Primeira reunião Putin-Trump: resultados quase nulos
por The Saker
Em primeiro lugar, temos o modo como os americanos prepararam a cimeira G20.
Como é bem sabido, em diplomacia as acções contam tanto
quanto as palavras, ou mesmo mais. Eis algumas das acções
recentemente tomadas pelos americanos na preparação da cimeira do
G20 e da primeira reunião de Trump com Putin (sem qualquer ordem
específica):
- Os
EUA rejeitaram o plano conjunto russo-chinês para neutralizar a crise na Península Coreana
, muito embora aquele plano fosse simples,
de senso comum, objectivo
e, francamente, a única opção para evitar a guerra.
- Os
EUA acusaram o governo sírio de preparar um ataque químico e advertiram de um "preço pesado a pagar"
.
- Os
EUA enviaram um bombardeiro para sobrevoar as ilhas chinesas no Mar do Sul da China
.
- Os
EUA acusaram a Rússia de desestabilizar a Europa do Leste
.
- Os
EUA ameaçaram "consequências severas" contra a Coreia do Norte
.
- Os
EUA declararam que instalariam mísseis Patriot na Polónia para proteger os polacos dos mísseis Iskander russos
(Gargalhadas! Boa sorte com isso, amigos polacos).
- Os
EUA também prometeram aos polacos o GNL estado-unidenses para "assegurar a independência energética da Polónia em relação à Rússia"
(boa sorte também com isso, amigos polacos)
- Os
EUA enviaram um F-16 polaco para interceptar o avião civil (e há muito anunciado) que transportava o ministro da Defesa russo no espaço aéreo internacional sobre o Mar Báltico
.
- Os
EUA enviaram um destroyer com mísseis guiados para perto da Ilha Triton no Mar do Sul da China
.
- Os
EUA retiraram-se do acordo climático de Paris
.
- Os
EUA criticaram práticas alemãs de comércio
.
- Os
EUA criticaram a China pelo seu comércio com a RDPC
.
- Os
EUA acusaram a China de "violação comercial"
.
Percorrendo esta lista, pode-se admirar o senso americano de oportunidade e
diplomacia...
Mas falando agora seriamente,
Não importa realmente se estas acções são apenas o
resultado do orgulho e das ilusões imperiais, de uma completa falta de
educação diplomática, das consequências de simples e
directa estupidez humana ou se tudo faz parte de algum plano diabólico
para por os EUA numa rota de colisão com todo o planeta. O que importa
é a alucinante arrogância de tudo isto, como se os EUA fossem um
cavaleiro branco numa armadura brilhante digna de louvação e
adulação e o resto do planeta fosse composto ou por rapazolas
brutos que têm de prestar atenção às palavras do seu
director e começar a comportarem-se melhor ou receberem uma boa sova do
Tio Sam.
Se é isto que Trump espera para fazer a "América grande
outra vez" ele bem pode considerar outras opções como aquela
espécie de atitudes que fazem a "América" (ele quer
dizer os EUA, claro) não parecer "grande" mas sim arrogante,
fora de sintonia e supremamente irritante. Vamos conversar acerca do mundo,
todos ao mesmo tempo parece ser o grande plano desta
administração.
O resultado de todos estes esforços "diplomáticos" era
previsível: nada.
Bem, quase nada. Aqui está o que "nada" aparenta em linguagem
diplomática:
Segundo Lavrov, o ministro dos Estrangeiros
, o presidente Trump e Putin foram "motivados pelos seus interesses
nacionais" (quem diria?!) e acordaram um certo número de medidas
concretas:
1. Uma aceleração do procedimento para nomear novos embaixadores
RU-EUA e EUA-RU
2. Discutiram as instalações diplomáticas russas
confiscadas por Obama
3. Criaram um grupo de trabalho para discutir um certo número de
questões incluindo terrorismo, crime organizado, hacking e
cibersegurança
4. Discutiram a Síria e a Ucrânia e conversaram durante 2 horas e
15 minutos.
Segundo a RT
, a Rússia e os EUA concordaram num cessar-fogo nas províncias
sírias de Daraa, Quneitra e As-Suwayda. Isto é muito bom,
naturalmente, mas é num canto da Síria (sudoeste) onde se
verifica muito pouca acção (neste exacto momento tudo o que
é importante acontece entre Raqqa e Deir Az-Sor). Oh, e há zonas
de desescalagem já em funcionamento no sudoeste.
A menos que Trump e Putin estejam a manter em segredo algo realmente
importante, parece que esta cimeira produziu
exactamente o que se temia
: nada ou algo muito próximo de nada. Se descobrirmos depois que apesar
de tudo os dois lados discutiram algo de importância e acordaram acerca
de algo importante, actualizaremos aqui a informação.
Ninguém ficará mais feliz do que eu se isto acontecer.
Mas, infelizmente, parece que os muitos meses de campanha constante dos Neocom
para assegurar que a Rússia e os EUA nunca colaborariam seriamente
tiveram muito êxito.
Então, onde é que tudo isto deixa os milhões de pessoas
que tiveram pelo menos "alguma" esperança de que Trump fosse
alguém de fora que pudesse tentar fazer com que algumas mudanças
reais acontecessem e talvez libertasse os Estados Unidos do regime Neocom que
está no poder desde pelo menos Bill Clinton (se não antes)?
Em 14 de Fevereiro deste ano, a seguir ao golpe anti-Flynn e à
traição de Trump ao seu amigo, escrevi que "está
acabado" e "Trump traiu todos nós". Recebi um bocado de
ataques por escrever isto, especialmente porque estive fortemente do lado de
Trump contra Hillary durante a campanha. Tristemente, acredito que minhas
conclusões de Fevereiro agora demonstraram-se correctas.
Entendo que alguns ainda queiram apresentar esta reunião como, se
não um êxito, pelo menos como um "bom arranque" ou um
"semi-êxito". Em primeiro lugar, ser o portador de más
novas nunca tornou alguém popular. Em segundo, aqueles que apoiam Trump
ou Putin (ou ambos) desejarão mostrar que o líder que apoiam
conseguiu algo. Finalmente, se ambos os lados informarem que a reunião
foi um êxito, quem somos nós para desmentir?
Não sei e ninguém sabe, mas sempre falarei das coisas tais como
as vejo. E o que vejo é simplesmente nada ou algo muito próxima
de nada. Lamento, desejaria poder dizer algo diferente.
Quanto à partilha da culpa por este não evento, atribuo 100% da
culpa ao lado estado-unidense o qual fez tudo errado com uma
determinação quase maníaca e que agora descobrirá
que se encontra na posição pouco invejável de combater
quase todo o planeta por si só. Ah, desculpem, esquecia. A
Polónia apoia incondicionalmente os EUA e Trump!
Ainda bem para eles merecem-se um ao outro.
07/Julho/2017
O original encontra-se em
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