Despedir trabalhadores, fechar agências, vender ativos e transformar a
CGD numa "Caixinha"
Será este o plano da administração de Paulo Macedo
para a Caixa Geral de Depósitos?
Elaborei este estudo para mostrar que há alternativas ao que está
a ser feito na CGD e que a solução para a mesma não
é despedir trabalhadores, fechar agências, vender ativos como
parece ser a intenção da administração de Paulo
Macedo. Há outra opção que passa por consolidar a CGD,
torna-la rentável, respeitar os direitos dos trabalhadores e por a CGD
ao serviço do país.
Devido à ameaça real de despedimentos na CGD, introduzi no
inicio deste estudo um ponto especifico com o objetivo de informar os
trabalhadores sobre as consequências da aceitação do
despedimento por mutuo acordo para que possam tomar uma decisão
devidamente informada, e para que não se arrependerem mais tarde por
não estarem informados quando já nada se pode fazer.
Como o estudo é longo coloquei um Índice logo no inicio para o
leitor poder ir à parte que lhe interessar.
INDICE
1-
A ameaça real de despedimentos na CGD e a informação aos trabalhadores
2-
Há outras alternativas na CGD
3-
Limitações ao estudo devido à informação insuficiente dos relatórios e contas
4-
O risco elevado da exposição da CGD em títulos que se agravou em 2017
5-
A queda do negócio bancário e a nova administração nada faz para inverter
6-
A elevada distorção na concessão de credito que é necessário corrigir
7-
O elevado credito em risco e a falta de uma ação eficaz de recuperação
8-
A venda pela CGD de uma carteira de crédito de 476 milhões e os seus efeitos
9-
O aumento enorme dos Ativos não correntes detidos para venda
10-
A redução dos recursos dos clientes e o aumento das comissões
11-
Apenas uma parte do recente aumento de capital foi para Capital social. Porquê?
12-
O aumento do "Produto bancário core" à custa dos depositantes
13-
A redução do "cost-to-income" à custa de grandes cortes nos custos operacionais
14-
O corte enorme nas despesas com pessoal que se pretende aumentar ainda mais
15-
Uma politica de remunerações de dois pesos e duas medidas na CGD
16-
A eventual venda de ativos necessários para que a CGD cumpra a sua missão
17-
Reflexões finais sobre a missão da CGD como banco público
A situação atual e o que se está a passar na CGD devia
merecer uma atenção muito especial por parte de todos os
portugueses e, nomeadamente, daqueles que defendem o banco público
como instrumento fundamental para o crescimento económico sustentado,
para o desenvolvimento do país e para a independência nacional.
Não basta fazer grandes declarações sobre o controlo
público da banca, considerar que a CGD é uma peça
fundamental para a recuperação económica do país, e
depois não prestar a devida atenção
àquilo que está em curso na CGD. E tudo
isto ganha uma importância maior quando a maior parte do setor financeiro
português já está sob o controlo estrangeiro. Elaborei este
estudo num momento extremamente difícil para a CGD e para os
trabalhadores da CGD. Ele tem como objetivo mostrar que, contrariamente ao que
afirma a administração e seus mentores, incluindo a
Comissão Europeia, há outras alternativas. É o meu
contributo na defesa da CGD e dos seus trabalhadores, esperando que ele seja
útil.
1. A AMEAÇA REAL DE DESPEDIMENTOS NA CGD E A INFORMAÇÃO
QUE OS TRABALHADORES DEVEM CONHECER: o governo diz que não haverá
despedimentos mas Paulo Macedo quer fazer despedimentos
Contrariando as declarações e compromissos tanto do 1º
ministro como do ministro das Finanças, a administração da
CGD divulgou em 26/6/2017, um designado
"Programa de Revogações por Mutuo Acordo"
(RMA) em que é dado a todos os trabalhadores das "entidades
do grupo CGD" a
oportunidade
para se candidatarem livremente, até 26 de Setembro, ao despedimento
voluntário ou àquilo, que a administração da CGD
designa por programa para
"cessar os respetivos contratos",
ou então
(e esta parte é que é grave e viola os compromissos
públicos do governo)
sujeitam-se à "inclusão no programa RMA" (programa de
despedimentos)
ser realizada "por iniciativa da CGD ou de Entidades do grupo CGD, de
trabalhadores cujos
postos, atentas as necessidades de
reorganização e os objetivos estabelecidos deverão ser
suprimidos".
E os trabalhadores a
"suprimir
", de acordo com a administração da CGD, vão ser
identificados com base na
"avaliação de desempenho, o custo, o absentismo, e as
habilitações académicas",
ou seja, em critérios muito abrangentes e generalistas que poderá
levar à inclusão de qualquer trabalhador da CGD. Portanto, a
ameaça de despedimento é real.
É evidente que uma comunicação deste tipo, que não
respeita os compromissos públicos do governo, embora a
administração da CGD diga o contrário, criou
insegurança e medo na CGD, e causa a desmotivação dos
trabalhadores. Será tudo isso o que se pretende?
Embora a decisão de aceitar ou não o despedimento
voluntário por mútuo acordo só compete a cada trabalhador,
é fundamental que ele esteja bem informado, pois as consequências
na sua vida futura são muito grandes.
Uma decisão desta natureza só deve ser tomada depois de uma
informação completa e credível, e dada por quem não
tenha conflitos de interesse, o que significa que não deve ser apenas a
dada pelos serviços da CGD. E isto, repetimos, para que mais tarde o
trabalhador não se arrepender, mas nessa altura já não
há nada a fazer.
É importante também que cada trabalhador não se deixe
intimidar.
Embora a administração e direções afirmem que
não haverá despedimentos, no entanto é de prever que ela a
nível de serviços fixe objetivos de trabalhadores a
"suprimir" e que os trabalhadores depois sejam objeto de
pressão e de assédio para aceitar o despedimento. Por isso,
é muito importante que não se deixem intimidar, e antes de tomar
qualquer decisão se informem muito bem sobre as suas consequências
na sua vida.
O trabalhador não deve hesitar em escolher a melhor decisão para
si depois de se informar devidamente.
Neste documento, vamos dar algumas informações importantes para
alertar os trabalhadores da CGD sobre as consequências do despedimento
por mutuo acordo, que depois devem ser completadas com
informações ajustadas a cada caso concreto e pessoal. Para isso
devem recorrer ao seu sindicato se acharem necessário.
O primeiro aspeto importante a ter presente pelos trabalhadores abrangidos
pelo sistema da CGA,
é se aceitarem o despedimento perdem o direito ao regime atual do Fundo
de Pensões e passam a ser abrangidos pelo regime da CGA que é
muito diferente. A idade de acesso à reforma deixa de ser a do Fundo de
Pensões e passa a ser a da CGA que, em 2017, é 66 anos e 3 meses,
e que depois aumenta, em média, um mês em cada ano.
Em segundo lugar, a fórmula de cálculo da pensão da CGA
é muito diferente da do Fundo de Pensões.
Por ex, a taxa de formação anual da pensão na CGA
é de 2% por cada ano, ou seja, por cada ano de serviço o
trabalhador tem direito, como pensão, a 2% do salario de
referência atualizado, portanto o trabalhador para ter direito à
pensão completa que corresponde apenas a 80% do seu salário
atualizado tem de ter 40 anos de serviço.
Portanto, é importante que o trabalhador antes de tomar qualquer
decisão compare o regime da CGA, que passará a ser o seu, com o
do Fundo de Pensões, que é aquele que atualmente lhe é
aplicado
(se não souber deverá informar-se junto do seu sindicato).
Para além disso, os trabalhadores que aceitarem o despedimento nunca
mais poderão descontar para a CGA, portanto se já não
tiverem 40 anos de serviço nunca mais terão direito à
pensão completa paga pela CGA. E enquanto a lei não for mudada,
como já não estão no ativo, não poderão
pedir a aposentação antecipada. Só poderão se
aposentar quando atingirem a idade normal de acesso à
aposentação que, em 2017, é de 66 anos e 3 meses, mas que
aumentará , em média, um mês em cada ano, como já
referimos.
