Paisagem depois da batalha

por Alejandro Nadal

Salvar o povo, não os bancos. Há perdedores depois da primeira recusa do plano Bush-Paulson na Câmara dos Representantes. Mas ninguém parece reclamar a vitória. Isso é mau presságio.

A lista de baixas é encabeçada pelo sr. Bush e a sua escalavrada presidência. Se houvesse alguma dúvida, agora nada evitará o veredicto: seus anos no gabinete oval passarão à história como a pior presidência na vida daquele país. A seguir vêm o secretário do Tesouro e seus amigalhaços da Wall Street.

A CRISE É ANTES DE INSOLVÊNCIA DO QUE DE LIQUIDEZ

A iniciativa da Casa Branca implica dar uma quantidade astronómica de recursos fiscais a Paulson para que continue a fazer o mesmo das últimas semanas e meses: resgatando quem considera que é preciso salvar e condenando os que não têm o seu beneplácito. Ou seja, o remédio do resgate estilo Bush-Paulson consiste em mais liquidez para que tudo continue como dantes. Mas este não é o remédio que precisa o paciente. Mais: este remédio poderia ser pior do que a doença, pois a crise é mais de insolvência que de falta de liquidez.

Mas quem ganhou o primeiro round? Na realidade ninguém se considera vencedor porque o forno não está para bolos. A crise já está aí, estende-se e intensifica-se dia a dia. E ainda que esteja claro que o plano de salvamento não teria beneficiado senão os amigos de Paulson, ninguém reclama a vitória por medo de parecer o causador da derrocada do mundo financeiro.

Por isso todos os que tiveram algo a ver com a derrota do plano dizem algo assim como "sentido, o plano estava bem e íamos aprovar, mas os do outro partido arruinaram tudo". Daí as acusações e recriminações entre deputados e entre os candidatos Obama e McCain.

Aqui está a tragédia. Nem os actores no Congresso nem os candidatos parecem entender os termos da encruzilhada em que se encontram os Estados Unidos. Ao invés de ver nesta crise o aviso urgente para redefinir o rumo da economia, estão todos presos no paradigma que durante anos travou o crescimento e o bem estar, aprofundando os desequilíbrios macroeconómicos e afundando a população no endividamento.

Há muitos anos a economia estado-unidense começou a assinalar a sua preferência pelo paradigma da especulação. Desde os anos 70, o salário real começou a estancar. A única maneira de manter o dinamismo da economia foi com um regime de bolhas que, no plano dos factos, acabou por desmantelar o tecido industrial dessa economia (por isso hoje a indústria manufactureira representa algo assim como 10 por cento do PIB). O endividamento privado foi o mecanismo para manter o nível de vida associado a uma sociedade de consumo.

Mas o endividamento e a especulação caminharam de mãos dadas. Esta aliança manifestou-se mais claramente nos bancos da globalização. Para eles, a chave não está em assegurar que o devedor devolva o empréstimo ao banco e sim em garantir que os empréstimo se transforme (do ponto de vista do banco) num activo que proporciona rentabilidade per secula seculorum. O que interesse é que o devedor se converta num servo do banco e tudo isto desembocou num desastre. Nos últimos sete anos o endividamento privado nos Estados Unidos duplicou e hoje ultrapassa os 14,5 milhões de milhões de dólares. A dívida do governo federal é de uns 9,3 milhões de milhões e a soma da dívida pública e privada representa 169 por cento do PIB estado-unidense. Não se viam esses níveis desde a Segunda Guerra Mundial.

No período 2001-2009 esta orgia de endividamento esteve associada a um medíocre crescimento anual (média de 2,57 por cento) e a economia estado-unidense no seu conjunto só pôde gerar 6 milhões de novos empregos. Desse total, só 4,3 milhões correspondem a empregos gerados pelo investimento produtivo do sector privado. Ou seja, o maior endividamento privado esteve muito longe de ser fonte de investimentos. O consumo e especulação continuaram a ser os motores da economia estado-unidense, minando sua posição competitiva e intensificando seu desequilíbrio com o exterior.

O PARADIGMA DO COLAPSO FINAL

É este paradigma especulativo que seria preciso abandonar, redefinindo os termos de uma política macroeconómica capaz de permitir retomar um caminho de maior bem estar social. Essa política macro deveria estar associada a uma política industrial e energética que permitisse a transição a uma economia avançada, enfrentando o desafio de deixar de ser o emissor da única ou principal moeda de reserva internacional.

Ao invés deste caminho, o plano Bush-Paulson (com nova maquilhagem) será reconsiderado hoje no Senado. Se for aprovado, essa economia continuará atada à ideologia que sustenta que maior endividamento e défices crescentes (externo e fiscal) são o caminho para manter a prosperidade. No plano dos factos, esse paradigma será a causa do colapso final da economia dos Estados Unidos.

O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2008/10/01/index.php?section=opinion&article=029a1eco

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02/Out/08