O grande circo de Londres
Meses atrás a formidável maquinaria propagandística do
império alimentava a ilusão de que a reunião do G-20 em
Londres daria a estocada final na crise. Mesmo assim, à medida que se
aproximava a data, começaram a se escutar vozes discordantes. Nicolas
Sarkozy e Ângela Merkel jogaram baldes de água fria sobre o
iminente conclave e o anfitrião, o "progressista britânico
Gordon Brown", aconselhou baixar as expectativas, ao passo que um
número crescente de economistas críticos e historiadores advertia
sobre a futilidade da tentativa. Em que pese tudo isso, os ilusionistas e
malabaristas do sistema não deixaram de exaltar a reunião de
Londres e tratar de que as tímidas medidas que ali se adotavam fossem
interpretadas pelo público como propostas sensatas e efetivas para
resolver a crise.
Como era de se esperar, pouco ou nada concreto saiu da reunião. E isso
por várias razões. Primeiro porque no que alguns caracterizaram,
com arrogância e ignorância inauditas, como Bretton Woods II nem
sequer se colocou a questão fundamental: reformar para que, com que
objetivo? Ao se desviar do tema por omissão, ficou estabelecido que o
objetivo das reformas não seria outro senão o de voltar à
situação anterior à da crise. Isso supõe que o que
a causou não foram as contradições inerentes ao sistema
capitalista, mas aquela "exuberante irracionalidade dos mercados" da
qual se lamentava Alan Greenspan, sem se dar conta de que o capitalismo
é por natureza exuberantemente irracional e que isso não se deve
a um defeito psicológico dos agentes econômicos, mas sim de que
tem seus fundamentos na própria essência do modo de
produção.
Segundo: haja vista o anterior, não surpreende comprovar que o G-20
tenha decidido fortalecer o papel do FMI para liderar os esforços da
recuperação, sendo o principal autor intelectual da crise atual.
O FMI foi, e continua sendo, o principal veículo ideológico e
político para a imposição do neoliberalismo em escala
planetária. É uma tecnocracia perversa e imoral que recebe
honorários exorbitantes (isentos de impostos!) e cuja pobreza
intelectual foi muito bem resumida por Joseph Stiglitz, quando disse que o FMI
estava lotado de "economistas de terceira formados em universidades de
primeira". E pelas mãos desses aprendizes de bruxos é que se
pensa em sair da crise mais grave do sistema capitalista em toda sua
história? Não há nisso um grande exagero: esta crise
é a manifestação externa de várias outras que
irrompem pela primeira vez: crise energética, ambiental, hídrica.
Nada disso havia na depressão de 1873-1896 ou na Grande Depressão
dos anos 30. Em seu entrelaçamento tais crises impõem um desafio
de inéditas proporções, frente ao qual as receitas do FMI
não farão nada, a não ser aprofundar os problemas
até os extremos menos imaginados.
Terceiro: dada esta situação, o tema é grave demais para
deixá-lo em mãos do G-20 e seus especialistas. Por isso o
presidente da Assembléia Geral da ONU, Miguel D'Escoto, disse que o
necessário não era um G-20, mas um G-192, uma cúpula de
todos os países, tendo-a convocado para junho deste ano. O G-20 trata de
cooptar vários países do sul com a esperança de fortalecer
o consenso para uma estratégia gatopardista de "saída
capitalista para a crise do capitalismo": mudar algo para que nada mude.
Entretanto, não há possibilidade alguma de superar esse temporal
apelando às receitas do FMI, e o melhor que podiam fazer os
países convidados a Londres era denunciar com serenidade, porém
firmeza, a inanidade das medidas ali adotadas e que dentro do capitalismo
não haverá solução para nossos povos nem para as
ameaças que se colocam a todas as formas de vida do planeta Terra.
08/Abril/2009
[*]
Doutor em Ciência Política pela
Universidade de Harvard e professor titular de Teoria Política na UBA
(Universidade de Buenos Aires). É autor do livro "Império e
Imperialismo. Uma leitura crítica de Michael Hardt e Antonio
Negri", publicado pela editora CLACSO em 2002.
O original encontra-se em
www.atilioboron.com
. A versão em português encontra-se em
http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3137/9/
, traduzida por Gabriel Brito.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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