Em relação aos trabalhadores da CGD abrangidos pela
Segurança Social
, se aceitarem o despedimento por mutuo só poderão pedir a
reforma antecipada se tiverem aos 60 anos de idade 40 anos de serviço, e
a pensão está sujeita a um corte pelo facto do trabalhador ter
idade inferior à idade de acesso à reforma (0,5 % por cada
mês que falte para 66 anos e 3 meses em 2017, que deve aumentar no futuro
um mês em cada ano). E os que se reformarem ao abrigo do regime de
reforma antecipada após desemprego de longa duração, a
pensão sofre 3 cortes: (a) 6% por cada ano que tiver a menos em
relação a 62 anos de idade;(b) 3% por cada ano que lhe falte
para ter 66 anos e 3 meses; (b) E ainda é-lhe aplicado o fator de
sustentabilidade que representa este ano um corte de 13,8% (
mas que deve aumentar todos os anos)
na pensão que o governo não quer eliminar neste regime. Os
cortes (a) e (c) são para toda vida, o corte (b) é eliminado
quando chegar à idade de reforma
(66 anos e 3 meses em 2017, mas que deve aumentar todos os anos um mês)
.
Portanto,
o primeiro conselho que dou aos trabalhadores da CGD é que não
aceitem o despedimento sem antes se informarem muito bem sobre os efeitos do
mesmo por mutuo acordo na sua pensão
.
O segundo aspeto importante que devem ter presente,
é que contrariamente ao que podem pensar a indemnização
por despedimento por mutuo acordo (despedimento voluntário) está
sujeita a pagamento de IRS e a descontos para a CGA ou para a Segurança
Social, portanto o valor liquido, ou seja, aquele que vão efetivamente
receber, é diferente do valor ilíquido, ou seja, do valor que
consta da comunicação da administração da CGA
Segundo o Código do IRS (artº 2º, nº 4, alínea b)
a parcela da indemnização que exceda um mês de
remuneração por cada ano de antiguidade tem de pagar IRS. O
mesmo sucede em relação à Segurança Social e
à CGA (a esta aplica-se mesmo regime) segundo os artº 46º e
48º do Código Contributivo. Assim se a indeminização
por despedimento por mutuo acordo for 2,1 remunerações (mensal)
por cada ano de antiguidade, então 1,1 remuneração (2,1
1) por cada ano de antiguidade paga IRS e desconta para a CGA ou para a
Segurança Social; se a indemnização for 1,6 meses por cada
ano de antiguidade então desconta para IRS e CGA sobre 0,6 da
remuneração por cada ano de antiguidade. Em relação
ao IRS, como o pagamento é feito num mês esse excedente é
somado à remuneração do mês, o que dá um
valor elevado, e a taxa de retenção de IRS é muito elevada
e atingindo 45,2% para rendimentos superiores a 25.200. Para a CGA e
Segurança Social o desconto é de 11%.
Portanto, o segundo conselho que dou aos trabalhadores da CGD é que
não
aceitem o despedimento sem antes fazer contas
(se o pressionarem para se despedir peçam qual é o valor liquido
da indemnização após o pagamento do IRS e da
contribuição para CGA/Segurança Social e não o
valor que consta da comunicação da administração),
pois poderão ter surpresas
desagradáveis, já que podem pensar que vão receber um
valor de indemnização e depois recebem um outro bem diferente,
muito inferior. Façam contas.
Há outros aspetos da comunicação da
administração que os trabalhadores da CGD devem ler e analisar
com muita atenção para não criar falsas espectativas.
Em relação aos "Benefícios complementares
opcionais", devem ter presente que para os ter
(alguns são temporários)
a indemnização de 2,1 remunerações
(caso dos abrangidos pela CGA)
ou de 1,6 remunerações
(caso dos abrangidos pela Segurança Social)
por cada ano de antiguidade é reduzida. Por ex. para ter todos os
benefícios opcionais a indeminização de 2,1
remunerações mensais por cada ano de antiguidade é
reduzida para apenas uma remuneração mensal por cada ano de
antiguidade
(0,3+0,1+0,2+0,5= 1,1 logo deduzindo 1,1 a 2,1 fica apenas 1
remuneração por cada ano de antiguidade).
Para além disso, o trabalhador abrangido pela CGA, que opte por receber
o sucedâneo do subsidio de desemprego, que determina que a
indeminização 2,1 remunerações por cada ano de
antiguidade seja reduzida para 1,6 remunerações (2,1-0,5=1,6) por
cada ano de antiguidade, logo que arranje emprego perde o direito a essa
compensação mesmo que a soma do valor recebido seja inferior ao
valor da indemnização que teve de abdicar.
É por tudo isto, que aconselhamos os trabalhadores da CGD a não
tomar uma decisão precipitada e de ânimo leve, e a não se
deixarem intimidar por eventuais pressões de chefias ou de outros
responsáveis
, e que se informem muito bem das consequências, pois depois de aceitarem
o despedimento a situação é irreversível.
2. HÁ OUTRAS ALTERNATIVAS NA CGD QUE NÃO DESPEDIR MAIS
TRABALHADORES, FECHAR MAIS AGÊNCIAS E VENDER ATIVOS QUE SÃO
IMPORTANTES PARA QUE A CGD POSSA CUMPRIR A SUA MISSÃO
Contrariamente àquilo que a administração da CGD e os seus
mentores pretendem fazer crer, há alternativas aos enormes aumentos de
cortes de custos, ao despedimento de elevado numero de trabalhadores, ao fecho
de inúmeros balcões, e à venda de ativos importantes para
a CGD. É isso que vamos procurar mostrar neste estudo, que pode ser
longo para muitos, mas que é importante que se analise com detalhe os
problemas mais importantes que a CGD enfrenta, pois só assim é
que poderá ficar claro o que é preciso fazer, e não
está a ser feito, facto este que contribui para agravar assim os
problemas para depois utilizar para justificar as medidas que se pretendem
tomar.
A CGD é atualmente a instituição financeira ainda
líder, pois detém 22% da quota do mercado bancário.
É sem dúvida muito importante recuperar e tornar a CGD
rentável
. E isto porque só assim é que a CGD, por um lado, pode gerar
internamente capital para evitar que os contribuintes sejam obrigados a
recapitalizar de novo a CGD face às exigências crescentes dos
supervisores (BdP e BCE) e, por outro lado, consolidar a sua
posição de banco líder, desempenhar a sua missão
como grande banco público, e respeitar os direitos dos trabalhadores.
Neste momento, duas opções claramente opostas se confrontam na
CGD e é importante que todos tenham consciência disso para
não poderem dizer mais tarde que não sabiam.
E essas opções são as seguintes: (1) A primeira, com a
justificação de que para tornar a CGD rentável, defende
que é necessário fazer uma redução enorme de
trabalhadores
(despedimentos com "mútuo acordo", despedimentos mesmo
forçados, e pré-reformas)
e fechar muitas mais agências. Esta opção, que parece ser
a da atual administração utilizando para isso o plano de
reestruturação cozinhado por António Domingues e aprovado
por Bruxelas, a avançar, com a configuração que
está em curso, transformará inevitavelmente a CGD numa
"mini-CGD"
ou numa
"Caixinha",
embora os seus defensores afirmem desejar o contrário, deixando assim
o campo aberto para a banca privada controlada por estrangeiros se expandir
ainda mais e aumentar o seu domínio sobre a economia e a sociedade
portuguesa; (2) A 2ª opção, aposta no aumento do
negócio bancário (
credito à economia e às famílias),
na recuperação do crédito em risco, na
redução dos NPL´s e dos "ativos não correntes
detidos para venda", etc., tarefas difíceis tendo em conta o
contexto negativo para o negócio bancário, mas absolutamente
necessárias para consolidar a CGD com grande banco público e para
a tornar rentável de uma forma sustentada que parece não
preocupar os defensores da 1ª opção mais interessados em
cortar custos e em reduzir a dimensão da CGD.
Neste estudo procura-se identificar os pontos fracos
(weaknesses)
mais importantes da situação atual da CGD pois só assim
será possível definir, de uma forma fundamentada, uma
estratégia e medidas adequadas visando a recuperação e a
consolidação da CGD.
É a
nossa contribuição para a reflexão, que pretende ser
também um alerta, na defesa deste grande banco público e dos seus
trabalhadores e uma ajuda às suas organizações.
