A brilhante estratégia de Trump para desmembrar a hegemonia do
dólar americano
por Michael Hudson
A ofensiva global dos EUA constitui uma enorme ameaça. Mas está
também a produzir fracturas internas no sistema do capitalismo global,
deslocações e rearrumações de forças. A
quebra do poderio económico dos EUA não pode ser indefinidamente
compensada pelo seu colossal poderio militar.
O fim da indiscutida dominação económica global dos EUA chegou mais
cedo do que o esperado, graças aos mesmos neocons que deram ao mundo o
Iraque, a Síria e as guerras sujas na América Latina. Assim como
a Guerra do Vietname retirou os Estados Unidos do ouro em 1971, a sua violenta
guerra de mudanças de regime contra a Venezuela e a Síria
e ameaçando outros países com sanções se não
se associarem a essa cruzada está a levar nações
europeias e outras a criar instituições financeiras alternativas
suas.
Esta ruptura vem sendo construída há algum tempo e estava fadada
a ocorrer. Mas quem teria pensado que Donald Trump se tornaria o seu agente
catalisador? Nenhum partido de esquerda, nenhum líder socialista,
anarquista ou nacionalista estrangeiro em qualquer lugar do mundo poderia ter
conseguido o que ele está a fazer para rebentar com o império
americano.
O Estado Profundo está a reagir em choque ao modo como este especulador
imobiliário de direita conseguiu levar outros países a
defenderem-se desmantelando a ordem mundial centrada nos EUA. Para conseguir
isso, está a usar incendiários neoconservadores do tempo de Bush
e Reagan, John Bolton e agora Elliott Abrams, para atiçar as chamas na
Venezuela. É quase como uma comédia política negra. O
mundo da diplomacia internacional está a ser virado do avesso. Um mundo
onde já não existe a pretensão de aderir às normas
internacionais, quanto mais a leis ou tratados.
Os Neocons que Trump nomeou estão a conseguir o que parecia
impensável não há muito tempo: Juntar a China e a
Rússia o grande pesadelo de Henry Kissinger e Zbigniew
Brzezinski. Estão também a levar a Alemanha e outros
países europeus para a órbita da Eurásia, o pesadelo
"Heartland" de Halford Mackinder um século atrás.
A causa principal é clara: após o incremento das falsidades e
enganos sobre o Iraque, Líbia e Síria, juntamente com a nossa
absolvição do regime sem lei da Arábia Saudita, os
líderes políticos estrangeiros estão a começar a
reconhecer aquilo que as sondagens de opinião à escala mundial
detectaram ainda antes de os rapazes do Iraque/Irão-Contra terem voltado
a atenção para as maiores reservas de petróleo do mundo na
Venezuela: os EUA são agora a maior ameaça à paz no
planeta.
Chamar defesa da democracia ao golpe que os EUA vêm patrocinando na
Venezuela revela a hipocrisia (
Doublethink
) subjacente à política externa dos EUA. Define
"democracia" como significando apoio à política externa
dos EUA, buscar a privatização neoliberal de infraestruturas
públicas, desmantelamento da regulação governamental e
seguimento da orientação das instituições globais
dominadas pelos EUA, desde o FMI ao Banco Mundial e à NATO. Durante
décadas, as guerras estrangeiras daí resultantes, os programas de
austeridade doméstica e as intervenções militares
trouxeram mais violência, não democracia.
No
Dicionário do Diabo
que os diplomatas dos EUA são ensinados a usar como "Elementos de
Estilo" para o duplo discurso hipócrita, um país
"democrático" é aquele que segue a liderança dos
EUA e abre sua economia ao investimento dos EUA, e à
privatização patrocinada pelo FMI e pelo Banco Mundial. A
Ucrânia é considerada democrática, juntamente com a
Arábia Saudita, Israel e outros países que actuam como
protetorados financeiros e militares dos EUA e estão dispostos a tratar
os inimigos dos EUA como inimigos seus.
Teria de se chegar a um ponto em que essa política colidisse com o
interesse próprio de outras nações, rompendo finalmente a
retórica de relações públicas do império.
Outros países estão a proceder a des-dolarização e
a substituir aquilo a que a diplomacia norte-americana chama
"internacionalismo" (significando o nacionalismo norte-americano
imposto ao resto do mundo) pelo seu próprio interesse nacional.
