A tecnologia e a decadência do liberalismo
por B. Arjun
O liberalismo está em declínio. O monstro da direita ressurgiu. A
resposta global à crise dos migrantes e a velocidade com que o racismo e
o comunalismo estão a ganhar legitimidade são sintomas claros da
decadência do liberalismo.
A verdade é que a ditadura dos oligarcas está de volta com uma
vingança, legitimando o racismo, o comunalismo, a censura e o estado de
vigilância. Tudo o que os liberais consideravam errado com o comunismo
voltou para assombrá-los.
O conservadorismo é a principal ideologia da maioria dos estados. Na
recém concluída cimeira do G-20, a maioria, quase todos, dos
líderes globais pertencia à variedade conservadora de direita.
Esta realidade foi posta em evidência no cenário global pelo
presidente Putin, que proclamou numa entrevista ao
Financial Times:
"A ideia liberal tornou-se obsoleta.
(Liberais) não podem
simplesmente ditar o que quer que seja a alguém como têm tentado
fazer nas últimas décadas".
Além disso, reforçando a posição internacional
russa, Putin certamente estava a afastar-se da Europa do pós-guerra que
promovia a democracia e os valores liberais. Estava a distanciar-se do
atlantismo (ou seja, reorientar a Rússia para o Ocidente) pedido muitos de
seus oponentes liberais dentro da Rússia. A política de Putin
está enraizada no eurasianismo que "defende a
modernização técnica e social sem o abandono das
raízes culturais".
Putin talvez esteja desejoso de declarar a morte da ideia do famoso
comentarista americano Francis Fukuyama que, no início dos anos 90,
proclamou audaciosamente a morte da ideologia de esquerda e a vitória
final do liberalismo e dos mercados livres.
As celebrações de Fukuyama justificavam-se então porque um
dos principais objectivos do liberalismo, durante a Guerra Fria, era
enfraquecer e finalmente derrotar o comunismo. Os anúncios prematuros de
Fukuyama sobre o "fim da história" ignoraram convenientemente
o cavalo de Tróia de direita que residia em meio aos liberais. Ele
provavelmente assumiu que a colaboração dos direitistas e
liberais, criada para derrotar o comunismo, seria eterna. Fukuyama foi
ingénuo. Ele não percebeu que o conservadorismo não
poderia coexistir com o liberalismo. Não viu que os liberais não
passavam de tolos no jogo planeado pelos capitalistas para repelir a
ameaça comunista. Depois de devorar os comunistas, o capitalismo
está agora a atacar os liberais, os social-democratas.
A mudança pós-guerra fria dos liberais e conservadores rumo a uma
ordem socio-económica neoliberal ampliou a distância entre ricos e
pobres. As horríveis desigualdades só geraram ódio para
com a ordem mundial centrada no liberalismo.
Este ódio tem sido inteligentemente aproveitado pelos conservadores.
Eles habilmente mudaram a cólera pública contra os liberais,
salvando assim o capitalismo de ser objecto de crítica e
condenação. E isto tem sido conseguido pelo fomento de uma crise
de identidade e pelo desencadeando uma onda de populismo.
Não se pode esquecer da história. O liberalismo nunca foi a
primeira opção do capitalismo. A ascensão do fabianismo
britânico e do New Deal americano foi meramente um estratagema
táctico para salvar o capitalismo no rastro da grande depressão e
do avanço do comunismo no início da década de 1930.
A TECNOLOGIA E A DECADÊNCIA DO LIBERALISMO
Analisar a declaração de Putin em termos puramente liberais
dá uma sensação estranha acerca do futuro da democracia no
mundo. No entanto, interpretar a morte do liberalismo em termos marxistas
indica claramente que o capitalismo já não precisa mais de
liberalismo.
A pergunta que precisamos fazer é: O que os encoraja a abandonar os
liberais? Por que o multiculturalismo é anátema para
conservadores? Por que estão eles a esmagar as classes médias?
Para responder a estas perguntas é preciso entender as mudanças e
rupturas que a robótica está a provocar.
