Ainda não se podem depor as armas
Pela quinta vez reúnem-se nesta sala os representantes de movimentos
sociais que protagonizam a campanha anti-ALCA, a fim de reflectir, debater e
concretizar acções destinadas a derrotar o projecto estadunidense
de anexação e recolonização da América
Latina e do Caribe.
Em nome do Comité Organizador Cubano nós os acolhemos com a
satisfação de tê-los entre nós e conscientes do
dever de lhes oferecer as condições organizativas adequadas para
que este V Encontro siga a tradição dos quatro anteriores como
oficina de trabalho a fim de nos aproximarmos a essa outra América
melhor, a "Nossa América" que reclamou José
Martí, na qual da filosofia do saque, do esbulho do livre
comércio, da ALCA e do domínio imperialista não têm
cabimento.
Decorreu um ano desde o encontro anterior, no qual acumularam-se novas lutas
dos movimentos sociais contra a ALCA e os Tratados de Livre Comércio,
com a militarização da região que é promovida pelos
Estados Unidos, contra a dívida externa e a política neoliberal.
Nesse lapso de tempo houve êxitos e tendências na política
dos Estados Unidos, actuando como centro de poder hegemónico, o que
é necessário recordar a fim de extrair conclusões que nos
permitam actuar melhor na batalha contra um inimigo poderoso que aplica novas
tácticas para impor a sua dominação.
Tal como há um ano, a resposta do governo Bush aos múltiplos
problemas mundiais é a militarização e a repressão.
A militarização aparece cruamente num gasto militar de uns 500
mil milhões de dólares, mais da metade do gasto militar mundial,
ainda que incapaz de evitar o que já é uma derrota evidente no
Iraque. E a repressão exprime-se de variadas formas, desde uma Lei
Patriota que mutila os direitos cidadãos nos Estados Unidos e fortalece
a acção de um estado policial, as restrições contra
os imigrantes, até a escandalosa prática da tortura de
prisioneiros como sistema. Enquanto isso, ao mesmo tempo, o discurso da
suposta defesa dos direitos humanos estabelece recordes de hipocrisia
espectaculares.
Tal como há um ano, o governo dos Estados Unidos não conseguiu
outra coisa no Iraque senão fazer um vão alarde de tecnologia
militar, mas não conseguiu submeter a população iraquiana
nem estabelecer uma ordem social, económica e política
sustentável, nem impedir que mais de 2000 soldados norte-americanos haja
regressado a casa em ataúdes, e muitos mais tenham sido feridos e outros
hajam desertado.
Continuam presos no dilema de ferro do invasor imperialista estrangeiro:
não podem ir-se, mas tão pouco podem ficar.
O modelo que os Estados Unidos teimosamente continuam a querer para a
América Latina e o Caribe é o neoliberalismo puro do livre
comércio e a privatização. Sustenta que os resultados
insatisfatórios até agora obtidos com a sua
aplicação devem-se a uma dose insuficiente. Queixam-se de que o
caminho das "reformas" foi percorrido pela metade e que a
região dever tragar por inteiro a cicuta neoliberal para iniciar
então o esplêndido tempo do crescimento económico e a
distribuição da riqueza.
Na revista
Perspectiva,
essa luxuosa plataforma de propaganda neoliberal, integrada, entre outras
instituições pelo Centro Internacional da Empresa Privada dos
Estados Unidos, a Fundação Liberdade da Argentina ou o Instituto
Liberdade e Desenvolvimento do Chile, e ligada naturalmente ao Instituto Cato,
pode-se ler: "...em alguns destes países introduziram-se reformas
parciais pro mercado sem modificar os elementos básicos da sua estrutura
económica e quase nenhum perseverou durante um período de tempo
suficientemente prolongado na direcção correcta".
Esse modelo desejado pelos neoliberais tem na ALCA uma expressão
relevante, ainda que não seja a única. Recordemos que a ALCA
é uma das expressões de um projecção de
dominação continental para o saqueio a fundo da região,
que implica uma concepção sobre o desenvolvimento e a soberania e
as funções dos estados nacionais e que esse projecto imperialista
adopta formas e procedimentos variados que nos obrigam a repensar nossas
acções.
Quanto à ALCA, depois da derrota que foi para os Estados Unidos chegar a
Janeiro de 2005 sem Acordo firmado, o governo de Bush fez um esforço
supremo para proporcionar-lhe respiração artificial e
revivê-lo na Cimeira de Mar del Plata. Mas ali, a tentativa de por a
ALCA novamente à flutuar afundou-se também, pela
combinação de uma maciça e combativa
demonstração dos movimentos sociais anti-ALCA, desafiando a chuva
e o frio, e a oposição de alguns governos naquela reunião.
