As vendas de Ferrari estão a disparar no Japão, mas as vendas de
cerveja começaram a decair. Isso é realmente tudo o que é
preciso saber acerca da Abenomics
[1]
.
Segundo a Bloomberg, "A Ferrari diz que as vendas no Japão
subirão 30 por cento este ano... (As vendas já) aumentaram 28 por
cento nos primeiros seis meses". As vendas da Lamborghini também
estão a subir. Segundo o "Responsável executivo chefe da
Lamborghini SpA, Stephan Winkelmann... o fabricante de automóveis
está muito feliz com o Japão. "Estão a voltar os
grandes tempos". As vendas de Lamborghinis no Japão aumentaram 13
por cento, para 142 unidades, nos primeiros nove meses, de acordo com a Japan
Automobile Importers Association". (Ferrari Says Sales in Japan to
Rise 30% as Abe Revives Spending, Bloomberg)
Em contraste, a procura de cerveja caiu cerca de 3 por cento em Agosto, "o
seu mais baixo nível mensal desde quando começaram a coligir estes dados em 1992,
mostram os números das principais
cervejeiras... A Asahi Breweries Ltd. e a Kirin Brewery Co. registam
declínios, prncipalmente devido às vendas fracas". (Beer,
near-beer shipments fall 2.8%,
Japan Times
)
Como prefere?
Assim, a Abenomics funciona como Bernankenomics, Draghinomics (UE),
Harpernomics (Canadá), Cameronomics (Reino Unido) e agora Abbottnomics
(Austrália). Em todos os casos, políticas monetárias mais
frouxas e políticas orçamentais mais duras geraram mais riqueza
para os detentores do 1 por cento enquanto cadáveres a trabalhar ficam
para trás. Pode-se chamar a isso QE
[2]
ou Abenomics ou LTRO
[3]
ou facilidade monetária ou disparate quantitativo. Realmente não
importa muito como se chame, porque tudo isso resume-se à mesma coisa:
Ferraris para os ricos e absolutamente nada para todos os demais. Entendido?
Nos EUA, o Federal Reserve proporcionou financiamento de baixo custo
"ilimitado" para os grandes bancos da Wall Street enquanto inchou os
mercados financeiros em mais de US$3 milhões de milhões
(trillion).
Assim, naturalmente, as condições melhoraram dramaticamente para
os especuladores ricos. E quanto aos outros 99 por cento? Nem tanto. Eles ainda
estão a lutar com alto desemprego, salários reduzidos,
rendimentos em queda, dívida familiar apreciável, rendimento
disponível minguante e uma economia privada de estímulo que ainda
cambaleia a meia velocidade. Excepto para estes 99%, as coisas estão
simplesmente óptimas.
Cinco anos na chamada "recuperação" e a taxa dos fundos
do Fed ainda está presa aos zero por cento, o que significa que a
economia ainda está tão fraca que o Fed não pode elevar
taxas nem mesmo um magro 1 por percentual sem temer que todo o castelo de
cartas desmorone. Por qualquer padrão de medida, a QE foi um fracasso.
Ela, contudo, carregou os preços das acções, pressionando
lucros de bancos e corporações a alturas recorde, exacerbou
grandemente a desigualdade e tornou algumas pessoas muito ricas ainda mais
ricas. Por outras palavras, a política está a trabalhar muito
bem, obrigado.
No Japão, os resultados são basicamente os mesmos embora
não se possa saber isso lendo os jornais. Os media caracterizam a
Abenomics como um êxito esmagador o qual elevou o PIB, promoveu
exportações, remeteu os preços das acções
para as alturas e cortou o valor do yen. Isso também é verdade,
em alguma medida. Tal como a QE de Bernanke, a Abenomics tornou algumas pessoas
ricas ainda mais ricas. Infelizmente, o ponto de vista dos de baixo é
bastante diferente. Reformados, poupadores e trabalhadores viram as suas
condições deterioram-se constantemente devido a salários
estagnados ou em queda, inflação mais alta, ganhos de juros nulos
nos seus investimentos e impostos mais altos. Leu correctamente, Abe realmente
elevou os impostos sobre vendas para 8 por cento, colocando a economia em risco
de outro tombo só para aplacar o FMI e recompensar sua base corporativa
de direita. Os principais ganhadores do Japão queriam provar que Abe
estava comprometido em transferir mais da prodigiosa carga de dívida do
país para os ombros dos trabalhadores, o que ele fez alegremente ao
elevar o imposto sobre vendas. Eis a notícia da Bloomberg:
"O primeiro-ministro japonês Shinzo Abe avança em Abril com
um aumento do imposto sobre vendas... O tributo ascenderá dos actuais 5
por cento para 8 por cento, disse Abe, 59, disse hoje Abe em Tóquio, o
primeiro aumento desde 1997. ...
Com famílias já atingidas por uma elevação do custo
de vida e declínios nos pagamentos, o avanço de um tributo mais
alto decretado pelo governo anterior apresenta o mais alto risco para os
esforços de Abe em por fim a duas décadas de
estagnação japonesa. ...