Essa trajectória já podia ser vista há 50 anos (descrevi-a
em
Super Imperialism
[1972] e
Global Fracture
[1978].) Tinha de acontecer. Mas ninguém pensava que o fim chegaria da
forma como está a acontecer. A história converteu-se em
comédia, ou pelo menos em ironia, à medida que se desdobra o seu
trajecto dialéctico.
Nos últimos cinquenta anos os estrategas americanos, o Departamento de
Estado e o National Endowment for Democracy (NED), receavam que a
oposição ao imperialismo financeiro dos EUA viesse de partidos de
esquerda. Por isso, gastava enormes recursos manipulando partidos que se
denominavam socialistas (o Partido Trabalhista Britânico de Tony Blair, o
Partido Socialista francês, o Partido Social-Democrata alemão
etc.) a fim de adoptarem políticas neoliberais que eram o oposto
diametral do que a social-democracia significava há um século.
Mas os planeadores políticos dos EUA e os organistas de Great Wurlitzer
negligenciaram a ala direita, imaginando que ela apoiaria instintivamente o
rufianismo dos EUA.
A realidade é que os partidos de direita querem ser eleitos, e um
nacionalismo populista é hoje o caminho para a vitória eleitoral
na Europa e em outros países, tal como o foi para Donald Trump em 2016.
A agenda de Trump pode realmente ser acabar com o Império Americano,
usando a antiga retórica isolacionista do Tio Otário de há
meio século. Ele está certamente a atingir os
órgãos mais vitais do Império. Mas será ele um
agente antiamericano consciente? Poderia muito bem ser mas constituiria
um errado salto mental usar o "quo bono" para assumir que ele
é um agente consciente.
Afinal, se nenhum empreiteiro, fornecedor, sindicato ou banco dos EUA quer
lidar com ele, serão Vladimir Putin, China ou Irão mais
ingénuos? Talvez o problema tivesse de irromper como resultado de a
dinâmica interna do globalismo patrocinado pelos EUA se tornar
impossível de impor quando o resultado é austeridade financeira,
vagas de populações em fuga das guerras patrocinadas pelos EUA e,
acima de tudo, a recusa dos EUA em aderir às. regras e leis
internacionais que eles próprios patrocinaram há setenta anos,
após a Segunda Guerra Mundial.
Desmantelar o direito internacional e os seus tribunais
Qualquer sistema internacional de controlo requer o primado da lei. Pode ser um
exercício implacável de poder, sem lei moral, que impõe a
exploração predatória, mas é ainda a Lei. E precisa
de tribunais para o aplicar (apoiado pelo poder da polícia para a
concretizar e punir os infractores).
Esta é a primeira contradição legal na diplomacia global
dos EUA: os Estados Unidos sempre resistiram a permitir que qualquer outro
país tivesse voz nas políticas internas dos EUA, no processo
legislativo ou na diplomacia. Isso é o que faz da América "a
nação excepcional". Mas por setenta anos os seus diplomatas
pretenderam que o seu superior entendimento promovia um mundo pacífico
(tal como o Império Romano afirmava ser), que permitia que outros
países compartilhassem prosperidade e crescentes padrões de vida.
Nas Nações Unidas, os diplomatas norte-americanos insistiram no
poder de veto. No Banco Mundial e no FMI, asseguraram também que a sua
participação no capital fosse suficientemente grande para lhes
dar poder de veto sobre qualquer empréstimo ou outra política.
Sem esse poder, os Estados Unidos não se juntariam a nenhuma
organização internacional. Entretanto, ao mesmo tempo, descreviam
seu nacionalismo como protector da globalização e do
internacionalismo. Foi tudo um eufemismo para aquilo que na realidade era
tomada de decisão unilateral pelos EUA.
Inevitavelmente, o nacionalismo norte-americano teve que romper a miragem do
internacionalismo do Mundo Único e, com ele, qualquer ideia de um
tribunal internacional. Sem poder de veto sobre os juízes, os EUA nunca
aceitaram a autoridade de nenhum tribunal, em particular o Tribunal
Internacional das Nações Unidas em Haia. Recentemente esse
tribunal realizou uma investigação sobre os crimes de guerra dos
EUA no Afeganistão, desde as políticas de tortura até o
bombardeamento de alvos civis como hospitais, casamentos e infraestrutura.
"Essa investigação concluiu por encontrar 'uma base
razoável para acreditar que crimes de guerra e crimes contra a
humanidade foram cometidos".
