O tempo da América como superpotência está a chegar ao fim.
A crise financeira foi a última gota. Seja qual for a boa fé
que tenha restado após a invasão do Iraque, o desprezo par com
tratados internacionais e o desavergonhado desprezo pelo direitos humanos,
está agora acabado. Os Estados Unidos poluíram o sistema
económico global com papéis sem valor: títulos apoiados
por hipotecas. E, ao assim fazê-lo, empurraram seis mil milhões
de pessoas para uma longa e penosa recessão. Isso é algo que
não se pode esquecer facilmente.
A ira para com os EUA parece estar a emergir por toda a parte em
simultâneo. Foi particularmente perceptível na recente abertura
da Assembleia Geral das Nações Unidas. Tipicamente, esta
é um evento tedioso cheio de verborragia política vazia e de
cerimónias pretensiosas. Mas não desta vez. Com o mundo a
escorregar rumo a uma recessão criada pelos EUA, a paciência
esgotou-se, e líderes estrangeiros começaram a atacar os EUA com
mais veemência. Os discursos foram ásperos e acrimoniosos. Hugo
Chavez, da Venezuela, resumiu o estado de espírito das reuniões
assim:
"Penso que, mais cedo ou mais tarde, este império cairá
em benefício de todo o mundo, permitindo um equilíbrio no
mundo a ser criado: policêntrico e multipolar. Isto garantirá
paz no mundo. Para a criação deste mundo multipolar estamos a
dar a nossa pequena contribuição".
Chavez gosta do povo americano mas opõe-se ao Império Americano;
é simples. Ele foi o primeiro líder estrangeiro a oferecer
assistência médica e alimentar às vítimas do
Furacão Katrina. (Bush recusou sua oferta) Ele também fornece
toneladas de óleo de aquecimento a famílias de baixo rendimento
no Nordeste dos EUA.
A objecção de Chavez é o modelo "unipolar" de
governação global de Bush pelo qual todas as decisões
cruciais do mundo sobre todas as coisas, desde aquecimento global a
proliferação nuclear são tomadas por Washington.
Ninguém gosta que lhe digam o que fazer, assim como ninguém gosta
que os EUA imiscuam-se constantemente nos seus assuntos. Eis porque
ninguém dos que compareceram à assembleia da ONU parecesse
particularmente incomodada pelo facto de os mercados financeiros dos EUA
estarem em queda livre. Isto chama-se
schadenfreude,
ter prazer com o infortúnio de outro, e na semana passada houve muito
disto nas Nações Unidas.
Muitos dos notáveis que ali compareceram pareciam acreditar que a
súbita baixa da América representa oportunidades para uma
mudança no modo como o mundo é dirigido. Isso é o que
toda gente quer, mudança. Mudança real. Ninguém quer
mais outros oito ano como os últimos. Eis porque o tema central do
discurso de Chavez foi reiterado múltiplas vezes pelos outros
líderes mundiais. Eles rejeitam o sistema actual e querem um papel
maior na modelação do futuro do mundo.
Isto não significa que o mundo odeie a América. Significa apenas
que todos querem uma pausa nas torturas, nos sequestros, no bombardeamento de
civis e, agora, no contágio financeiro que os EUA disseminaram
através de todo o sistema global. A falta de
regulamentação dos EUA e as políticas monetárias de
juros baixos aumentaram a inflação, desencadearam tumultos
alimentares e dispararam os preços do petróleo. Chega. Os
Estados Unidos são como o convidado para jantar que não sabe
quando chega a hora de voltar para casa. Talvez um toque de recessão
ajude a reequilibrar a abordagem de Washington e torne os seus líderes
mais sensíveis às necessidades do resto do mundo. Em todo caso,
outros países já estão a preparar-se para um mundo em que
o papel da América será grandemente reduzido.
