Levantem-se com Cuba, povos do mundo!

Em meio à acirrada luta ideológica que acompanha esta batalha pela sobrevivência de todo um povo, devemos impedir que o medo se disfarce de sensatez.

La Tizza [*]

  "Feriram-me. Viva Cuba!"
Primeiro-Coronel Lázaro Evangelio Rodríguez [1]

"O ar assume a forma de um tornado e nele estão ligados a morte e o amor…"
Silvio Rodríguez Domínguez, "Prelúdio de Girón"

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Depois de a invasão imperialista à Venezuela, no passado dia 3 de janeiro, ter arrancado do seio do seu povo o presidente Nicolás Maduro e a sua esposa, Cilia Flores, a matilha fascista da política cubano-americana voltou a salivar por Cuba.

O fim da Revolução é novamente desarrolhado, com a esperança de que o brinde não se fique apenas na ressaca.

A morte de 32 heróis cubanos, num combate feroz e desigual contra os carniceiros da pilhagem ianque, não antecipa — como alguns pensam — a derrota de Cuba. O seu sacrifício anuncia outra coisa: a ativação da fibra mambisa, que é a fibra-mãe da pátria:  "quem tentar apropriar-se de Cuba, recolherá o pó do seu solo encharcado de sangue, se não perecer na luta". [2]

Chegados a este ponto em que os porta-aviões ianques espreitam as costas de Cuba, em que os rumores de incursões aéreas do inimigo pairam sobre o ânimo e as consciências, o que falta ainda explicar?

Com o bloqueio naval à entrada de combustível, coroando o meticuloso sistema de guerra económica destinado a levar o nosso país ao colapso, que dúvidas restam por esclarecer?

Agora que o direito internacional revela, como nunca antes, a quem pertence esse direito e entre quem é disputado… Quando quase todos os governos "não alinhados", ou de retórica "progressista", olham para o outro lado; quando os blocos da suposta integração,[3] as alianças, os fóruns, as comissões mistas e os congressos evitam o compromisso prático e concreto com Cuba e oferecem, no máximo, declarações de consternação e impotência; a quem recorrer em primeiro lugar, senão aos povos, para enfrentar este cerco imperialista que se intensifica quanto mais sozinha e abandonada à sua sorte Cuba se vê?

Os campos estão a definir-se. De um lado, quer simpatizem ou não com o governo cubano, quer sejam ou não comunistas, quer vivam em Cuba ou em qualquer outro lugar, quer acreditem em qualquer Deus ou em nenhum, agruparam-se aqueles que compreendem que a Pátria está ameaçada e que, com ela, é preciso fechar fileiras. Nada valem, nestes dias, as diferenças entre patriotas. Insistir hoje nessas diferenças, com a besta à nossa frente, é um crime de lesa pátria.

Por outro lado, posicionaram-se os oportunistas, sem possibilidade nem desejo de se esconderem ou disfarçarem as suas intenções, apoiados como se sentem pelo império que os organiza. É preferível que assim seja: poupa-nos o trabalho de os desmascarar e permite-nos passar diretamente à confrontação.

Nestas horas decisivas, em que toda a névoa se dissipa e a luz permite ver melhor, ficou mais claro para quem a perspetiva de agressão contra Cuba não é motivo de angústia, indignação ou rebeldia, mas sim uma oportunidade para mendigar.

Os personagens da direita fascista cubano-americana — com as suas patéticas filiais na América Latina e na Europa — imploram ao imperador Trump que lhes conquiste o poder que não tiveram a audácia nem a coragem de conquistar por si próprios, e que depois complete a vingança contra o povo que fez a Revolução e que nunca os respeitou.

Não conseguem sequer sentir vergonha de serem vistos a celebrar uma possível agressão militar ou a pedir que Cuba seja governada por um vice-rei gringo, por um renegado das suas origens que se disfarça de cubano quando o lobby do sul da Flórida assim o exige.

Já ninguém poderá escandalizar-se quando lhes chamarmos "anticubanos" ou "apátridas".

