Para ver as estrelas

por Marla Muñoz

. Um poeta imenso, Rabindranath Tagore, disse-nos que "Se de noite choras pelo sol, não verás as estrelas".

A dimensão desta máxima, naturalmente, permite que o seu sentido se expresse perante qualquer acto humano, grande ou pequeno, pessoal ou social. O seu mistério faz também com que esse mesmo sentido se esconda e que – sujeitos a dificuldades, autocomplacência, à preguiça da memória ou a qualquer outra das coisas que fazem parte do comportamento humano corrente –, não lhe deitemos a mão com frequência. Ao mesmo tempo, no entanto, o seu poder e força leva-nos a recebê-la em plenitude quando, humildade pelo meio, reconhecemos que lágrimas como essas já por vezes nos acompanharam.

Desta vez foi a primeira graduação da Escola Latino-Americana de Medicina, a ELAM cubana, a que me fez secar rápida e envergonhadamente as lágrimas que a quotidianidade me provoca por momentos, e que nem sempre me permitem estar atenta a toda luz. Nada demasiado particular ou raro, parece-me, ainda que, de todas as formas, algo que reclama uma distância crítica para avaliá-lo com maior certeza e justeza possíveis.

Reconhecido o facto, clarificado o olhar, essa primeira licenciatura – como médicos e médicas – de jovens provenientes dos sectores mais desfavorecidos desta parte do mundo em que vivo, que se define mais social e economicamente que pela geografia, colocou tudo no seu lugar, deficiências à parte, que não é isso agora o importante.

O brilho da enorme obra necessária ressecou as lágrimas que cegam e soltou outras, distintas, que iluminam e alegram.

Nenhuma das escassezes que padecemos, nenhum dos apagões que sofremos, nenhum dos enfados que provocam os maus serviços têm a possibilidade de turvar o significado deste projecto humanista que, para além da sua dimensão política no âmbito regional e internacional, tem o inestimável feitiço de ter permitido, por exemplo que, entre trinta e cinco primos, se forme a primeira profissional de uma família indígena chilena; que se licencie em medicina o rapazito cantor de um país andino, que trabalha desde os dez anos para ajudar no sustento da sua mãe e dos seus oito irmãos e que queria a "chancezita" de abraçar Fidel.

Foi este sonho de solidariedade o que, entre outros, também permitiu a licenciatura em medicina dessa rapariguita salvadorenha, filha única, que aos pais tanto inquietava a separação durante os primeiros dois ou três anos de estudos; que se tenha tornado realidade o milagre de rapazes e raparigas, desses que a sangue e fogo reconquistam as terras do povo – do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil – já possam prestar serviços médicos nos seus assentamentos camponeses; que, assim mesmo, seja já um profissional excelentemente formado no exclusivo sector da medicina, aqueloutro rapaz dominicano que a mãe não queria que viesse a Cuba por aquilo do comunismo e que agora, como ele próprio diz, já é uma revolucionária mais. Que uma jovem argentina, filha de operários militantes montoneros e nascida na prisão, possa tornar realidade a quimera, interrompida pelo desaparecimento do pai, de tornar-se médica; que com lágrimas nos olhos um rapaz índio, abraçado à mãe sorridente, reconheça o medo e a alegria de ter feito sozinho o seu primeiro parto, graças à formação aqui recebida; que também seja médica outra rapariga que, desde menina, desejava intensamente sê-lo, apesar da família nunca lhe ter podido custear os estudos superiores. Que sejam médicos e médicas dispostos a lutar contra a dor – que parece recair como maldição sobre o povo do Haiti –, não sei quantos rapazes e raparigas negros, pobres, muito pobres; que esses haitianos, guatemaltecos e outros tenham feito os seus estágios docentes nas comunidades mais empobrecidas dos seus países; que, seguramente, a imensa maioria desses novos médicos e médicas do Terceiro Mundo estejam dispostos a servir os seus povos, numa perspectiva totalmente nova, que tem a ver com o compromisso e a solidariedade humana para com os mais pobres e excluídos e não com o dinheiro.

Agora mesmo, apercebo-me repentinamente, soa-me a raro, soa-me a enorme raridade. Isto quer dizer que, pela primeira vez na história humana, na América Latina em particular, um país tão pobre ou mais que os demais da área, tão do Terceiro Mundo como os demais, o meu, forma gratuitamente profissionais altamente qualificados, não para se acomodarem pessoalmente, mas para servir o próximo, para participar na construção de um outro tipo de mundo.

Não é um caso extraordinário?

Outra satisfação, pouco importa que seja mais pequena, entrelaça-se hoje nesta minha alegria. Essa tem a ver com o apoio, o acompanhamento solidário e a formação que a muitos deles foi dado pelo CMLK. [1]

Fico por aqui, não quero cair na armadilha que as palavras tantas vezes nos estendem, sobretudo quando se usam tão repetidamente que colocam numa situação extrema o seu verdadeiro sentido. Com Tagore no coração e na consciência, a única coisa que quero é partilhar a alegria e o orgulho que dá ver as estrelas do céu cubano.

[1] Centro Martin Luther King onde, depois de reformada, Marla Muñoz desenvolve actividade militante (N. do T.)

Tradução de José Paulo Gascão.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

19/Nov/05