A dupla moral da União Europeia
Entrevista de Abel Prieto
[*]
a Angela Garcia e Lasse Soderberg
Abel Prieto é um sorriso com cabeça. Cabelo comprido, de elevada
estatura que tempera com uma permanente inclinação das costas, de
alguma forma um prenúncio da sua disposição para a
conversa.
A conversa é matizada com anedotas e gargalhadas. Alguns momentos de
exaltação não o fazem perder a precisão da
linguagem nem a fraternidade da conversa. Perante a nossa
observação inicial sobre o que consideramos um novo conceito de
Ministério da Cultura sob a sua liderança, esclarece-nos que
desde o seu início em 1976 sob a responsabilidade de Armando Hart, este
organismo estatal significou a criação de políticas contra
os dogmas, as exclusões, a homofobia e em prol de uma
transparência na relação instituição-criador.
- Penso que Hart assentou as bases de outra política, que se baseava em
Palavras dos intelectuais,
de Fidel, texto que procurava favorecer a unidade numa via contrária
ao dogmatismo. De
Palavras dos intelectuais
foi uma grande convocatória a diversas gerações, de todas
as tendências: católicas, comunistas, vanguarda experimental, ou
pintores abstractos, estes encabeçados pelo pintor Raúl Martinez,
os escritores Lezama Lima, Cintio Vintier, Virgilio Piñera. Penso que a
criação do Ministério da Cultura está associada com
a recuperação do sentido martiano, o sentido verdadeiramente
unitário da política cultural deste país e Armando Hart
foi decisivo para essa política porque fundou um tipo de
instituição protagonizado pelos criadores.
Nos anos setenta ocorreu uma espécie de fractura dessa política,
o caso Padilla teve a ver com essa história. A Casa das Américas
e o ICAIC (instituto do cinema), realmente nunca participaram na
dogmatização, mas mantiveram essa linha. No Conselho Nacional de
Cultura que era a instituição que existia antes de se
criar o Ministério , lamentavelmente, pessoas muito
medíocres e sectárias ocuparam cargos de direcção.
- Há quantos anos está no Ministério?
- Assumi a 11 de Fevereiro 1997, depois de nove anos na UNEAC (União de
Escritores e Artistas Cubanos), onde o meu trabalho, ainda que excessivo, era
mais criativo. Agora o maior peso é administrativo. Ali estou, dia e
noite, fazendo do meu escritório uma extensão da minha vida
privada. Lá tenho os meus chinelos, a minha escova de dentes...
- No nosso país [Suécia], o ministro da Cultura, Leif Patrotsky,
era anteriormente o ministro do Comércio. Toda a gente se surpreendeu
com esta nomeação, pois ele não tinha nenhuma
relação com a cultura, mas argumentou-se que ele era capaz de
exportar, principalmente a música. Nós, escritores, sentimo-nos
um pouco marginalizados. No seu trabalho também entra a
exportação dos produtos culturais?
- Naturalmente as nossas empresas devem preocupar-se com a
exportação dos produtos culturais. Não temos bons
empresários, depois de 11 de Setembro de 2001, o mundo do disco, o mundo
do espectáculo ao vivo decaíram muito. Agora, o disco cubano
está a levantar-se um pouquinho. Também temos uma
limitação muito forte que é o facto de o grande mercado
cubano das artes plásticas estar nos Estados Unidos. Na música,
por exemplo, o que Chucho Valdés faz. Na Europa também
há, mas numa medida muito menor. Agora nos Estados Unidos há
grandes coleccionadores de artes plásticas cubanas e aí há
um grande mercado que absorve tudo, mas há grandes
limitações para entrar. Mas a verdade é que nós
não temos tido êxito no campo empresarial.
Há casos patéticos. O caso de Compay Segundo e de Buena Vista
Social Club. As pessoas dizem que foi descoberto por Ray Cooder e Win Wender.