O jornalista John Gray resumiu isto assim no seu artigo em
The Observer,
"A Shattering Moment in America's fall from Power":
"O controle dos acontecimentos já não está em
mãos americanas ... Tendo criado as condições que
produziram a maior bolha da história, os líderes políticos
da América parece incapazes de entender a magnitude dos perigos que o
país agora enfrenta. Atolados na sua rancorosa cultura de guerras e a
brigarem entre si por coisas sem importância, eles parecem inconscientes
do facto de que a liderança americana global está em
declínio rápido. Um novo mundo que está a vir passa quase
desapercebido, um mundo em que a América é apenas uma das
várias grandes potências, a enfrentar um futuro incerto que ela
já não pode moldar".
Os EUA está prestes a juntar-se à família das
nações e a aprender como lidar com os seus vizinhos, quer queira
quer não. Simplesmente não há outra opção;
o dólar está em queda, os défices estão a subir, e
os mercados financeiros estão um desastre. A América ou
aprenderá a cooperar ou ficará isolada num mundo que está
rapidamente a integrar-se. "Entenda-se ou saia", é a mensagem
que Washington precisa aprender rapidamente de modo a adaptar-se a um novo
paradigma de poder.
Sim, muito dinheiro ainda irá para operações encobertas e
truques sujos patrocinados pela CIA só para manter viva a
esperança de que a superpotência será restaurada. Isso
é de esperar. Os prósperos patifes na família real
britânica ainda sonham com a reconstrução do
Império, eles também. Mas, realistas, sabem que é apenas
uma fantasia inócua. Dela nada sairá. Os impérios
têm uma vida útil curta e é-lhes impossível voltar
atrás. Eles habitualmente acabam num campo de batalha juncado de
cadáveres ou num incêndio financeiro grandioso que não
deixa nada atrás de si excepto um monte de cinzas e cacos de vidro.
Podemos apenas ter esperança de que o abismo económico
escancarado à frente de todos nós implique menos adversidades do
que prevemos. Mas quando uma nação incita à briga, ela
não deveria esperar uma colheita de peras doces.
O jornalista Steve Watson relata em Infowars:
"Um membro do Council on Foreign Relations e ex-planeador politico sob o
eminente Henry Kissinger do Grupo Bilderberger escreveu uma peça no
Financial Times
de Londres apelando a uma "nova autoridade monetária global"
que teria o poder de monitorar todas as autoridades financeiras nacionais e
todas as grandes companhias financeiras globais.
"Mesmo que a operação de resgate financeiro maciço
dos EUA tenha êxito, ela deveria ser seguida por algo com ainda maior
alcance o estabelecimento da uma Autoridade Monetária Global para
supervisionar mercados que se tornaram sem fronteiras", escreve Jeffrey
Garten, tambem um ex-director administrador da Lehman Brothers.
A maiores companhias financeiras globais teriam de registar-se junto à
Autoridade Monetária Global (Global Monetary Authority, GMA) e ficarem
sujeitas ao seu monitoramento, ou irem para a lista negra. Isto inclui
companhias comerciais e bancos, mas também fundos de riqueza soberana,
hedge funds gigantes e firmas de
private equity
[1]
. A direcção da GMA teria de incluir banqueiros centrais
não só dos EUA, Reino Unidos, eurozona e Japão como
também da China, Arábia Saudita e Brasil. Ele seria financiado
por contribuições obrigatórias de todos os países
capazes e por prémios tipo seguros de companhias financeiras globais
listadas publicamente, possuídas por governos e de capital
fechado". (Infowar.com)
O sonho de um governo mundial não morre facilmente, mas ainda assim
está morto. O centro do actual sistema financeiro global é o
Federal Reserve. Seus rebentos incluem o Council on Foreign Relations, o FMI,
o Banco Mundial, o cartel bancário do G-7 e milhares de ONGs
predatórias que expandiram as garras da cabala bancária de
Washington e o sistema dolarizado por todo o planeta. O neoliberalismo
está em colapso. O que estamos a assistir agora são os espasmos
erráticos de um paciente cardíaco terminal a entrar nas etapas
finais de uma paragem cardíaca. Não há droga ou
procedimento médico que possa restaurar a boa saúde da
vítima.
