Thomas Piketty, uma denúncia ilusória do capital
Os dois livros de Thomas Piketty:
Le Capital au XXI siècle
publicado em 2013, e
Capital et idéologie
publicado em 2019, tiveram um impacto mundial. Devemos também juntar os
trabalhos
Laboratoire sur les inégalités mondiales,
e a obra
Pour un traité de démocratisation de l'Europe.
Piketty intervém no debate público, com um projeto de
socialismo participativo
baseado, na redução das desigualdades através da
fiscalidade sobre o rendimento e o património, na
participação dos trabalhadores na gestão das empresas, na
democratização da Europa.
É, portanto, bem-vindo o livro de Alain Bihr e Michel Husson:
Thomas Piketty, une dénonciation illusoire du capital
[1]
, que oferece uma leitura crítica das obras de Piketty. Isso é
feito, em grande medida, em nome do marxismo, justificado pelos autores ao
constatar que, como o título dos dois livros testemunham, Piketty
propõe-se escrever
O Capital
deste século, para ir além de Marx. Mas a
comparação é cruel. Piketty não está
além de Marx, mas muito aquém.
Desde a introdução, AB e MH fazem quatro críticas à
problemática de Piketty: esquece as relações sociais de
produção, que ditam o funcionamento de qualquer economia, em
particular das economias capitalistas, em favor da análise
estatística da distribuição do rendimento e ativos;
Piketty usa o conceito de capital de uma forma a-teórica. A sua
análise das ideologias é incompleta, baseada na
introdução a-histórica da norma da igualdade; as suas
propostas de reforma são utópicas, incompatíveis com o
capitalismo, sem que Piketty proponha claramente uma saída do
capitalismo; são inaceitáveis para as classes dominantes, sem que
Piketty analise as alianças de classe que poderiam implementá-las.
O capítulo 1 do trabalho de AB e MH denuncia as fraquezas
teóricas de Piketty. Assim, em
Capital et idéologie,
usa o conceito de capital, mas sem defini-lo com precisão: o capital
seria todo o ativo que desse lucro, independentemente das
relações de produção. Da mesma forma, as
desigualdades são vistas apenas do ângulo estatístico das
desigualdades de rendimento ou património, esquecendo as desigualdades
de condição e também de poder. A insistência nas
desigualdades mascara a recusa em questionar fundamentalmente as
relações de produção: é claro que as classes
dominantes podem dar-se ao luxo e à ostentação do consumo,
mas acima de tudo organizam as relações de
produção, orientam o desenvolvimento económico, definem e
impõem a ideologia que justifica o seu domínio.
É certo que Piketty denuncia o papel justificativo das ideologias, mas
limita-o à justificação das desigualdades e não ao
conjunto da ordem social. Os autores mostram, com razão, que Piketty
subestima o papel das relações de produção e das
relações de classe para sobrestimar o das ideologias, o que tem
graves consequências para seu programa político.
O capítulo 2 denuncia a ligeireza com que Piketty utiliza a
história económica e social. Assim, santifica a
distribuição da sociedade feudal em três ordens, a nobreza,
o clero e o terceiro estado, recusando-se a ver que essa
distribuição não é universal, que mascara a
realidade da produção, que evoluiu ao longo do tempo sob o efeito
de seu dinamismo próprio (e não apenas sob o efeito de choques
políticos, como a Revolução Francesa). Usa a
noção de "sociedade de proprietários" para
definir o capitalismo, mascarando que o capitalismo é caracterizado por
uma massa de indivíduos que nada possuem. O capítulo 3 ilustra
essa mesma leviandade no caso específico do Reino Unido, onde Piketty
dificilmente explica os debates que acompanharam a ascensão do
capitalismo.