O patético é que a Egren, a nossa empresa estatal, mandou Compay
Segundo às Ilhas Baleares, numa volta por Palma de Maiorca, a apresentar
um disco com um carácter puramente promocional, sem qualquer tipo de
contrato. E ali foi "descoberto" por Ray Cooder ou por quem quer que
fosse... Mas foi o Estado cubano quem pagou a passagem, a viagem, o disco,
apesar de não termos nenhum tipo de relação contratual com
ele e, simplesmente, como foi "descoberto" ele assinou contratos.
Nós alegramo-nos imenso que isso tenha sucedido, porque posicionou a
música cubana, apesar da operação ter tido o seu toque de
colonial. A mim, o próprio documentário Buena Vista Social Club
de Wender sabe-me um pouco a
bwama
branco com os aborígenes, ensinando-lhes Nova Iorque e tudo o mais.
Mas de qualquer modo há que dizer que foi importante e que colocou a
música cubana num circuito a que nós, a partir daqui,
teríamos muita dificuldade em chegar.
- Em 1981, quando se realizou o Congresso de Escritores que homenageava Lezama
Lima apresentaste uma exposição intitulada
Fragmentos a su imán.
Várias pessoas, entre elas Cintio Vintier, afirmaram que graças
a ti tinha-se resgatado a figura de Lezama. Agora o que se vê como um
primeiro passo, pois logo depois outros se seguiram, é que depois desse
facto houve uma abertura e que a chave fundamental dessa abertura foste tu.
Que significa abertura em Cuba?
- Para sermos justos, quem realmente dirigiu toda a rectificação
da política cultural depois daquela etapa foi Armando Hart, a quem eu
devo muito. Fui seu vice-ministro antes de ser presidente da UNEAC. Com ele
fui director de Literatura e director do Centro Juan Marinello. Realmente tudo
isto tem muito que ver, mais do que com aquilo que possa ter feito (e
inclusivamente com o que possa ter feito Hart), com o sentido profundo da
política cultural deste país. Creio que essa política
cultural não teve nada a ver com o realismo socialista, nem com aquela
desconfiança essencial para com os intelectuais que havia no chamado
socialismo real. Lamentavelmente, houve tendências e grupos que,
naqueles anos, fizeram retroceder essa política.
Quando se fala de abertura fala-se de política de
não-exclusão. Por exemplo, nos catálogos estão
presentes os emigrados. Uma pessoa que viva fora faz parte do actual panorama
literário cubano. Está a fazer-se um livro de Manuel
Cachán, um narrador cubano que vive em Miami, de Maurício
Fernandez, de Lino Novás Calvo, de José Kozer, o poeta de origem
judaica, de Edmundo Desnoes, que esteve aqui e foi membro do Júri do
Prémio Casa das Américas, reeditou-se "
Memorias del subdesarollo
" com uma epígrafe sua. Maira Montero, René Vásquez
Díaz. Vai estrear uma versão de "
Morir del Cuento
", dirigida por Alberto Sarraín, encenador de Miami.
Esta política começou antes de eu entrar para o
Ministério. Começou no ano oitenta e cinco, com a
publicação do livro de Lilia Cabrera (estando ela viva e sendo
uma mulher activamente contra-revolucionária). "
El Monte
", um livro fundamental para entender a espiritualidade cubana, as
religiões de origem africana, o sentir profundo dessas culturas.
Abertura é a ideia de separar a posição política de
um autor do seu contributo para a cultura cubana. Em todas as nossas
antologias estão Manuel Díaz Martínez, Jesús
Díaz. O único que não está, porque não
quis, é um homem que era doente de tanto ódio, Cabrera Infante, e
alguém muito medíocre como Zoé Valdés, que
não o pomos porque, realmente, sob o ponto de vista literário
é inapresentável.
- Também há abertura para alguma crítica? No tema da
dissidência onde está a linha divisória entre a
crítica e a dissidência?
