O risco de desequilíbrio financeiro na ADSE
Vogal do Conselho Diretivo eleito pelos beneficiários não
agrada os grandes grupos económicos privados da saúde
por Eugénio Rosa
Foram apresentados no Conselho Geral de Supervisão da
ADSE
, onde participam representantes dos beneficiários, as Contas da ADSE de 2017.
A análise destas contas revela, por um lado, se o governo decidir acabar
com os reembolsos das autarquias e transferir mais custos para a ADSE como
é intenção e, por outro lado, se não forem tomadas
medidas para por cobro a consumos excessivos promovidos nomeadamente pelos
grandes grupos privados de saúde e para combater a fraude. A ADSE
caminha a curto prazo para uma situação em que os seus custos
serão superiores aos seus proveitos, ou seja,
uma situação insustentável de desequilíbrio
económico e financeiro.
Além de tudo isto há ainda o adiamento "sine die" da
designação do membro eleito para o conselho diretivo da ADSE
pelos representantes dos beneficiários, como a lei dispõe, membro
esse que não é do agrado dos grandes grupos económicos
privados da saúde. É de tudo isto que queremos informar os
beneficiários da ADSE com o objetivo de respeitar o compromisso
informá-los com verdade
que tomei quando fui designado pelos sindicatos da Função
Pública da Frente Comum para o Conselho de Supervisão da ADSE e
para eles não serem surpreendidos no futuro e não poderem dizer
que não sabiam.
A SITUAÇÃO DA ADSE SEGUNDO AS CONTAS DE 2017: um aumento de
custos com saúde (+8,7%) muito superior ao aumento de proveitos dos
descontos (+0,6%)
As contas de 2017 são importantes. E isto porque, pela primeira vez,
é respeitado o princípio de especialização do
exercício com exceção dos
"descontos",
ou seja, que todos os proveitos e custos referentes a um ano são
contabilizados no ano em que dizem respeito, o que nunca tinha acontecido na
ADSE, pois nas contas dos anos de anteriores eram considerados em cada ano
proveitos e custos de vários anos, o que determinava que os resultados
apurados em cada ano não fossem corretos. A especialização
das contas do ano de 2017 permite, pela primeira vez, conhecer com maior rigor
os resultados da ADSE, e a sua situação económica e
financeira. Em segundo lugar, porque os representantes dos beneficiários
no conselho geral de supervisão da ADSE analisaram as contas e emitiram
um parecer, o que também acontece pela primeira vez.
O aumento dos proveitos e dos custos da ADSE em 2017 revela
uma situação preocupante e, a continuar, insustentável
. E isto porque os custos com os regimes convencionado e livre atingiram, em
2017, 557,3 milhões
(+ 8,7% do que em 2016)
, enquanto os proveitos que têm como origem os descontos dos
trabalhadores e dos aposentados da Função Pública somaram
573,6 milhões
(+0,6% do que em 2016).
Se adicionarmos àqueles custos, os custos administrativos, que incluem
os custos com pessoal e outros, que foram 5,1 milhões em 2017,
obtém-se 562,4 milhões
(557,3+ 5,1).
A diferença entre os proveitos dos descontos dos trabalhadores e
aposentados
(573,5 milhões)
e os custos com a saúde e com a administração da ADSE
(562,4 milhões )
é já apenas de 8,9 milhões em 2017
.
No entanto, a ADSE apresentou em 2017 um resultado ainda positivo no montante
de 75,69 milhões . Mas este resultado positivo foi conseguido
fundamentalmente à custa de 44,5 milhões de reembolsos das
Autarquias que se pretende acabar e de mais 23,1 milhões que
foram registados como receitas, mas que não foram recebidos
(segundo o Tribunal de Contas são dividas do Estado que deviam ser
suportadas pelo Orçamento do Estado).
No entanto, existe o risco de a curto prazo o governo acabar com os
reembolsos das Autarquias
(44,3 milhões em 2017), e do Estado
não pagar os 23,1 milhões que foram contabilizados em
2017 como dividas à ADSE de acordo com instruções dadas
pelo Tribunal de Contas. Para além disso, há também a
intenção de que seja a ADSE a pagar os custos com o regime livre
dos trabalhadores das Autarquias, até aqui pagos por estas, o que se
estima que sejam mais 35 milhões de custos que a ADSE teria
suportar. Se tudo isto tivesse sido concretizado em 2017, a ADSE, no lugar de
ter apresentado um resultado positivo de 75,69 milhões
(uma parcela deste resultado positivo tem como origem receita não
recebida),
teria já tido um prejuízo 26,7 milhões . Embora
não tenha acontecido em 2017,
a ADSE corre o risco de que isso venha a acontecer já em 2019
. E os prejuízos serão muito mais elevados do que 26,7
milhões devido ao facto dos custos com saúde dos
beneficiários
(regime convencionado e livre)
estarem a aumentar anualmente a um ritmo muito superior à subida
verificada na receita que tem como origem os descontos dos trabalhadores e dos
aposentados da Função Pública, devido à
ausência de um controlo eficaz dos consumos excessivos
desnecessários e da fraude. E isto também em 2018.
É este o alerta importante que fazemos aos trabalhadores e aposentados
da Função Pública.
OS 211,8 MILHÕES DE DIVIDAS À ADSE QUE O GOVERNO NADA FAZ
PARA QUE SEJAM PAGAS E QUE OS DEVEDORES PÚBLICOS NÃO QUEREM PAGAR
As dividas do Estado à ADSE são já de elevado montante.