[1]
O conselheiro de segurança nacional de Donald Trump, John Bolton, entrou
em fúria, alertando em Setembro que: "Os Estados Unidos
usarão todos os meios necessários para proteger os nossos
cidadãos e os dos nossos aliados de processos injustos por este tribunal
ilegítimo", acrescentando que o Tribunal Internacional da ONU
não deve ser tão ousado a ponto de investigar "Israel ou
outros aliados dos EUA".
Isso levou um juiz sénior, Christoph Flügge da Alemanha, a
renunciar em protesto. Na verdade, Bolton disse ao tribunal para se manter fora
de quaisquer assuntos envolvendo os Estados Unidos, prometendo proibir os
juízes e promotores do Tribunal de entrarem nos Estados Unidos. Tal como
Bolton enunciou a ameaça dos EUA: "Vamos sancionar os seus fundos
no sistema financeiro dos EUA, e vamos processá-los no sistema criminal
dos EUA. Não vamos cooperar com o TPI. Não forneceremos
assistência ao TPI. Não vamos juntar-nos ao TPI. Vamos deixar o
TPI morrer sozinho. Afinal, para todos os efeitos, o TPI já está
morto para nós".
O que isso significava disse-o o juiz alemão: "Se estes
juízes alguma vez interferirem nos assunto domésticos dos EUA ou
investigarem um cidadão norte-americano, [Bolton] disse que o governo
americano faria todo o possível para garantir que esses juízes
não teriam mais permissão para viajar para os Estados Unidos - e
que talvez até fossem processados criminalmente ".
A inspiração original do Tribunal - usar as leis de Nuremberga
que foram aplicadas contra os nazis alemães para instaurar processos
similares contra qualquer país ou autoridades consideradas culpadas de
cometer crimes de guerra - já havia caído em desuso com a falha
de indiciar por crimes de guerra os autores do golpe chileno, do
Irão-Contra ou da invasão do Iraque pelos EUA.
Desmantelar a hegemonia do dólar desde o FMI até o SWIFT
De todas as áreas da política actual de poder global, as
finanças internacionais e o investimento estrangeiro tornaram-se o
principal ponto crítico. As reservas monetárias internacionais
deveriam ser as mais sacrossantas e o constrangimento da dívida
internacional ser-lhes intimamente associado.
Os bancos centrais detêm há muito o seu ouro e outras reservas
monetárias nos Estados Unidos e em Londres. Em 1945 isso parecia
razoável, porque o Federal Reserve Bank de Nova York (em cuja cave era
guardado o ouro de bancos centrais estrangeiros) era militarmente seguro, e
porque o London Gold Pool era o veículo pelo qual o Tesouro dos EUA
mantinha o dólar "tão bom quanto ouro "a US$35 por
onça-troy. As reservas estrangeiras sobre ouro foram mantidas sob a
forma de títulos do Tesouro dos EUA, para serem compradas e vendidas nos
mercados de câmbio de Nova York e Londres para estabilizar as taxas de
câmbio. A maioria dos empréstimos estrangeiros a governos era
denominada em dólares americanos, de modo que os bancos de Wall Street
eram normalmente nomeados como agentes pagadores.
Esse foi o caso do Irão sob o xá, que os Estados Unidos haviam
instalado após patrocinarem o golpe de 1953 contra Mohammed Mosaddegh
quando ele tentou nacionalizar a Anglo-Iranian Oil (agora British Petroleum) ou
pelo menos tributá-la. Depois de o Xá ser derrubado, o regime de
Khomeini pediu ao seu agente pagador, o banco Chase Manhattan, que usasse seus
depósitos para pagar aos seus detentores de títulos. Sob
orientação do governo dos EUA o Chase recusou-se a fazê-lo.
Os tribunais dos EUA declararam então que o Irão estava em
situação de não-pagamento e congelaram todos os seus
activos nos Estados Unidos e em todos os outros lugares em que puderam.
Isso mostrou que a finança internacional era um braço do
Departamento de Estado dos EUA e do Pentágono. Mas isso foi há
uma geração, e só recentemente os países
estrangeiros começaram a sentir-se constrangidos em deixar as suas
posses de ouro nos Estados Unidos, onde poderiam ser apropriados à
vontade para punir qualquer país que pudesse agir de maneira que a
diplomacia norte-americana considerasse ofensiva. Então, no ano passado,
a Alemanha teve finalmente a coragem de pedir que parte do seu ouro fosse
enviado para a Alemanha. As autoridades norte-americanas fingiram sentir-se
chocadas com o insulto de que poderiam fazer a um país Cristão
civilizado o que fizeram com o Irão, e a Alemanha concordou em
desacelerar a transferência.