Agora, o projecto da ALCA original, o dos 34 países, excepto Cuba,
está congelado o que constitui uma boa notícia e a
expressão de uma vitória da Campanha Continental contra a ALCA.
É uma vitória numa fase da batalha para nos exprimirmos em
termos militares mas ainda não é o triunfo na guerra e nem
chegou o momento de depor as armas.
Como vírus maligno, a ALCA fez mutação quando encontrou
resistência ao grande projecto que abarcava os 34 países numa
só Área de Livre Comércio. Agora a ALCA mantem a
essência do projecto de dominação para apoderar-se do
petróleo e do gás, da água, da biodiversidade, dos
mercados e da força de trabalho da região, mas o seu rosto
são os Tratados de Livre Comércio envoltos na propaganda da
liberalização comercial.
Estes tratados de livre comércio bilaterais ou plurilaterais são
pequenos ALCAs nos quais se condensam os conteúdos do pacote de
política neoliberal, e nos quais a ênfase propagandística
é aplicada às bondados do livre comércio. Sejam estes
tratados com os Estados ou com a Europa, o que há neles de substancial
não se altera. Neles, o neoliberalismo fica consagrado como
política económica e é convertido em
obrigação jurídica dos estados.
A negociação dos TLC não está paralisada. Neste
momento, três países têm Tratados com os Estados Unidos em
pleno funcionamento (México, Canadá e Chile), em outros seis
países encontra-se em avançado processo de
ratificação pelos Parlamentos (os cinco países da
América Central e Rep. Dominicana) e em outros quatro países
(Colômbia, Peru, Equador e Panamá) continuam as
negociações. Com a União Europeia dois países
têm Tratados em vigor (México e Chile) e as
negociações com o MERCOSUL estão detidos no momento.
O resultado da reunião ministerial da OMC, efectuada em Hong Kong, desta
vez não foi o sonoro fracasso experimentado em Seattle e Cancún
pela liberalização comercial e sim um polémico e
débil consenso com sérias reservas colocadas por Cuba e
pela Venezuela que evitou o possível colapso institucional da OMC
e terminou com a promessa de uma data muito não muito próxima por
parte dos Estados Unidos e da União Europeia para por fim aos
subsídios à exportação de produtos
agrícolas. Mas os subsídios à exportação
não são os únicos que se praticam e assinala-se que
mediante outras formas de subsídios os Estados Unidos e a União
Europeia poderão manter depois dos ano 2013 uma elevada
protecção aos seus sectores agrícolas.
Em troca dessa data, os países do Sul aceitaram a chamada fórmula
suíça para determinar o acesso ao mercado não
agrícola, a qual reduz as tarifas mais altas em proporção
maior que aquelas mais baixas. Deste modo, países subdesenvolvidos que
mantêm tarifas mais altas para proteger seus sectores industriais e fazer
substituição de importações ver-se-iam obrigados a
reduzir suas tarifas em maior grau. Os países do Sul aceitaram
também um processo plurilateral de negociações em
matéria de serviços, que introduz um elemento de mandato e
obrigará os países mais fracos e envolverem-se em
negociações governadas pela afã de liberalizar em marcha
forçada.
Nesta reunião ministerial o Sul nada obteve quanto aos chamados temas do
desenvolvimento, como o acesso a mercados para os países mais pobres, a
ajuda ao comércio e, em especial, o importante princípio do
tratamento especial e diferenciado em favor dos países de menor
desenvolvimento. Este princípio voltou a ser engavetado.
Funcionou novamente o intercâmbio desigual contra os países do Sul
ao trocar a pequena migalha de uma data a 8 anos de distância por
importantes concessões no caminho da liberalização.
Na Organização Mundial de Comércio, que tem maior
hierarquia institucional do que Acordos regionais como a ALCA, e nos Tratados
de Livre Comércio que os Estados Unidos e a União Europeia
propõem, a filosofia e a retórica do livre comércio
são de presença obrigatória.
Quando ouvimos a expressão livre comércio dita pelo governo dos
Estados Unidos, pelo G-7, pelo FMI, pelo Banco Mundial e pela OMC, isto
significa muito mais do que comércio e compõe um pacote que
inclui a ALCA e as negociações da OMC, os Tratados Bilaterais e
Plurilaterais de Livre Comércio e de Investimentos, os Acordos
subregionais como o Plano Puebla Panamá, o Acordo Andino sobre
comércio e erradicação de drogas, os planos de
militarização como o Plano Colômbia, a
instalação de bases militares, a continuação da
dívida externa como mecanismo de expoliação, o pretexto da
luta contra o terrorismo para justificar a repressão, e a
manipulação dos direitos humanos de acordo com as
conveniências do império.