3. LIMITAÇÕES DO ESTUDO DEVIDO À INSUFICIENTE
INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR DISPONIBILIZADA DEVIDO À
COMPLACÊNCIA DO SUPERVISOR
A análise que se vai fazer tem limitações devido ao facto
da
informação complementar
disponibilizada nos relatórios e contas dos bancos
,
apesar de ser muito importante para se poder avaliar a situação
de cada banco e a qualidade da sua gestão de uma forma fundamentada,
não estar normalizada
(essa é uma responsabilidade do BCE e do BdP que, infelizmente, fogem a
ela),
o que permite que uns bancos divulguem um tipo de informação e
outros não
(ex.:crédito repartido por tipo de garantias, "write-off", etc)
,
e também que o mesmo banco divulgue num ano um tipo de
informação e no ano seguinte já o não faça
porque isso não lhe convém
(ex. CGD que, em 2015, divulgou informação sobre o credito
às micro e PME´s e, em 2016, sobre "write-off" mas que,
em anos anteriores e seguintes, já o não fez)
. E isto é grave porque, para quem conhece a realidade bancária,
sabe bem que o mais importante não é sempre o que consta das
contas oficiais, mas o que não consta delas e que muitas vezes se fica a
conhecer através da informação complementar
(o chamado Anexo às Demonstrações Financeiras)
que muitos não dão a devida atenção porque
dá muito trabalho analisá-las. O BCE, e o Banco de Portugal, como
supervisores, deviam por cobro a isso normalizando a informação
complementar, para criar confiança e segurança mas, infelizmente,
não o fazem apesar da obrigação que decorre da
IFRS7
e da
CRR 575/2013, Parte VIII, do Parlamento Europeu e Conselho
, dando cobertura aos que interessam a opacidade.
A CGD, como banco público devia dar o exemplo, mas infelizmente
também isso não acontece, pois não divulga dados
essenciais
(ex. novo credito, ou seja, produção nova anual; credito a micro
e PME´s e grandes empresas segmentado; credito repartido por tipo de
garantias assim como o mesmo em relação ao crédito com
imparidades, e o anulado por tipo de garantias, ou seja, os
"write-off" realizados em cada ano e segmentados; carteira anual
vendida, preço, e seu impacto a nível de contas individuais e
consolidadas; etc.).
E isto apesar de alguns destes dados serem publicados por outras
instituições financeiras, e mesmo a CGD publica-os quando
está interessada que sejam conhecidos, o que não colhe a
justificação de confidencialidade.
É um alerta que se deixa ao BCE, ao Banco de Portugal e à
administração da CGD para que seja normalizada a
informação complementar que é fundamental também
para se saber qual é a situação de cada banco e para se
poder avaliar a qualidade da sua gestão de uma forma fundamentada, e
também para se poder fazer análises da mesma
instituição financeira em momentos diferentes e assim se poder
avaliar a sua recuperação.
A confidencialidade da atividade bancária não pode continuar a
ser utilizada para ocultar a má gestão e a gestão danosa,
como tem acontecido, que depois é paga por clientes, investidores e
até pelos contribuintes. É certamente incompreensível para
a opinião pública que se divulguem, e bem, os nomes dos que
têm dividas ao fisco e à Segurança Social, mas se oculte os
nomes daqueles que não pagam os grandes créditos à banca
que depois têm de ser pagos pelos acionistas, clientes e pelos
contribuintes. E isso é ainda mais grave quando essa recusa é
feita em relação à própria Assembleia da
República. Se a atividade bancária fosse mais transparente
certamente as administrações dos bancos sentir-se-iam mais
responsáveis pelas decisões, e seriam certamente mais facilmente
responsabilizadas pela gestão danosa, e os supervisores não
poderiam utilizar, a nível da opinião pública, a desculpa
de que não sabiam e que foram enganados, e por isso não
intervieram no momento adequado.
4. O RISCO DA ELEVADA EXPOSIÇÃO DA CGD EM TÍTULOS QUE SE
AGRAVOU COM A ATUAL ADMINISTRAÇÃO QUANDO TUDO ACONSELHAVA A
REDUZI-LA
Um ponto fraco
(weaknesses)
da situação atual da CGD,
prende-se com a sua elevada exposição a títulos. Embora a
CGD não seja um banco de investimento, o certo é que tem uma
elevada exposição a ativos financeiros (títulos),
já que uma percentagem muito elevada do seu Ativo está aplicada
em títulos. No fim de 2016, as aplicações em
títulos (15.581 milhões ) representavam 16,6% de todo o
Ativo liquido e, em 31.3.2017, essa exposição tinha aumentado
para 18,2% (17.562 milhões ), o que é a mais elevada entre
todas as instituições financeiras, e determina riscos elevados,
pois o seu valor depende das flutuações do mercado
(yields)
. Com a baixa da taxa de juro verificada na divida portuguesa, vários
bancos obtiveram mais-valias importantes no 2º Trim.2017 vendendo divida,
o que lhes permitiu "
compor
" o "
Produto bancário"
através de "
resultados de operações financeiras
"
Para uma melhor compreensão dos efeitos nas contas da CGD da elevada
carteira de títulos transcreve-se a nota da pág. 188 do
relatório e contas de 2016, que esclarece como as
variações no valor destes títulos se refletem nas contas:
"
Os ativos financeiros disponíveis para venda são mensurados ao
justo valor
. Os ganhos ou perdas resultantes da reavaliação
são registados diretamente em capitais próprios, na rubrica de
"Reservas de reavaliação
",
o que reduz o Capital próprio aquando de menos-valias
. "
No momento da venda, ou caso seja determinada imparidade, as
variações acumuladas no justo valor são transferidas para
proveitos ou custos do exercício, sendo registadas em "Resultados
de ativos financeiros disponíveis para venda" ou "Imparidade
de outros ativos financeiros líquida de reversões e
recuperações
" com
efeitos nos resultados
. Entre 2015 e 2016, as "
Reservas de reavaliação instrumentos de divida"
passaram do positivo (+169,8 milhões ) para um valor negativo
(-93,4 milhões ), e os resultados de operações
financeiras diminuíram também de 345,8 milhões e para 79,4
milhões . Entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, os
resultados de operações financeiras passaram de um valor negativo
de -98,1 milhões para um valor positivo de +80,7 milhões
.
Estes dados dos relatórios e contas mostram claramente a extrema
volatilidade deste negócio e os riscos que representa para a CGD.
Entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, embora as
imparidades de crédito
tenham-se reduzido de 67,7 milhões para apenas 28,3
milhões , as "
provisões e imparidades de outros ativos"
aumentaram, no mesmo período, de 16 milhões para 84,4
milhões , o que determinou que, entre o 1º Trim.2016 e o
1º Trim.2017, as imparidades e provisões totais tenham aumentado de
83,7 milhões para 112,7 milhões , ou seja,
registaram neste período uma subida de 34,6%.
Embora a divida pública tenha vantagens quer a nível do Ativo
ponderado pelo risco (RWA) quer pelo facto de poder ser utilizada como
colateral junto do BCE, no entanto face à sua dimensão
(52% da aplicação em títulos)
torna-se necessário uma análise cuidadosa do risco resultante
desta elevada exposição a títulos
(fazendo testes de sensibilidade)
e, a confirmarem-se os riscos, medidas adequadas para os reduzir
,
pois o dinheiro dos contribuintes e dos clientes não deve ser utilizado
para aplicações de elevado risco
(especulativas)
, já que essa não é missão de um banco
público.
5. O NEGÓCIO BANCÁRIO CONTINUA A CAIR E A NOVA
ADMINISTRAÇÃO NADA TEM FEITO PARA INVERTER A
SITUAÇÃO
Um outro ponto fraco
(weaknesses)
revelado pelas contas da CGD, é a continuação da queda do
crédito concedido. Entre 2010 e 2016, verificou-se uma
redução continuada
(em todos os anos)
do crédito quer bruto quer liquido, ou seja, do negócio
bancário, que não foi invertida no 1º Trimestre de 2017.
Entre 2010 e 2016, o crédito bancário bruto diminuiu de 84.517
milhões 68.500 milhões
(-16.017 milhões )
e o crédito liquido passou de 81.907 milhões para 62.867
milhões
(-19.040 milhões ).
E, em 2016, verificou-se a reclassificação de 2.276,99
milhões referentes aos três veículos do BPN
(ainda uma consequência da nacionalização do BPN que
continua por se resolver)
que estavam contabilizados em "
Ativos financeiros disponíveis para venda"
e que passaram a ser contabilizados em "
crédito interno
" conforme consta das notas 6 e 9 (págs. 211 e 219) do
relatório e contas de 2016. Portanto, se deduzirmos este valor a
redução do credito em 2016 ainda foi maior.
No 1º Trim.2017, já com a nova administração, esta
queda do crédito não parou pois, em 3 meses apenas, o
crédito bruto diminuiu em -1.362 milhões
(passou, entre Dez.2016 e 1º Trim.2017, de 68.500 milhões
para 67.138 milhões ),
e o crédito líquido reduziu-se em -1.309 milhões
(passou de 62.867 milhões para 61.558 milhões ).
Embora o relatório da CGD, à semelhança do dos outros
bancos, se caraterize por falta de transparência nesta área, pois
não são divulgados anualmente dados sobre a
produção nova (crédito novo), sobre as
liquidações, as amortizações e o credito abatido
por segmentos, mesmo assim a conclusão imediata que se tira é que
o novo crédito concedido continua a não ser suficiente para
compensar o crédito que é liquidado, amortizado e abatido
(write-off).