Mas na calçada do oportunismo não passeiam apenas os "MAGA-cubanos". O arco do oportunismo estende-se desde os herdeiros de Batista até aos carrascos morais de Carlos Prío. Aqueles que aproveitam este momento de perigo extremo para, longe de cerrarem fileiras com a frente da pátria, andarem a mendigar — eles acreditam que estão a exigir, mas na realidade estão a mendigar — ao Estado cubano alguma prebenda, algum favor económico, alguma concessão, alguma quota de poder, como se o poder pudesse ser mendigado — ou oferecido! —. O que são esses? Também são oportunistas! Porque hoje nenhuma agenda particular ou de grupo deveria estar acima da sobrevivência da nação.

O problema dos imperialistas ianques não é com o governo cubano; não é com tal ou tal característica da administração pública; não é com a desigualdade ou a pobreza existentes. O problema deles não é com "a situação do povo cubano", mas sim com o facto de nem o país nem essa situação — apesar dos custos do seu bloqueio obstinado e fracassado — lhes pertencerem. O problema dos imperialistas ianques não é de nomes, é de conteúdos. Por isso é que em Cuba houve "República": deles; "Liberdade": para lhes obedecer; "Democracia": para que os seus servos se revezassem no banquete da exploração nacional. Não lhes interessa se praticamos o capitalismo ou o socialismo — como demonstra a sua ofensiva no momento de maior consagração da propriedade privada em Cuba —. O que lhes preocupa é que sejamos nós a fazer as coisas aqui e não eles. Irrita-os que nos atrevamos a ser e que tenhamos descoberto os mistérios da nossa identidade:   para sermos, temos de ser contra eles, os imperialistas ianques. Não há outra forma. É por isso que nação e anti-imperialismo se pressupõem. É por isso que justiça social e liberdade estão unidas na mesma bandeira.

Os ativistas das redes sociais, rebeldes e iconoclastas perante o agredido, mas sempre cautelosos e bem-comportados perante o agressor; por que exigem de Cuba vontade de negociar? O que deve e como pode negociar com um assassino aquele que vive a ser emboscado pelo seu cortejo de perseguidores?

Com o olhar fito no templo, "entendam-se", "dialoguem", "negociem" são recomendações que, na realidade, se assemelham muito a um "rendam-se". Em meio à acirrada luta ideológica que acompanha esta batalha pela sobrevivência de todo um povo, devemos impedir que o medo se disfarce de sensatez. Esta última caberia aconselhar, em todo o caso, aos chefes espirituais da covardia, para quem a vida e a morte são créditos de um videojogo que programam a partir da segurança e do conforto da sua casa de máquinas.

Àqueles que se apressaram a pedir reformas ao governo cubano, com a vã ilusão de que nos perdoarão a revolução que fizemos — embora a dignidade não sobreviva ao "favor" desse "perdão" —, saibam que a revolução teve de ser socialista para ser de libertação nacional. Foi essa a única forma histórica pela qual se pôde concretizar a ideia que obcecou, durante mais de cem anos, os patriotas cubanos e que Diego, a personagem de Fresa y chocolate, resumiu de forma inigualável:   "também não quero que venham os americanos, nem ninguém!, para nos dizer o que temos de fazer".

A vontade de alcançar a soberania para os escravizados e para a nação em pé de guerra tem marcado a história de Cuba desde há dois séculos. Uma identidade que abriu caminho apesar de todas as previsões, que lutou para existir contra a corrente de poderosas forças dissolventes de ontem e de hoje. Os gendarmes do "norte turbulento e brutal que nos despreza" afirmam-se na medida em que possuem, na medida em que subjugam, na medida em que destroem, na medida em que compram e vendem, na medida em que saqueiam. Os cubanos e as cubanas, por outro lado, afirmamo-nos na medida em que somos, não no que quiseram fazer de nós, mas no que quisemos ser por nós próprios.

A sanha contra Cuba esconde o terror que a nossa promessa lhes provoca, tão sitiada e incompleta quanto irrenunciável.

A derrota dessa promessa, a aceitação definitiva da posição colonial e subordinada, não seria outra coisa senão o suicídio da nação:   a morte daquilo que Cuba tem sido, não desde 1959, mas há mais de cento e cinquenta anos.

