Pode um salvamento ter êxito?

Não sem estes elementos (e talvez nem mesmo com eles)

por Paul Craig Roberts [*]

Cartoon de Daniel Paz e Rudy. Se bem que, como era de prever, na noite passada o Senado dos EUA tenha capitulado às exigências de Wall Street, pela primeira na memória recente a Câmara dos Representantes ouviu o povo americano e bloqueou o salvamento dos compadres ricos de Paulson às custas dos contribuintes estado-unidenses. A mesma Câmara que recusa a exigência pública de que o regime Bush seja responsabilizado e as suas guerras gratuitas travadas, recusou transferir US$700 mil milhões a instituições financeiras cuja irresponsabilidade provocou a pior crise económica dos EUA desde a Grande Depressão.

Devemos estar gratos por este sinal de que a democracia americana não está completamente morta e suplantada pela autoridade do ramo executivo. Contudo, o pacote de salvamento, seja qual for aquele que emerja, fracassará a menos que leve em conta o seguinte.

Qualquer pacote que mantenha a regra da marcação a mercado (mark-to-market) e permita a retomada da venda a descoberto (short-selling) minar-se-á a si próprio. Em condições de pânico sem a existência de um mercado, a regra da marcação a mercado resulta em preços de activos levados abaixo dos seus valores, erodindo portanto balanços e produzindo insolvências. A venda a descoberto que os vendedores lucrem pela destruição dos preços das acções de instituições que sofrem problemas de balanço, eliminando portanto sua capacidade de tomar empréstimo e afastarem-se da falência.

Um salvamento, ainda que grande, se mantiver a regra da marcação a mercado e permitir a venda a descoberto estará a despejar dinheiro num buraco negro.

Um salvamento que seja tratado como um mero acréscimo ao já maciço endividamento do governo dos EUA desconcertará credores estrangeiros. Há um limite para o montante de divida pela qual o Tesouro pode assumir responsabilidade sem minar a sua própria classificação de crédito. O salvamento, especialmente se os US$700 mil milhões demonstrarem-se insuficientes e for necessário mais, pode danificar a posição de crédito do Tesouro.

Neste caso, credores estrangeiros podem não fornecer os fundos necessários para o salvamento ou proporcioná-los só a taxas de juro mais elevadas, as quais minariam elas próprias o êxito do salvamento.

Segundo um relato de 29 de Setembro no Washington Post:

"Vinte das maiores instituições financeiras do mundo possuíam um total somado de US$2,3 milhões de milhões em hipotecas a 30 de Junho. Elas possuem mais US$1,2 milhão de milhões de títulos apoiados por hipotecas. E elas informaram vender outros US$1,2 milhão de milhões de investimentos relacionados com hipotecas sobre os quais retinham centenas de milhares de milhões de dólares em passivo potencial, de acordo com declarações feitas por companhias a agências regulatórias. Os números não incluem investimentos que são derivados de hipotecas através de meios mais complicados, tais como as obrigações colaterizadas de dívida".

Deixando de lado as obrigações colaterizadas de dívida, somando os três instrumentos relacionados com hipotecas das 20 instituições financeiras chega-se a US$4,7 milhões de milhões dos quais US$700 mil milhões constituem 15 por cento. Se apenas mais de 15% destes instrumentos perturbados forem maus, o salvamento exigiria mais dinheiro. Até que ponto credores estrangeiros veriam um buraco sem fim?

Se credores estrangeiros forem financiar o salvamento, este deve ser crível. O melhor meio de alcançar credibilidade é combinar o salvamento com uma redução nas outras formas de os EUA tomarem empréstimos estrangeiros, especificamente o défice orçamental do governo dos EUA e o défice comercial dos EUA.

Com base na concepção de não permitir recessão e, talvez, no montante total do custo das guerras, o défice orçamental dos EUA estima-se que seja de pelo menos US$400 mil milhões. Considerando a urgência do salvamento, os US$700 mil milhões também seriam quase o fim da tomada de empréstimos. Isto significa um mínimo de US$1,1 milhão de milhões e novas tomadas de empréstimos pelos EUA no decorrer deste ano, uma soma que poderia levar os credores estrangeiros a vacilar.