A economia será contraída a uma percentagem anualizada de 4,5 por
cento nos três meses seguintes após o aumento do imposto de vendas
antes de retornar ao crescimento, segundo o cálculo mediano de
economistas entrevistados pela Bloomberg News. Para o ano calendário de
2014, a expansão é encarada a reduzir-se dos 1,9 por cento deste
ano para 1,6 por cento, mostra a mediana das estimativas". ("Abe
Orders Japan's First Sales-Tax Increase Since '97: Economy", Bloomberg)
O que nos diz isto quando o principal decisor político do país
está desejoso de aumentar impostos muito embora saiba que o custo de
vida já está a subir, que os salários ainda estão
baixos e que a economia está destinada a contrair (em 4,5 por cento)
assim que o imposto entrar em vigor? Será que isto lembra um
líder que está genuinamente interessado em fazer a economia
crescer e acabar com a deflação? Ou soará como outro
ludibrio utilizando seu gabinete para desnatar maiores lucros para os seus
parasitas banqueiros amigos?
Os salários estão a descer no Japão. A DESCER. Como
é que se constrói uma recuperação com base em
salários sórdidos que estão progressivamente a ficar mais
sórdidos? Não se pode, razão pela qual a Abenomics
é apenas um jogo de espelhos. Dê uma olhadela a isto:
"Os salários no Japão diminuíram para 407,34 JPY em
Julho de 2013 em relação aos 531,11 JPY em Junho de 2013. Os
salários no Japão são relatados pelo Ministério da
Saúde, Trabalho e Bem-Estar. Os salários foram em média de
317,62 JPY de 1970 até 2013, alcançando uma altura
histórica de 883,79 em Dezembro de 1997 uma baixa recorde de 52,91 JPY
em Fevereiro de 1970". ("Japan Wages", Trading Economics)
Este é o dado oficial, não a tagarelice que se lê nos media
de referência onde a Abenomics é celebrada como a segunda vinda de
Daruma
. Quando salários derivam para baixo, o povo gasta menos, o consumo
mingua e a economia contrai-se. Toda a gente sabe isto, razão pela qual
o esperto Abe apresentou seu programa de recuperação
económica com US$100 mil milhões do bom e velho estímulo
orçamental, principalmente em gastos de infraestrutura. A ideia era dar
à economia uma grande sacudidela que os media atribuiriam à louca
impressão de dinheiro do Banco do Japão. Mas imprimir dinheiro
não é a causa. A causa é o estímulo
orçamental. E quando o estímulo se exaurir (no próximo
ano), a economia afundará. Porque a QE não aumenta a
produção, promove o PIB, reduz o desemprego, aumenta a
inflação ou cria uma recuperação forte e
sustentável. Ela pressiona em alta preços de
acções, incha bolhas de activos e, acima de tudo, torna alguns
muito ricos ainda mais ricos. É isso que esta a fazer por toda a parte
onde tem sido implementada e é que se passa agora no Japão.
Mas pelos menos a confiança do consumidor está a subir?
Não é o que os sabichões nos media estão a
dizer-nos?
Errado. A confiança está a desgastar-se, porque as pessoas
estão a fabricar menos o que torna mais difícil esticar seus
cheques de pagamento devido à inflação crescente.
Verifique isto:
"A confiança do consumidor japonês piorou desde há
três meses atrás pela primeira vez em três trimestres quando
mais pessoas informaram que o seu rendimento recuou em relação ao
ano anterior, de acordo com os resultados do inquérito trimestral do
Banco do Japão divulgados na quarta-feira. Os dados também
mostraram que mais pessoas declararam que os preços haviam subido desde
o ano anterior, indicando que encargos mais elevados com utilities e
preços alimentares podem estar a diminuir o rendimento disponível
médio das famílias enquanto os salários base permanecem
deprimidos...
Mais pessoas esperam que o seu rendimento caia nos próximos 12 meses...
Os gastos da família média caíram 1,6% real em Agosto,
assinalando a primeira queda anual em dois meses após um ganho de 0,1%
em Julho. O rendimento médio real das famílias de trabalhadores
assalariados caiu 0,9% ano real em Agosto, a primeira queda em seis meses ao
passo que o seu rendimento disponível também registou a primeira
queda em seis meses, menos 1,4%". ("BOJ Poll: Japan Consumer
Confidence Slips on Lower Income", MNI Market News)
O louco
(crackpot)
governador do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, está a caminho de
duplicar a oferta monetária nos próximos dois anos num
esforço para alcançar seu objectivo de inflação de
2 por cento. Infelizmente, inflação mais alta não garante
mais actividade ou crescimento a menos que os salários também
subam. O que não está a acontecer. O salários estão
em queda no Japão, de modo que o plano é ridículo. Examine
esta notícia do Financial News:
"Não há prova de que a inflação ajudará
o consumo. O crescimento exige rendimentos familiares mais elevados ou
poupanças mais baixas. A inflação tende a pressionar em
alta os preços mais rapidamente do que os salários e portanto
deprime rendimentos reais das famílias. As taxas de poupança tem
estado a cair constantemente quando a inflação se transformou em
deflação. ...
