.778
|
+364.534
|
|
Áustria
|
395
|
-2.109
|
-1.230
|
-1.724
|
-367
|
425
|
-2.043
|
-4.355
|
-4.865
|
-9.395
|
-25.268
|
|
Polonia
|
-14.981
|
-12.827
|
-11.777
|
-9.807
|
-12.909
|
-18.652
|
-26.072
|
-9.289
|
-13.823
|
-14.560
|
-144.697
|
|
Portugal
|
-15.068
|
-13.652
|
-15.404
|
-20.242
|
-20.654
|
-21.632
|
-25.347
|
-19.682
|
-20.291
|
-15.345
|
-187.317
|
|
Roménia
|
-4.206
|
-5.588
|
-7.346
|
-10.313
|
-14.895
|
-21.762
|
-23.469
|
-9.863
|
-9.526
|
-9.781
|
-116.749
|
|
Eslovénia
|
-612
|
-954
|
-1.123
|
-875
|
-726
|
-1.063
|
-1.976
|
-237
|
-674
|
-531
|
-8.771
|
|
Eslováquia
|
-2.283
|
-625
|
-1.702
|
-2.219
|
-2.488
|
-1.533
|
-1.883
|
310
|
-276
|
1.439
|
-11.260
|
|
Finlândia
|
11.556
|
9.422
|
8.101
|
5.411
|
6.237
|
6.072
|
3.178
|
1.409
|
539
|
-3.785
|
+48.140
|
|
Suécia
|
15.381
|
16.411
|
18.357
|
15.485
|
16.124
|
11.376
|
10.079
|
7.818
|
7.244
|
8.067
|
+126.342
|
|
Inglaterra
|
-88.705
|
-82.898
|
-98.994
|
-104.484
|
-128.834
|
-143.329
|
-126.200
|
-117.712
|
-132.108
|
-123.197
|
-1.146.461
|
Fonte: Eurostat
Os dados do quadro 2 revelam que existem grandes desequilíbrios nas
Balanças Comerciais do países que constituem a UE, que se
têm mantido apesar da crise, pois enquanto uns apresentam elevados e
contínuos saldos positivos (Bélgica, Dinamarca, Alemanha,
Holanda), outros apresentam elevados e persistentes défices
(Grécia, Espanha, França, Itália, Portugal,
Polónia, Inglaterra), sendo a maioria destes últimos precisamente
os países que enfrentam atualmente crises graves de divida, o que
naturalmente não surpreende já que os países com saldos
positivos têm também aplicado politicas de
consolidação orçamental que agravam a ainda mais a
situação dos países endividados. O caso da Irlanda
é diferente, já que todo o seu crescimento económico
tem-se baseado principalmente no investimento estrangeiro o que determinou um
crescimento rápido do PIB e das exportações, mas depois
uma parcela importante da riqueza criada na Irlanda é transferida para o
estrangeiro, sob a forma de dividendos, royalties, etc., o que determina que,
na U.E., a Irlanda seja o país em que a diferença entre o RNL
(Rendimento Nacional Liquido, ou seja, o que fica no país) e o PIB (a
riqueza total que é produzida no país) é a mais elevada,
ou seja, uma parte crescente e importante da riqueza produzida no país
não beneficia os irlandeses, mas sim grupos económicos
estrangeiros. Em 2011, o RNL representava na Irlanda apenas 70,8% do PIB,
enquanto a média na U.E. atingia 85,2% (em Portugal, era 77,8%). O
governo, ao pretender transformar Portugal num paraíso fiscal para as
empresas estrangeiras, segue o mesmo caminho de descapitalização
do país.
OS PAÍSES DO NORTE DA UE TÊM SIDO OS MAIS BENEFICIADOS COM OS
DÉFICES COMERCIAIS DOS PAÍSES DO SUL, O QUE CONTRIBUIU PARA AS
CRISES ATUAIS DESTES ÚLTIMOS
Dois dos países da zona do euro mais beneficiados com os
desequilíbrios comercias dos países do sul são a Alemanha
e a Holanda. O quadro 3, com dados do Eurostat, mostra com clareza isso.
