O Federal Reserve está actualmente a considerar uma
operação de emergência tão arriscada que poderia
remeter o dólar para o abismo. A notícia apareceu no
Financial Times
do princípio desta semana e afirmava que o Fed estava a examinar a
factibilidade de comprar títulos apoiados por hipotecas (mortgage-backed
securities, MBS) no valor de centenas de milhares de milhões de
dólares com dinheiro público a fim de restaurar a
confiança e limpar os balanços dos bancos em dificuldades. O
Fed, naturalmente, desmentiu tais alegações, mas os rumores
correm. Actualmente o sistema bancário está tão entupido
com investimentos exóticos, para os quais não há mercado,
que não pode cumprir a sua tarefa principal de proporcionar
crédito aos negócios e aos consumidores. A tarefa de Bernanke
é limpar a obstrução ao crédito de modo a que a
economia em geral possa começar a crescer outra vez. Até agora
ele fracassou no cumprimento dos seus objectivos.
Desde Setembro, Bernanke retalhou as taxas de juro em 3 por cento e abriu
vários instrumentos de leilões (Term Securities Lending Facility,
o Term Auction Facility, o Primary Dealer Credit Facility, e o novo Term
Securities Lending Facility), os quais tornaram US$400 mil milhões
disponíveis para bancos e não bancos como empréstimos de
baixos juros. Ele também aceitou um "conjunto amplo" de
colaterais para devoluções ao Fed incluindo títulos
apoiados por hipotecas e obrigações colaterizadas de
dívida (collateralized debt obligations, CDOs), as quais valem muito
menos do que aquilo que o Fed está a oferecer em troca. Mas as
injecções de liquidez do Fed não resolveram o problema
básico que é a queda nos preços da habitação
e a persistente degradação dos activos apoiados em hipotecas que
os investidores recusam-se a comprar seja a que preço for. De facto, as
perturbações estão gradativamente a ficar piores e a
espalharem-se para áreas dos mercados financeiros que anteriormente
pensava-se estarem livres de risco. A baixa no crédito também
colocou pressão adicional sobre hedge funds e outras
instituições financeiras, forçando-as a desalavancarem
rapidamente para atender
margin calls
[1]
através do despejar de activos ilíquidos num mercado saturado a
preços de saldo. Este processo foi alcunhado o "grande
desembaraço"
("great unwind").
Nos últimos seis anos o mercado de títulos apoiados por hipotecas
inchou até os US$4,5 milhões de milhões. Os bancos de
investimento actualmente possuem cerca de US$600 mil milhões destes
complexos instrumentos de dívida. Até agora, os bancos
registaram US$125 mil milhões em perdas, mas há um bocado mais de
carnificina pela frente. A Goldman Sachs estima que bancos, correctoras e
hedge funds acabarão finalmente por ter US$460 mil milhões em
perdas, três vezes maiores do que as de hoje. Mesmo assim, estes
números estão obrigados a aumentar quando o mercado habitacional
continua a deteriorar-se e o capital é drenado do sistema.
O Fed não tem nem os recursos nem a inclinação para
remover todos os títulos lixo que os bancos têm nos seus livros.
Bernanke já expôs cerca da metade (US$400 mil milhões) do
balanço do Banco Central ao risco de crédito. Mas qual é
a alternativa? Se o Fed não interviesse, então muitos dos
maiores bancos de investimento do país acabariam como o Bear Stearns.
Afinal de contas, o Bear não é um caso isolado, a maior parte dos
bancos estão analogamente alavancados em 25 a 35 para 1. Eles
também estão a perder mais e mais capital a cada mês devido
a degradações, e os seus principais fluxos de receitas foram
cortados. De facto, muitos do titãs financeiros da Wall Street
já estão tecnicamente insolventes. O Fed é a única
força que os mantém fora da bancarrota.
Caso de destaque: "O Citigroup pode registar [prejuízos de]
US$131,1 mil milhões de activos incluindo empréstimos alavancados
e obrigações colaterizadas de dívida no primeiro
trimestre... "Prevemos novo declínio tanto para
avaliações como para preços de acções"
porque os bancos estarão sob pressão para baixar o preços
de activos a fim de reflectir a queda nos índices do mercado".