Hoje o chamado livre comércio é antes de tudo uma falácia
e um engodo para encobrir a verdadeira política de
dominação e exploração.
Na economia mundial globalizada e transnacionalizada, dominada por gigantescas
corporações e onde os Estados Unidos e a Europa praticam um
apertado proteccionismo selectivo, o livre comércio é
ficção.
Os países desenvolvidos fazem o que sempre fizeram ao longo da
História Económica: exigem livre comércio para os
sectores em que a sua capacidade de competição é superior
a praticam a protecção dos sectores onde a
competição não lhes convêm.
Não é correcta de modo algum a noção que o
pensamento neoliberal pretende apresentar como um dilema absoluto, isto
é, a escolha obrigatória entre o livre comércio puro e
acertado ou o proteccionismo erróneo e malévolo.
Em rigor, o livre comércio não é livre agora nem nunca o
foi, nem sequer já é comércio de acordo com o conceito
clássico deste, nem sua prática gera crescimento económico
por si, nem reduz a pobreza, nem proporciona "benefícios
mútuos" entre as partes que comerciam.
Com efeito, o conceito do comércio supõe o intercâmbio de
mercadorias que mudam de proprietário ao efectuar-se o movimento das
mesmas, mas dois terços do actual comércio mundial estima-se que
não sejam senão comércio intra-firmas, isto é,
comércio cativo dentro da cadeia de filiais de grandes
corporações transnacionais que "compram" e
"vendem" entre elas para evadirem impostos ou transferirem lucros e
que aparecem nas estatísticas como exportações de
países latino-americanos ou de outras regiões, mas que na
essência sempre estiveram dentro da cadeia corporativa e governadas pela
estratégia global da mesma.
Podemos imaginar o "livre" deste comércio ou desta
formação de preços nesta caricatura de comércio
entre filiais de uma mesma transnacional.
Um pouco de História Económica ajuda a compreender melhor a
falácia do livre comércio.
Na Inglaterra, que emergiu do século XVIII com a indústria mais
desenvolvida da época, enfrentaram-se os industriais
partidários do livre comércio e os latifundiários
beneficiários de subsídios que encareciam os alimentos e
matérias-primas que, por sua vez, elevavam os custos dos industriais
necessitados de matérias-primas baratas para a indústria e
alimentos baratos para a força de trabalho. A luta entre industriais
livre-cambistas e latifundiários proteccionistas foi resolvida com a
vitória dos industriais, expressa nas leis sobre cereais de 1846. Mas
esta não foi a vitória da razão pura do livre
comércio e sim a vitória de uma classe social na luta
política contra outra.
Nos Estados Unidos anteriores à Guerra da Secessão, a
história foi ao contrário. Ali, nos estados industriais do
norte, a indústria era incipiente e incapaz de competir com as
manufacturas inglesas. Nos estados agrícolas e escravocratas do sul, a
capacidade exportadora era elevada especialmente de algodão
e queriam produtos industriais mais baratos do que os oferecidos pelos
estados do norte. Aqui os industriais eram proteccionistas e os
latifundiários escravocratas eram partidários do livre
comércio.
O choque de interesses foi resolvido a sangue e fogo na guerra civil
A essência do debate entre o livre comércio e o proteccionismo foi
expressa por Ulysses Grant, herói da Guerra da Secessão e depois
de presidente dos Estados Unidos, que provavelmente jamais leu Adam Smith.
Disse o presidente Grant::
"dentro de 200 anos, quando a América
houver obtido do proteccionismo tudo o que puder oferecer, adoptará
também o livre comércio"
.
Não esperaram 200 anos, e sim muito menos, para começar a impor o
livre comércio, combinando-o com a rígida protecção
da sua agricultura e um discurso que os apresenta como os arauto do livre
comércio mais puro.
Foi muito exacta a definição que Che Guevara fez do livre
comércio: "livre competição para os
monopólios; raposa livre entre galinhas livres".
Tem razão o presidente Hugo Chávez quando se refere a Tratados de
Comércio com Justiça, e também o presidente Evo Morales ao
falar de Tratados de Comércio para os Povos. Em ambos os casos
está presente a recusa da armadilha do livre comércio e a busca
de vias para que o comércio, e mais do que ele, a
integração dos povos, se torne realidade.