Esta redução continuada do crédito líquido, que se
verificou também no 1º Trim.2017 determinou que a CGD tenha perdido
quota de mercado. Entre 2015 e 2016, segundo o relatório e contas,
não só a
quota total de mercado
diminuiu de 22,5% para 21,8%, mas também caiu em quase todos os
segmentos:
Empresas:
passou de 19,8% para 18,8%;
Particulares
passou de 23,6% para 23%, reduzindo-se 0,4 p.p. na
Habitação e no consumo
diminuiu 0,3p.p.. Apenas aumentou no
setor público administrativo
que subiu de 33,3% para 34,4%. No 1º Trim.2017 parece ter havido uma
inversão desta tendência que resultou do facto da
contração do crédito a nível sector ter sido maior
do que na CGD.
Se analisarmos a evolução do
"rácio de transformação"
ou de desalavancagem
(crédito liquido a dividir por depósitos),
um rácio que pode ser também utilizado para medir a
eficiência da equipa de gestão, ou seja, a sua capacidade para
fazer negócio, constatamos que, entre 31.Dez.2010 e 31.Março2017,
passou de 121% para apenas 88,1%. Isto significa que, em 2010, a CGD por cada
100 de depósitos que recebia emprestava, através do credito
que concedia, 121, enquanto no 1º Trim.2017 por 100 de
depósitos que recebeu emprestou apenas 88,1 , ou seja, o valor
dos depósitos é bastante superior ao credito que concede. E se
somarmos aos depósitos as "
responsabilidades representadas por títulos
", que são também recursos de clientes, este novo
rácio, que designamos por
"rácio de transformação-2"
já baixa para apenas 83,3%, o que significa que por cada
100 de recursos de clientes a CGD só emprestou
(concedeu crédito)
um valor de 83,3.
É também um indicador, se diminuir em excesso, como acontece
atualmente, de ineficiência de gestão que importa rapidamente
corrigir, pois o "
gap"
comercial é cada vez maior
.
O grande desafio que se coloca à nova administração, e que
parece ser incapaz de responder, até porque os seus membros não
têm uma grande experiencias bancária, é inverter esta
quebra continuada do negócio bancário o que, embora
difícil, tendo em conta o contexto económico e social negativo
para a banca, é necessário e urgente. Por isso,
um plano credível para aumentar o negócio bancário, que
devia ser depois apresentado e explicado aos trabalhadores para os mobilizar
para os seus objetivos, parece ser fundamental, o que ainda não foi
feito pois os trabalhadores continuam a não o conhecer.
O que se tem verificado na CGD, de acordo com informações de
trabalhadores, é a multiplicação de ameaças e de
exigências que não se fundamentam nem se explicam a forma como
podem ser alcançadas. A continuar com tal atuação
criar-se-á na CGD um ambiente de insegurança e de
desmotivação com consequências graves para a
instituição e para os trabalhadores.
É uma situação que deve ser rapidamente corrigida pois,
caso contrário, é-se obrigado a concluir que o aumento do
negócio bancário não constitui, de facto, uma
preocupação importante para a atual administração
da CGD.
Associada à situação anterior, segundo
informação dos trabalhadores,
tem-se verificado na CGD uma morosidade excessiva na aprovação de
pequenos créditos que agora têm de ir ao conselho de
administração e que, por vezes, são recusados.
Compreende-se a decisão de controlar com maior rigor o risco, o que
não se observava no passado e que determinou enormes prejuízos
para a CGD. Mas a burocratização e morosidade do processo de
concessão de crédito que se está a verificar, a manter-se,
determinará a desmotivação quer dos trabalhadores da CGD (
a quem cabe promover a concessão de crédito)
quer dos próprios clientes levando-os a mudar de banco, como
está a suceder.
É um aspeto importante que deveria ser corrigido pois, caso
contrário, o estrangulamento do crédito será ainda maior
com efeitos graves para a recuperação e
consolidação da CGD e para a economia e desenvolvimento do
país.
6. A ELEVADA DISTORÇÃO NA CONCESSÃO CRÉDITO QUE A
ATUAL ADMINISTRAÇÃO AINDA NÃO MOSTROU O QUE VAI FAZER
"Esquecendo-se" que era um banco público, financiado pelos
contribuintes portugueses, e que por isso tinha uma missão que
não coincidia com a dos bancos privados, a CGD promoveu, no passado, a
especulação imobiliária e apoiou mais as grandes empresas,
"desprezando" as micro e PME´s que constituem mais de 95% do
tecido empresarial português. O quadro 1, com dados dos relatórios
e contas, confirma esse facto.
Na CGD, o crédito a empresas representa apenas cerca de 1/3 de todo o
crédito concedido em Portugal pela CGD, e é esse crédito
que tem registado maior redução
(entre Dez.2015 e Mar.2017, o credito total diminuiu -5,2%, mas o credito a
empresas reduziu-se em -13,3%).
Por outro lado, e isso aumenta a gravidade da situação,
a
análise do crédito concedido a empresas mostra que as atividades
essencialmente produtivas
agricultura e pescas, e indústria transformadora
não têm sido as atividades mais apoiadas pela CGD. O
quadro 2, com dados dos relatórios e contas, confirma precisamente isso.
Embora os dados dos quadros 1 e 2, relativos a empresas sejam diferentes
(não incluímos os do 1º Trim.2017, porque a CGD não
os divulgou)
, mas são estes os que a CGD divulga, o primeiro em
relação ao crédito da CGD concedido em Portugal, e o
segundo, embora não esclareça, deve ser o crédito
concedido pelo grupo
(o que mostra bem o tipo de consistência da informação
divulgada pela banca em Portugal perante a passividade do supervisor);
repetindo, embora com a falta de consistência referida, pois não
se refere ao mesmo universo, mesmo assim os dados do quadro 2 permitem tirar
algumas conclusões importantes, a saber: mesmo com a
diminuição do credito à construção e
à atividade imobiliária, a soma do credito concedido à
"Agricultura, silvicultura e pescas e às Industrias extrativas e
transformadoras"
(4.310 milhões em 2015, e 4.015 milhões em 2016),
continua a ser muito inferior ao crédito concedido à
"Construção e atividade imobiliária"
(11.411 milhões em 2015, e 9.199 milhões em 2016)
ou às
"Atividades financeiras e outras"
(8.384 milhões em 2015, e 8.772 milhões em 2016)
. E embora a CGD não divulgue dados do crédito concedido a
empresas segmentado por dimensão
(um outro exemplo da opacidade existente na banca)
é de prever que mais de 70% do crédito a empresas tenha sido
concedido a grandes empresas.
Este é também um outro ponto crítico e uma
situação que urge alterar pois não se adequa a um banco
público como é a CGD desconhecendo-se qual será a politica
da atual administração nesta área fundamental para o
país.
7. O ELEVADO CRÉDITO EM RISCO E EM INCUMPRIMENTO E A NECESSIDADE DE UMA
AÇÃO EFICAZ PARA OS REDUZIR, O QUE AINDA NÃO SE VIU
Um outro ponto critico
(weaknesses)
identificado pela análise das contas e que merece uma reflexão
muito atenta é o elevadíssimo montante de crédito em risco
e, associado a ele,
a deficiente recuperação deste credito, já que não
são divulgados dados concretos nos relatórios e contas sobre os
resultados obtidos
(em 2016, aparece apenas o valor de 19,2 milhões em fluxos de
Caixa o que é um valor ridículo).
Como consequência de uma política de crédito em grande
parte orientada para apoiar a especulação em que era dada
à função de risco uma importância reduzida, a CGD
acumulou enormes montantes de credito em incumprimento, em que uma parte
já se transformou em perdas efetivas de crédito por se ter
concluído, de uma forma fundamentada (?!), que era impossível
receber. Por isso, tiveram de ser abatidos ao Ativo e registados numa contra
extrapatrimonial
(conta 991).
Só em 2016, segundo o relatório e contas, foram abatidos
(write-off)
1.993 milhões na CGD que foram assim considerados totalmente
perdidos.