Ninguém está a olhar para os EUA ou os seus "pistoleiros
económicos" a fim de traçar uma rota para o futuro
económico do seu país. Esses dias estão ultrapassados.
Os EUA terão de sair por si próprios dos escombros e
recomeçar sem as infusões maciças de capital a baixo juro
da China, do Japão e dos Estados do Golfo. As torneiras do dinheiro
foram fechadas. São de papas ralas e árduos os tempos pela
frente. Esse é o preço que se paga por burlar o mundo com a
banha da cobra sem valor apoiada por hipotecas e por outros luxos
"ilíquidos".
O presidente russo Vladimir Putin resumiu assim os acontecimentos recentes nos
mercados financeiros:
"Tudo o que está a acontecer na esfera económica e
financeira começou nos Estados Unidos. Isto é uma crise real que
todos nós estamos a enfrentar, e o que é realmente triste
é que vemos uma incapacidade para tomar decisões adequadas. Isto
já não é irresponsabilidade da parte de alguns
indivíduos, mas irresponsabilidade do sistema no seu todo, o qual como
você sabe tem pretensões à liderança (global".
Ao voltar das Nações Unidas, o ministro das Finanças da
Alemanha
Peer Steinbrück
reflectiu sentimentos semelhantes quando disse:
"Os Estados Unidos são os únicos a serem culpados pela crise
financeira. Eles são a causa da crise e ela não está na
Europa e nem na República Federal da Alemanha. O impulso
anglo-saxão para lucros com dois dígitos e bónus
maciços para banqueiros e executivos de companhias foram
responsáveis pela crise financeira".
E acrescentou: "As consequências a longo prazo da crise não
são claras, mas há uma coisa que me parece provável: os
EUA perderão seu status de superpotência no sistema financeiro
global. O sistema financeiro mundial está a tornar-se multipolar".
Steinbuck esta simplesmente a reiterar os sentimentos da ministra Angela Merkel
que utilizou linguagem mais diplomática na sua crítica:
"A crise actual mostra-nos que se pode fazer algumas coisas a nível
nacional, mas a maioria esmagadora deve ser acordada a nível
internacional. Devemos pressionar por regulamentações mais
claras de modo a que uma crise como a actual não possa repetir-se".
Merkel sabe que a Europa foi cegada pelo sistema desregulamentado da
América, o qual permitiu a dominação de vigaristas e
trapaceiros. Mesmo agora em meio ao maior escândalo financeiro da
história nem um presidente de conselho de
administração ou director financeiro de um grande banco de
investimento foi processado ou levado a uma prisão. Os mercados
estado-unidenses são um lugar sem lei e "livre para todos"
onde ninguém é responsabilizado não importa quão
grande o crime ou quantas pessoas são prejudicadas. Mas há um
preço a ser pago por manter um sistema deformado e espoliar
investidores, e os EUA pagarão tal preço. A compra de
títulos do Tesouro já se reduziu a um engatinhar. Nos
próximos meses, a máquina que mantém a América em
vida será desconectada totalmente e a tenda de oxigénio
será removida. O protegido de Kissinger não está
preocupado acerca disso, mas a classe trabalhadora americana deveria estar.
Há uma série de ruínas pela frente e muitas pessoas
sofrerão desnecessariamente.
Eis como a
Spiegel Online
apresenta isto:
"A crise bancária está a perturbar a dominância
americana dos mercados financeiros e da política mundial. Os
países industrializados estão a deslizar para a recessão,
a era do turbo-capitalismo está a chegar ao fim e o poder militar
estado-unidense está a decair ... Este já não é os
Estados Unidos musculoso e arrogante que o mundo conhece, a superpotência
que estabelece as regras para todos os demais e que considera o seu modo de
pensar e fazer negócios como o único caminho para o êxito.
