Aproxima-se o cerco da austeridade
por Jim Kunstler
É um curioso sintoma de consenso no actual transe de
zumbificação do público americano e dos seus auditores nos
media considerar que algo como uma "recuperação"
estaria a caminho. E, como os acontecimentos obrigam a repetir, isto exige a
pergunta:
recuperação para o que?
Para a Wall Street contabilizar lucros estupendos através da lavagem do
"risco" libertando-se de maus empréstimos com novas
emissões automáticas de papel titularizado? Duvido disso, pois
não sobra nem um fundo de pensão entre San José e
Bratislava que se atreva a tocar neste material sequer com uma vara, mesmo se
ele pudesse ser transformado e embalado em edições para
coleccionador. Significará isto que os (assim chamados)
"consumidores" americanos estão por enquanto a aguardar vendas
de écrans planos de TV já com os seus cartões de
crédito abertos na mão como se fossem cartas de baralho, prontos
para a acção? Não é muito provável com o
incumprimento maciço que se verifica nesta terra de detentores de
cartões, e com metade do stock electrónico do país a
caminho da Lista Craig
[1]
. Estamos nós à espera de mais constelações de
novos subúrbios inseridos nas zonas argilosas de Dallas e Minneapolis,
completados por novas faixas rodoviárias para acesso a lojas de retalho
e entretenimento? Vá para a unidade de cuidados intensivos da banca e
pergunte (se puder) aos fracassados construtores de casas e às
companhias de investimento imobiliário que estão ligados aos
aparelhos de manutenção em vida quando é que esperam
acelerar os seus tractores.
A ideia de que estamos prestes a retomar o insano comportamento que induziu o
actual mal-estar da economia é tão absurda que só pode ser
ouvida nos jantares do corpo docente da Ivy League
[2]
. E se a América não está a perceber onde parou dezoito
meses atrás a orgia de gastar futuros direitos a uma riqueza que
era improvável aumentar então qual é o nosso
destino? Com base naquilo que sai cá para fora dos órgãos
de pensamento público, parece que não queremos pensar nisso.
São tantas as forças que se postam contra um retorno ao
"normal" anterior que seremos felizes, daqui a outros dezoito meses,
por ainda estarmos a falar inglês e a celebrar o Natal. O que é
"extraordinário" é um panorama de problemas
críticos que se reforçam mutuamente tendo a ver sobre como
vivemos neste continente. Tal como a obesidade, as doenças
cardíacas e as diabetes que assolam o público, estes problemas
são desordens decorrentes de hábitos e estilos de vida e a
única "cura" possível é uma revisão geral
dos mesmos. Com o princípio da Primavera e os aperitivos de queijo e as
corridas de camiões monstros e as corridas de carros da Nascar e a
cerveja dos drive-ins a acenar, poderá o público desviar a sua
atenção destas preocupações infantis para salvar o
seu próprio traseiro?
Até agora, a parte mais gritante do fiasco económico é a
ausência de qualquer espírito galvanizante entre os milhões
que estão a ficar esmagados na trágica dissolução
das nossas relações com o dinheiro. Será interessante ver,
por exemplo, se há qualquer alvoroço sobre a história em
evolução do último ataque da Goldman Sachs ao Tesouro dos
EUA, depois de contabilizar milhares de milhões em pagamentos
financiados pelo contribuinte canalizados através da AIG, com base em
credit default swaps duplamente garantidos. Tais truques mágicos
são compreensivelmente difíceis de acompanhar, mas uma
dúzia ou mais de procuradores federais com uma capacidade mediana em
cálculo diferencial pode investigar o rastro que vai do computador de
Ben Bernanke à máquina de cappucino de Lloyd Blankfein
[3]
.
Algo semelhante se pode dizer em relação às
revelações da semana passada quanto à conexão do
conselheiro económico da Casa Branca, Larry Summers, com um certo
número de hedge funds que arrastam milhões para dentro dos seus
bolsos fundos por aparecerem uma vez por semana a fim de apregoarem as suas
"inovações" sem mencionar as suas sombrias
visitas ao comboio da alegria da Goldman Sachs mesmo depois de ele subscrever a
campanha de Obama. Enquanto os mercados de acções parecerem andar
não importa o que mais esteja a acontecer na América
ninguém prestará muita atenção a estas
realidades desagradáveis.
A partir deste momento, e estou a observar a loja de jardinagem, ninguém
pode deixar de perceber os muitos estilos de forcados que estão à
venda. A minha suposição é que o actual estado de
espírito de paralisia pública dissolver-se-á numa mancha
de sangue e escarro em algum momento entre o Memorial Day [25 de Maio] e o
Quatro de Julho, mesmo com o Nascar em plena actividade e a
multiplicação das fileiras de desempregados perdidos em
êxtases de barulho de motores e aperitivos de frituras de milho.
Não são precisas muitas pessoas determinadas e iradas para criar
um bocado de prejuízo numa sociedade complexa.
A VINGANÇA DO PICO PETROLÍFERO
Na agenda do segundo trimestre de 2009 há rumores agourentos nos
sectores petrolífero e alimentar. Um semestre de preços de
petróleo esburacados dizimou a indústria petrolífera e
estamos a correr a 100 milhas por hora [161 km/h] directamente para um
despenhadeiro, para uma nova espécie de crise de abastecimento
mesmo que a produção industrial e as exportações
globais continuem moribundas. Tantas plataformas perfuradoras estão a
ser desactivadas que a própria indústria petrolífera
parece estar a preparar-se para a sua própria morte, o investimento na
exploração e na descoberta contraiu-se com os mercados de
crédito e o mundo pode nunca mais recuperar-se desta longa
interrupção de um ano na actividade da indústria
petrolífera tradução: o pico petrolífero
está a morder outra vez, agora com vingança. O pico
parecerá mais aguçado e a curva ampla do esgotamento futuro
parecerá mais íngrime e implicará uma ameaça a toda
empresa globalizada e de escala continental no mundo conhecido.
Tantos elementos terríveis estão a perfilar-se em torno do nosso
sistema de produção alimentar (isto é, agricultura), desde
a seca generalizada e o esgotamento da água à escassez de
"inputs" (especialmente fertilizantes) e à dificuldade na
disponibilidade de crédito, que todos nós estamos a uma colheita
de distância de algo que fará o "Triunfo da Morte", de
Pieter Bruegel o Velho parecer em comparação com a festa anual do
Oscar da Vanity Fair.
Barack Obama, simpático como é, faria melhor se abandonasse suas
pretensões acerca de relançar a velha economia do consumidor,
despedisse os palhaços e parasitas da Wall Street que estão a
fazer este exercício fútil e começasse a preparar Bote
Salva-vidas da Economia dos EUA a fim de reduzir a escala e o
âmbito das nossas despesas de modo a podermos sobreviver ao cerco da
austeridade que se aproxima. Entretanto, fico contente por ele finalmente ter
conseguido um cão para a Casa Branca, porque assim o presidente
saberá perfeitamente para onde se virar em Washington se quiser algum
amor e afeição genuínos.
[1] Craigslist: rede online de anúncios classificados (empregos,
vendas, trocas, serviços, etc).
[2] Ivy League: grupo de universidades reputadas nos EUA (Harvard,
Brown, Cornell, Yale, Princeton, University of Pennsylvania, Dartmouth,
Columbia)
[3] Lloyd Blankfein: presidente da Goldman Sachs.
O original encontra-se em
jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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