(Bloomberg News)
Geralmente é aceite que o mercado de títulos apoiados por
hipotecas (MBS) não melhorará até que os preços da
habitação estabilizem, mas isso ainda está longe. As
hipotecas são a pedra angular sobre a qual assenta o mercado
multi-trilionário do investimento estruturado. E aquela pedra angular
está a esfarelar-se. Se os preços da habitação
continuarem a cair, o mercado de MBS permanecerá congelado e os bancos
falirão; é tão simples quanto isso. Ninguém vai
comprar derivativos quando o activo subjacente está a perder valor. A
administração Bush está a pressionar por um
"congelamento de taxa" e outros caminhos engenhosos a fim de impedir
que os proprietários de casas deixem de cumprir os pagamentos das suas
hipotecas. Mas é uma causa perdida. O trabalho administrativo
necessário para mudar estas hipotecas complexas já está a
demonstrar que é uma tarefa assombrosa. Mais: uma vez que 60 por cento
destas hipotecas foram titularizadas, é quase impossível mudar os
termos dos contratos sem obter previamente a aprovação do
investidor.
Além disso, as tentativas de planos para expandir a Fannie Mae e Freddie
Mac, de modo a que possam absorver hipotecas maiores (empréstimos
grandes superiores a US$729 mil), está a provocar uma enorme
tensão sobre o já super-tenso Government Sponsored Enterprises
(GSEs), serviços financeiros para corporações criados pelo
Congresso dos Estados Unidos. Ao tentar reflacionar a bolha habitacional, a
administração só aumentará a taxa de arrestos e
colocará os dois mamutes da hipoteca em risco de incumprimento sem
qualquer sinal claro de que isto ressuscitará o mercado.
A divulgação ontem do Índice Case/Schiller das 20 maiores
cidades do país mostra que os preços da habitação
deslizaram 10,7 por cento no ano passado, ao passo que as vendas caíram
23 por cento ao longo do ano. Isto significa que a situação
líquida dos lares americanos ficou apenas com uma margem de US$2
milhões de milhões. Ainda assim, os preços têm um
longo caminho a percorrer antes de eles alcançarem o declínio de
50 por cento nas vendas em relação ao pico de 2005. A partir
deste ponto, os preços deveriam cair e cair rapidamente, seguindo uma
trajectória tão aguda quanto a das vendas. Muitos economistas
esperam que o preço das habitações caia pelo menos 30 por
cento, o que significa que US$6 milhões de milhões serão
raspados da situação líquida agregada das
habitações. Num mercado em desmoronamento, muito
proprietários de casas ficarão em melhor situação
se simplesmente "fugirem para longe" da sua hipoteca ao invés
de efectuarem pagamentos sobre um activo de valor cada vez mais declinante.
Quem quer fazer pagamentos mensais sobre uma hipoteca de US$500 mil
dólares quando o valor actual da casa é de US$350 mil? É
mais fácil empacotar as crianças e fugir do que
desperdiçar toda uma vida como escravo da hipoteca. Além disso,
a administração Bush não tem interesse em ajudar os pobres
e remediados a não serem arrestados. Isso é uma piada. Todos os
planos de resgate são concebidos com um propósito único em
mente: salvar a Wall Street e o establishment bancário.
O presidente do Fed simplesmente respondeu aos acontecimentos à medida
que eles se desdobravam. O colapso do Bear Stearns aconteceu apenas semanas
depois de o SEC ter verificado as reservas dos bancos e decidido que eles
tinham suficiente capital para sobreviver à crise. Mas eles estavam
errados. O capital do banco (US$17 mil milhões) esfumou-se numa
questão de dias depois de ter corrido a palavra de que o Bear estava em
perturbações. A súbita corrida sobre o banco criava um
risco para outros bancos e correctores que mantinham contratos de derivativos
com o Bear. Alguma coisa tinha de ser feita; Roma estava a arder e Bernanke
era o único homem que dispunha de uma mangueira.