- Há um tema da nossa realidade contraditória, complexa e por
vezes dilacerante, porque nós não estamos a construir a utopia
com que sonhamos, estamos construindo a utopia possível, nas
duríssimas circunstâncias que temos e lamentavelmente há
desigualdades, retrocessos, formas de corrupção que há
alguns anos não existiam, temos um crescimento do número de
delitos. Toda a nossa narrativa está cheia disso. Hoje, aqui,
não há livros proibidos, não há lista negra, nem
pouco mais ou menos. No teatro cubano, ou no próprio cinema cubano,
realmente houve uma presença enorme de elementos críticos.
Eu diria que na esmagadora maioria destes casos, essa obra crítica
faz-se a partir da revolução. Faz-se a partir do amor, do
compromisso, de uma relação, para além do
ideológico e mais além do que o político. Tem que ver com
pessoas que nasceram neste país, com este sistema, com este socialismo
imperfeito, e já não concebem a vida de outro modo, a não
ser deste lugar. Isto é, não é um franco-atirador
clássico, não é a consciência crítica da
sociedade, ou é-o doutro modo. Compreendem?
Onde encontro a linha divisória entre a heresia e a crítica
autenticamente criadora? Mais que heresia, eu encontro antes concessões
ao mercado internacional. Pessoas que sabem que na Europa uma literatura que
tenha determinados elementos críticos, uma visão da realidade
pode triunfar. Sim, passou-se no cinema, na literatura, uma espécie de
dissidência
light,
tolerada, uma espécie de jogo. É esse jogo o que mais me
preocupa. Não porque seja uma erva daninha para a
revolução ou para o governo, nada disso. Não é que
se sinta que alguma coisa está em perigo por isso; o que está em
perigo é a literatura, o que está em perigo é a
criação. Isto é, que se crie um modelo para que uma
editora espanhola te publique ou para que um guião teu tenha uma
co-produção.
- A nível de governos, tendo presente que a União Europeia
normalizou as relações com Cuba só por seis meses, que
é que se vai passar depois deste período?
A DUPLA MORAL DA UE
- Acredito que os que criaram essas medidas na União Europeia, Aznar e
talvez alguns tecnocratas e assessores, se são pessoas minimamente
honestas, têm que sentir-se muito envergonhadas. Penso que é a
utilização da cultura como refém, para piscar o olho ao
governo de Bush. Em tudo isso, o que houve foi a incapacidade da UE em
construir uma política para com Cuba, independente dos Estados Unidos.
Temo que por trás de tudo isto esteja o terror da camarilha fascista,
têm medo dessa camarilha que os humilhou. E quanto Cuba não
souberam construir uma política independente. É muito importante
que haja aí uma dose de dignidade e de racionalidade.
Sobre o que nós fazíamos dou um exemplo: havia semanas de cinema
francês e levávamo-lo a todos os municípios, através
de salas de vídeo. Semanas de cinema alemão. Fazíamos um
esforço particular porque nos interessa muito que todo o público
tenha uma visão plural da cultura. A própria Feira do Livro
dedicada à Alemanha, apesar dos alemães terem retirado todo o
apoio a apenas três meses da feira, o que também sucedeu com umas
supostas ONG's, tivemos que faze-la só nós. Além disso
criou-se um enorme comité de solidariedade. Vieram mais de 30 editoras.
Conseguimos que Gunter Grass nos cedesse os direitos da sua última
novela. E de outra novela de Krista Wolff. Fizemos
tabloides,
uma grande difusão da música alemã, um trabalho
realmente muito sério, inaugurámos um busto de Bertolt Brecht.
Penso que eles só têm de se sentir envergonhados, porque é
uma política indefensável.. Agora mesmo, acabamos de inaugurar
uma exposição extraordinária de Louise Bourgoise, a grande
escultora franco-estadunidense. É a vontade deste país de que a
arte de vanguarda esteja presente neste projecto de cultura massiva.
- É evidente que isto não é suficientemente conhecido na
Europa. Mas ao mesmo tempo creio que a razão, sem pretender defender os
europeus, o que está por detrás disto tudo, é a
inquietude perante o que está passando, a dissidência.