Esta ofensiva norte-americana pelo livre comércio transcorre agora em
condições diferentes das de poucos anos atrás. Agora, o
neoliberalismo entrou numa crise evidente. Há um ano
assinalávamos aqui que os estalidos sociais que têm sua base no
desemprego, na pobreza e no desespero provocados pelo ajuste neoliberal havia
conduzido à queda de 9 presidentes latino-americanos favoráveis
ao neoliberalismo antes que terminassem seus mandatos, ao longo da
última década e meia.
Desde então até agora, destaca-se o final precário do
período de mandato do presidente do Peru, com níveis
ínfimos de apoio popular, a turbulência política no
Equador, e de modo muito especial, a brilhante vitória eleitoral de Evo
Morales na Bolívia, com o apoio decisivo dos movimentos sociais,
derrotando o candidato da oligarquia neoliberal e enchendo de alegria o povo
boliviano, de modo muito merecido a sua população
indígena, explorada e discriminada durante séculos.
A crise do neoliberalismo surge de muitas formas, dentre elas encontra-se o
balanço económico e social dessa política a partir de
1980, segundo estatísticas da CEPAL. Dessas informações
comprova-se que o neoliberalismo piorou a situação entre esse ano
de 1980 e o ano de 2005 quanto a crescimento económico regional e
crescimento do PIB por habitante, desemprego, poupança interna e
investimento de capital, formação de capital fixo, défice
em conta corrente, dívida externa e serviço da mesma,
participação de empresas transnacionais no controle da economia,
pobreza e indigência, distribuição do rendimento,
delinquência e insegurança dos cidadãos, homicídios
e corrupção. Seus êxitos limitam-se à
redução da inflação e do défice fiscal.
Em 1953 a América Latina e o Caribe efectuavam 10,5% das
exportações mundiais. Agora essa porcentagem é de 5,2%, a
metade inferior, apesar dos sermões acesos sobre a abertura e o livre
comércio e depois de haver privilegiado as exportações em
direcção aos Estados Unidos e à Europa por cima dos
mercados nacionais deprimidos pelo desemprego e pela distribuição
do rendimento regressiva.
O neoliberalismo que no momento da criação da
Aliança Social Continental, em 1997, parecia todo poderoso, reclamava
com arrogância a categoria de pensamento único e proclamava com
petulância o fim da História está a ruir.
Nessa ruína a luta dos movimento sociais é peça de enorme
importância quanto à crítica, a resistência, a
mobilização popular e a oposição ao modelo
neoliberal.
Foram os movimento sociais as principais trincheiras de contenção
do projecto imperialista nos anos duros do pensamento único exacerbado e
da hegemonia estadunidense.
Agora, os desafios colocados perante os movimentos sociais são
diferentes.
A crítica, a resistência, a oposição e a
mobilização popular continuam a ser necessárias, mas
perante as rachaduras do modelo neoliberal, surgem outras necessidades.
Uma delas é enfrentar a capacidade do neoliberalismo para continuar a
determinar a política económica, já derrotada inclusive
política e eleitoralmente.
Os movimentos sociais têm que criticar e opor-se àquele modelo,
mas também têm uma tarefa de construção, desse mundo
melhor que só surgirá como criação colectiva e como
esforço concertado.
O neoliberalismo está em crise e a cada dia chegam novas
manifestações da mesma, como as impressionantes
manifestações populares em França contra a Lei do Primeiro
Emprego, que obrigaram o governo a retirar a referida lei ao serviço da
"flexibilização laboral" neoliberal. Mas não
basta criticar o modelo e a ele se opor. É necessário romper com
o pensamento e a prática económica que continuam encerrados no
livre comércio, no equilíbrio do défice fiscal, nas
facilidades ao capital estrangeiro, ainda que a maioria da
população esteja farta de tal política.
A crise do neoliberalismo não será irreversível e
definitiva, por mais injustiça que provoque, até que novos
valores de pensamento que se sustentem numa nova prática
económica baseada na solidariedade e na cooperação ocupem
o lugar do vírus neoliberal de profunda penetração.
Para esses novos desafios de construção e
afirmação, é oportuno insistir na utilidade de propostas
como a Alternativa para as Américas, elaborada pela Aliança
Social Continental e a Alternativa Bolivariana para as Américas proposta
pelo presidente Hugo Chávez.
O ALBA já é o guia das relações de
intercâmbio de variado tipo entre a República Bolivariana da
Venezuela e Cuba. É muito mais que um Tratado de Comércio.
É um projecto para uma verdadeira integração modelada pela
solidariedade e pela cooperação, não pelo lucro de
mercado. Recorre ao comércio, ao investimento de capitais e outros
conceitos económicos, dando-lhes conteúdo diferentes daqueles que
podem ser encontrado nos Tratados de Livre Comércio inspirados por
Washington. Há um enfoque bem diferente do dos neoliberais quanto a por
a ênfase e desenvolver acções primárias e
básicas que iniciam e abrem o caminho para a integração,
nos sectores sociais onde é maior a dívida social acumulada com
os povos.