Uma nova América está no écran, um país que
já não confia nos seus antigos valores e ainda menos nas suas
elites: os políticos que deixaram de ver os problemas no horizonte, e
os líderes económicos, que tentaram vender um mundo
fictício de prosperidade aos americanos ... Também está no
écran o fim da arrogância. Os americanos estão agora a
pagar o preço do seu orgulho". (Spiegel Online, "America
loses its Dominant Economic Role")
O presidente Dmitry Medvedev não esteve presente nas cerimónias
de abertura nas Nações Unidas, mas vale a pena considerar as suas
visões sobre o nascente mundo "multipolar". Numa entrevista
recente ele disse:
"Não podemos ter um simples mundo polar. O mundo tem de ter
vários pólos. Um mundo policêntrico é o
único meio de garantir segurança nos anos futuros. De modo que
penso ser esta uma direcção muito prometedora para o nosso
país ... O mundo é mais estável quando há um
conjunto de grandes e importantes actores políticos. Num mundo
multipolar, todos influenciam todos. Trabalharemos para estendê-lo.
Não penso que o mundo bipolar que existiu entre a NATO e o Pacto de
Varsóvia (Guerra Fria) tenha quaisquer perspectivas futuras. Mas
é claro hoje que o mundo de um pólo único é
totalmente incapaz de administrar situações de crise".
Ambos os candidatos presidenciais prometeram continuar a unilateralista
Doutrina Bush. Obama está tão ansioso quanto McCain para violar
fronteiras soberanas, invadir países que não apresentam nenhuma
ameaça iminente à segurança nacional dos EUA, e executar
as muitas flagrantes violações de direitos humanos e do direito
internacional desde que isso promova os objectivos políticos de
mandarins ocidentais. Não há dúvida de que o iminente
colapso financeiro trará os nossos líderes de volta à
razão e ajudará a restaurar a república. Os EUA precisam
de uma política externa que não exija a carnificina de povos nos
seus países ou o roubo das suas poupanças para aposentadoria a
fim de manter o nosso padrão de vida.
A guerra que Bush lançou contra o mundo a guerra ao terror
persistirá durante anos depois de o sistema financeiro estado-unidense
desmoronar num monte de detritos. A vontade de poder é alimentada pela
arrogância, consciência de classe, e um "senso de
merecimento" que ainda é mais forte do que a vontade de sobreviver.
Isto é a força que anima os impulsos destrutivos e suicidas do
conflito actual. E é por isso que a guerra continuará. O tecido
social dentro dos EUA será despedaçado muito antes de cessar o
combate. Um forte sentido de merecimento cria a crença de que "O
mundo é meu para fazer com ele o que quiser; as
reclamações dos outros não têm
consequência". Estes sentimentos não podem ser mudados
através da lógica ou da discussão racional; eles devem
ser erradicados com um escalpelo do mesmo modo como seria removido um tumor
canceroso.
Há perturbações pela frente. O mundo multipolar
está prestes a colidir de frente com o mundo unipolar "baseado na
fé" e milhões estão destinados a sofrer. Mas
não há dúvida acerca do resultado final. As placas
geopolíticas estão a mudar inexoravelmente para longe de
Washington. A capacidade da América para travar a guerra será
fortemente desgastada quando o capital e os recursos secarem. É
só uma questão de tempo antes de a máquina de guerra
arrebentar até parar e as tropas retornarem para casa. Quando parar a
matança, começará uma verdadeira nova ordem mundial.
02/Outubro/2008
[1]
Private equity: Firmas que investem essencialmente em empresas ainda não
inscritas em bolsa de valores a fim de alavancar o seu desenvolvimento.
[*]
fergiewghitney@msn.com
O original encontra-se em
http://www.informationclearinghouse.info/article20926.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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