A espoliação dos pequenos acionistas do BES
a transformação do Estado em prestador de último
recurso que tem de pagar os desmandos dos banqueiros
Carlos Costa, antigo diretor do BCP no tempo de Jardim Gonçalves, e
agora governador do Banco de Portugal, acabou de tirar da cartola a
"solução milagrosa
" para o caso BES apresentando como aquela que garante os depósitos
aos clientes, assegura a continuidade do negócio,e evita que o Estado
"meta um centavo"
no BES. O governo e os seus defensores nos media, a começar por Marques
Mendes e Rebelo de Sousa, numa gigantesca operação de
manipulação da opinião pública repetem até
à exaustão o mesmo talvez convencidos que uma mentira
repetida muitas vezes transforma-se numa verdade. Por isso interessa analisar
com a objetividade e com os dados disponíveis, que ainda são
poucos, esta questão até porque ela preocupa os portugueses, e
também porque já ouvimos muitas vezes a mesma cantiga que depois
se transforma num pesadelo para os contribuintes.
A INCOMPETÊNCIA DA CMVM E DO BANCO DE PORTUGAL QUE VAI SAIR CARA AOS
PEQUENOS ACIONISTAS E CERTAMENTE TAMBÉM AOS CONTRIBUINTES
Foi confrangedor ouvir Carlos Costa dizer que tinha sido enganado por Salgado
Espirito Santo para explicar os prejuízos de 3.500 milhões de
euros do BES no 1º semestre de 2014 e que tinha mentido quando, há
uma semana, repetia que a situação do BES era sólida
já que o banco "
detém um montante de capital suficiente para acomodar eventuais impactos
negativos decorrentes da exposição assumida perante o ramo
não financeiro do Grupo Espírito Santo (GES) sem pôr em
causa o cumprimento dos rácios mínimos em vigor",
mesmo na Assembleia da República.
E para se desculpar afirmou que os atos de má gestão que
determinaram os prejuízos gigantescos registaram-se nos últimos
dias, quando é evidente que isso não é verdade, pois nos
últimos dias, com as chamadas "cartas de conforto", apenas
foram confirmados atos de má gestão ou de gestão danosa
realizados no passado.
E tudo isto é mais grave quando em Junho deste ano o BES fez um aumento
de capital de 1.045 milhões , com a autorização da
CMVM e do Banco de Portugal que desta forma confirmaram que a
informação que o banco deu ao "mercado" era verdadeira.
Tal como afirmou Carlos Tavares, presidente da CMVM, na Assembleia da
República referindo-se aos gestores da Portugal Telecom em
relação à aplicação de 900 milhões
no GES, não basta dizer que não sabiam, "
porque se não sabiam, deviam saber
". E isto aplica-se à CMVM e ao Banco de Portugal, pois se Carlos
Tavares e Carlos Costa não sabiam, deviam saber pois é para isso
que são bem pagos. Pode-se estar aqui perante um crime de mercado, e
aqueles que subscreveram as ações poderão agora vir dizer
que foram enganados pelos supervisores e exigir indemnizações. E
será o Estado, ou melhor, os contribuintes que as terão de pagar.
Mas não é só a esta nível que a
"solução milagrosa" engendrada pelo governo e pelo BdP
poderá ser contestada. O capital do BES estava representado por
5.624.961.683 ações, estando 9,8%, ou seja, 551.246.245
ações detidas por empresas e particulares, muitos destes
últimos pequenos acionistas, que investiram as suas poupanças em
ações do BES confiantes não só no banco mas nas
garantias dadas pelos supervisores de que as contas divulgadas pelo BES eram
verdadeiras e podiam-se confiar nelas. Estes pequenos acionistas, cujo
número se desconhece, mas que devem ser muitos milhares, sentem-se agora
defraudados e enganados, tendo perdido todas as suas poupanças. O Banco
de Portugal, no lugar de ir ao património pessoal dos administradores do
BES e do GES e de todos aqueles que enganaram os portugueses e cometeram atos
danosos, preferiu meter no mesmo saco responsáveis e não
responsáveis e obrigar todos a pagar a fatura. É
previsível que muitos reajam. Portanto, vai-se certamente assistir a
cenas públicas muito semelhantes às que se verificaram em outros
bancos (BPP, BPN), agora com a diferença que os balcões do
chamado "novo banco" serem os mesmos do BES o que não
deixará de se refletir no risco reputacional do "novo banco"
reduzindo o seu valor e aumentando os prejuízos prováveis do
Estado.
A MENTIRA DE QUE NÃO SERÃO UTILIZADOS FUNDOS PÚBLICOS DOS
CONTRIBUINTES
A "solução milagrosa" assenta numa grande
mentira: que o Estado, ou seja, os contribuintes, não terão de
"meter um centavo
". O "novo banco" vai ser recapitalizado em 4.900 milhões
pelo "Fundo de resolução", cuja
administração é nomeada pelo Banco de Portugal e pelo
Ministério das Finanças, que não tem dinheiro
(no fim de 2013 tinha apenas 185 milhões , a maioria receita de
impostos),
por isso o Ministério das Finanças vai fazer um
empréstimo, utilizando o dinheiro da "troika", que terá
de ser pago pelos contribuintes portugueses incluindo juros. O Estado
será reembolsado do empréstimo quando o "novo banco"
for vendido a privados e, se o preço for inferior ao empréstimo,
o Estado paga à "troika" e depois irá receber na medida
em que os bancos paguem as suas quotas ao Fundo de resolução.