Quadro 3- Exportações e saldo da balança comercial da
Alemanha e da Holanda com os países da União Europeia
un.: Milhões de euros
|
PAÍSES
|
2002
|
2003
|
2004
|
2005
|
2006
|
2007
|
2008
|
2009
|
2010
|
2011
|
|
Alemanha-Exportações .Totais
|
651.259
|
664.392
|
731.479
|
780.415
|
882.532
|
964.038
|
983.255
|
803.012
|
949.629
|
1.057.673
|
|
Alemanha Exportações para UE
|
412.715
|
431.129
|
472.272
|
501.637
|
561.348
|
623.856
|
622.664
|
500.699
|
570.915
|
627.196
|
|
% Exportações para UE/Total exportações
|
63,4%
|
64,9%
|
64,6%
|
64,3%
|
63,6%
|
64,7%
|
63,3%
|
62,4%
|
60,1%
|
59,3%
|
|
Alemanha-Saldo Balança Comercial com a UE
|
72.147
|
77.797
|
94.524
|
98.946
|
101.218
|
126.577
|
109.896
|
71.799
|
67.982
|
54.636
|
|
Holanda-Exportações totais
|
258.099
|
261.680
|
287.336
|
326.640
|
369.249
|
401.864
|
433.722
|
356.962
|
433.168
|
474.867
|
|
Holanda- Exportações para EU
|
207510
|
210366
|
229535
|
260683
|
292284
|
313779
|
342350
|
276227
|
334428
|
368249
|
|
% Exportações para UE/Total exportações
|
80,4%
|
80,4%
|
79,9%
|
79,8%
|
79,2%
|
78,1%
|
78,9%
|
77,4%
|
77,2%
|
77,5%
|
|
Holanda-Saldo Balança Comercial com a U.E.
|
79.546
|
81.934
|
92.909
|
116.108
|
127.038
|
133.624
|
152.316
|
120.389
|
152.991
|
168.454
|
Fonte: Eurostat
No período 2002-2011 (período do euro), cerca de 63,1% das
exportações da Alemanha e 78,9% das exportações da
Holanda foram para países da União Europeia tendo estes dois
países acumulado, neste período de 10 anos, um saldo positivo nas
suas balanças comerciais com os restantes países da União
Europeia , respetivamente, de 875.522 milhões e de 1.225.309
milhões . É evidente que estes elevadíssimos saldos
positivos obtidos por estes países nas suas balanças comerciais
no comércio intra-U.E. foram conseguidos à custa de elevados
défices provocados nos outros países da U.E., pois exportam para
estes países muito mais do que importam deles. Um dos países mais
afetado por estes desequilíbrios foi precisamente Portugal como revela o
quadro 4.
Quadro 4 Défices acumulados por Portugal nas balanças
comerciais com a China, Alemanha e Holanda Período 2007-2011
un,: Milhões de euros
|
DESIGNAÇÃO PAÍS
|
2007
|
2008
|
2009
|
2010
|
2011
|
SOMA
|
|
Exportações para a China
|
181
|
184
|
222
|
235
|
395
|
1 217
|
|
Importações da China
|
1 063
|
1 342
|
1 115
|
1 576
|
1 499
|
6 596
|
|
SALDO COM A CHINA
|
- 882
|
- 1 158
|
- 893
|
- 1 341
|
- 1 104
|
- 5 379
|
|
Alemanha - exportação
|
4 958
|
4 954
|
4 106
|
4 785
|
5 703
|
24 507
|
|
Alemanha - importação
|
8 368
|
8 595
|
6 790
|
7 913
|
7 118
|
38 784
|
|
SALDO COM A ALEMANHA
|
- 3 410
|
- 3 641
|
- 2 684
|
- 3 128
|
- 1 415
|
- 14 277
|
|
Holanda - Exportação
|
1 324
|
1 277
|
1 147
|
1 404
|
1.666
|
6 817
|
|
Holanda-Importação
|
2 838
|
3 025
|
2 738
|
2 932
|
2.753
|
14 287
|
|
SALDO COM A HOLANDA
|
- 1 514
|
- 1 748
|
- 1 591
|
- 1 528
|
- 1 088
|
- 7 469
|
|
SOMA DOS SALDOS
|
- 5 806
|
- 6 547
|
- 5 168
|
- 5 998
|
- 3 607
|
- 27 125
|
Fonte: INE
Em cinco anos (2007/2011), e em plena crise, Portugal acumulou saldos negativos com
a China, Alemanha e Holandas que totalizaram 27.125 milhões , e
que resultaram de importar desses países muito mais do que conseguiu
exportar para esses países. Tal facto contribuiu também para o
forte endividamento do país, uma das principais causas da crise em que
está mergulhado.
DESEQUILÍBRIOS NO COMERCIO INTERNACIONAL CONTRIBUEM PARA AS CRISES E
DETERMINAM A DESINDUSTRIALIZAÇÃO DE MUITOS PAÍSES
Uma das caraterísticas do pensamento económico dominante atual
é a incapacidade, por motivos ideológicos ou outros, de
compreender as consequências dos desequilíbrios globais e
regionais gerados por um comércio internacional liberalizado,
desregulado e desigual, policiado pela OMC. Quem faça uma análise
objetiva da realidade mundial atual, concluiu rapidamente que os saldos
positivos gigantescos verificados, de uma forma persistente, nas
balanças comerciais de certos países, são conseguidos
à custa de défices contínuos nas balanças de
outros, o que leva à acumulação de reservas enormes nuns
países e de dividas gigantescas em outros. Como esta crise mostrou, as
reservas enormes acumuladas em certos países acabaram por alimentar
fluxos de capitais que criaram condições propicias para a
especulação financeira, gerando crises como a atual.