O Capítulo 4 discute um aspeto essencial da evolução das
economias capitalistas de 1914 a 1980: a ascensão do Estado Social, ou
seja, um compromisso entre o capitalismo e o movimento social, que fez com que
gradualmente o Estado redistribuísse mais de 40% da
produção. Aqui também, os autores censuram Piketty por
sobrestimar o papel dos fatores ideológicos (o enfraquecimento da
crença na autorregulação dos mercados), ao mesmo tempo que
subestima tanto o papel das forças sindicais e sociais (que continham
simultaneamente reivindicações reformistas de curto prazo e
objetivos revolucionários pondo em causa o capitalismo) como das
próprias necessidades do funcionamento do capitalismo (que precisa de
regulação macroeconómica, gastos públicos e
sociais, infraestrutura, funcionários competentes, gestão
pacífica dos conflitos entre as grandes potências imperialistas,
etc).
Deveríamos porém escrever, como os autores, as sociedades
capitalistas ocidentais na realidade permaneceram, durante essas poucas
décadas, sociedades totalmente capitalistas? Eu penso que
não. Este ponto de vista não leva em consideração a
ascensão das instituições sociais (educação
pública, saúde para todos, pensões por
repartição, seguro-desemprego, benefícios assistenciais),
instituições cuja manutenção e importância
são objeto de um conflito permanente entre as classes dominantes e as
forças sociais, instituições que introduzem aspetos do
socialismo no próprio coração do capitalismo.
Por que está o projeto social-democrata em dificuldades desde 1980,
questionado pela contra-revolução neoliberal? Para Piketty, a
cogestão de empresas não foi levada suficientemente longe, mas os
autores mostram que ela só poderia ser fictícia caso a
lógica do capital não fosse abandonada; ao contrário de
Piketty, eles veem a autogestão ou a nacionalização como
estratégias mais promissoras. Piketty questiona a falta de
"democratização" do ensino superior, a sua incapacidade
de alcançar igualdade de oportunidades, esquecendo que isso é
sempre um mito enganoso numa sociedade fundamentalmente desigual, onde as
posições sociais são em grande parte hereditárias.
Enfim, Piketty critica a social-democracia por ter pensado na fiscalidade e na
proteção social num âmbito nacional, parecendo esquecer que
as classes dominantes usaram justamente a globalização, a
abertura das fronteiras, a construção europeia para questionar
compromissos nacionais, para por em concorrência os trabalhadores e os
sistemas sócio-fiscais de cada país, não existindo a
nível global (e mesmo a nível europeu) movimentos organizados
para instaurar uma proteção social e uma fiscalidade
transnacional.
Onde Piketty vê uma fraqueza ideológica da social-democracia, os
autores veem a tendência quase inevitável de certas camadas
sociais se enfeudarem às classes dominantes, tendência
reforçada pela evolução social nos países
desenvolvidos (o enfraquecimento da classe trabalhadora como força
política.
O capítulo 5 aborda as propostas essenciais do livro
Le Capital au XXIe siècle.
A identidade em que Piketty se baseia é:
r = α / β
em que
r
é a taxa de lucro,
α
representa a parte dos lucros (no produto) e
β
a relação capital/produto
Piketty considera que a taxa de lucro é determinada pela produtividade
marginal do capital, de modo que o aumento da razão capital/produto se
traduz automaticamente num aumento da participação do capital no
valor acrescentado. Na verdade, não distingue entre capital produtivo e
capital imobiliário, de modo que o aumento acentuado que descreve na
razão capital/produto decorre quase inteiramente do aumento do
preço relativo do imobiliário, que o seu diagrama teórico
não reflete.
Pelo contrário, os autores recordam a característica essencial da
evolução económica dos últimos cinquenta anos: o
abrandamento dos ganhos de produtividade e a queda da relação
produto/capital, compensados por um aumento da participação dos
lucros no valor acrescentado, de modo que a taxa de lucro se manteve em
níveis excessivos em relação à taxa de
investimento. Assim, a queda da participação dos salários,
bem como a estagnação do investimento, colocam problemas de
escoamento, resolvidos pelo consumo das classes privilegiadas, pelos
escoamentos externos (para alguns países), mas sobretudo pelo aumento do
crédito e financeirização.