Também é verdade que, depois da queda do muro, o anti-castrismo
está na moda, tal como a crítica anti-comunista em geral.
- Porque é que a União Europeia não suspendeu as trocas
culturais com os Estados Unidos depois de Abu Ghraib? Porque é que a UE
não sancionou os Estados Unidos pela selvajaria que está a
ocorrer em Guantanamo? Porque é que não perguntam pela
quantidade de pessoas desaparecidas a que não fizeram qualquer
julgamento? Nós aplicamos as nossas leis, e são leis duras, mas
são leis de um país que se está a defender.
- E pela dependência económica...
- Claro Essa é a moral dupla, porque têm medo. Porque que
é que condenam Cuba e não condenam os Estados Unidos? Aqui
não desapareceu ninguém. Aqui jamais houve um torturado. Jamais
se provou que Cuba maltrate um prisioneiro, enquanto que a essas pessoas
têm-nas enjauladas, como cães... Essas fotos sádicas,
temíveis, inclusive de islâmicos que têm uma
relação especial com o corpo, culturalmente, para eles é
muito mais agressivo despirem-se, açularam-lhes cães amestrados
para os torturarem. Agora Condoleeza Rice está a defender a tortura,
então porque é que não há uma
declaração da UE rompendo o intercâmbio cultural, porque
é que não bloqueiam os Estados Unidos? Aqui há uma moral
dupla. É conhecida a nossa visão destes indivíduos que se
proclamam dissidentes, nós pensamos que estes indivíduos, em
qualquer país europeu nas nossas condições, estariam
processados e provavelmente cumprindo penas de prisão. Porque
são pessoas que estiveram a trabalhar ao serviço de uma
potência estrangeira que nos declarou guerra e que são pagos por
essa potência estrangeira. Em todas as partes do mundo, nas nossas
condições... E não é um qualquer país o
que nos ameaça, não é o Haiti ou a República
Dominicana. É uma superpotência monstruosa, com um poder de
aniquilação que poderia varrer-nos do mapa. E são pessoas
que recebem dinheiro. Daí eu pensar que tudo isso faz parte de xadrez
medíocre, mesquinho, um xadrez político onde Cuba é
sacrificada no xadrez da geopolítica internacional, com o medo
terrível, vergonhoso que têm a Bush. E aí, nada menos que
um dos mais sacrificados, é o intercâmbio cultural.
A mim, isso ofende-me muito. A mim, esse tema toca-me e não posso
deixar de me apaixonar, porque é vergonhoso. Depois de cumprido o prazo
que eles próprios impuseram eu não posso prognosticar nada. O
próprio prazo, a nós, ofende-nos, que este é um
país com muita dignidade; Lasse e Angela, a verdade é aqui
não vamos fazer nenhum tipo de farsa para que nos perdoem a vida, como
se esperássemos o grande tribunal.
MARTI E O MARXISMO LATINO-AMERICANO
- Pode dizer-se que um "fantasma percorre a América Latina",
não o fantasma do comunismo, mas um fantasma amorfo? Qualquer coisa se
está a passar, como vimos em Caracas. Comente-nos um pouco como
vê o que está a suceder na Venezuela, no Brasil...
- O que estamos a ver na América Latina é algo que Cuba
denunciou, anunciou, profetizou quando caiu o muro de Berlim, e se entoou,
então, o grande cântico triunfal de que o mercado ia ser o Deus
poderoso que tudo resolveria. A oportunidade de estar em Espanha na Cimeira
Ibero-Americana de 92, no V Centenário do suposto
"descobrimento", um
encontrão
sangrento, onde a delegação cubana foi uma espécie de
peça de museu. Fidel como se representasse algo de velho, algo que
tinha passado à história. Tínhamos chegado ao fim da
história, anunciou-o Fukuyama... E tinha chegado o mundo da democracia,
da liberdade, do livre comércio, em que tudo se ia resolver. Ali,
estavam Menen, Salinas de Gortari, Color de Mello, Felipe Gonzalez, que foi o
anfitrião.