Segundo o
UK Telegraph:
"O Bear Stearns tinha um total de posições (derivativos) de
US$13,4 milhões de milhões
(trillions).
Isto é uma quantia maior do que o rendimento nacional dos EUA, ou
igual a um quarto do PIB mundial pelo menos em termos 'nocionais'. Os
contratos foram descritos como 'swaps', 'swaptions', 'caps', 'collars' e
'floors'. Este precipitado edifício de instrumentos novos e
desnecessários foi construído sobre um activo base que na
melhor das hipóteses era de US$80 mil milhões.
"Do outro lado destes contratos estão bancos, correctores e hedge
funds, ligados no destino por uma teia de direitos cruzados. Isto é um
spaghetti de contrapartidas. Para tornar as coisas piores, os bancos Lehman
Brothers, UBS, e Citigroup estavam todos a balouçar sobre os pés
quando chegou o furacão.
"Vinte anos atrás o Fed teria deixado o Bear Stearns falir', disse
Willem Sels, um especialista em crédito da Dresdner Kleinwort.
"Agora isto está demasiado interligado para falir' ".
Bernanke sentiu que não tinha escolha senão intrometer-se e
tentar minimizar o dano, mas o resultado foi desapontador. Bernanke e o
secretário do Tesouro, Henry Paulson, concluíram um acordo com o
JP Morgan que comprometeu US$30 mil milhões do dinheiro do contribuinte,
sem autoridade dada pelo Congresso, para comprar títulos tóxicos
apoiados por hipotecas de um negócio privado que estava a falir por
causa das suas próprias apostas especulativas em investimentos
dúbios. As únicas pessoas que perceberam foram os investidores
que possuíam contratos derivativos que teriam ficado sem valor se o Bear
fosse abandonado.
Apesar disso, a perspectiva de um colapso do vasto sistema de derivativos
deixou Bernanke com poucas boas opções, não obstante o
azar moral de salvar no limite um banco de investimento tão debilitado
que
deveria ter sido lançado aos lobos.
Convém notar que contratos derivativos são um acréscimo
muito recente aos mercados financeiros dos EUA. Em 2000, o comércio de
derivativos representava menos de US$1 milhão de milhões. Em
2006 aquele número havia crescido espantosamente para mais de US$500
milhões de milhões. E tudo isso pode ser rastreado através
da legislação que foi aprovada durante a
administração Clinton.
"Um marco no esforço de desregulamentação
verificou-se no fim de 2000, quando uma lamentável sessão do
Congresso aprovou uma pouca noticiada peça de legislação
chamada Commodity Futures Modernization Act. O diploma legal efectivamente
mantinha grande parte do mercado para derivativos e outros instrumentos
exóticos fora dos limites das agências que regulavam activos mais
convencionais como acções, títulos e contratos de futuros.
Apoiada por Phil Gramm, então senador republicano do Texas e presidente
do Comité Bancário do Senado, a legislação era uma
emenda de 262 páginas de uma lei de apropriação muito
maior. Ela foi promulgada pelo presidente Bill Clinton naquele mês de
Dezembro". ("What Created this Monster" Nelson Schwartz,
New York Times
)
O chefe do Fed está agora a enfrentar um certo número de
incêndios que terão de ser extintos imediatamente. O
primeiro deles é o das taxas de concessão de empréstimos a
curto prazo, as quais teimosamente ignoraram as injecções
maciças de liquidez feitas por Bernanke e continuaram a ascender. Os
bancos estão cada vez mais temerosos de emprestar uns aos outros porque
eles realmente não sabem quão expostos estão os outros
bancos aos
arriscados MBS. Esta desconfiança remeteu as taxas de
empréstimos inter-bancários para mais do que o dobro
acima das taxas de fundos do Fed só no mês passado. Até
agora, o Instrumento de Leilão a Termo (Term Auction Facility, TAF) do
Fed, não ajudou a baixar taxas, o que significa que Bernanke terá
de tomar medidas mais extremas para restabelecer outra vez os
empréstimos bancários. Eis porque muitos observadores do Fed
acreditam que Bernanke acabará por coordenar uma salvação
financiada pelos contribuintes de US$500 mil milhões a US$1
milhão de milhões a fim de comprar todos os MBSs dos bancos de
modo a que eles possam retomar operações normais. Naturalmente,
qualquer esquema gerado pelo Fed terá de ser embrulhado com muita
retórica de modo que o bem estar dos magnatas da banca se pareça
a um acto de abnegada compaixão para com os proprietários de
casas em dificuldades. Isso não deveria ser um problema para a equipe
de relações públicas de Bush.
