O sequestro de Fangio
por Armando Hart Dávalos
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"Os civis nunca deveriam ser sequestrados", disse Fidel Castro a
propósito das FARC.
Mas esqueceu-se que os guerrilheiros que ele
dirigia fizeram o mesmo com o corredor Fangio e com 11 técnicos
norte-americanos durante a guerra revolucionária.
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Operación Fangio,
de Arnol Rodríguez que acaba de ser
publicado por ocasião da XVI Feira Internacional do Livro ,
é um texto que relata de maneira excelente o que foi o sequestro de
Juan Manuel Fangio
, e com uma prosa atraente. Descreve também o momento histórico
cubano e, em especial, a luta clandestina em Havana em 1957 e nos primeiros
meses de 1958.
O esboço da história de Cuba que ali se faz, e o enfoque que se
dá da tenebrosa personalidade de Fulgencio Batista e a sua
ascensão ao poder, deveria ser lido por todos os nossos jovens. Poucas
vezes apreciei uma exposição tão clara das ideias do
processo histórico cubano em forma sintética, amena e tendo como
pano de fundo um grande acontecimento concreto. O livro recolhe também
a repercussão nacional e internacional daquele sucesso memorável
e apresenta citações que são de valor
extraordinário.
Sublinha-se a amizade que se chegou a estabelecer entre Fangio e seus captores.
Penso ser necessário investigar que outro sequestro com fins
políticos houve no mundo com as características deste, pois
parece-me algo singular o acontecido naquele 23-24 de Fevereiro de 1958.
Convido os nossos investigadores a procurar para ver se há algo
parecido. Isto também marca a singularidade cubana, porque as
relações fraternais que se chegaram a estabelecer entre os
captores e o sequestrado, e a maneira como foi tratado este último,
é algo original, ou pelo menos excepcional, em sequestros com factores
políticos. Isto mostra a qualidade moral dos companheiros que
trabalharam nisso, que não é outra senão a da
própria Revolução que representavam.
Está presente aqui um humanismo profundo num momento complicado e
perante um facto por si mesmo complicado. Este livro mostra a originalidade da
Revolução Cubana, é uma peça mais para demonstrar
que é indispensável estudar a história de Cuba, em
especial a sua relação com a ética, que foi uma constante
nestes 200 anos. A ética do capturado e a dos captores salta à
vista como uma bela lição, pois mantiveram uma amizade que durou
até a morte de Fangio em 1995. Ao lê-lo penso que este relato
deve servir para novos empenhos na divulgação da história
do país e dos seus factos mais concretos.
Sei que já se fez algo sobre o tema, mas valeria a pena que os nossos
media, a televisão e o cinema, preparassem outro material em que este
caso se ajuste exactamente ao assinalado no livro, porque se parece muito com a
ficção. Se se ler sem conhecer os factos e sem haver tido
tão profunda relação com eles, poder-se-ia pensar que
é uma ficção. Ficções preparadas a partir
da própria história de Cuba e dos seus factos excepcionais podem
servir muito aos nossos roteiristas. Aspiro a que eles estudem esta
história e assim teremos programas de televisão ou
cinematográficos de tanto valor ou mais que alguns dos que assistimos
nos nossos media.
Proponho que façamos um encontro de roteiristas em relação
à história de Cuba para explicar-lhe a informação e
a percepção que temos, uma vez que pode ser uma mina fundamental
para novos roteiros cinematográficos. É preciso, naturalmente,
talento e vocação revolucionária. O livro de Arnol sobre
Fangio serve-me de introdução a esta iniciativa.
Também se destaca no texto, de maneira particular, a personalidade de
vários companheiros, dentre eles Faustino Pérez. Tive uma
amizade estreita com ele. Faustino chegou a ser, com o tempo, o líder
natural da luta clandestina em Havana e no ocidente do país . Era no
Ocidente o que Frank Pais era no Oriente. Faustino, Frank e Celia
Sánchez são as três figuras fundamentais e mais
simbólicas do apoio à luta revolucionária nas
planícies de Cuba.
Faustino era martiano e fidelista, como aspiramos que sejam nossos filhos,
nossos netos e todos os nossos descendentes. Seu exemplo perdurará como
o dos grandes personagens da história, e dentre eles perdurará a
recordação da forma firme e inteligente com que dirigiu a
operação de sequestro de Fangio e a entrega do mesmo às
autoridades argentinas. Tudo isto pode ser apreciado no livro muito bem
escrito por Arnol Rodríguez, um dos protagonistas daquela
acção.
[*]
Do Comité Central do Partido Comunista de Cuba, Deputado à
Assembleia Nacional do Poder Popular e membro do Conselho de Estado da
República de Cuba.
O original encontra-se em
http://www.resumenlatinoamericano.org
, nº 1074
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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