Na verdade, Fidel Castro foi ali a voz dissonante no meio dum coro triunfal.
Porque disse: este modelo do neoliberalismo vai rebentar, porque é um
modelo que tornará muito mais profundo o abismo entre ricos e pobres,
vai aumentar a pobreza, vão retroceder todas as conquistas e direitos
dos trabalhadores, todas as conquistas dos sindicatos vão ser
liquidadas.
Muitos membros daquele coro são hoje perseguidos por corruptos. Mas eu
recordo que foi uma situação muito amarga, porque apesar de
muitos amigos nos abraçarem, nos saudarem, ninguém tinha
fé em que a revolução cubana pudesse sobreviver.
Era dado como inevitável que depois do derrube do socialismo
íamo-nos desintegrar, íamos ser derrotados. O que é que
se passou? Creio que o que se está a passar na América Latina
é a crise total desse modelo que foi imposto a sangue e fogo. Olha, a
Argentina, que é um país produtor de carne e de alimentos, um
país rico, com grandes recursos... viu crianças morrer de fome,
há casos terríveis de desnutrição na Argentina!
Há um documentário de Fernando Pino Solanas, intitulado
"Memória do saque"
[1]
, que parece um manual de como esse modelo neoliberal pode destruir um
país. Privatizaram tudo, os terrenos, a segurança social, os
cemitérios... O Estado ficou como o repressor. O que o Estado tem que
fazer é reprimir para que as transnacionais explorem os países.
Uma das grandes críticas que nos faziam era: o que faz o Estado
metendo-se nas questões económicas? O Estado ter tido algum tipo
de intervenção, algum poder regulador, isso foi um grande
disparate em 1992. O próprio Felipe Gonzalez o dizia e toda a gente o
acolitava. Era o mercado que ia pôr a ordem. E que fizeram? Fizeram
crescer as massas de excluídos, falamos da Venezuela, falamos da
Argentina, mas o que é que se está a passar na Bolívia? E
no Equador e no Uruguai? Quando alguém analisa o modelo, dá
conta de que meteram água por todos os lados e que as pessoas
estão simplesmente a tomar uma consciência, cada vez mais clara,
de que é uma loucura o que se está a passar.
- Na Europa também se fala assim, mas em órgãos de
comunicação alternativos e em páginas de opinião
mas, na verdade o que mais apoquenta os governos é a Ásia, a
China que está a despertar... tudo o que agora disse não lhes
importa muito. E isso é trágico, sentimos que na Europa
há uma espécie de incerteza na esquerda que não sabe como
se vai desenvolver.
O trauma do derrube do socialismo e o fim da bipolaridade fizeram muito
mal à esquerda. Há uma esquerda eleitoral absolutamente
integrada no sistema. Não é igual à direita, tem uma
sensibilidade maior mas, realmente, está muito integrada. É uma
esquerda que não aspira a transformar a ordem das coisas, mas que aspira
a ter cargos no governo, a ter parlamentares, etc.. E há uma esquerda
que não é eleitoral, que tem outro tipo de
aspirações, que se está a alimentar deste tipo de
movimentos sociais, o Fórum Social Mundial foi muito importante. Hoje,
a Venezuela é uma referência importante, mas essa esquerda
também está muito dividida, tem uma tradicional e patética
capacidade de se dividir. A direita, por vezes, actua de modo
implacável....
- ... há menos incerteza na direita.
- Há menos incerteza, actuam. Bom, Blair é social-democrata e
acompanhou Bush na guerra do Iraque, e mentiu como ele. Blair está a
participar no genocídio e nas novas guerras coloniais com grande
entusiasmo. É muito complicado. Tudo o que pressupõe
justiça social, participação dos cidadãos,
segurança social, direito ao emprego, à vida, à
saúde, todos estes temas que são os que deviam justificar uma
opção de esquerda, estão muito debilitados. O mundo
inteiro está muito debilitado.