Com o imperialismo não há acordo possível. A sua existência e a nossa são antagónicas e continuarão a colidir. A agressividade do imperialismo ianque para com Cuba — os seus bloqueios, as suas formas institucionais que oscilam entre o bastão e a cenoura, as suas chantagens ao resto do mundo — só tem duas vias para desaparecer:   a derrota total desse imperialismo ou a rendição total de Cuba. A relação bilateral entre os dois Estados não esgota tal dilema:   está inserida nele.

Perante este cenário, os dirigentes do Estado cubano, para liderarem a nação e cumprirem os seus deveres sagrados para com ela, não podem ser vítimas de hesitações nem fraquezas. Conceder a iniciativa ao inimigo — externo ou interno — não traria paz nem estabilidade, mas sim derrota.

A defesa da soberania exige determinação política, clareza estratégica e liderança firme: ou, dito noutros termos que bem conhecemos:   "desafiar forças dominantes poderosas… lutar com audácia, inteligência e realismo".

O bloqueio naval em vigor e as chantagens tarifárias a terceiros, que impedem a chegada a Cuba de fornecimentos de petróleo indispensáveis para sustentar a vida quotidiana, agravam um cenário de crise imposto e planeado, face ao qual a nossa capacidade de gerir a estreita margem de manobra se torna um fator de segurança nacional. Simultaneamente, desenrola-se uma sequência ininterrupta de operações psicológicas destinadas a gerar medo, angústia, desespero e a ilusão de um futuro nacional promissor sob a tutela ianque. Isto combina rumores e ameaças vagas com simulações da inteligência artificial sobre o quão prósperas e belas as nossas cidades pareceriam se este "martírio" de 67 anos chegasse ao fim.

Cuba não é "a próxima" na lista, sempre foi a primeira. Desde as Honduras em 2009 até à Venezuela em 2026, passando pelo Paraguai, Equador, Chile, Brasil, Argentina e Bolívia, atacaram-se os elos mais fracos da cadeia com um objetivo final, bem conhecido:   isolar e asfixiar a Revolução cubana. A intervenção imperialista na Venezuela não foi apenas contra aquele povo, mas contra toda a América Latina e as Caraíbas, e muito especialmente contra Cuba. Não se tratou de um excesso nem de um desvio, mas sim do ponto de condensação de uma estratégia regional.

O contexto atual da solidariedade efetiva de outros governos para com Cuba é vergonhoso, em contraste com a solidariedade que se manifesta de pessoa para pessoa e de povo para povo. Resta o México como único fornecedor de petróleo e já estão a ser exercidas fortes pressões para que essa ajuda termine. Não é um cenário descartável, tendo em conta o estilo de Donald Trump, que entrelaça agressões brutais, chantagens diretas e pressões abertas de diversa natureza.

A China e a Rússia manifestam apoio e condenação retórica, mas nenhuma delas demonstrou disposição para correr a mesma sorte do povo cubano perante uma agressão direta. Apoio simbólico, cálculo estratégico e uma ilha empurrada a enfrentar, quase sozinha, a escalada bélica cuidadosamente provocada. Das potências externas nada esperamos. Como afirmou Antonio Maceo:   "mais vale subir ou cair sem ajuda do que contrair dívidas de gratidão para com vizinhos tão poderosos". Já tínhamos aprendido há muito tempo que, nos momentos decisivos, Cuba só pode contar com o seu próprio povo.

À solidão junta-se o silêncio dos grandes aparelhos diplomáticos na região e no mundo. Estruturas que existem no papel, mas das quais não se recebem gestos concretos de apoio, capazes de alterar o curso dos acontecimentos.

Todos aqueles que abandonam Cuba à sua sorte — por cálculo geopolítico, por pragmatismo diplomático ou por simples e puro medo — devem saber que não são neutros e que, por isso, se tornam colaboradores de facto. O seu silêncio ou inação não evitam a guerra, mas abrem-lhe caminho à distância. Cada gesto que não chega e cada apoio que se atrasa contribuem para a preparação do cenário de uma invasão contra Cuba ou de uma agitação social, resultado do desespero popular, que arrasará tudo à sua passagem.