O salvamento ganharia credibilidade se os défices orçamental e comercial fossem corrigidos como parte do pacote. O governo dos EUA precisa escolher entre o seu sistema financeira e as suas guerras. Como as guerras não servem os interesses dos EUA, excepto para aqueles de uns poucos poderosos grupos de interesses, o governo deveria declarar um fim imediato às guerras, reduzindo portanto o défice orçamental em pelo menos US$200 mil milhões por ano.

O governo deveria então voltar-se para o orçamento militar, que a cerca de US$700 mil milhões é maior do que os gastos militares somados do resto do mundo somado. A única justificação para tão enorme montante de gastos militares é uma política de hegemonia mundial dos EUA, uma política que o colapso financeiro torna sem sentido. O orçamento da defesa precisa ser cortado suficientemente para equilibrar o orçamento dos EUA ou, melhor ainda, chegar a um excedente de US$100 mil milhões.

Tal acção demonstraria aos credores estrangeiros uma abordagem responsável à crise económica. Ao invés de mais do que duplicar os pedidos de novo crédito junto aos credores estrangeiros, o governo dos EUA podia manter constante o nível actual de tomada de empréstimos com a eliminação do défice orçamental. Isto assinalaria uma nova seriedade junto a prestamistas estrangeiros.

O défice comercial também deve ser corrigido. Os EUA estão dependentes da vontade de estrangeiros para financiar o seu consumo anual de US$800 mil milhões a mais do que produzem. Estes fluxos de financiamento em curso de credores estrangeiros com activos em dólar em tão grandes quantidades levantam questões acerca do valor do US dólar.

A produção externalizada de bens e serviços para mercados nos EUA aumentou significativamente o défice comercial pois este bens e serviços contam como importações quando as corporações estado-unidenses trazem-nos para o país a fim de serem comercializados. A actividade deslocalizada deve ser restringida com impostos, quotas ou tarifas. Seria difícil impor tarifas ou quotas sobre bens fabricados por empresas dos nossos credores estrangeiros. Mas firmas dos EUA que estão a produção offshore para mercados dos EUA poderiam ser restringidas. Finalmente, terão de ser dados passos para trazer o défice comercial dos EUA a um equilíbrio, mas isto poderia espera o fim da crise financeira.

Ao longo dos últimos 20 ano os EUA cometeram um conjunto de erros sérios que podem demonstrar-se fatais. Com o colapso da União Soviética, o governo lançou uma política de hegemonia mundial para a qual faltavam-lhe meios. O governo dos EUA permitiu que grande parte das sua base manufactureira fosse localizada offshore ao ponto de estar dependente de importações até mesmo para a sua capacidade militar. O governo desregulamentou o sector financeiro e permitiu a ascensão de novos instrumentos financeiros altamente alavancados cujos fracassos actualmente ameaçam os EUA com o colapso económico.

O economista Herman E. Daly, da Universidade de Maryland, destaca que a crise actual é realmente do "super-crescimento de activos financeiros em relação ao crescimento de riqueza real". Daly acredita que os "activos financeiros cresceram num grande múltiplo da economia real" e que "a troca de papel por papel agora é 20 vezes maior do que a troca de papel por mercadorias reais". A explosão do ónus da dívida simplesmente ultrapassou a riqueza.

O problema, por outras palavras, não pode ser salvo. Historicamente, as dívidas que não puderam ser resgatadas foram anuladas pela inflação. A mesma inflação que destrói dívidas destruirá poupanças.

Um salvamento fracassado é o pior resultado possível. A possibilidade de fracassos aumenta se o governo estado-unidense tentar transformar dívida privada podre em dívida pública boa sem considerar a expansão da dívida pública.

02/Outubro/2008

[*] Ex-secretário assistente do Tesouro na administração Reagan.   Foi Editor Associado da página editorial do Wall Street Journal e Editor Colaborador da National Review.   É co-autor de The Tyranny of Good Intentions .   Email: PaulCraigRoberts@yahoo.com

O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/roberts10022008.html


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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