Mercados insaciáveis
por Juan Torres López
Insaciáveis. Assim
Lina Gálvez
qualifica os mercados, com razão, neste artigo no qual explica que
não é possível alguém defender-se de chantagistas
cumprindo as suas exigências como faz o governo.
Desde há meses, os mercados vêm utilizando o poder que lhes
dá a sua pressão especulativa sobre a dívida dos estados
para impor aos governos as medidas que melhor convêm às grandes
empresas e à banca.
Trata-se de uma extorsão bastante evidente a que alguns governos, como o
espanhol, estão enfrentando com tanto de impudor como de candura. Em lugar de
utilizar as alavancas do seu poder representativo e soberano e em lugar de
falar claro à cidadania para que esta por sua vez fale claro aos
especuladores, os governos empenham-se em fazer frente à chantagem
cedendo às suas exigências, acreditando que sairão da
dificuldade aceitando suas condições. Um comportamento
ingénuo porque os mercados, como todos os chantagistas, são
insaciáveis e acabámos de ter boas provas disso.
O governo espanhol fez os deveres que lhe foram impostos, tomou as medidas mais
duras contra os direitos laborais da nossa democracia, realizou um tremendo
corte dos gastos públicos e acaba de aprovar um projecto de
orçamento que nem a direita mais neoliberal teria atrevido a por em
marcha. O próprio presidente do governo tomou há pouco o
pequeno-almoço em Nova York com as versões em carne e osso desses
mercados. Zapatero compartilhou mesa e toalha com as grandes finanças
representadas pelo Citigroup, Morgan Stanley ou Goldman Sachs e almoçou
também com um dos seus porta-vozes, os editorialistas de
The Wall Street Journal
para lhes confirmar, imagino, que o seu governo estava a adoptar uma a uma as
medidas que lhes vinham exigindo.
Pois bem, só uns dias depois do pequeno-almoço do presidente e
das suas últimas e impressionantes medidas neoliberais, a agência
Moodys rebaixava o valor da dívida espanhola e o
Wall Street Journal,
que pertence ao grupo News Corporation do qual Aznar é conselheiro,
editava um vídeo de uns 15 minutos sobre a crise económica na
Espanha onde se colocava a incógnita de saber se a Espanha é um
país demasiado pequeno para deixá-lo cair, tipo Grécia, ou
demasiado grande para não deixá-lo cair. Um vídeo que pode
ser visto na Internet, no qual aproximadamente a metade do tempo é
dedicada a mostrar imagens dos Sanfermines
[NT]
, de bailarinos de flamengo na rua e
de festas de todo tipo para vir dizer que os espanhóis são uns
vagabundos que não querem trabalhar e cuja única
aspiração é viver da teta do Estado.
Como se estar em greve fosse umas autênticas férias com todas as
despesas pagas. Quando a ministra da Economia apresentou o projecto de
Orçamento afirmou que este "nos defende dos mercados"
mostrando que a ingenuidade deste governo não tem cura. Nem o
pequeno-almoço de Zapatero, nem suas medidas de austeridade e
liberalização servem de grande coisa frente aos mercados e seus
representantes de carne e osso porque são insaciáveis. Assim como
não se vence um chantagista aceitando suas exigências, porque
sempre irá querer mais, não se pode vencer a pressão
imoral dos mercados especulativos consentindo que imponham suas
condições aos governos.
Zapatero e aqueles que hoje dirigem a União Europeia equivocam-se porque
estão a deixá-los fazer o que quiserem, contra o que afirmavam
há apenas dois anos doze ex-dirigentes social-democratas europeus no
título de uma carta conjunta ao então presidente da
Comissão Europeia e que deveria converter-se no grito de guerra
democrática dos nossos povos: "Os mercados financeiros não
nos podem governar".
[NT] Festa anual na cidade de Pamplona.
O original encontra-se em
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