É no combate ao analfabetismo, na atenção à
saúde, no acesso à educação, no milagre de devolver
a visão ou evitar que fiquem cegos milhões de latino-americanos e
caribenhos, onde se encontra a enorme dívida social que é de
muito maior prioridade do que a dívida externa.
No V Encontro contra a ALCA e os Tratados de Livre Comércio, o
Comité Organizador Cubano teve em conta o desejo daqueles aqui reunidos
de ter mais tempo dedicado ao exame e debate das articulações no
trabalho das diferentes Redes e Campanhas e elaborar um Plano de
Acção concertado e eficaz contra a ALCA e o TLC, contra a
militarização e a utilização do terrorismo como
desculpa para a repressão, contra o projecto norte-americano de
dominação e reforço da hegemonia.
Nós os recebemos em Havana num momento de luta e resistência
frente à guerra económica e ao fustigamento recrudescido do
governo Bush, mas também de ascensão económica que
continua e multiplica o verificado no ano 2004 quando conseguimos, entre outras
coisas, retirar o dólar da circulação e revalorizar nossa
moeda. Em 2005 o crescimento da economia cubana foi de 11,8%, o maior da
América Latina e do Caribe.
Avançamos numa revolução energética que abre novos
horizontes ao país e combina a poupança substancial de
combustível com a maior segurança na geração
eléctrica e uma elevação da qualidade de vida da
população pela estabilidade no fornecimento de electricidade e
distribuição maciça de aparelhos electrodomésticos
e meios de cocção de alimentos de melhor tecnologia.
Cuba já é o que alguns estudiosos qualificam como um
país-universidade, onde há mais de 700 mil graduados
universitários, 500 mil estudantes a cursar o ensino superior, e as
possibilidade de estudar para uma carreira existem em cada município do
país, pois em todos funciona uma sede universitária.
No sistema de educação, qualificado pela UNESCO como o melhor da
América Latina, foi introduzida a computação, modernos
meios audio-visuais e uma relação aluno-professor mais
favorável.
Os movimentos sociais que aqui se reúnem já contam com
experiências de lutas. Estiveram em Seattle fazendo fracassar a
reunião da OMC, participaram em todas as edições do
Fórum Social Mundial, em Cancún contribuíram para o
fracasso de outra reunião da OMC, em Quito suportaram os gases
lacrimogéneos, em Miami enfrentaram o aparelho policial e repressivo ali
montado pelo governo dos Estados Unidos, em Mar del Plata repudiaram a
presença de Bush e apoiaram o presidente Chávez.
Os movimentos sociais, com suas lutas, tornam mais próximo o mundo
melhor, sem ALCA, TLC nem neoliberalismo. Sem guerra preventivas, nem Lei
Patriota, nem bloqueio económico genocida contra as cubanas e os cubanos.
Quão longínquas parecem hoje as profecias então
preocupantes que, nos fins dos anos 80, fazia um autor de que a história
já se esqueceu por ter a reaccionária arrogância de
decretar o fim da História. Esse autor descreveu o horrível
cenário da história detida com as seguintes palavras: "o
fim da história será um momento muito triste. A luta pelo
reconhecimento, a vontade arriscar a própria vida por um objectivo
puramente abstracto, a luta ideológica à escala mundial que
exigia audácia, coragem, imaginação e idealismo,
será substituída pelo cálculo económico, a
interminável resolução de problemas técnicos, a
preocupação pelo meio ambiente e a satisfação das
refinadas exigências dos consumidores. No período pós
histórico não haverá arte nem filosofia, só a
perpétua conservação do museu da história
humana".
Esse sombrio futuro não tem cabimento para além do delírio
presunçoso de neoliberal pós moderno.
O mundo futuro, o da história real nunca detida, o da vida, da beleza e
da justiça, é o mundo melhor pelo qual lutam os movimentos
sociais e é por ele que lutam também os cubanos, dando-lhe o seu
nome mais exacto: Socialismo.
[*]
Director del Centro de Investigaciones de la Economía Mundial, membro do
Capítulo Cubano de la Alianza Social Continental (CC-ASC) e um dos
organizadores do V Encuentro Hemisférico de Lucha Contra el ALCA.
Discurso pronunciado na sessão inaugural do V Encuentro
Hemisférico de Lucha contra el ALCA, principiado a 12 de Abril em La
Habana.
O original encontra-se em
http://listas.chasque.net/mailman/listinfo/boletin-prensa
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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