As consequências dos desequilíbrios que se verificam no
comércio mundial e também dentro da U.E. não se limitam
às anteriores. Eles também contribuíram para a
desindustrialização crescente de muitos países, incluindo
Portugal. É certo que não foram a única razão, mas
certamente tiveram e têm um papel importante que não deve ser
subestimado. Nesta estratégia encontram-se associados as principais
economias emergentes (China, Brasil, India, Coreia do Sul, etc.) e grandes
grupos transnacionais, embora por razões diferentes. As economias
emergentes, com o objetivo de alcançar elevadas taxas de crescimento e
assim ascenderem a patamares de desenvolvimento mais elevados, adotaram modelos
de crescimento económico baseados fundamentalmente nas
exportações e na acumulação de reservas elevadas
através de um reduzido consumo interno (publico e privado). Para isso,
utilizam dois instrumentos que tornam as suas exportações
altamente competitivas no mercado internacional: baixos salários e
subavaliação da sua moeda através do controlo da taxa de
câmbio pelo governo (a chamada desvalorização cambial que
Portugal está impossibilitado de o fazer por pertencer à zona do
euro). Nesta estratégia, estes países têm tido poderosos
aliados empresas dos próprios países e os grandes grupos
transnacionais pois estes são também beneficiados com
tal estratégia, pois conseguem assim também obter elevadas taxas
de lucro. E como é que tal estratégia tem funcionado? As
economias emergentes, permitem aos grupos económicos transnacionais
instalarem-se nos seus países, por vezes associados a empresas
nacionais, e a tirar partido dos baixos salários e de uma moeda
subvalorizada, para tornar ainda mais baratos os produtos fabricados o que
permite a esses grupos, por um lado, apoderam-se de uma parte importante do
mercado interno desses países e, por outro lado, assaltarem, em conjunto
com as empresas dos países emergentes, os mercados dos países
desenvolvidos, eliminando competidores e provocando a
desindustrialização, aproveitando-se para isso da
desregulamentação e da liberalização do comercio
internacional policiado pela OMC. Os grupos económicos transnacionais,
que são também altamente beneficiados com tal estratégia,
funcionam como autênticos cavalos de troia instalados nos países
desenvolvidos, como sucede nos próprios EUA e França, onde
ex-membros dos governos americano e francês integram poderosos "
lobbys
" que defendem o comércio livre nomeadamente com a China. O que
aconteceu em relação aos têxteis portugueses, em que o
acordo Multifibras assinado pela Comissão Europeia no âmbito da
O.M.C. o teve em conta a situação da indústria nos
diferentes países da U.E., o que conduziu à
destruição de uma parte da indústria têxtil e do
vestuário em Portugal e em mais países da U.E. é um
exemplo, entre muitos, das consequências de tal estratégia em que
estão associadas os países "emergentes",grupos
económicos, e interesses poderosos dos países desenvolvidos.
Alguns, esquecendo as consequências para economias de países como
Portugal, e para os trabalhadores, já que tal estratégia faz
disparar o desemprego devido à destruição de setores de
atividade económica causada por uma concorrência global desigual,
o que tem servido como justificação para destruir o "modelo
social europeu", defendem-na com a esperança de que ela conduza, a
longo prazo, à eliminação do domínio da economia
mundial pelos grupos económicos transnacionais
(tal domínio seria eliminado pela China, por ex., que se apoderaria da
sua tecnologia),
e ao aparecimento de uma ordem internacional mais justa. No entanto, por um
lado, a evidência empírica não confirma, a nosso ver, que
isso seja inevitável e venha a acontecer e, por outro lado, como dizia
Keynes, a longo prazo, a geração atual já estará
morta. O objetivo mais correto, e aquele que tem em conta os interesses
nacionais seria, a nosso ver, o de um comércio internacional regulado,
que garantisse um maior equilíbrio do comercio entre todos os
países do mundo, permitindo um aproveitamento mais completo dos seus
recursos e um desenvolvimento sustentado e equilibrado. Re-industrializar o
pais, num quadro de comercio internacional desregulamentado e liberalizado
é, a nosso ver, uma tarefa difícil ou mesmo uma ilusão,
embora seja possível o aparecimento de empresas orientadas para nichos
de mercado e para substituir determinadas importações,
26/Novembro/2012
[*]
Economista.
edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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