Mas então veio a Venezuela. Desesperada para utilizar as suas reservas
de ouro a fim de disponibilizar importações para a sua economia
devastada pelas sanções americanas uma crise que os
diplomatas americanos culpam pelo "socialismo", não pelas
tentativas políticas dos EUA de "fazer a economia gritar"
(como disseram funcionários de Nixon sobre o Chile de Salvador Allende).
A Venezuela deu em Dezembro de 2018 instruções ao Banco da
Inglaterra para transferir alguns dos seus US$11 mil milhões em ouro
mantidos nos seus cofres e os de outros bancos centrais. Era exactamente como
um depositante bancário esperaria que um banco pagasse um cheque que
esse depositante houvesse emitido.
A Inglaterra recusou-se a honrar o pedido oficial, seguindo a
indicação de Bolton e do secretário de Estado dos EUA,
Michael Pompeo. Tal como relatou a Bloomberg: "As autoridades dos EUA
estão a tentar conduzir os activos da Venezuela no exterior para o
[Chicago Boy] Juan Guaido a fim de ajudar a aumentar as suas possibilidades de
efectivamente assumir o controlo do governo. Os US$1,2 mil milhões de
ouro representam uma grande fatia dos US$8 mil milhões em reservas
externas detidas pelo banco central venezuelano".
[2]
A Turquia parecia ser um destino provável, levando Bolton e Pompeo a
advertirem-na a desistir de ajudar a Venezuela, ameaçando
sanções contra ela ou qualquer outro país que a ajudasse a
enfrentar a sua crise económica. Quanto ao Banco de Inglaterra e outros
países europeus, o relatório da Bloomberg concluiu: "Foi
ordenado às autoridades do banco central em Caracas que não
entrassem mais em contacto com o Banco de Inglaterra. Foi dito a esses
banqueiros centrais que os funcionários do Banco da Inglaterra
não iriam responder-lhes".
Isso levou a rumores de que a Venezuela estava a vender 20 toneladas de ouro
através de um Boeing 777 russo cerca de US $ 840 milhões.
O dinheiro teria provavelmente acabado a pagar detentores de títulos
russos e chineses, além de comprar alimentos para aliviar a fome local
[3]
. A Rússia negou este relatório, mas a Reuters confirmou que a
Venezuela vendeu 3 de um total de 29 toneladas de ouro previsto aos Emiratos
Árabes Unidos
[4]
, com outras 15 toneladas a serem enviadas na sexta-feira, 1 de Fevereiro. O
senador "batista-cubano" de extrema-direita Rubio acusou isto de
"roubo", como se alimentar o povo para aliviar a crise patrocinada
pelos EUA fosse um crime contra o poder diplomático norte-americano.
Se há algum país que os diplomatas dos EUA detestem mais do que
um país latino-americano recalcitrante é o Irão. A ruptura
pelo presidente Trump dos acordos nucleares de 2015, negociados por diplomatas
europeus e da administração de Obama, escalou a ponto de
ameaçar a Alemanha e outros países europeus com
sanções punitivas se eles também não violarem os
acordos que assinaram. Somando-se à oposição dos EUA
à importação de gás russo pela Alemanha e outros
países europeus, a ameaça dos EUA levou finalmente a Europa a
encontrar uma maneira de se defender.
As ameaças imperiais já não são militares. Nenhum
país (incluindo a Rússia ou a China) pode montar a invasão
militar de outro país de maior dimensão. Desde a era do Vietname,
o único tipo de guerra que um país democraticamente eleito pode
travar é atómico, ou pelo menos o bombardeamento pesado como o
que os Estados Unidos infligiram ao Iraque, à Líbia e à
Síria. Mas agora a guerra cibernética tornou-se uma maneira de
afectar as conexões de qualquer economia. E as principais
conexões cibernéticas são as de transferência de
dinheiro, lideradas pela
SWIFT
, sigla da Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication, que tem
sede na Bélgica.
