Caça ao Outubro Vermelho ao largo de Brisbane
por M. K. Bhadrakumar
Se os G20 têm sido acerca da discussão de estratégias
coordenadas para incentivar o crescimento das economias do mundo, a cimeira de
Brisbane neste fim-de-semana estará a ter lugar num momento muito
inconveniente. Nada mostra isto mais pateticamente do que o facto de que apenas
a cerca de 30 horas do início da reunião de Brisbane, as
preocupações do país hospedeiro estão alhures
no Mar Coral. A Austrália está ocupada a interceptar
"uma frota naval russa a fumegar rumo à Cimeira G20 em
Brisbane". (
Australian
).
Os australianos suspeitam que um submarino russo podia estar a espreitar no mar
ao largo de Brisbane. Isto recorda memórias nostálgicas do filme
The Hunt for Red October
, de Sean Connery.
Como pode o G20 ignorar este pano de fundo dramático da Nova
Guerra-Fria? Com as nuvens de uma Nova Guerra-Fria a acumularem-se na paisagem
europeia, que sentido tem discutir estratégicas económicas
globais coordenadas?
As cimeiras G20 têm sido cada vez mais reduzidas a eventos vazios,
concebidos como sopa para as potências emergentes não provocarem o
caos do sistema Bretton Woods. Com a recuperação económica
estado-unidense, o sistema Bretton Woods não está mais sob
qualquer ameaça imediata e o G20 pode ter sobrevivido à sua
utilidade.
A Austrália tem uma tremenda oportunidade nas mãos para injectar
nova vitalidade ao G20. Os australianos têm uma reputação
de serem tipos não convencionais com um sentido natural de visão
prática. Tudo o que eles precisam fazer é simplesmente jogar no
caixote do lixo a agenda da cimeira de Brisbane formulada pelos burocratas, a
qual centra-se sobre questões fiscais esotéricas ou
práticas sombrias de lavagem de dinheiro e, ao invés disso,
converter a reunião dos estimados estadistas mundiais numa
conferência internacional para discutir a crise na Ucrânia.
Chamem-na o Congresso de Brisbane.
Quando os homens de estado do mundo, os quais a propósito incluem um
distinto Nobel, estão a dilacerar-se uns aos outros numa feira de
vaidades assassina que está sistematicamente desmembrando a
Ucrânia, como qualificá-los para discutir os frutos da paz?
Na verdade, a cimeira de dois dias em Brisbane tornou-se uma anedota macabra
sobre a consciência da comunidade mundial. As notícias vindas da
Ucrânia parecem sinistras.
A ONU acaba de informar a uma reunião de emergência do Conselho de
Segurança, em Nova York, "sobre a possibilidade de um retorno dos
combates em plena escala" na Ucrânia, os quais tornaram-se um
conflito que pode "ferver deste modo durante meses, com batalhas
esporádicas de nível mais baixo, marcado por períodos de
hostilidades crescentes e novas baixas", ou ainda uma outra perspectiva de
um conflito "congelado" ou prolongado "o qual entrincheiraria o
actual status quo... durante anos ou mesmo nas próximas
décadas". (
UN News
)
A matéria de facto é que os países ocidentais,
especialmente os Estados Unidos, estão a esfregar as mãos de
prazer e a rugir que a economia russa está prestes a deixar de funcionar
e a rastejar de joelhos sob o peso das suas sanções (
aqui
), mas que Moscovo não tem disposição para
forçá-las. Claramente, o mínimo que G20 pode fazer
é romper este impasse.
O primeiro-ministro russo Dmitry Medvedev pôs em andamento uma
fórmula simples para resolver a crise da Ucrânia. Ele foi citado
pela Interfax como tendo dito, após reunião com o presidente
Barack Obama à margem de uma cimeira em Myanmar, quinta-feira, que
é necessário "abandonar sanções, deixar as
relações numa ordem trabalho normal, retornar ao normal, acalmar,
conversações produtivas".
É tão simples como isso. Indo um passo adiante, os dois dias do
Congresso de Brisbane poderiam mesmo encontrar tempo para uma agenda expandida
que podia ser dedicada ao combate sem esperança da comunidade
internacional contra o Estado Islâmico (EI).
Com o rei da Arábia Saudita e o primeiro-ministro da Turquia aguardados
em Brisbane, não podia haver uma melhor oportunidade para discutir a
Síria e o Iraque. Estes dois veneráveis mentores do Estado
Islâmico podiam ser os homens sensatos os quais saberiam onde está
o ponto mais fraco do monstro EI.
Dito simplesmente, se uma solução pudesse ser encontrada para os
conflitos na Eurásia e no Médio Oriente, levaria muito tempo para
assegurar que o processo penosamente lento de recuperação
económica global se tornasse sustentável. O qual permitiria que o
encontro G20 em Istambul no próximo ano ganhasse fama no mundo das
cimeiras.
13/Novembro/2014
Ver também:
‘Economic isolation breach of intl law': Top 5 takeaways from Putin ahead of G20
('Isolamento económico infringe direito internacional': Cinco principais
mensagens de Putin antes do G20)
O original encontra-se em
blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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