A solução provável para a confusão dos MBS é
a restauração da Resolution Trust Corp. (RTC), a qual foi criada
em 1989 para desfazer-se de activos de caixas económicas e bancos
insolventes. O RTC criaria uma companhia de administração de
propriedade do governo que compraria MBSs aflitivas aos bancos e liquidava-as
através de leilão. O Estado pagaria menos do que o valor facial
pelos títulos (O Fed actualmente paga 85 por cento do valor facial das
MBSs) e então assumiria uma perda na sua liquidação.
"Segundo Joseph Stiglitz no seu livro
Towards a New Paradigm in Monetary Economics
, a razão real por trás da necessidade desta companhia
era permitir ao governo dos EUA subsidiar o sector bancário de um modo
que não fosse muito transparente e portanto evitar resistências
possíveis".
A mesma estratégia será utilizada mais uma vez. Agora que as
operações de liquidez de Bernanke fracassaram, podemos esperar
que alguma agência tipo RTC venha a ser promovida como um meio prudente
para consertar o mercado de títulos hipotecários. Os bancos
obterão a sua salvação e o contribuinte pagará a
conta.
O problema, contudo, é que o dólar já esta a cair contra
todas as outras divisas. (Na quarta-feira, o dólar caiu para US$1,58
por euro, um novo recorde). Se Bernanke lançar o seu apoio a um plano
tipo RTC, isto será encarado pelos investidores estrangeiros como uma
salvação governamental hiper-inflacionária, a qual podia
precipitar uma liquidação global da dívida estado-unidense
e disparar uma crise do dólar.
James Saft, da Reuters, coloca isto assim:
"É também enormemente arriscado nos termos da
obrigação do Fed de manter preços estáveis...
podia alimentar inflação em níveis intoleráveis
para credores estrangeiros, provocando uma queda drástica do
dólar quando eles procurarem abrigo alhures". (Reuters)
Saft está certo. Os credores estrangeiros verão isto como uma
indicação de que o Fed abandonou procedimentos operacionais
padrão a fim de poder safar-se das dificuldades. Segundo Saft, o
preço estimado poderia ser tão elevado quanto US$1 milhão
de milhões de dólares. Os investidores estrangeiros não
teriam escolha senão retirar os seus fundos dos mercados
estado-unidenses e transferí-los para fora. De facto, isto parece
já estar a acontecer. Segundo o
Wall Street Journal:
"Apesar de o dinheiro continuar a fluir para dentro dos EUA, vindo de
fora, este
fluxo tem estado a diminuir. Em 2007, a aquisição líquida
por estrangeiros de títulos a longo prazo e acções dos EUA
foi de US$596 mil milhões, baixando em relação aos US$722
mil milhões em 2006, segundo dados do Departamento do Tesouro. De Julho
a Dezembro, quando o nervosismo acerca dos títulos ligados a hipotecas
subprime difundiu-se, as compras líquidas foram apenas US$121 mil
milhões, uma redução de 65% em relação ao
mesmo período no ano anterior. Os americanos, enquanto isso,
estão a investir mais do seu próprio dinheiro no exterior".
("A US Debt Reckoning"
Wall Street Journal
)
Os US$121 mil milhões nem mesmo se aproximam dos US$700 mil
milhões que os EUA precisam pagar pelo seu défice em conta
corrente. Quando o investimento externo cai, a divisa enfraquece. Não
é de admirar que o dólar esteja a cair como uma pedra.
[*]
fergiewhitney@msn.com
[1] Procura de fundos adicionais devido a movimentos de preços
adversos.
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/whitney03292008.html
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.