A Rússia e a China já tomaram a iniciativa de criar um
sistema-sombra de transferência bancária, caso os Estados Unidos
os desconectem do SWIFT. Mas agora, os países europeus perceberam que as
ameaças de Bolton e Pompeo podem levar a multas pesadas e à
captura de activos se continuarem o comércio com o Irão, conforme
exigido pelos tratados que negociaram.
Em 31 de Janeiro, a barragem rompeu-se com o anúncio de que a Europa
havia criado seu próprio sistema de pagamentos para uso com o
Irão e outros países alvo dos diplomatas dos EUA. Alemanha,
França e até o caniche dos EUA a Grã-Bretanha
uniram-se para criar o
INSTEX
Instrumento de Apoio às Trocas Comerciais. A promessa é
que isto será usado apenas para ajuda "humanitária" a
fim de salvar o Irão de uma devastação do tipo Venezuela
patrocinada pelos EUA. Mas em vista da crescente oposição dos EUA
ao gasoduto Nord Stream para o transporte do gás russo, este sistema
alternativo de compensação bancária estará pronto e
apto a tornar-se operacional se os Estados Unidos tentarem apontar à
Europa um ataque de sanções.
Acabei de voltar da Alemanha e constatei uma notável fractura entre os
industriais dessa nação e a sua liderança política.
Durante anos, as grandes empresas têm visto a Rússia como um
mercado natural, uma economia complementar que precisava modernizar sua
indústria e capaz de abastecer a Europa com gás natural e outras
matérias-primas. A nova postura de Guerra Fria dos EUA está a
tentar bloquear essa complementaridade comercial. Advertindo a Europa contra a
"dependência" do barato gás russo, ofereceu-se para
vender o caro gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos
(através de instalações portuárias que ainda
não existem em nenhum lugar para o volume requerido). O presidente Trump
insiste também que os membros da NATO gastem 2% do seu PIB em armas
de preferência compradas nos Estados Unidos não em
mercadores de morte alemães ou franceses.
O exagero da posição dos Estados Unidos está a levar ao
pesadelo eurasiano de Mackinder-Kissinger-Brzezinski mencionado acima.
Além de conduzir à aproximação da Rússia e
da China, a diplomacia norte-americana está a acrescentar a Europa ao
núcleo central, independente da capacidade dos EUA de intimidar
até ao estado de dependência que a diplomacia americana tem
procurado alcançar desde 1945.
O Banco Mundial, por exemplo, é tradicionalmente dirigido por um
secretário de Defesa dos EUA. A sua firme política desde a sua
criação é conceder empréstimos para que os
países dediquem as suas terras a culturas de exportação,
em vez de darem prioridade à sua própria
alimentação. É por isso que os seus empréstimos
são feitos apenas em moeda estrangeira, e não na moeda nacional
necessária para fornecer suporte de preços e serviços de
extensão agrícola, como os que tornaram tão produtiva a
agricultura dos EUA. Seguindo o conselho dos EUA, os países foram
deixados abertos à chantagem de alimentos sanções
contra o fornecimento de cereais e outros alimentos, caso eles deixem de
alinhar com exigências diplomáticas dos EUA.
Vale a pena notar que a nossa imposição global das míticas
"eficiências" de forçar os países
latino-americanos a tornarem plantações de culturas de
exportação como café e bananas em vez de cultivarem trigo
e milho falhou catastroficamente em proporcionar vidas melhores, especialmente
para aqueles que vivem na América Central. A "distância"
entre as culturas de exportação e as importações de
alimentos mais baratos dos EUA, que era suposto materializar-se para os
países que seguem nosso manual fracassaram miseravelmente
testemunham-no as caravanas e os refugiados que atravessam o México.
É claro que nosso apoio aos mais brutais ditadores militares e senhores
do crime também não ajudou.
Da mesma forma, o FMI foi forçado a admitir que as suas diretrizes
básicas eram fictícias desde o início. Um núcleo
central tem sido o de impor o pagamento da dívida oficial
intergovernamental, retendo o crédito do FMI dos países em
incumprimento
(default).
Esta regra foi instituída no momento em que a maior parte da
dívida intergovernamental oficial era devida aos Estados Unidos. Mas
há alguns anos a Ucrânia não pagou US$3 mil milhões
devidos à Rússia. O FMI disse, com efeito, que a Ucrânia e
outros países não tinham que pagar à Rússia ou a
qualquer outro país considerado como agindo de forma de forma demasiado
independente dos Estados Unidos. O FMI tem estendido o crédito ao
poço sem fundo da corrupção ucraniana a fim de encorajar a
sua política anti-russa, ao invés de defender o princípio
de que as dívidas intergovernamentais devem ser pagas.