Apesar dos elevados montantes de crédito abatido ao ativo, que
normalmente são escondidos
(ninguém sabe quantos milhares de milhões de
créditos totalmente perdidos a banca tem acumulado na conta
extrapatrimonial "991. Créditos abatidos ao ativo", apesar do
seu conhecimento ser uma informação importante para avaliar a
qualidade de gestão de cada banco, pois fala-se de credito mal parado
mas não de crédito que já foi abatido dos balanços
dos bancos que, por isso, não é visível, mas o seu valor
é gigantesco e resulta também de má gestão);
repetindo, apesar da CGD ter limpo do seu balanço, em 2016, 1.993
milhões , mesmo assim, no fim do 1º Trim.2017,
o rácio de crédito em risco era ainda de 10,4%, o que corresponde
a 6.982 milhões , um valor enorme, e o em incumprimento 8,8%,que
é também muito elevado.
A recuperação do crédito em risco e em incumprimento
é vital para a recuperação da CGD, e para que ela possa
apresentar lucros, e não continue a delapidação dos
Capitais Próprios.
No entanto, apesar da CGD possuir duas direções de acompanhamento
de empresas e de particulares para a recuperação de
crédito a DAE e DAP - estando afeta só a esta
última 375 trabalhadores
(em relação à 1ª não foi divulgada
informação dos recursos alocados)
,
o relatório e contas não apresenta quaisquer dados sobre os
resultados da recuperação de credito em 2016 e no 1º
Trim.2017, nomeadamente fluxos financeiros entrados.
E era importante que constasse nos relatórios e contas esses dados,
pois são um importante indicador da qualidade da gestão,
já que no passado a CGD se caraterizava por fazer muito pouco para
recuperar o crédito em incumprimento, o que determinou perdas enormes.
A importância da recuperação de crédito ainda se
torna mais clara se tiver presente que só no período compreendido
entre 2010 e o 1º Trimestre de 2017, a CGD registou 6.861 milhões
de imparidades a nível de crédito concedido e que, pelo
facto desse crédito com imparidades não ter sido recuperado, uma
parcela muito elevada tornou-se perda efetiva, o que determinou que
no período compreendido entre 31/12/2010 e 31/3/2017, segundo as nossas
estimativas, a CGD tenha abatido 3.755 milhões de créditos
que considerou irremediavelmente perdidos
(write-off)
e não apenas os 1.993 milhões referidos nas contas de
2016.
Estes créditos perdidos foram, na sua esmagadora maioria, transferidos
para a contra extrapatrimonial "
991.Créditos abatidos ao ativo
", onde estão ou foram vendidos a saldo
(preço entre 2% a 4% do seu montante)
, e isto quando se consegue "vender".
Era uma informação que a Comissão Parlamentar de
Inquérito à CGD devia pedir pois dar-lhe-ia uma
informação importante sobre as perdas causadas pela má
gestão das administrações da CGD
, mas parece que vai ceder perante a recusa do Banco de Portugal.
É desta forma que os bancos limpam os seus balanços e
"perdoam" silenciosa e definitivamente grandes créditos a
grandes clientes. Este é um processo que determina elevados
prejuízos e uma enorme delapidação dos Capitais
Próprios, o que, no caso da CGD, obrigou a sucessivas
recapitalizações com dinheiro dos contribuintes.
Em relação ao facto da CGD ter abatido,
no 4º Trim.2016, 1.993 milhões
(write-off)
, levantam-se algumas questões que interessaria analisar e esclarecer:
Que devedores foram beneficiados, pois as suas dividas desapareceram, com
aquele enorme montante de "
write-off
"? Por que razão para a administração de
António de Matos que esteve na CGD até ao 3º Trim.2016 tal
abatimento, segundo a metodologia de cálculo de imparidades que
utilizava e que tinha o acordo do auditor
(Ernest & Young)
e dos supervisores
(BCE e Banco de Portugal)
, não era necessário, mas esse enorme
"write-off
" já se tornou-se necessário para a
administração de António Domingues e de Paulo Macedo
e, para além disso, teve-se ainda de constituir, em 2016, 2.396
milhões de "
imparidades
"?
Será que era absolutamente necessário abater todo aquele credito
ao Ativo, ou alguma parcela desse crédito abatido, com um esforço
sério, poderia ou pode ainda ser recuperado?
. Porventura aquela "
solução
" foi escolhida por ser a mais fácil embora tenha tido custos
elevados para os contribuintes e está a ter para os trabalhadores da
CGD?
Quem foi beneficiado com esta nova política de
constituição de imparidades e de write-off?
São questões que continuam por esclarecer mas que a
Comissão de Parlamentar de Inquérito devia esclarecer, mas que
não fez.
No fim do 1º Trim.2017, as "
Imparidades de crédito acumuladas
" no Balanço ainda totalizavam 5.580 milhões o que
determinará que, se não se conseguir recuperar alguma parte deste
crédito coberto por estas imparidades, ele também será
abatido, e somados aos milhares de milhões de crédito
já perdido. Portanto, é necessário um plano para recuperar
o elevado crédito em risco a fim de evitar que, pelo menos, a maior
parte desse crédito não se transforme numa perda definitiva, e
quanto mais tempo passar sem que medidas eficazes sejam tomadas, a perda
efetiva será
certamente
mais elevada. E ainda não se viu nada de diferente feito pelo atual
administração e também de resultados concretos.
Em 2018 com a entrada em vigor da IFRS9, as imparidades de crédito
aumentarão automaticamente muito devido à diferente forma de as
calcular nomeadamente as imparidades das chamadas populações
homogéneas
(deixarão de ser calculadas apenas as perdas incorridas e
passarão a ser consideradas as perdas esperadas)
, em particular do crédito à habitação, cuja
carteira representa 53% da carteira da CGD em Portugal, e 40% da carteira total
do grupo no 1º Trim.2017 da CGD. A carteira de habitação tem
um peso muito grande na carteira de crédito da CGD por isso as
imparidades dispararão novamente, e os efeitos negativos serão
enormes se a IFRS9 entrar em vigor já em 2018.
Embora este aumento significativo de imparidades não vá afetar a
Conta de Resultados mas apenas as contas do Balanço (conta "
imparidade acumuladas
" e a conta de Capital "
Reservas"
) reduzindo os Capitais Próprios, no entanto, vai afetar os
rácios de capital, reduzindo-os anualmente pois em cada ano será
imputado no seu cálculo uma determinada percentagem do valor deste
aumento de imparidades (eventualmente
em 2018: 5%; em 2019: 15% etc.).
Seria importante fazer essa estimativa desse aumento de imparidades e analisar
os seus efeitos a nível de Capitais próprios e de rácios
de capital, pois a CGD se não gerar internamente Capital através
de lucros poderá ser confrontada com a necessidade de fazer novas
recapitalizações devido às exigências do supervisor.
A recuperação do crédito em risco torna-se assim mais
necessária mas parece que não para a atual
administração.
8. A VENDA PELA CGD DE UMA CARTEIRA DE CRÉDITO NO VALOR DE 476
MILHÕES , E A ALEGRIA DO COMPRADOR COM O NEGÓCIO
Como já referimos a CGD tem um enorme volume de credito em risco, a
maior parte em incumprimento. Estes créditos, designados por NPLs,
são na sua esmagadora improdutivos e é do interesse de qualquer
instituição financeira fazer um sério esforço para
os recuperar ou para vendê-los. Mas se optar pela venda é
fundamental que não deem origem a mais imparidades, o que determinaria
prejuízos, e delapidação de capital. Para que isso
não aconteça é necessário que o preço de
venda não seja inferior ao valor nominal desses créditos
deduzidos das imparidades que já foram constituídas.
Infelizmente não foi a CGD que comunicou a venda de tão elevada
carteira de credito assim como o preço que vendeu
(a opacidade de informação continua)
, e o impacto que ele teve nas contas individuais e consolidadas, assim como a
nível de resultados e de capital, mas foi, segundo os media, o comprador
da carteira de crédito, um gigantesco fundo norte americano com sede em
Boston
Bain Capital Private Equity's
que deu desta forma, e com entusiasmo, a conhecer o negócio:
"
Estamos muito entusiasmados com a entrada no mercado português de NPL com
esta aquisição"
afirmou Alon Avner, responsável da Bain Capital Credit para a Europa.
Seria bom que a administração de Paulo Macedo informasse os
contribuintes, para tranquilidade destes, que aquela elevada carteira de
crédito não foi vendida a preço de saldo, dando um elevado
lucro ao fundo americano mas prejuízos à CGD e aos portugueses,
pois são eles que pagam sempre os maus negócios.
