Um G20 para nada
por Damien Millet
[*]
Éric Toussaint
[**]
Não faltou publicidade em torno da cimeira dos 20 países
industrializados e emergentes (G20) reunidos em Londres dias 1 e 2 de Abril
para buscar soluções à crise. Mas bem antes do
encerramento da cimeira, as conclusões são conhecidas: o G20
não estará à altura do desafio.
Para além da publicação na imprensa especializada de um
projecto de comunicado final muito insuficiente, a razão é
simples: a cimeira do G20 não foi efectuada para trazer verdadeiras
soluções, ela foi convocada às pressas uma primeira vez em
Novembro último para salvar a face das potências e tentar colmatar
as brechas de um capitalismo em plena crise. É impossível,
portanto, que ela traga aos povos do mundo inteiro alternativas suficientemente
radicais para inverter a tendência. Iniciada por aqueles que lucram com a
relação de forças actual, a cimeira do G20 é
estruturalmente incapaz de escolher pistas que possam modificar em profundidade
esta relação de forças. Quando um chefe de Estado ou o
director de uma instituição internacional chegou ao seu posto
graças ao apoio dos grandes credores e das multinacionais, ele
não irá tentar fragilizar o poder dos seus preciosos apoiantes.
Como a situação é indefensável devido à
crise financeira internacional, o G20 vai procurar limar os dentes deste
sistema predador ao invés de o colocar fora de serviço. A
opinião pública vai portanto ser solicitada a olhar em duas
direcções que devem servir para cristalizar a
exasperação: os paraísos fiscais e as
remunerações dos dirigentes de grandes empresas.
É preciso abolir os paraísos fiscais, isso é evidente. E
é fácil de decidir. Basta proibir às empresas e aos
residentes terem activos em ou manterem relações com parceiros
situados nos paraísos fiscais, que são inteiramente
identificáveis. Os países da União Europeia que funcionam
como paraísos fiscais (Áustria, Bélgica,
Grã-Bretanha, Luxemburgo...) e a Suíça, que é
signatária dos acordos de Schengen, devem levantar o segredo
bancário e por fim às suas práticas escandalosas. Mas esta
não é a orientação tomada pelo G20: alguns casos
emblemáticos serão sancionados, medidas mínimas
serão pedidas aos países afectados e uma lista negra dos
territórios "não cooperativos" cuidadosamente depurada
(a City de Londres, o Luxemburgo e a Áustria conseguiram não
figurar na mesma) será elaborada. Aliás,
uma tal lista já existia
, mas com o passar do tempo a quase-totalidade dos países havia
sido removida. Vai-se portanto retomar os mesmos e recomeçar.
Igualmente, as remunerações dos dirigentes das grandes empresas,
incluindo paraquedas dourados e bónus diversos, são realmente
escandalosas. Em período de crescimento, o patronato afirmava que
precisava recompensar aqueles que tomavam riscos e traziam tantos lucros
às sociedades (não falamos dos trabalhadores, como já
compreenderam!) para eles não deixarem as empresas. Agora que a crise
está solidamente instalada e que as empresas escavam as suas perdas, os
mesmos continuam a justificar rendimentos faraónicos. O G20 vi
"enquadrar" estas remunerações, por um período
limitado (até o fim de 2010 em França). A própria
lógica não é posta em causa, apaga-se apenas o aspecto
insuportável para fazê-la perdurar.
Para além das questões dos paraísos fiscais e dos
super-bónus dos patrões, para os quais nenhuma eventual
sanção é especificada, os países do G20 vão
continuar a manter os bancos a flutuar, mas sem tomar o controle para impor
outras orientações diferentes daquelas que fracassaram há
várias décadas e levaram à crise actual. O G20 não
deixa de lembrar que vai lutar contra o proteccionismo, como se fosse
inadmissível querer proteger os sectores vitais da sua economia. O livre
mercado e a desregulação forçada conduziram ao fiasco, o
G20 tira conclusões que as populações não podem
aceitar: procura salvaguardar a todo custo este livre mercado, apanágio
dos poderosos que nada querem ceder da sua dominação em
relação aos mais fracos.
Pouco importa ao G20 se o FMI foi um actor central na imposição
das políticas de ajustamento estrutural desde o anos 1980. O G20, ao
contrário, quer agradecer-lhe por ter sido o grande ordenador das
privatizações ao extremo, da liberalização da
economia, da abertura dos mercados e da redução drástica
dos orçamentos sociais. O FMI, se bem que desacreditado e deslegitimado
a nível mundial, vai ser recolocado no centro do jogo político e
económico graças a uma injecção de fundos daqui
até 2010.