Também se argumenta que a inflação reduzirá o fardo
da dívida nacional, pelo aumento da taxa de crescimento do PIB nominal.
Isto seria verdade se estivéssemos a ver uma
hiper-inflação. Contudo, como mostra a resposta do mercado de
títulos, a inflação moderada pode muito bem tornar as
coisas piores, não melhores, ao pressionar em alta taxas de yields de
títulos ainda mais rápido do que a inflação".
("Abenomics should take aim at structural reform", Financial News)
O presidente do Fed, Ben Bernanke, deparou-se com o mesmo problema nos EUA.
Cinco anos de taxas zero e US$3 milhões de milhões de compras de
activos (QE) não fizeram com que se aproximasse do seu objectivo de
inflação de 2 por cento. Portanto, seria razoável assumir
que a QE não eleva a taxa de inflação e que rechear os
bancos com excesso de reservas e preços de acções
sumarentos realmente não alcança o objectivo pretendido. A menos,
naturalmente, que o objectivo real seja fazer com que especuladores ricos
fiquem ainda mais ricos, o que parece estar a fazer muito bem.
A Abenomics tem mostrado algum progresso em estimular o crescimento do
crédito e do consumo pessoal. Mas, mais uma vez, estes sinais positivos
são atribuíveis principalmente à rajada única de
US$100 mil milhões de estímulo fiscal. Quando isso se esgotar em
meados de 2014, veremos que aumentar a base monetária não leva a
mais gastos, a uma expansão de crédito mais vasta, ou maiores
investimentos dos negócios. Leva, ao invés, a recompras de
acções, margens de dívida excessivas, bolhas de activos e
outras aplicações incorrectas nas áreas totalmente
improdutivas da especulação à procura de yields. Kuroda e
o seu amigo Bernanke estão, com efeito, a bombar gasolina directamente
para o carburador do carro na expectativa de que o veículo ande
suavemente. Depois de 5 ano de aplicação da mesma teoria
enviesada, podemos supor que a sua confiança é inadequada.
Tal como a QE, a Abenomics é uma alcunha de relações
públicas que oculta o modo como a política realmente funciona.
"Cheque sem fundos" seria provavelmente uma designação
mais precisa, uma vez que os dois bancos centrais estão de facto
empenhados numa forma de fraude na qual são retirados fundos de uma
conta a descoberto. Naturalmente, as perdas decorrentes deste exercício
com papeis em suspenso finalmente serão transferidos para contribuintes
involuntários na forma de inflação.
Mas a Abenomics não é simplesmente impostura monetária
disfarçada como política económica. É também
um ataque directo a protecções do trabalhador,
instituições progressistas e programas vitais de rede
protecção. Exemplo: Abe também está a pressionar
por "zonas económicas especiais" onde possa testar suas
teorias sobre desregulamentação radical. Nas palavras da revista
Economist,
de extrema-direita, as zonas permitiriam às "Grandes companhias...
terem mais liberdade para despedir trabalhadores a tempo inteiro, o que
é quase impossível no Japão... (e) "criar uma zona
especial agrícola gigante na ilha de Hokkaido, onde seria permitido a
empresas possuírem terra agrícola".
Como é que "maior liberdade para despedir trabalhadores"
é boa para a economia? O consumo pessoal já é fraco.
Será que melhorará ao contratar mais trabalhadores de baixos
salários?
Não, é claro que não. E quanto às "zonas
agrícolas especiais"? Será que alguém realmente
acredita que se possa fortalecer uma recuperação permitindo que
multinacionais gigantescas do agronegócio tratem como queiram e com
desprezo muitos dos pequenos agricultores que combatem pela sobrevivência?
Não, mais uma vez. A ideia é ridícula. Não é
preciso dizer que nenhuma das "reformas" de Abe são destinadas
às muitas super-inchadas e afundadas instituições
financeiras "zumbi" que são responsáveis pela fatia do
leão da enorme dívida nacional. A regulamentação
não se aplica a estes sanguessugas que possuem o sistema e cujo dinheiro
coloca lacaios como Abe no poder.
As outras "reformas" de Abe incluem reduzir impostos corporativos,
maiores pagamentos médicos, uma elevação na idade de
reforma e "o maior corte de sempre em benefícios do estado
social". O ponto comum nas chamadas reformas de Abe não é
difícil de discernir; isenções fiscais e subsídios
para os ricos e austeridade para todos os demais.
Eis porque as vendas de Ferraris estão no rubro mas as vendas de cerveja
estão em queda.
18/Outubro/2013
(1) Abenomics: a palavra vem do nome do primeiro-ministro do Japão
(Shinzo Abe) + Economics.
(2) QE: Quantitative easing
(3) LTRO: long-term refinancing operation
[*]
fergiewhitney@msn.com
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O original encontra-se em
www.counterpunch.org/2013/10/18/abenomics-in-14-words/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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