Creio que na América Latina as pessoas autenticamente de esquerda
vão encontrar processos muito interessantes. E também as pessoas
da direita honesta, porque a honestidade é um valor que tem um
espaço relevante. Isto é, não aceitar o genocídio
no Iraque, ainda que seja uma pessoa de direita, já é alguma
coisa. A ética, os valores. Não aceitar o genocídio dos
palestinos já tem algum valor.
As palavras esquerda e direita já há quem as veja como algo um
pouco velho. Mas tens de te interrogar-te: estás pela vida ou pela
morte estás pelo genocídio, estás porque haja um
mínimo de legalidade internacional, estás porque haja soberania,
essa palavra que parece da Idade Média, parece tão velha,
tão fora de moda.
Bush disse que onde não haja um regime democrático, segundo o
critério de Deus (porque, evidentemente, ele tem uma
relação promíscua com Deus), onde não haja um
país democrático segundo a sua versão etílica da
democracia, então isso já é um perigo para os Estados
Unidos e há que atacá-lo. É incrível! E o mundo
inteiro a aturá-lo, a esse Calígula... É absolutamente
vergonhoso. Realmente, não sei como não há
reacção. Onde quer que haja pessoas honestas que recusem essa
visão imperial das coisas há um valor importante, uma
espécie de cultura de resistência. Por vezes é muito
difícil porque encontras pessoas de esquerda que preferem ver decapitado
o ex-camarada antes do imperialismo, isto é, essas pessoas chegaram a um
nível de ressentimento em que é muito complicado construir uma
frente, construir um movimento.
- Em Caracas surpreendi-me muito quando, num dado momento, ouvimos Chávez
dizer que tinha lido um autor que se chama Trostky. Para mim foi uma surpresa,
e depois descobri que a filha de Armando Hart está a escrever sobre
Trosky. Pensas que há uma espécie de regresso ou de
reorientação? Também, nos últimos tempos, se
discute muito Gramsci. O que significa este redescobrir de socialistas hereges.
- Estudei Gramsci na Universidade e para mim é essencial. Vejo-o como um
marxista do sul, recorda-te que ele era natural da Sardenha, vem dum mundo
camponês e o tipo de elaboração marxista de Gramsci, e a
sua leitura de Lenine é a partir do sul. Vejo que é um homem que
tem muito a ver com a revolução cubana. A ideia de hegemonia
cultural, a ideia de que podes ter o poder político, o poder militar,
mas se não tens o poder cultural, então o teu poder é
débil e pode ser reversível. Para mim, sem Gramsci não se
pode explicar o derrube do socialismo da União Soviética e na
Europa Oriental. É um pensador imprescindível, tal como Lenine.
O derrube daquele socialismo permitiu-nos uma leitura mais aberta, menos
preconceituosa do património de toda a esquerda.
- Chávez entusiasmou-se...
- Uma coisa bonita de Chávez, e tu apercebeste-te, é que tem uma
relação uma relação com o património da
esquerda muito aberta. Ele não parte de manuais, nem de estruturas de
pensamento já elaboradas. É bonito que seja assim, penso que
é muito estimulante que se aproxime desse modo, sem nenhum tipo de
prevenções, e que o confesse como ele o faz, sem o peso da
esquerda tradicional. Parece-me que num momento como o presente haveria que
ter a capacidade de assumir todo esse legado da esquerda marxista e da esquerda
não marxista. Para nós, por exemplo, continua a ser fundamental
José Marti, Mariátegui que é um grande marxista
latino-americano. O pensamento latino-americano, não só Marti,
mas também José Ingenieros, Marinello, o próprio Mella, um
homem de acção mas também de pensamento, que foi o
primeiro a ligar-se a Marx e a Marti. A contaminação do dogma
provocou muito prejuízo.
- E isto também influencia a política do Estado?