É um
"grande negócio para o Estado"
que cheira muito a BPN. Mas as eventuais consequências para o Estado, ou
seja, para os contribuintes desta "solução milagrosa"
não ficam por aqui. E isto porque a solução engendrada
pelo BdP e pelo governo faz lembrar aqueles empresários que, para fugir
ao fisco ou à justiça, transferem os seus bens (os ativos bons)
para uma 3ª pessoa de confiança ficando na sua posse apenas as
dividas (os ativos tóxicos) pensando, que desta forma, se
desresponsabilizam em relação à sua gestão danosa e
não têm de pagar as dividas. No quadro 1 está a
situação do BES em 30/06/2014.
Quadro 1- Balanço sintético consolidado do BES em 30/06/2014
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ATIVO
(o que possui e tem a haver)
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Milhões
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PASSIVO
(o que deve)
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Milhões
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Caixa e bancos
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1.962,9
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BCE (empréstimos obtidos)
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8.613,7
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Aplicações financeiras
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24.780,5
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Outros empréstimos
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24.354,5
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Crédito a clientes
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45.886,9
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Recursos de clientes (depósitos)
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36.685,2
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Outros ativos
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7.586,0
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Provisões
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3.357,1
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Passivos subordinados
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977,7
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Outros passivos (dívidas)
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1.984,2
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TOTAL DO PASSIVO
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75.972,4
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CAPITAIS PRÓPRIOS (dos acionistas)
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4.243,9
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TOTAL DO ATIVO
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80.216,3
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PASSIVO+CAPITAIS PRÓPRIOS
|
80.216,3
|
Os "Recursos de clientes ", constituídos fundamentalmente por
depósitos no BES totalizavam, em 30/6/2014, 36.685,2 milhões
(compare-se este valor com os 1.490 milhões existentes no Fundo
de Garantia de Depósitos -- ver o nosso estudo 38-2014)
. Quando se afirma que os depósitos vão ser transferidos para o
"novo banco", isso não significa que vá ser transferida
essa importância em dinheiro para o "novo banco", já que
essa importância não existe em dinheiro pois encontra-se aplicada
em crédito a clientes, em aplicações financeiras,
incluindo em empresas do GES, e em outros ativos. E são este tipo de
ativos que garantem o reembolso dos depósitos dos clientes e outras
dívidas (por ex. empréstimos do BCE).
A questão que se coloca é esta: Que ativos e valor ficam no
"BES velho"? Segundo o comunicado do Banco de Portugal ficarão
no "BES velho" os "
Ativos problemáticos, que, no essencial, correspondem a
responsabilidades de outras entidades do Grupo Espírito Santo e
às participações no Banco Espírito Santo Angola,
S.A., por cujas perdas respondem os acionistas e os credores subordinados do
Banco Espírito Santo, SA".
Segundo as contas do 1º semestre do BES esses ativos são
fundamentalmente as exposições a empresas do GES: Rio Forte e
subsidiárias (270,8M); ESFG e subsidiárias (927,6M);
Diversos (373,4M; Tranquilidade e subsidiárias (226,1M);
dividas de entidades do GES subscrita por clientes do GES nos balcões do
BES (3.107M); BESA-Angola (3.879,8M), o que soma 8.784,8
milhões . Nas contas do 1º sem.2014, as provisões do
BES foram reforçadas em 1.669,9 milhões , o que fez
aumentar brutalmente os prejuízos determinando que Capitais
Próprios pertencentes aos acionistas se reduzissem, entre o 1º
Trim.2014 e o 2º Trim.2014, em 2.773,37 milhões ,passando de
7.017,28M para 4.243,9M. No "BES velho" ficarão os
ativos tóxicos referidos anteriormente e o Capital Próprio dos
acionistas ainda existente (4.243,9M) mais os "Passivos
subordinados" (977,7 M), pois são estes que terão de
suportar os prejuízos que resultarão dos ativos tóxicos,
já que a maioria se transformarão em perdas. No entanto, esta
"solução" levanta questões que certamente
vão dar origem a uma prolongada batalha nos tribunais que poderá
terminar com decisões que se traduzirão em muitas centenas de
milhões que o Estado, ou seja, os contribuintes terão de
pagar. Para concluir isso basta recordar que os principais acionistas, que mais
perdem não é apenas família Espirito Santo, empresas
portuguesas (PT e outras), e pequenos acionistas mas também grandes
grupos económicos estrangeiros
Crédit Agricole (França), Banco Bradesco (Brasl), CRM (EUA),
BlackRock (EUA)
que certamente se sentirão espoliados com a
"solução milagrosa" do BdP de transferir o que é
bom para o "novo banco" e deixar o que é mau no "BES
velho", e não ficarão passivos e vão procurar sacar
do Estado. Para utilizar um dito popular "
a procissão apenas vai no adro"
e o Estado (os contribuintes), foi assim transformado em
"prestador de último recurso
" a quem caberá pagar a fatura final que poderá ser muito
pesada causada pela incúria e incompetência quer das entidades de
supervisão quer do governo.
04/Agosto/2014
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Economista,
edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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