9. O AUMENTO ENORME DOS ATIVOS NÃO CORRENTES DETIDOS PARA VENDA
Outro ponto critico
(weaknesses)
confirmado pelas contas do 1º Trim. 2017, é o aumento enorme
verificada na rubrica "
Ativos não correntes detidos para venda
", que são fundamentalmente constituídos por imóveis
(apartamentos, armazéns, terrenos, etc.) entregues por devedores em
dação em pagamento de créditos que não conseguiram
saldar. Entre 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, o seu valor aumentou de
761 milhões para 1.432 milhões , ou seja, em 88%, o
que é muito preocupante, mas que também dá uma ideia clara
da situação económica e social muito mais real do que os
discursos oficiais. Portanto, ativos de reduzida ou nula rentabilidade
(a maioria deles apenas determina encargos para a banca resultantes dos seus
custos de manutenção)
, são ativos que banca procura rapidamente desembaraçar-se
até por pressão do Banco de Portugal, mas que vendidos à
pressa e em saldo podem causar mais imparidades e mais prejuízos
Face a este crescimento
"exponencial"
dos
"ativos não recorrentes detidos para venda"
e ao elevado montante de NPL´s é fundamental uma
política, por um lado, de venda deste tipo de ativos que não seja
a saldo, pois isso causaria mais imparidades/prejuízos à CGD e,
por outro lado, medidas adequadas para que os devedores, nomeadamente de
credito à habitação em incumprimento, possam, com planos
de pagamentos ajustadas ao seu perfil de rendimento, pagar o que ainda devem. A
CGD, embora não possa ser uma instituição de caridade,
também não pode ser, por ser um banco público, uma
entidade que não tenha em conta as dificuldades conjunturais das
famílias,
o que
exige uma política de recuperação de crédito
pró-ativa, o que não acontecia no passado, e que se espera
diferente no futuro, mas que faltam dados para avaliar
a sua real efetivação.
E isto até porque a venda maciça de ativos não correntes e
de NPL´s, embora reduza o RWA e possa gerar liquidez, tem o inconveniente,
se determinar a constituição de mais imparidades, de "
comer
" capital (CET1) reduzindo os rácios de capital.
10. A REDUÇÃO DOS RECURSOS DE CLIENTES E O AGRAVAMENTO RECENTE
DAS COMISSÕES
Entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, os
depósitos de clientes
diminuíram 3.792 milhões , pois passaram de 73.935
milhões para 70.142 milhões continuando, apesar
disso, a representar a principal fonte de financiamento da CGD
(no 1º Trim. 2017, representavam 72,3% do seu Ativo liquido)
. No entanto, se incluirmos as "
responsabilidades representadas por títulos
", que são também recursos de clientes, que
diminuíram, entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, de 6.252
milhões para 4.058 milhões , ou seja, sofreram uma
redução de -35%, a situação merece
atenção.
Entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, a CGD perdeu em recursos de
clientes registados nestas duas rubricas, 5.987 milhões . Esta
redução nos recursos de clientes não é ainda mais
grave devido ao facto de se ter verificado uma redução no
crédito concedido o que determinou que o
rácio de transformação,
entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, praticamente se tenha mantido
o mesmo
(88,5% em 2016 e 88,1% em 2017
). E o
rácio de liquidez (LCR)
aumentou, entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, de 159,1% para
229,7%.
Um rácio de liquidez (LCF) de 229,7% claramente excessivo
(o Banco de Portugal exige atualmente 80%, sendo 100% a partir do inicio de
2018)
acaba por ser também um indicador de ineficiência de
gestão, pois mostra de uma forma clara a incapacidade de utilizar os
meios disponíveis para aumentar o negócio bancário por
excelência que é a concessão de crédito.
É uma situação que devia ser também corrigida
.
Uma última reflexão: a evolução dos recursos de
clientes, embora ainda não gere preocupações não
deixa de constituir um alerta em relação à política
futura nesta área. E isto porque a CGD embora continue a ter excesso de
fundos e de liquidez para o volume de crédito que concede, se quiser
reduzir ainda mais o custo do
funding,
através da uma redução ainda maior das
baixíssimas taxas de juro que paga aos depositantes, arrisca-se a perder
muitos depósitos, ou seja, a sua fonte principal de financiamento. E se
adicionar um aumento significativo das comissões aos depositantes, como
se verificou recentemente, o risco é ainda maior.
Os problemas nesta área são importantes e continua-se a
desconhecer o que a atual administração tenciona fazer para os
superar já que nada consta do PE-2020.
11. APENAS UMA PARCELA DO AUMENTO DE CAPITAL FOI PARA CAPITAL SOCIAL E O RISCO
DE COM ISSO SE REDUZIR A CGD A UMA "Caixinha"
Uma análise dos Capitais Próprios à data de 31.3.2017,
revela que
os 7.827 milhões que o constituíam naquela data se
repartem fundamentalmente em 3.844 milhões de Capital social (em
31/12/2016, eram 5.900 milhões ) e 3.166 milhões de
"
Outros resultados e resultados transitados"
, o que facilita o levantamento destes logo que a situação da CGD
o permita, o que não seria possível se fossem integrados em
Capital social.
Será porque se pretende transformar a CGD numa "
mini-CGD
" o que determinaria menores exigências de capital?
É uma dúvida importante que interessaria esclarecer, pois
ignora-se quais os objetivos do acionista mas não os da Comissão
Europeia que é transformar a CGD numa
"Caixinha"
para não fazer muita
"sombra"
aos grandes bancos privados protegidos pela Comissão Europeia, que
não é o caso da CGD.
Como consequência da forte recapitalização da CGD feita com
dinheiro dos contribuintes,
os rácios de capital da CGD registaram uma variação
positiva importante
, de acordo com o relatório e contas referentes a 2016 e ao 1º
Trimestre de 2017, embora os valores da CGD continuem a não ser
superiores aos dos outros bancos :
CET 1
:
CGD:
2015: 10,9%; 2016: 7%; 1º Trim.2017:12,3%;
(1º Trim.2017:
BCP: 13%; BPI:11,9%; Santander-Totta: 15,3%);
Rácio Total
: CGD
: 2015:10%; 2016: 8,1%; 1º Trim.2017: 14,2% (1º Trim.2017:
BCP: 14,2%; BPI:13,3%).
Os rácios de capital da CGD, nesta altura, são praticamente os
mínimos exigidos pelos supervisores, e a recapitalização
da CGD não resolveu os problemas da CGD, nem a deixou a salvo da
necessidade de novas recapitalizações se o negócio
bancário e os resultados positivos não aumentarem
significativamente. E neste campo vital, a atual administração da
CGD ainda não mostrou nada de novo.
12. O AUMENTO DO PRODUTO BANCÁRIO
"CORE"
À CUSTA
PRINCIPALMENTE DA REDUÇÃO DO CUSTO DO
"FUNDING",
OU SEJA, DOS DEPOSITANTES
Uma análise que é importante sempre fazer é a da
variação do
"produto bancário core",
ou seja, o
"produto"
que resulta por excelência da atividade bancária e que
é constituída pela
"Margem Financeira"
e pelas
"Comissões Liquidas"
que são, por isso, mais constantes e menos sujeitas a grandes
flutuações de ano para ano, como acontece com os
"resultados das operações financeiras"
, e depois comparar o valor obtido com os
"custos operacionais",
para se ficar a saber que parcela (%) destes são cobertos pelo
"produto bancário core".
Entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim. 2017, o "
produto bancário core
" aumentou de 388 milhões para 455 milhões , ou
seja, em 67 milhões , determinado fundamentalmente pelo aumento
verificado na Margem Financeira que cresceu em 51 milhões ,
aumento este devido principalmente à redução significativa
do custo do "f
unding
" e não ao aumento do negócio bancário, como se vai
mostrar a seguir mais detalhadamente. No 1º Trim.2016 o
"produto bancário core"
cobriu 76,7% dos
"custos operacionais"
e no 1º Trim.2017, 79,4%, registando-se assim uma pequena melhoria.
Em 2016 (todo o ano), o "produto bancário core" cobriu 67,1%
dos
"custos operacionais"
do ano.
É um indicador para avaliar também a qualidade da gestão,
que embora registando uma pequena melhoria, a sua sustentabilidade não
está garantida a não ser que o negócio bancário
aumente, no entanto face à queda deste o que se está a fazer
é aumentar significativamente as comissões o que poderá
ter efeitos perversos.
E é importante analisar mais detalhadamente a forma como o aumento da
Margem Financeira tem sido conseguido porque não é, a nosso ver,
sustentável. Efetivamente, uma análise fina da
evolução da Margem Financeira revela que o seu aumento, por ex.
em 2016 e no 1º Trimestre de 2017, não foi conseguido
através do aumento do negócio bancário que, como se
referiu, até diminuiu, mas sim à custa da redução
do custo do
"funding"
que foi muito superior à redução dos juros das
operações ativas, que também diminuiu.