- Fidel e Che... Recorda-te dos textos de Che e do próprio Carlos Rafael
Rodriguez, que apesar de ter a formação do partido tradicional,
tem textos iluminados. O pensamento da revolução cubana foi
sempre bastante original. Uma das contribuições desta
revolução ao pensamento da esquerda é uma visão
muito pouco dogmática quanto aos clássicos. Por exemplo, eu
nunca ouvi Fidel ou Che mencionarem Gramsci, mas sinto que eles são
gramscianos sem nunca o terem estudado. Porque a tese de Fidel sobre o papel
do subjectivo numa revolução é puramente gramsciana.
É também martiana. É a ideia de que se pode vencer
condições que objectivamente são muito adversas, a partir
de uma cultura política.
A própria tese de Marti "trincheiras de ideias podem mais que
trincheiras de pedra", é uma ideia gramsciana e é uma ideia
que Fidel tem à flor da pele. Acredito que o pensamento cubano nada tem
a ver com o marxista mecanicista de que vamos chegar ao comunismo, como uma
espécie de determinismo manifesto, e que tudo isso se vai concretizar em
consequência de condições históricas.
- A propósito deste tema, muitos diriam que é o mesmo.
Admitindo que Fidel não é um ditador, como se diz muitas vezes,
pode-se talvez dizer que é um autocrata, que há uma autocracia em
Cuba, porque há muitas coisas a depender de uma só pessoa.
- Julgo que o sujeito político, isto é, o agente de
mudança
na história, que no marxismo é o proletariado, está
imensamente enriquecido nas teses de Fidel. Já está em "A
história me absolverá". Quando Fidel define o agente da
mudança, as forças da mudança neste texto, mete uma
quantidade de temas sociais que vão muito para além do
proletariado. Claro que também influi o facto de Cuba, então,
não ser um país industrializado, ainda que houvesse um
proletariado, sobretudo açucareiro, um proletariado inclusivamente
organizado e com ideias comunistas. Sim, Fidel conhecia o marxismo, mas ele
enriquece o sujeito político e o agente de mudança. E,
naturalmente, ele põe aí o campesinato, não com o conceito
da aliança operário-camponesa, não, o campesinato foi
fundamental na formação deste país, na guerrilha foi
fundamental, o desempregado foi fundamental.
O marxismo clássico fala do lumpen-proletariado, tudo isso está
metido numa massa revolucionária... Fidel diz "falamos de povo
quando se trata de luta". Ele faz uma definição e aí
mete os artistas, as pessoas da classe média e a pequena burguesia. Faz
uma espécie de conceito multi-classista que tem muito mais a ver com os
conceitos actuais dos movimentos sociais. Penso que Fidel não tem nada
a ver com o autocrata. Digo-o pela minha experiência pessoal.
Durante nove anos dirigi uma organização não
governamental, a União de Escritores e Artistas Cubanos [UNEAC], e tive
a máxima autonomia de trabalho. No Ministério da Cultura tenho a
máxima autoridade, tal como na Feira do Livro e na política
editorial, na literária. Essa ideia de que Fidel esta aqui a movimentar
uns títeres é falsa. Nunca perguntou que livros publicamos,
nunca nos disse "publiquem Marx e Engels", nunca questionou um livro,
uma obra de teatro. Ele construiu uma equipa multi-geracional onde eu
não sou dos mais jovens. O nosso chanceler, Filipe Perez Roque, tem 39
anos. A equipa económica, a equipa que dirige os municípios
é gente jovem. A tese Lasse, a famosa tese de que se Fidel morre a
revolução não tem continuidade...
- Sim, essa era a minha última pergunta. A pergunta jornalística
obrigatória...
- Já ma fizeram muitas vezes. O famoso dia seguinte, como se diz.
Há já muitos anos que Fidel, Raúl, a geração
histórica, estão a construir a rendição.
Não vai ser um indivíduo, eu pessoalmente tenho muitas
dúvidas de que possa sair alguém com o tipo de liderança
que tem Fidel. É uma construção multi-geracional.