Os autores destacam a leveza com que Piketty traça
projeções para as próximas décadas, em particular a
de um hiato persistente entre a taxa de retorno do capital e a taxa de
crescimento, o que o leva a prever uma alta quase automática das
desigualdades de rendimento e património.
Os autores reconhecem o mérito de Piketty em fazer da
questão das desigualdades um grande tema do debate público,
mas à custa de esquecer o essencial: o que caracteriza o capitalismo
é que os capitalistas gerem a produção pressionando os
salários e as condições de trabalho para extrair o
máximo de lucros. Sem questionar este fundamento do capitalismo nem a
distribuição primária de rendimento, Piketty reduz-se a
advogar soluções ingénuas, como a
redistribuição por meio de impostos ou a aceitação
pelos capitalistas de uma taxa de lucro menor.
Piketty propõe uma tributação muito forte dos elevados
patrimónios, para redistribuir património aos mais jovens, o que
resolveria a questão das desigualdades de riqueza, mas não
põe a questão da valorização da riqueza dos mais
ricos, principalmente detida na forma de ações de empresas;
não examina as consequências financeiras de tal
transferência. O preço das ações entraria em
colapso? Quem deteria o capital das empresas? Do mesmo modo, a questão
de como seria utilizado este património de 120 000 euros
atribuído a cada jovem aos 25 anos não é seriamente
abordada.
A sua proposta só faria sentido se fosse acompanhada por uma
socialização do capital empresarial e do capital
imobiliário (para solucionar a questão habitacional), que Piketty
não contempla.
O Capítulo 6 discute o projeto político de
socialismo participativo
de Piketty. Isso basear-se-ia em três elementos: a
tributação dos ativos e do rendimento seria altamente
progressiva; os representantes dos trabalhadores teriam direito a metade dos
assentos nos conselhos de administração; todos teriam direito a
um rendimento mínimo garantido de 60% do PIB per capita e aos 25 anos
receberiam um património correspondente a 60% do património
médio.
Os autores criticam este projeto reformista por não sair do capitalismo:
as empresas têm sempre de levar em conta os padrões em vigor em
termos de salários e produtividade do trabalho, despedindo se
necessário, como atualmente fazem as SCOP (Sociedades Cooperativas e
Participativas), tendo de levar em consideração os requisitos de
rentabilidade dos acionistas (que ocupariam metade das cadeiras do Conselho de
Administração). Percebe-se que Piketty não explica como
tais empresas seriam administradas, como seriam arbitradas as
divergências de objetivos entre capitalistas e trabalhadores, de modo que
seu projeto tem pouca coerência.
Os autores observam que Piketty aceita a visão da propriedade privada
como libertadora, garantia da liberdade individual, esquecendo-se da realidade
do capitalismo, onde a massa de trabalhadores não goza dessa liberdade.
Os autores também denunciam a visão idílica da
formação contínua (que milagrosamente compensaria as
desigualdades sociais no acesso à formação inicial).
Para Piketty, o aumento do imposto sobre o carbono poderia ser compensado por
um aumento nas transferências de modo que tivesse apenas um efeito de
incentivo, "sem prejudicar o poder de compra dos pobres". Como os
autores observam, esta proposta técnica minimiza a extensão da
crise ecológica. Piketty recusa-se a ver que a propriedade privada dos
meios de produção, a competição capitalista, a
busca da lucro e do crescimento não são compatíveis com o
controlo social do desenvolvimento económico que a crise
ecológica impõe.
Os autores acertadamente censuram Piketty por não levar em conta o
equilíbrio de poder, a reação das classes dominantes ou a
necessária mobilização das classes populares, como se seu
projeto, muito bem idealizado, se impusesse por si próprio.