Nas contas de 2017 na rúbrica
Dividas de Terceiros - Clientes c/c/
estão registados 211,8 milhões de dividas à
ADSE, que o Tribunal de Contas considera que são devidas e que a ADSE
tem o direito a receber. No entanto, o governo não as paga nem tem feito
nada para que elas sejam pagas pelas entidades públicas devedoras.
São encargos com os Serviços Regionais de Saúde da Madeira
pagas pela ADSE que não devia ter acontecido (29,75 milhões
); são isenções de contribuições para
a ADSE que deviam ser suportadas pelo Orçamento do Estado (29,4
milhões ); é a apropriação indevida dos
descontos feitos pelos trabalhadores pelos governos regionais da Madeira e
Açores (83 milhões ); são custos com juntas
médicas suportados pela ADSE que não deviam ser (12,3
milhões ), etc., tudo isto suportou e suporta a ADSE com
prejuízo para os trabalhadores e aposentados da Função
Pública que têm de financiar a ADSE não só os custos
mas também cobrir os buracos criados pelo facto das entidades
públicas devedoras não pagarem o que devem e da perda de receitas
que o governo não quer compensar.
O SALDO QUE A ADSE TEM EM DINHEIRO É APENAS DE 218 MILHÕES DE
EUROS
Se somarmos os resultados positivos da ADSE desde que em 2014 a taxa de
desconto foi aumentada para 3,5% eles atingem 568,9 milhões
segundo os Planos de Atividade da ADSE, um valor muito significativo. No
entanto, a ADSE não tem este dinheiro. Segundo as contas de 2017, a ADSE
possui em euros apenas 218,2 milhões . Em 31.12.2017, tinha na
conta
"Investimentos financeiros outras aplicações"
350 milhões em divida pública e numa
"Conta no tesouro"
mais 142,29 milhões , o que somados dão 492,29
milhões . No entanto, na conta
"Fornecedores/faturas em receção e conferência"
estavam registados 173,68 milhões , portanto faturas ainda
não pagas, e, na conta "
Acréscimo de custos ",
estavam registados, em 2017, mais 100,37 milhões de faturas
não recebidas dos prestadores até 31.12.2017, e portanto
não pagas, o que somado dá 274,05 milhões . Se
deduzirmos este valor aos 492,29 milhões restam apenas 218,24
milhões . É o saldo líquido da ADSE no fim de 2017
dos excedentes que acumulou resultante da taxa de contribuição de
3,5%, já que o restante não conseguiu receber. Se a ADSE
começar a acumular prejuízos, os 218 milhões
darão no máximo para 2 a 3 anos, ou talvez mesmo menos, depende
do seu montante. E
o alargamento da ADSE a mais beneficiários não garante a
sustentabilidade da ADSE. Os estudos já feitos mostram que se adia o
problema em 2 ou 3 anos, no entanto ao fim destes anos, ele é ainda mais
grave pois ao défice da população atualmente abrangida
ainda se soma o défice da população do alargamento
.
O DESAGRADO DOS GRANDES GRUPOS PRIVADOS DE SAÚDE E A TABELA DE
PREÇOS
De acordo com o nº2 do artº 10º do Decreto-Lei 7/2017, um dos
vogais do Conselho Diretivo da ADSE é eleito pelos nove membros do
Conselho Geral de supervisão da ADSE representantes dos
beneficiários. Este vogal foi eleito em 13 de Fevereiro de 2018 e seu
nome comunicado ao governo para que este o designasse através de uma
Resolução do Conselho de Ministros nos termos do nº 4 do
mesmo artigo. Os grandes grupos económicos privados da saúde da
Associação Portuguesa de Hospitalização Privada
(
APHP
) manifestaram logo o seu desagrado em relação ao nome do eleito.
E o seu nome tem andado de ministério para ministério e mais
recentemente
(2,5 meses após a sua eleição)
foi enviado para CRESAP para esta dar o seu parecer, embora seja eleito pelos
representantes dos beneficiários e não recrutado ou selecionado
pelo governo. E isto apesar do empenho do Ministério da Saúde
para resolver a situação como ele tem informado.
Enquanto isto sucede os grupos privados de saúde pressionam o conselho
diretivo da ADSE para que este altere a nova Tabelas de preços e
conseguiram
(dos 44 milhões de poupanças inicialmente estimadas, ele
já alterou os preços de metade de forma que 22 milhões
poupanças ficaram reduzidas a 12 milhões ).
Em relação aos restantes preços
(de medicamentos, de 240 tratamentos cirúrgicos e próteses
intraoperatórias),
a APHP, nomeadamente os cinco maiores grupos privados de saúde, tem
pressionado para que não vigorem limites de preços, o que tem
conseguido até esta data, embora uma rede de prestadores privados menos
dominada pela caça de lucros excessivos e ilegítimos já
tenha aceite, como consta do comunicado dos 55 anos da ADSE.
E quanto ao combate aos consumos excessivos e à fraude, que poderia ser
a tarefa para o vogal eleito pelos beneficiários, vital para garantir a
sustentabilidade da ADSE, continua tudo como antes,
pois a ADSE não possui nem um Sistema de Informação
adequado nem meios, o que tem permitido aos grupos privados de saúde
tirarem proveito e obterem lucros excessivos financiados com os descontos dos
trabalhadores e aposentados da Função Pública.
27/Abril/018
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Membro do Conselho Geral de Supervisão da ADSE
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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