Entre 2015 e 2016, a Margem Financeira aumentou de 1.085 milhões
para 1.145 milhões
(+60 milhões )
porque, embora os juros e rendimentos, nomeadamente de crédito
concedido, tenham diminuído em 277 milhões
(passaram de 2.905 milhões para 2.628 milhões )
, o custo do "
funding
", ou seja, dos depósitos diminuiu muito mais em 337 milhões
(passou de 1.820 milhões para 1.483 milhões ).
Uma situação muito semelhante também se verificou no
1º Trim.2017. Entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, os juros e
rendimentos das operações ativas diminuíram em 63
milhões , mas o custo do "funding" (depósitos)
reduziu-se em 114 milhões , o que determinou que a Margem
Financeira tivesse aumentado em +51 milhões
É evidente que esta forma de aumentar a Margem Financeira, feita
fundamentalmente à custa dos depositantes, não pode continuar
indefinidamente.
No entanto, na CGD ainda não foi apresentado um plano aos trabalhadores
para inverter a queda continuada no negócio bancária e para
alterar a forma como tem aumentado a Margem Financeira.
13. A REDUÇÃO DO
"COST-TO-INCOME"
À CUSTA DE CORTES NOS CUSTOS OPERACIONAIS E NÃO
ATRAVÉS DO AUMENTO DO NEGÓCIO BANCÁRIO
O
"cost-to-income"
é uma medida normalmente utilizada para medir a eficiência na
banca. Ele obtém-se dividindo os Custos operacionais
(Despesas com pessoal + Gastos gerais administrativos +
Amortizações)
pelo Produto bancário (
o VAB da banca
). E quanto mais baixo é maior é a eficiência. No entanto,
ele tem o inconveniente de não ser um indicador totalmente seguro da
qualidade da gestão nomeadamente a nível de crédito e de
aplicações em outros ativos. A sua redução
poderá ser obtida através do aumento do Produto bancário,
e para isso é necessário que o negócio bancário
cresça, ou por meio de cortes nos custos operacionais, que parece ser a
opção escolhida pela atual administração e por
Bruxelas.
O "
Produto bancário
" da CGD aumentou, entre o 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, em 194
milhões , pois passou de 296 milhões para 435
milhões . Este aumento foi conseguido por meio do aumento do "
Produto bancário core
" que, como já referimos, foi conseguido fundamentalmente à
custa dos depositantes e não do aumento do negócio
bancário, mas também através dos "
resultados de operações financeiras"
, que é uma receita aleatória, e que, no período
considerado, teve uma variação positiva de 179 milhões
(passou de -98 milhões para +81 milhões ).
Como consequência, verificou-se uma melhoria no "
cost-to-income
" da CGD que, entre 1º Trim.2016 e o 1º Trim.2017, diminuiu de
99% para 70,5%, valor este ainda distante dos 45% do Plano Estratégico
2020 ou 40% defendido por Paulo Macedo em conferências
É evidente que perante tal pressão para reduzir o
"cost-to-income"
para um valor tão baixo, a administração da CGD,
face à incapacidade que está a revelar para aumentar o
negócio bancário, é tentada em o obter através de
uma enorme redução dos custos operacionais, nomeadamente, dos
custos de pessoal, o que determinará, a concretizar, despedimentos e
fecho de mais balcões que, a avançar, perante a passividade do
governo e seus apoiantes, causaria certamente a destruição da CGD
da forma como é atualmente e a diminuição do papel da CGD
na economia e na sociedade portuguesa e não resolveria os seus problemas.
Seria importante que a atual administração da CGD procurasse
recuperar e consolidar a CGD, e não a reduzindo a uma
"mini-CGD"
como Bruxelas pretende.
No entanto, o
"plano de despedimentos por mutuo acordo"
(?!), que analisamos detalhadamente no inicio, destinado a trabalhadores
até aos 55 anos, em que a ameaça de despedimentos é real e
em que o corte das remunerações variáveis poderá
ser utilizado como chantagem contra cerca de 50% dos trabalhadores, associado
ao
"programa de pré-reformas
", bem como a intenção anunciada pela administradora da
área de pessoal de manter o congelamento das remunerações
dos trabalhadores até 2020, remunerações estas que se
mantêm inalteráveis desde 2010, parece confirmar que
estratégia escolhida pela atual administração foi a
1ª opção, ou seja, a de transformar a CGS numa
"mini-CGD"
ou numa
"Caixinha"
14. O CORTE NAS DESPESAS COM PESSOAL E A INVERSÃO NAS DESPESAS DE
PESSOAL NO 1º TRIMESTRE DE 2017
Um dos instrumentos que a banca está a utilizar para reduzir custos e
assim poder apresentar resultados positivos, face à incapacidade
revelada pelas administrações para aumentar o negócio
bancário num contexto económico e social difícil, é
a redução de trabalhadores e o fecho de agências, ou seja,
"
encolhendo
". A CGD não foge a essa regra.
Entre 2015 e 2016, a nível das contas consolidadas, os
"Custos com pessoal"
diminuíram de 803,9 milhões para 705,8 milhões
, ou seja, em -12,2%. Nestes totais estão incluídos 61,6
milhões em 2015 e 5,5 milhões em 2016 para "
provisão para acordos de suspensão de prestação de
plano de trabalho
" (Plano Horizonte),ou seja, para reduzir o numero de trabalhadores que
são despesas, em principio, que não deviam ser repetidas, a
não ser que se queiram fazer mais reduções e fechos de
agências. Mas as
"remunerações dos empregados
", que já não incluem aquele tipo de encargos, a
nível de contas consolidadas, diminuíram, entre 2015 e 2016, de
529 milhões para 497,7 milhões (corte de -5,9%).
A nível de contas individuais, os
"Custos com pessoal",
ou seja, das contas só da CGD, e não do "grupo Caixa"
como as anteriores, também diminuíram pois, entre 2015 e 2016,
passaram de 590,8 milhões para 503,7 milhões
(-14,7%), e as "
Remunerações com empregados
" também registaram uma redução pois, entre 2015 e
2016, passaram de 360,4 milhões para 339,6 milhões ,
ou seja, sofreram um corte de -5,7%. Entre 2010 e 2016, a CGD Portugal, e
não o "grupo Caixa", perdeu 1.559 trabalhadores no nosso
país (297 em 2016), pois passou de 9.672 de trabalhadores para apenas
8.113, e 152
agências (tem atualmente 717 agências bancárias
), tendo perdido 47 agências em 2016.
Apesar disso, o chamado Plano Estratégico 2020 elaborado por
António Domingues e aprovado pelo governo e por Bruxelas, que a atual
administração está a aplicar, prevê uma nova
redução de trabalhadores para 6.650 e as agências para 470.
Parece
(as evidências parecem apontar todas nesse sentido)
, que o objetivo é tornar a CGD numa
"mini-CGD
", de forma que ela ocupe um papel subalterno no setor financeiro
português, deixando de ser o banco líder com maior quota de
mercado e, consequentemente, de ter um papel fundamental na
recuperação da economia e no desenvolvimento do país,
entregando o controlo do setor a bancos dominados por estrangeiros.
E isto apesar de se afirmar que o objetivo não é esse, mas
factos são factos.
As contas consolidadas como individuais do 1º Trimestre de 2017
apresentam aumentos dos
"Custos com pessoal"
em cerca de 53 milhões quando comparados com os do
período homólogo de 2016. Assim, entre o 1º Trim.2016 e 0
1º Trim.217, os
"Custos com pessoal"
aumentaram de 175,7 milhões para 228,8 milhões
(+53,1 milhões ) a nível das contas consolidadas, e
de 123,7 milhões para 177,7 milhões (+54
milhões ) a nível de contas individuais. Mas como
não é dada qualquer explicação nem os
"Custos com pessoal"
são apresentados desagregados ignora-se a razão deste
aumento, mas a razão certamente não deve ser o aumento das
"Remunerações com empregados"
já que estas se mantêm congeladas desde 2010. Uma das
hipóteses explicativas poderá ser a afetação de uma
parte de custos que se preveem ter com a redução significativa do
número de trabalhadores da CGD. É uma questão que a
administração devia esclarecer.