A obra propõe-nos duas conclusões. A primeira, escrita antes da
crise sanitária, contrapõe duas visões da luta
progressista. Segundo o que os autores atribuem a Piketty, (mas também a
Joseph Stiglitz e Bernie Sanders), o capitalismo é reformável,
por meio de um programa verde-rosa: por um lado, gastos públicos
significativos no combate às emissões de gases de efeito estufa
pela descarbonização da energia, economias de energia,
reestruturação e relocalização da
produção, economia circular, uma certa sobriedade e, por outro
lado, pelo combate às desigualdades de rendimento por meio de
fiscalidade redistributiva. Esta visão pode conquistar a
aprovação de grande parte da população,
principalmente da classe média.
A outra conclusão considera que capitalismo verde-rosa é uma
ilusão enganadora. Não é compatível com o
capitalismo como ele realmente funciona: a propriedade privada dos meios de
produção, a busca frenética do lucro, a cegueira e a
ganância das classes dominantes. Nada é possível sem uma
rutura clara com o capitalismo, sem a mobilização e
organização das massas para impor novas relações
sociais e novas relações de produção.
Sou menos categórico do que os autores; a experiência da
social-democracia e do Estado Social parece-me provar que uma inflexão
é possível, que os capitalistas podem ter que se resignar a ela
devido aos desequilíbrios ecológicos, económicos e
sociais, principalmente se a mobilização de forças sociais
for suficiente.
Um posfácio, escrito durante a crise sanitária, atualiza a
primeira conclusão. Os autores veem nesta crise um novo sintoma dos
limites do capitalismo: o crescimento ilimitado colide com os limites do nosso
planeta; a destruição dos ecossistemas acaba colocando em risco a
espécie humana. Piketty percebeu isso ao imaginar um direito individual
à emissão de gases de efeito estufa (GEE); este projeto é
irrealista, baseado em
trade-offs
individuais (usar, vender ou comprar os meus direitos de emissão) e
não numa reorganização socialmente pensada da
produção e do consumo. Basicamente, o discurso não muda,
defendendo um capitalismo rosa-verde onde a redução das
desigualdades de rendimento (em particular por meio do imposto sobre a riqueza)
contribuirá para a redução das emissões de GEE
(já que os ricos emitem muito mais que os pobres), onde o crédito
será usado para financiar a transição ecológica (e
não a especulação financeira), onde os capitalistas
abrirão amplamente os conselhos de administração das
empresas aos representantes dos trabalhadores.
Segundo os autores, este projeto não tem credibilidade: esquece os
equilíbrios de poder: as classes dominantes não irão
desistir dos seus planos de crescimento ilimitado apenas devido ao poder de
convicção de intelectuais reformistas. Os autores terminam
denunciando: A abordagem de Piketty, toda cheia da boa vontade
conciliadora de um reformismo muito temperado, claramente não
está à altura do que está em jogo e da violência
contida na situação atual.
Esperamos ter convencido o leitor do interesse da obra de Alain Bihr e Michel
Husson.
[2]
A sua lição fundamental é que toda sociedade conhece
relações de poder baseadas nas relações de
produção, com suas classes dominantes e a ideologia justificadora
que desenvolvem. Desse ponto de vista, é possível denunciar a
ingenuidade que o projeto de capitalismo verde-rosa que Thomas Piketty carrega.
Por outro lado, o leitor pode censurar os autores por não proporem um
projeto alternativo. Que projeto, compatível com as
restrições ecológicas, pode mobilizar hoje os
precários, as classes populares e grande parte das classes
médias? Como conciliar objetivos ecológicos e o desejo de aumento
do poder aquisitivo? Como substituir a hegemonia das classes dominantes?
[1] Publicado em outubro de 2020, por Éditions Syllepse, Paris e
Página 2, Lausanne.
[2] Mesmo que a obra possa ser criticada por aparecer como uma
justaposição de capítulos escritos por cada um dos
autores; passar muito rapidamente pelas análises históricas de
Thomas Piketty para se concentrar em seu projeto político; evocar as
relações de produção como
deus ex machina,
esquecendo as atuais contradições do capitalismo entre o
capitalismo financeiro e o capitalismo industrial, não levar em conta o
atual enfraquecimento político das forças populares.
[*]
Economista, participante de
Économistes Atterrés
.
O original encontra-se em
alencontre.org/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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