Há dias estive com Abelardo Estorino (um dramaturgo com 80 anos e a quem
dedicámos a Feira do Livro, em Unión del Rey, um município
de Matanzas). A secretária do partido em Unión del Rey acaba de
fazer 30 anos, é engenheira. O presidente do governo municipal acaba de
fazer 40 anos, é licenciado em educação.
Pessoas inteligentes, com formação cultural, com uma grande
relação com a base, com a população. Pessoas
brilhantes, muito jovens. Não são burocratas, vivem como as
outras pessoas, procurando água com um púcaro quando esta falta,
lutando para que os abastecimentos à população cheguem a
tempo, para que não falte um caixão (porque, por exemplo nos anos
noventa faltava madeira para fazer caixões). Foram anos
duríssimos, muito amargos... Essas pessoas não têm nada a
ver com os burocratas da União Soviética que tinham
datchas
, são pessoas do povo e ao mesmo tempo muito cultas. Essa
rendição não está num pequeno grupo de pessoas, nem
é um indivíduo específico, são uns milhares de
pessoas de diferentes gerações, que sabem que o que estamos a
fazer e a defender, o que neste país tem um enorme valor, e que
estão muitas gerações nesta história.
Além disso, são pessoas que nasceram na revolução,
como a secretária de Unión del Rey, uma mulher que nasceu nos
anos 70, em plena revolução. Vão falar-lhe de
capitalismo? Vão-lhe dizer que é melhor o que vão trazer
os americanos, o que vai trazer essa gentalha de Miami? Não amigo,
não podem faze-la acreditar nisso. Há
contradições, há uma massa de pessoas que quer emigrar,
não por razões políticas, asseguro-te. Não
são razões políticas, todas são razões
económicas. Formámos uma massa de profissionais, pessoas que
podem ser muito competitivas no estrangeiro e que aqui não têm as
melhores condições materiais. Essa é a realidade.
Cuba não vive isolada do mundo neoliberal que nos rodeia.
Continua a depender da pressão dos movimentos sociais. O governo
só responde às pressões. Se o governo estivesse desligado
das suas bases populares, seria possível que se repetisse essa
contradição entre um programa social avançado contido por
uma política económica conservadora, para a qual a
responsabilidade fiscal não deve ter como contrapartida a
responsabilidade social.
- Alguns analistas disseram que o governo de Lula estaria a viver uma
grande contradição entre a sua política exterior e a
interna, mas que em dado momento o governo terá que optar.
As contradições são muitas, como ocorreu com Miterrand em
França e, a meu ver, também ocorrerá com Michelle Bachelet
no Chile. Hoje os partidos social-democratas como o PSDB são de facto
conservadores, retrógrados, e os de esquerda, como o PT, o PC do B,
são social-democratas. De esquerda são Fidel, Chávez e,
espero, Evo Morales. Tabaré Vasquez e Lula caminham no fio da navalha.
- Está a acompanhar os acontecimentos na América Latina, a
eleição de Evo Morales, o avanço da
revolução bolivariana, o avanço dos movimentos populares
no Equador, Peru e Nicarágua, entre outros, e a moderação
de certos governos como o do Uruguai. Como analisa o actual quadro do
continente?
Hoje há o Norte e o Sul. É aqui, na América Latina, que
a democracia está dando um salto qualitativo. Cansado do
neoliberalismo, o eleitorado vota por governos populares, que a direita
caracteriza como populistas. É claro que a conjuntura nem sempre
permite que o desejável se torne possível. Mas acredito que
há avanços consideráveis, como a recuperação
do Mercosul e o entendimento entre os governos da região. O desafio
é o movimento popular aumentar o seu poder, para forçar os
governos populares a serem coerentes com os seus programas de campanha
eleitoral.
[1]
Clique aqui para encomendar o DVD do filme
Memoria del saqueo
, de Fernando Solanas .
[*]
Ministro da Cultura de Cuba. Entrevista efectuada em Havana, durante a Feira
do Livro.
O original encontra-se em
http://www.lahaine.org/index.php?blog=3&p=13378&more=1&c=1
.
Tradução de José Paulo Gascão.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
.
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