Como os
"Custos de pessoal"
se tornaram o instrumento preferencial das sucessivas
administrações para melhor o rácio de eficiência, ou
seja, o
"cost-to-income",
para assim apresentar resultados, face à incapacidade revelada para
aumentar o negócio bancário, é de prever que a atual
administração resista em atualizar as remunerações
dos trabalhadores da CGD, embora estas estejam congeladas desde 2010. O demorar
e adiar em responder à proposta de atualização do AE
apresentado pelo sindicato, parece ser a estratégia do atual conselho de
administração. A afirmação da administradora
responsável pelos recursos humanos da CGD de que é
intenção da atual administração manter o
congelamento das remunerações dos trabalhadores até 2020,
veio confirmar o tipo de gestão que se pretende seguir, sacrificando
mais uma vez os trabalhadores para compensar os enormes desmandos praticados no
passado pelas administrações da CGD que se pretendem esconder sob
a capa de confidencialidade em relação à própria
comissão de parlamentar de inquérito. E isto torna-se ainda mais
insólito e injusto quando se constata que não se observou igual
tratamento nas remunerações dos órgãos sociais da
CGD, o que está a causar um sentimento generalizado de injustiça,
de mal-estar, de desmotivação e mesmo revolta.
15. UMA POLITICA DE DOIS PESOS E DE DUAS MEDIDAS NA CGD: aumento enorme das
remunerações da administração e do
órgão de fiscalização, e a pretensão de
continuar a congelar os salários dos trabalhadores até 2020
Um dos pontos também críticos
(weaknesses)
da atual administração é o facto de subestimar, na
prática, a importância dos trabalhadores, e da sua
mobilização/motivação para a
recuperação da CGD. A prová-lo está o facto de que
enquanto se procura reduzir significativamente ainda mais o número de
trabalhadores da CGD mesmo à força, e prolongar o congelamento
das remunerações dos trabalhadores até 2020, a nova
administração, que se nega negociar a atualização
do Acordo de Empresa (AE), usufrui já os elevados aumentos que
começaram a vigorar a partir de Agosto de 2016 com a entrada da
Administração de António Domingues
(quadro 3, dados do relatório da CGD).
Os dados do quadro 3 (pág. 686 do relatório e contas de 2016 da
CGD), revelam aumentos entre 79,6% e 131% para os membros dos
órgãos de administração e de
fiscalização. Estes aumentos enormes só ganham o seu
verdadeiro significado, e revelam uma profunda injustiça, se se tiver
presente que as remunerações dos trabalhadores da CGD se
mantêm congeladas desde 2010 e que, como aconteceu em toda a
Administração Pública, sofreram cortes que só foram
repostos ao fim de vários anos, o que não sucedeu na restante
banca e, apesar de tudo isto, o atual conselho de administração
continua a não responder a uma proposta de atualização do
AE e, consequentemente, das remunerações dos trabalhadores,
apresentada pelo sindicato (STEC) há mais de um mês, apesar de
estar obrigado por lei a responder.
Tudo isto revela uma política de remunerações de dois
pesos e de duas medidas num banco público que devia ser rapidamente
corrigida.
E isto porque está a gerar descontentamento e desmotivação.
16. A EVENTUAL VENDA DOS ATIVOS DA ATIVIDADE INTERNACIONAL DA CGD,
CONSEQUÊNCIAS PARA A CGD
(fazer da CGD uma mini-CGD)
E PARA O PAÍS
As sucursais da CGD no estrangeiro e a atividade internacional que daí
resulta, têm sido importantes não só sob o ponto de vista
estratégico
(estar presente em países onde a comunidade portuguesa é
importante ou onde empresas portuguesas desenvolvem uma atividade importante,
para apoiar),
mas também como uma fonte importante de resultados para a CGD que tem
contribuído para equilibrar e compensar uma parcela dos resultados
negativos da atividade doméstica, ou seja, para o seu equilíbrio.
O quadro 4, com dados dos últimos relatórios e contas da CGD,
revela, por um lado, a dimensão e importância da
internacionalização da CGD e, por outro lado, os resultados
obtidos.
A eventual venda de ativos que a CGD possui em França
(onde existe uma comunidade portuguesa muito importante
), em Macau, Moçambique ou Angola e eventualmente em Timor
(onde o Portugal tem interesses estratégicos),
e em Espanha (merece uma análise atenta, pois é
para onde Portugal mais exporta e donde mais importa)
afetará profundamente o papel e importância da CGD, quer em termos
estratégicos, quer em termos de dimensão, quer ainda em termos de
sustentabilidade. Contribuirá também para a sua
transformação numa
mini-CGD
após o significativo encolhimento já verificado
(entre 2010 e 2017, a CGD perdeu 23,2% do seu Ativo liquido total, reduzindo-se
em 29.258 milhões ).
Aceitar aquela eventual imposição da Comissão Europeia
(venda dos ativos)
é não valorizar os interesses do País a curto,
médio e longo prazo, submetendo-os aos interesses defendidos pela C.E.
que não são os portugueses.
Era importante que tanto a administração atual da CGD como o
próprio governo, que é o único acionista, não
fossem submissos a Bruxelas e que defendessem os interesses nacionais e os da
CGD até porque a maioria das sucursais, que referimos, têm sido
rentáveis para o banco público como revela o quadro 4.
A este propósito interessa referir o contrato que o governo PSD/CDS
impôs à CGD, aquando da privatização Fidelidade, que
parece não constituir uma preocupação para atual
administração. E esse contrato, traduz-se na
imposição de durante 20 anos à CGD de ter de vender
produtos daquela seguradora recebendo, em contrapartida, apenas metade das
comissões praticadas no mercado, o que acarreta à CGD um
prejuízo estimado em 860 milhões durante o contrato. Seria
importante que a CGD renegociasse este contrato leonino que a impede de obter
os ganhos que tem direito pelo serviço que presta.
17. REFLEXÕES FINAIS SOBRE A MISSÃO DA CGD COMO BANCO
PÚBLICO
É evidente que a missão para a CGD que se defende neste estudo
é mais ampla e mais ambiciosa do que aquela que a atual
administração e Bruxelas pretendem impor-lhe.
A missão deste importante banco público, líder do mercado,
confunde-se e coincide com os interesses do crescimento económico
equilibrado e o desenvolvimento sustentado do próprio país, com
os interesses nacionais e estratégicos de Portugal.
Não pode ser mais uma CGD que promova a especulação
imobiliária e financeira
e que apoie fundamentalmente as grandes empresas
, como aconteceu no passado recente, o que causou enormes prejuízos
à própria CGD, ao país e aos contribuintes, pois acumulou
enormes prejuízos que tiveram de ser pagos pelo país e pelos
contribuintes.
Também não pode ser uma CGD interessada exclusivamente em dar
lucros
e ser rentável para o acionista, esquecendo-se que é um banco
com uma importante missão.
O que se defende é que a CGD seja um grande banco público
identificado com os interesses nacionais, quer estratégicos quer de
crescimento e desenvolvimento sustentado do país
, uma CGD que não apoie a especulação imobiliária e
financeira, uma CGD fundamentalmente empenhada em apoiar a atividade produtiva
e as PME´s, que constituem a esmagadora maioria do tecido empresarial do
país, uma CGD que também apoie a
internacionalização das empresas portuguesas, estando onde elas
estão.
O que se defende é uma CGD que tenha também um comportamento
ético irrepreensível com os seus trabalhadores
, que são o elemento fundamental em qualquer empresa, e não os
considerar um simples fator de produção descartável, que
se subestima e despreza, e cujos interesse e direitos se secundariza,
não valorizando adequadamente as suas condições de
remuneração e de vida, e que, em momentos de dificuldades, se
descarta facilmente como de simples números se tratassem esquecendo-se,
em atos, que são base de recuperação da CGD e do
importante papel que tem ou deve ter na economia e na sociedade, e cujo
empenhamento, mobilização e participação é
fundamental para que tais objetivos da CGD como banco público sejam
alcançados.
O que se defende é uma CGD que seja também bem gerida e
rentável
pois se o não for não será sustentável nem
poderá cumprir os seus objetivos e a sua missão como banco
público.
E tem de ter lucros para poder gerar internamente capital
(o objetivo do PE-2020 é acumular cerca de 1.200 milhões
até 2020 para ter CET1=14%, no entanto a atual
administração ainda não mostrou como vai atingir este
objetivo, pois não é possível apenas com cortes de custos
e venda de ativos como está a fazer)
, e assim cumprir as exigências crescentes dos supervisores e poder
manter e consolidar a sua posição como principal banco
(líder) em Portugal não necessitando de recorrer novamente aos
contribuintes para se recapitalizar e também para consolidar a
posição de liderança que ocupa no setor, e que é
fundamental para poder ter, como banco público, um importante papel na
recuperação da economia e no desenvolvimento do país.
Para isso, a sua gestão terá de ser transparente,
responsável e responsabilizante, envolvendo e mobilizando os seus
trabalhadores nos objetivos a alcançar, o que nem sempre aconteceu no
passado e ainda não acontece agora.
15/Julho/2017
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