Em 2015 agravou-se a desigualdade na repartição do rendimento em Portugal
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O INE publicou este ano as Contas Nacionais Anuais de 2015. E elas
contém dados importantes sobre a evolução da
situação do país, nomeadamente sobre os efeitos das
políticas que têm sido seguidas nas diversas áreas que
merecem reflexão. E isto até porque a linguagem fria e objetiva
dos dados oficiais sobrepõe-se aos comentários e
afirmações daqueles que, por terem acesso fácil aos media,
pensam que podem reconstruir a "realidade" de acordo com os seus
desejos, e sem qualquer objetividade.
A REPARTIÇÃO DO RENDIMENTO EM PORTUGAL TEM-SE AGRAVADO DE UMA
FORMA CONTINUA NOS ÚLTIMOS ANOS, AUMENTANDO AS DESIGUALDADES
A repartição primária do rendimento entre o Trabalho e o
Capital, para utilizarmos um conceito simples e compreensível, revela
uma contínua deterioração da parte do rendimento que cabe
ao Trabalho como mostra o gráfico 1 elaborado com dados do INE
Em 2009, os "Ordenados e salários" representaram 37,4% do
valor do PIB deste ano; em 2010 desceu para 36,8% e, a partir desse ano, a
diminuição foi continua atingindo apenas 33,7% do PIB em 2015,
portanto, o valor mais baixo dos últimos 20 anos, que é o
período contemplado pelo gráfico
(3,4 pontos percentuais do PIB é = a mais de 6.000 milhões).
Para se poder ficar com uma ideia mais clara da profunda injustiça e
desigualdade que se verifica em Portugal na repartição da riqueza
criada, interessa referir que os trabalhadores que, em 2015, receberam um valor
correspondente apenas a um terço da riqueza criada no país (do
PIB) nesse ano, representavam 81,6% da população empregada
(os trabalhadores por conta de outrem eram 3.710.600 num total de 4.548.700
empregados)
, que é aquela que produz a totalidade da riqueza criada no país.
E estamos a falar na repartição primária da riqueza
ilíquida criada anualmente no país. Mas não é este
ainda o rendimento disponível que os trabalhadores recebem (levam para
casa). Este rendimento ilíquido está sujeito a inúmeros
impostos (repartição secundária), nomeadamente o IRS que,
nos últimos anos, sofreu um aumento enorme que amputa uma parcela
importante dos seus rendimentos. Segundo o Ministério das
Finanças (estatísticas da AT), em 2013 (últimos dados
disponibilizados), 62% dos rendimentos declarados para efeitos de IRS foram
rendimentos do Trabalho. E em 2015, o IRS cobrado pelo Estado atingiu 12.693,3
milhões como consta do relatório do OE-2016.
E é importante ter em conta que esta grave desigualdade na
repartição da riqueza criada no país, que se tem acentuado
nos últimos anos para além de ser um fator de pobreza
, é
também um obstáculo importante ao crescimento e ao
desenvolvimento do país.
EM 2015, AUMENTOU DE NOVO A TRANSFERÊNCIA DA RIQUEZA PARA O EXTERIOR
O Produto Interno Bruto (PIB) é a riqueza criada anualmente no
país. E o Rendimento Nacional Bruto (RNB) é a riqueza que fica no
país e que é depois distribuída pelos residentes. E como
revelam os dados do INE do quadro 1, no período 2010-2015, o PIB tem
sido sempre superior ao RNB, o que revela uma perda permanente de uma parcela
da insuficiente riqueza criada no país
(só em 2018 é que o PIB será igual ao de 2007)
, a qual é transferida para o exterior, indo beneficiar os residentes de
outros países (ex.: Alemanha).
No período 2002-2015, desde que Portugal entrou para a Zona do Euro, a
riqueza criada em Portugal (PIB) foi superior à riqueza que ficou em
Portugal (RNB) em 55.825 milhões , o que corresponde a cerca de um
terço da riqueza criada em média anualmente neste período.
Isto significa que esta riqueza criada pelos portugueses não foi
distribuída internamente, não beneficiando os portugueses, mas
indo beneficiar os habitantes de outros países.
Mais um obstáculo ao crescimento e desenvolvimento do país.
"CRESCIMENTO NEGATIVO" DO INVESTIMENTO EM PORTUGAL PÕE EM
CAUSA O PRESENTE E O FUTURO DO PAÍS
Um outro obstáculo ao crescimento e ao desenvolvimento é o que se
tem observado no investimento. Em Portugal, tem-se verificado nos
últimos anos aquilo que, para chamar a atenção para um
facto grave pouco referido, se pode designar por "crescimento
negativo" do investimento, ou seja, que o investimento feito em cada ano
(FBCF)
é inferior ao desgaste do investimento total realizado e acumulado no
país nesse ano (Consumo de Capital Fixo). Os dados do quadro 2, do INE,
revelam essa preocupante realidade que os media ignoram ou ocultam, embora as
consequências sejam graves para o país.
Segundo os dados do INE, a partir da intervenção da
"troika" e da entrada em funções do governo PSD/CDS,
registou-se uma diminuição muito grande no investimento realizado
(entre 2010 e 2011, baixou de 36.937,7 milhões para 32.451,8
milhões , ou seja, diminuiu em 12,14% em apenas um ano; e, depois
de 2011, o investimento realizado em cada ano nunca foi suficiente para
compensar o investimento que é consumido, ou seja, que se degrada e
desaparece, e é amortizado. Assim, entre 2012 e 2015, o saldo foi
negativo e somou 15.904,8 milhões , ou seja, a soma da FBCF
realizada nesse período foi inferior ao Consumo de Capital Fixo nesse
período em 15.904,8 milhões , o que significou que
uma parte do aparelho produtivo desgastado e destruído pela
utilização e envelhecimento não foi renovado, diminuindo
assim a capacidade produtiva do país, e tornando mais difícil a
recuperação económica e o desenvolvimento do país
no futuro.
É esta situação que o atual governo tem de inverter
rapidamente, no entanto a quebra do investimento publico para valores ainda
mais baixos que anteriormente, constante do Orçamento do Estado de 2016
(apenas o correspondente a 2% do PIB), não é animador nem garante
que isso realmente aconteça, tendo em conta a forte
retração do investimento privado que se continua a verificar. E a
confirmar isso está a previsão do Banco de Portugal de
Março de 2016, acabada de ser divulgada, de um crescimento no
investimento (FBCF) de apenas 0,7% em 2016, quando a previsão feita em
Dezembro de 2015 tinha sido de um aumento de 4,1%. Com esta
redução tão grande na taxa de crescimento do investimento,
a criação de emprego também pouco aumentará.
Não há milagres na economia nem no emprego.