Uma pequena pintura sobre um mundo em ruínas, eis a iniciativa do G20.
Só uma forte mobilização popular poderá permitir
construir fundamentos sólidos para construir enfim um mundo no qual a
finança esteja ao serviço dos seres humanos, e não o
inverso. As manifestações do 28 de Março foram
importantes: 40 mil pessoas em Londres, dezenas de milhares em Viena, Berlim,
Stuttgart..., com o tema "Que os rico paguem pela crise!". A semana
de acção mundial convocada pelos movimentos sociais do mundo
inteiro aquando do Fórum Social Mundial (FSM) de Belém, em
Janeiro, teve portanto um reflexo de primeira ordem. Aqueles que anunciaram o
fim do movimento alter-mundialista enganaram-se, este demonstra que é
perfeitamente capaz de alcançar grandes mobilizações. Em
França, nos dias 29 de Janeiro e 19 de Março últimos, os
assalariados, os desempregados, os jovens afirmaram com força que querem
outras soluções para a crise do que estas que consistem em salvar
os banqueiros e obrigar os de baixo a apertarem mais uma vez a cinto.
Em contraponto ao G20, o presidente da Assembleia Geral das
Nações Unidas, Miguel d'Escoto, convocou uma reunião geral
dos chefes de Estado para o mês de Junho e pediu ao economista Joseph
Stiglitz para presidir uma comissão que fará propostas para
responder à crise global. Conforme certos documentos
preparatórios, as soluções propostas são
inadequadas, mas elas terão o mérito de serem submetidas à
discussão da Assembleia Geral da ONU. Por que a imprensa faz
silêncio em torno desta iniciativa? Porque o diário
Le Monde
participa numa campanha de descrédito internacional contra Miguel
d'Escoto que teve a coragem de saudar a importância do FSM de
Belém, que tomou activamente partido pela defesa do povo palestino e que
se pronunciou contra todo ataque ao Irão sob o pretexto de por fim ao
seu programa nuclear? Colocar a pergunta já é responder.
Uma nova crise da dívida está em preparação no Sul,
ela é a consequência da explosão da bolha da dívida
privada imobiliária no Norte. A crise que hoje afecta a economia real de
todos os países do Norte provocou uma queda dos preços das
matérias-primas, o que reduziu as receitas em divisas com as quais os
governos dos países do Sul reembolsam a sua dívida pública
externa. Além disso, o "credit crunch" provocou uma alta dos
custos dos empréstimos dos países do Sul. Estes dois factores
já provocam suspensões de reembolso da dívida por parte
dos governos dos países mais expostos à crise (a começar
pelo Equador). Outros se seguirão.
A situação é absurda: os países do Sul são
prestamistas líquidos do Norte, a começar pelos Estados Unidos
que têm uma dívida externa total de mais de 6000 mil
milhões de dólares (o dobro da dívida externa dos
países do Sul). Os bancos centrais dos países do Sul compram
títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Eles deveriam, ao
contrário, constituir em conjunto um banco do Sul democrático a
fim de financiar projectos de desenvolvimento humano. Deveriam abandonar o
Banco Mundial e o FMI que são instrumentos de dominação.
Deveria desenvolver relações de solidariedades Sul-Sul como fazem
os países membros do ALBA (Venezuela, Cuba, Bolívia,
Nicarágua, Honduras, Dominica). Deveria realizar uma auditoria das
dívidas que se lhes reclama e por fim ao pagamento das dívidas
ilegítimas.
O G20 vai cuidar de preservar o essencial da lógica neoliberal:
está determinado a restabelecer o sacrossanto crescimento, cujo
conteúdo nunca é questionado, e a "resistir ao
proteccionismo". Os princípios erróneos são mais uma
vez martelados: o G20 reafirma a sua adesão a "uma economia mundial
aberta baseada nos princípios de mercado", portanto o seu apoio ao
deus mercado não é negociável. O resto não é
senão ilusão.
[*]
Porta-voz do CADTM França (Comité pour l'annulation de la dette
du tiers-monde)
[**]
Presidente do CADTM Bélgica.
Ambos são autores do livro
60 Questions, 60 Réponses sur la dette, le FMI et la Banque mondiale
, CADTM/Syllepse, novembre 2008.
O original encontra-se em
http://www.cadtm.org/spip.php?article4274
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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