A primeira parte de 2013 tem sido uma espécie de período
confessional para a classe dos gestores económicos. O conselheiro
económico do FMI, Olivier Blanchard,
admitiu
que "os
responsáveis pelas previsões subestimaram significativamente o
aumento do desemprego e a queda da procura interna associada à
consolidação fiscal". ('Consolidação fiscal'
é uma forma delicada de dizer 'austeridade'). O secretário do
Tesouro dos EUA, Jack Lew, reconheceu que "é preciso concentrar-se
no impacto sobre o desemprego" das políticas de austeridade; e
também, que "não podemos estar num mundo em que a
austeridade apenas leva a mais austeridade"; e por fim, que "na
realidade, a pressa em fazer toda a etapa inicial [austeridade] tem tornado
mais difícil o problema nalguns países". Até sugeriu
que "os europeus também precisam de ver o que podem fazer para
gerar mais procura na sua economia".
A directora-geral do FMI, Christine Lagarde, confessou que "não
vemos a necessidade de dar prioridade a uma pesada consolidação
da reforma fiscal conforme estava planeado inicialmente"; e "a melhor
forma de criar empregos é através do crescimento". O
Comissário dos Assuntos Económicos e Monetários da UE,
Olli Rehn disse que os recentes apelos do FMI e dos EUA para uma menor
austeridade "estão a ser pregados aos convertidos".
Entretanto, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, os economistas de Harvard
responsáveis por um dos estudos mais influentes usados para defender a
austeridade, reconheceram que "a austeridade não é a
única resposta a um problema de endividamento". Isto, depois de
três economistas da Universidade de Massachusetts os terem acusado de
"exclusão selectiva" de dados. Reinhart e Rogoff vieram a
reconhecer que os seus críticos "identificaram correctamente um
erro de código da folha de cálculo". Na minha
opinião, está a ser ignorado o erro mais flagrante deles: o
fracasso em reconhecer que a austeridade não funcionou durante a Grande
Depressão e não vai funcionar agora, durante a Grande
Recessão. Qualquer um pode fazer um erro numa folha de cálculo.
É preciso um professor de Harvard para se esquecer da história
básica.
Não tem um interesse especial que gestores doutrinários como
Reinhart e Rogoff alterem as suas posições. A capacidade de dar a
volta e mudar de uma convicção ideológica para a
convicção oposta, como uma criança da escola a fazer um
teste de alternativas, é provavelmente o principal dever do gestor
ideológico. Os que se vão abaixo por exaustão são
eliminados muito antes de chegarem a chefes do FMI. O que é mais
interessante é saber porque é que o treinador está agora a
dirigi-los para a direcção oposta.
Na correspondência que tive com o economista Jack Rasmus, ele explicou a
reviravolta da classe gestora económica:
Primeiro, pode assinalar uma mudança futura para cortes fiscais aos
empresários/investidores como um 'estímulo' preferencial (o que
também não funciona). No entanto, como os cortes fiscais
vão aumentar o défice, é preciso justificar um aumento no
défice se forem avançar com os cortes fiscais. Assim, primeiro
é necessário o ataque à 'austeridade' (o contrário
do estímulo), não tão produtivo como inicialmente
julgavam. Por outro lado, é importante assinalar que a mudança
para o 'estímulo' não significa uma mudança dos cortes nas
despesas sociais; significa uma mudança para mais défice
através dos cortes fiscais empresariais.
Em segundo lugar, o abandono da austeridade pode representar um prelúdio
para uma dependência ainda maior da política monetária. Que
o banco central aguente toda a carga (e culpas) e assuma mais visivelmente as
responsabilidades dos políticos pela austeridade nos cortes das
despesas. A política monetária (i.e. o aumento da liquidez nos
bancos, nos investidores e nos negócios) por sua vez tem dois objectivos
principais. Um: reforçar os mercados de acções e de
garantias financeiras e garantir mais lucros aos especuladores, e, segundo,
baixar o valor de câmbio da sua divisa para permitir a
competição com outros centros de divisas
Um sinal seguro de
que os políticos capitalistas estão a ficar mais desesperados e a
tentar crescer mendigando aos seus competidores. São
desvalorizações competitivas não por moeda
fiduciária como nos anos 30 mas pela liquidez
manipulação da taxa de câmbio.
Qualquer que seja o caso, a inflexão ideológica actual das
instituições financeiras deve provavelmente ser olhada com
suspeita. É uma inflexão demasiado acentuada para indicar
qualquer tipo de mudança honesta no pensamento.
As soluções que os gestores económicos estão a
defender demonstram um ponto útil. Exigem simultaneamente um
estímulo e uma redução do défice. Conforme adiantou
o secretário do Tesouro, Jack Lew, "Não podemos escolher
entre crescimento e criação de empregos e pôr a nossa casa
fiscal em ordem", É como uma criança que quer ficar acordada
toda a noite e ter uma boa noite de sono: uma das escolhas nega a outra. Estes
exercícios mentais em auto-contradição ilustram ainda
melhor a forma como a elite tem que aceitar opiniões mutuamente
contraditórias. Orwell chamava a isto "duplipensar".
Actualmente chamamos-lhe coisas como 'matiz'. Exemplo: Reinhart e Rogoff
disseram que "o recente debate sobre a economia global assumiu uma forma
desesperadamente simplista", significando que a austeridade está
finalmente a ser rejeitada firmemente. Nos círculos da elite, as
explicações 'simplistas' são todas aquelas que envolvem
verdades elementares: que um estímulo autêntico aumenta o
défice, tal como acontece com os cortes fiscais empresariais; que a
privatização torna as coisas irresponsáveis perante o
público; que a recuperação da classe média e baixa
exige a tributação da classe alta. (Estes factos simples
são incompreensíveis para a elite porque sugerem um mundo em que
a riqueza extrema provoca mais injustiça do que erradica). Os
derivativos e os swaps de incumprimento de crédito, por outro lado,
são instrumentos 'matizados' que qualquer um sem um grau avançado
em finanças se deve abster de comentar.
Uma consequência desta tendência para os 'matizes' é o tom
especialmente místico que a profissão dos economistas assumiu.
Por exemplo, a opinião de que o ciclo de negócios nos irá
devolver inevitavelmente a prosperidade, e de que os maus tempos actuais
são apenas uma espécie de azar aleatório. Recordo um amigo
meu na universidade que observava que tinha planeado entrar num programa PhD
com a esperança de nele "aguardar o fim da recessão"
como se isso fosse um feitiço da chuva ou qualquer acto de deus. O
mercado dá e o mercado tira. Sugerir qualquer tipo de
acção humana por detrás destes maus tempos
nomeadamente, uma relação entre a riqueza e a pobreza
é cometer o terrível erro de considerar a economia como um jogo
de soma zero. Claro que isso é uma falácia, porque a economia
é um processo mágico pelo qual a riqueza concentrada difunde
simultaneamente a sua riqueza (i.e. teoria do gotejamento).
07/Maio/2013
[*]
Reside em Madison, Wisconsin, onde publica o sitio web
whiterosereaderorg.com
. Pode ser contactado em
reader246@gmail.com
.
O original encontra-se em
www.counterpunch.org/2013/05/07/financial-institutions-admit-austerity-failed/
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.