É como se o FMI operasse agora numa pequena sala na cave do
Pentágono, em Washington. A Europa tomou conhecimento de que o seu
próprio comércio monetário internacional e vínculos
financeiros correm o risco de atrair a ira dos EUA. Isso ficou claro no Outono
passado, no funeral de George H. Bush, quando o diplomata da UE se viu
rebaixado ao final da lista de chamada aos lugares na cerimónia. Foi-lhe
dito que os EUA já não consideram a UE uma entidade em boa
situação. Em Dezembro, "Mike Pompeo fez um discurso sobre a
Europa em Bruxelas seu primeiro, ansiosamente aguardado no qual
exaltou as virtudes do nacionalismo, criticou o multilateralismo e a UE e disse
que "organismos internacionais" que restringem a soberania
nacional" devem ser reformados ou eliminados".
[5]
A maioria dos eventos acima foram noticiados apenas em um dia, 31 de
Janeiro de 2019. A conjunção das movimentações EUA
em tantas frentes, contra a Venezuela, Irão e Europa (para não
mencionar a China e as ameaças comerciais e movimentos contra a Huawei
também em erupção nos dias de hoje) parece mostrar que
este será um ano de fractura global.
Nem tudo resulta do que o presidente Trump vem fazendo, é claro.
Nós vemos o Partido Democrata mostrar as mesmas
orientações. Em vez de aplaudir a democracia quando países
estrangeiros não elegem um líder aprovado por diplomatas dos EUA
(seja Allende ou Maduro), eles deixaram cair a máscara e mostraram-se os
principais imperialistas da Nova Guerra Fria. Está agora à vista.
Eles fariam da Venezuela o novo Chile da era Pinochet. Trump não
está sozinho no seu apoio à Arábia Saudita e seus
terroristas Wahabi, como disse Lyndon Johnson: "Bastardos, mas são
os nossos bastardos".
Onde fica a esquerda em tudo isso? É essa a questão com a qual
abri este artigo. Quão notável é que sejam apenas os
partidos de direita, Alternative for Deutschland (AFD), ou os nacionalistas
franceses de Marine Le Pen e de outros países que se opõem
à militarização da NATO e procuram reavivar os
laços comerciais e económicos com o resto da Eurásia.
O fim do nosso imperialismo monetário, sobre o qual escrevi pela
primeira vez em 1972 em
Superimperialism
, assombra até mesmo um observador informado como eu. Foi preciso
um nível colossal de arrogância, falta de visão e
ilegalidade para acelerar o seu declínio algo que apenas Neocons
enlouquecidos como John Bolton, Elliott Abrams e Mike Pompeo poderiam realizar
por Donald Trump.
Notas
(1) Alexander Rubenstein, "It Can't be Fixed: Senior ICC Judge Quits in
Protest of US, Turkish Meddling," 31 Janeiro, 2019.
www.mintpressnews.com/icc-judge-quits-turkish-meddling/254443/
(2) Patricia Laya, Ethan Bronner and Tim Ross, "Maduro Stymied in Bid to
Pull $1.2 Billion of Gold From U.K.," Bloomberg, 25 Janeiro, 2019.
www.bloomberg.com/...
Antecipando já uma golpada deste tipo, o Presidente Chávez tratou
de repatriar para Caracas 160 toneladas de ouro que estavam nos EUA e na
Europa.
(3) Patricia Laya, Ethan Bronner and Tim Ross, "Maduro Stymied in Bid to
Pull $1.2 Billion of Gold From U.K.," Bloomberg, 25 Janeiro, 2019,.
www.bloomberg.com/...
(4) Corina Pons, Mayela Armas, "Exclusive: Venezuela plans to fly central
bank gold reserves to UAE source," Reuters, 31 Janeiro, 2019.
www.reuters.com/...
(5) Constanze Stelzenmüller, "America's policy on Europe takes a
nationalist turn",
Financial Times,
31 Janeiro, 2019.
O original encontra-se em
www.counterpunch.org/...
e a tradução em
www.odiario.info/a-brilhante-estrategia-de-trump-para/
(efectuadas alterações).
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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