Os leitores desculpem por estar continuamente a desconstruir os aumentos semanais dos combustíveis, mas eles estão a ter consequências dramáticas para as empresas e as famílias. O aumento dos combustíveis provoca por arrasto o aumento dos preços de todos os bens e até das taxas de juro do crédito à habitação (que não são consideradas pelo INE no cálculo da inflação oficial). Além disso, a inflação oficial engana, pois a inflação real não é igual para todos os portugueses. Trata-se de uma inflação média que faz lembrar a história da repartição de uma galinha entre duas pessoas. Uma come a galinha toda, mas a média dá meia galinha a cada pessoa. Também em relação à inflação oficial do INE acontece o mesmo. Até agosto de 2026, a inflação homóloga aumentou 3,3%, mais que a subida das pensões (máximo 2,8%) e dos salários da Função Pública (máximo 2,2%) e inflação anual aumentou 2,67% segundo o INE. No entanto, o cálculo desta taxa de inflação tem como base uma estrutura de despesa dos orçamentos familiares que não é real para as famílias de baixos rendimentos (a maioria). O INE considera que as famílias em Portugal gastam mensalmente do seu orçamento apenas 22,4% em alimentação e 15,1% em transportes. E são os preços destes bens e serviços que têm aumentado mais (alimentação: +5,76%; produtos energéticos: +4,29%). Portanto se o peso destas despesas no orçamento familiar for superior ao considerado pelo INE, a inflação para elas será superior à inflação oficial. E as taxas de juro do crédito à habitação não são consideradas pelo INE no cálculo da inflação oficial apesar de estarem a sufocar as famílias.
AUMENTOS DOS COMBUSTÍVEIS TODAS AS SEMANAS APESAR DO PREÇO DO BARRIL DE PETRÓLEO TER DESCIDO
Os gráficos 1 e 2 mostram os aumentos dos “preços sem impostos e taxas” do gasóleo e da gasolina 95 antes do início da guerra de Israel/EUA contra o Irão. Eles revertem integralmente para a petrolíferas. Por sua vez, os impostos (ISP+IVA) sobre o gasóleo e gasolina no mesmo período (23/2/2026-21/9/2026) revertem na totalidade para o Estado. Os dados são da Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG) do Ministério do Ambiente e Energia, portanto oficiais. E utilizamos gráficos para ficar mais claro e entendível, pois a maioria dos órgãos de comunicação social não falam disto. Para eles é tabu quem está a ganhar com os aumentos dos preços todas as semanas, e muito menos quantificam quantos milhões de euros as famílias e empresas estão a pagar a mais. Entre 15 e 22 de setembro de 2026, o preço do barril de petróleo Brent desceu de US$108,75 para cerca de US$98,50 dólares por barril, uma redução de 10,25 dólares, correspondente a 9,4%. Contudo, a GALP e outras petrolíferas aumentaram os preços e o governo, por arrasto e à socapa, também aumentou as suas receitas (tal qual a galinha que grão a grão enche o papo). Apesar disso, a ministra do Ambiente, talvez por não fazer contas, ou estar mal informada, repete monocordicamente que “o governo não ganha nada” o que é mentira como os gráficos provam. E ela acrescenta: deixem “funcionar o mercado”, talvez para a GALP aumentar mais os seus lucros.


Os dois gráficos feitos com base em dados oficiais mostram que tanto as petrolíferas como o governo estão a ganhar muito à custa das empresas e das famílias com os aumentos semanais dos preços dos combustíveis,
AS PETROLÍFERAS (GALP e outras) AUMENTAM AS SUAS RECEITA €327 MILHÕES/MÊS E O ESTADO €3 MILHÕES/MÊS

Segundo a DGEG, nos primeiros sete meses de 2026 consumiram-se 3101,5 milhões de litros de gasóleo e 989,9 milhões de litros de gasolina 95, o que dá uma média mensal de 443 milhões de litros de gasóleo e 140,9 milhões de litros de gasolina. Multiplicando esta quantidade de gasóleo e de gasolina pelo aumento dos preços do gasóleo e da gasolina sem impostos (0,605€ e 0,416€ por litro) e pelo aumento dos impostos neste período sobre o gasóleo e gasolina (0,005€ e 0,005€ por litro) obtém-se um aumento de receita para as petrolíferas de €327 milhões e para o Estado de €3 milhões por mês. Um autêntico maná para ambos à custa dos consumidores (famílias e empresas) que o governo e os media procuram ocultar.