No princípio da década de 1980 capitalistas ocidentais à
procura de mão-de-obra barata transferiram suas fábricas para a
China e países do sudeste asiático. Eles basicamente mudaram a
poluição e suas preocupações para longe das leis
impostas pela ordem liberal a fim de manter a tranquilidade dentro da
metrópole.
Depois de deslocalizar as fábricas, a classe capitalista ocidental
concentrou-se em ganhar dinheiro liberalizando o sector financeiro. A
introdução de computadores ajudou os ricos a movimentarem
dinheiro por todo o mundo a uma velocidade vertiginosa. Tudo isto foi
caracterizado como a fase inicial da globalização. País
após país foi persuadido ou coagido a aderir ao movimento de
liberalização impulsionado pelo "consenso de
Washington".
O império americano atingiu seu auge após a guerra-fria. No
entanto, isto perdurou até 2008, quando a crise financeira atacou as
estruturas capitalistas. Contudo, apesar da ascensão da China e das
contradições inerentes ao capitalismo, os Estados Unidos
estão confiantes no salvamento do seu império principalmente
porque pensam que tecnologias posteriores os colocam numa posição
vantajosa.
Em primeiro lugar, a tecnologia está a alterar o relacionamento entre
capital e trabalho. O capital sempre considerou o trabalho como um fardo pesado
e incómodo. Sempre considerou o trabalhador numa fábrica como um
mal necessário. A introdução de robôs e impressoras
3D que podem manufacturar produtos que vão desde um sapato até um
motor de avião com a ajuda da inteligência artificial (IA), agora
dá esperança ao clube de bilionários de que é
possível fabricar bens sem mão-de-obra local ou estrangeira. A
gestão e monitoramento do chão de fábrica podem agora ser
alcançados com o clique de um botão.
Não só o trabalhador está a tornar-se redundante, como o
operário de colarinho azul e o gerente estão também a
desaparecer rapidamente da equação da produção. Num
futuro próximo, o capitalista não exigirá ao empregado
educado para actuar como um amortecedor entre o trabalhador e o
proprietário. Anteriormente um empregado tinha de trabalhar arduamente
para lutar por licenças e horários de trabalho regulamentados.
Agora, as empresas estão a pedir aos seus empregados para trabalharem em
casa. E a demanda por três dias de trabalho está a ser
popularizada por aqueles que outrora propagavam "o culto do trabalho".
Esta tendência é visível na maneira condescendente com que
Trump e Modi tratam a imprensa. Ambos sentem que jornalistas e
repórteres podem ser dispensados, porque a tecnologia dos media sociais
lhes permite que se comuniquem directamente com seu público.
O desprezo dos conservadores pela burocracia também se deve ao facto de
que nos próximos anos já não será requerido a um
burocrata que implemente os esquemas do governo, porque o dinheiro será
enviado directamente para as contas dos pobres. As classes médias
já estão a sentir o aperto e a cresce a sensação de
que estão a ser empurradas para baixo.
O capitalismo entende que a nova tecnologia está a levar ao desemprego.
A classe capitalista pretende reduzir o número daqueles que terá
de satisfazer na era do desemprego em massa. Portanto, tanto razões
sectárias como racistas ou de casta estão a ser inventadas para
dividir as sociedades e manter o máximo de pessoas possível fora
da rede da segurança social. Por esta razão os conservadores de
direita se opõem à imigração e ao multiculturalismo.
Finalmente, por que o capitalismo conservador se refugia na retórica do
populismo? A resposta está no facto de que a classe capitalista tem
sempre a paranóia de uma revolta. Ela quer a paz interna para proteger a
sua propriedade.
Com os novos meios de produção firmemente nas mãos das
classes proprietárias, o mundo caminha rapidamente para o mais alto
estágio do capitalismo que provavelmente será mais
implacável do que o actual autoritarismo que estamos a experimentar.
14/Julho/2019
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2019/0714_pd/technology-and-decay-liberalism
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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