Para aqueles que hoje, por ação ou omissão, se colocam ao serviço de uma agressão contra o seu próprio país, deve ficar claro que não haverá impunidade histórica nem política. Os povos têm memória, e as responsabilidades assumidas em momentos cruciais não se apagam nem com o tempo nem com o exílio.

Empenhados em combater o plano para transformar Cuba na Gaza das Caraíbas, dirigimo-nos primeiro a ti, povo dos Estados Unidos, na tua infinita diversidade. A cada cidadã e cidadão que já não suporta o delírio ditatorial que governa a Casa Branca. A ti, que vives sitiado, sitiada pelos inúmeros problemas de uma sociedade que está longe de ser "grande outra vez".

Dirigimo-nos a ti, que te lembras de cada uma das guerras em que os ricos ficaram mais ricos e os pobres, mais pobres, e em que a única coisa que regressou à tua casa — quando algo regressou — foram os corpos indefesos dos teus filhos. Guerras alheias, decididas em gabinetes, travadas por jovens que, para ganhar a vida, foram obrigados a ceifar outras.

Dirigimo-nos, além disso, à numerosa comunidade de cubanos e cubanas que reside nos Estados Unidos e que não é refém do ódio do "exílio histórico". Muitos foram educados no humanismo e na fraternidade das nossas escolas e ruas, e não estão dispostos a consentir em silêncio uma agressão contra o seu próprio povo.

Não deixes que os teus filhos vão para outra guerra. Não os deixem despedirem-se para irem morrer em Cuba, enfrentando outro povo que não é teu inimigo.

Há muitas formas de se mobilizar. Convocamos os múltiplos grupos académicos que mantêm relações com Cuba, os Pastores pela Paz, o Conselho Mundial de Igrejas, personalidades da cultura, atores e atrizes que se manifestaram com veemência contra a violação dos direitos e a deriva fascista que Trump representa. Aos congressistas e senadores que, há muito tempo, exigem uma alteração nas relações com Cuba, sem pretensões de subjugação nem ânsias belicistas.

A todos aqueles que se sintam interpelados por este apelo para evitar a morte certa e inevitável no ataque que se prepara nas suas costas. Ajudem a travar a barbárie. Manifestem a vossa solidariedade com Cuba.

Aos povos irmãos de Cuba, às organizações solidárias, àqueles que sabem que a guerra imperialista nunca traz democracia nem liberdade:   é o momento de uma mobilização eficaz, sustentada e visível, por todas as vias possíveis, contra a guerra e em defesa da vida. Cada país e representação diplomática devem tornar-se palcos de irmandade e compromisso. Cada embaixada dos Estados Unidos deve sentir o peso da solidariedade das massas.

Se alguma vez foste atendido nas missões médicas cubanas; se alguma vez aprendeste a ler com o método Eu sim posso, ou se estudaste nesta terra, dizemos-te:   Levanta-te com Cuba!

Povos de África que, ao vosso apelo, contaram com os nossos soldados, combatentes, médicos e professores:   chegou a hora crucial da solidariedade com Cuba!

Povos da América com quem o nosso destino ficou selado naquele último olhar do Che:   mobilizem-se agora!

Povos do mundo, Cuba oferece-vos um lugar para combater.

Notas
[1] Últimas palavras do Primeiro Coronel Lázaro Evangelio Rodríguez, caído em combate ao proteger o Presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro Moros.
[2] Carta de Antonio Maceo ao patriota cubano José Dolores Poyo, diretor do jornal independentista El Yara, de Cayo Hueso, enviada a 13 de junho de 1884 a partir de San Pedro Sula, nas Honduras. Em: https://www.sld.cu/sitios/histologia/temas.php?idv=15549
[3] Comunidade dos Estados Latino-Americanos (CELAC), Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos (ALBA-TCP), Movimento dos Países Não Alinhados (MNOAL), entre outros.

/Julho/2026

Ver também:
  • Cuba na encruzilhada de um multilateralismo hipócrita, Josué Veloz Serrade
  • [*] Revista digital cubana.

    O original encontra-se em latizzadecuba.org/levantense-con-cuba-pueblos-del-mundo/

    Este editorial encontra-se em resistir.info
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    08/Jul/26

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