Já é tempo de abrir as caixas negras

por Yanis Varoufakis [*]

Quando estava 'preso' na Conferência de Berlim do INET [Instituto para o Novo Pensamento Económico], e antes de ter a hipótese de escrever aqui sobre essa experiência, pensei que devia convidar todos os que possam estar em Atenas na quinta-feira, 19 de Abril, para a inauguração do novo espaço de Danae Stratou na Galeria Zoumboulakis, Praça Kolonaki, em Atenas (de notar que estará aberto durante um mês, até 19 de Maio). O meu texto, que apresenta uma perspectiva de economia política sobre a exposição e sobre o seu tema, e que aparece no catálogo, segue abaixo. Espero encontrar-vos lá.

A ignorância pode ser, e é frequentemente, o preço que temos que pagar para viver melhor. Não preciso de saber como funciona o meu telefone para usufruir dele. Basta-me saber que, quando marco o número de Danae, é o telefone de Danae que toca. Como é que os aparelhos envolvidos, seja o telefone individual seja a rede, conseguem fazer isso, não me interessa minimamente. Com efeito, se eu investisse tempo e energia mental para perceber o que é que acontece ao certo com os diversos aparelhos que me rodeiam, teria que prescindir de outros tipos de entendimento que considero terem muito mais valor.

Em termos de engenharia, acabo agora de perceber, para mim (tal como para a maioria das pessoas), o meu telefone é uma caixa negra : um aparelho ou um sistema cujo funcionamento interior é opaco e cuja única função que entendo é como transforma os dados que introduzo (por ex., marcar um determinado número) em resultados (o toque do telefone de Danae). Agora que penso nisso, a cabeça da minha mulher também é, para a minha cabeça, uma caixa negra: mesmo que eu fosse um neurocientista de primeira, estaria completamente às escuras quanto ao processo electro-químico que a levou a montar esta exposição. Além do mais, possivelmente porque sei que é uma tarefa impossível, não tenho qualquer ambição em desvendar verdadeiramente este processo electro-químico em particular.

Segundo esta perspectiva, estamos rodeados de caixas negras. No entanto, nem todas as caixas negras são tão inócuas como o meu telefone. Para além dos telefones e dos seres humanos, as empresas e os estados também podem ser encarados como super caixas negras. Nenhum administrador executivo, para não falar dum gestor de categoria mais baixa, pode obter a imagem total de como se chega a cada uma das decisões na sua empresa. Os banqueiros nunca entendem verdadeiramente o conteúdo dos administradores executivos e o arsenal de derivados tóxicos que os seus bancos cozinharam (e depois amassaram para despachar) como se o amanhã não existisse. Olhando para as coisas a um nível mais alto, reparem no exemplo dos Estados Unidos. Regra geral, o Departamento de Estado, a Casa Branca, as pertinentes Comissões do Senado funcionam sem grande coordenação uns com os outros, e no entanto estão a produzir políticas que o resto do mundo reconhece como… política do 'governo' dos EUA.

A diferença entre essas caixas negras (administradores executivos, bancos, governo) e o meu humilde telefone está encerrada numa única palavra: poder. Não o tipo de poder associado à electricidade ou à força esmagadora do oceano mas um outro poder mais subtil: o poder de escrever o programa, de estipular a conversa, de implantar desejos nas nossas almas, de canalizar o fluxo das informações ao longo da grelha existente de poder social, de nos prender na rede que determina como a nossa sociedade funciona e, ai de nós, fracassa rotundamente.

Em 2008, o nosso mundo mergulhou no caldeirão de falências múltiplas, persistentes, espectaculares das diversas 'redes' de poder. A Europa provou ser o elo mais fraco e, dentro dela, a Grécia o elo mais fraco ainda. No entanto, ainda antes transpirar alguma coisa, o nosso planeta já tinha entrado numa trajectória irreversível para a degradação ambiental. Com as suas Crises de várias camadas em cima de nós (em que as principais facetas são a económica e a ambiental, mas não são as únicas), e dada a alta concentração de poder, é quase uma tentação atribuí-la a uma qualquer conspiração doentia dos poderosos. Sobem-nos à cabeça imagens de salas cheias de fumo, com mobiliário pesado e homens manhosos (e mulheres estranhas) a planear como vão obter lucros à custa do bem comum. Claro que isto são alucinações. Se a culpa das nossas circunstâncias terrivelmente diminuídas se deve a uma conspiração, então é uma conspiração em que os conspiradores nem sequer sabem que fazem parte dessa conspiração. Aquilo que para muita gente cheira a conspiração dos poderosos é a característica emergente das redes fechadas, das super caixas negras de poder social.

As super caixas negras assumem muitas formas diferentes mas, na essência, são todas semelhantes: Sempre que um político (que possui informações reservadas) dá um exclusivo a um jornalista, em troca, por uma reviravolta especial do funcionamento interno, esse jornalista fica ligado, subconscientemente, a uma rede de iniciados. As redes de poder social controlam assim o fluxo de informações de um modo que exclui, coopta e guia os seus membros individuais. Desenvolvem-se organicamente, como por vontade própria, e são guiados por um ímpeto supra-intencional que nenhum indivíduo, nem mesmo o presidente, o administrador executivo ou as equipes que gerem os nódulos principais, consegue controlar.

A chave para as redes de poder é a exclusão, a opacidade. Se um qualquer empregado bancário, que toma conhecimento de informações internas que são potencialmente prejudiciais para o banco, dá com a língua nos dentes, por ex. passando a informação para a imprensa, dará cabo imediatamente da sua hipótese de manter qualquer 'poder' para si mesmo. Mas, se trocar esse 'segredo' com informações privadas guardadas em qualquer outra peça da máquina de finanças, então o poder desse par espontaneamente gerado multiplica-se várias vezes. Essa verdadeira conspiração de duas pessoas forma depois alianças, através de mais trocas de informações, com outros grupos do mesmo tipo. O resultado é uma rede de poder dentro de outras redes pré-existentes que envolvem participantes que conspiram de facto sem terem consciência disso, são conspiradores. O que é fascinante é que alguns membros da rede, aqueles que estão apenas levemente ligados à rede, não fazem a menor ideia da rede que estão a reforçar (graças a terem muito poucos contactos com ela).

Considerados como 'redes de poder', como 'conspirações sem conspiradores', os poderes instituídos, com o poder de controlar as nossas vidas (o estado, as empresas, os meios de comunicação, os bancos, os grupos de pressão organizados, etc.), não passam de um monte de super caixas negras: Ninguém percebe como funcionam, nem sequer os indivíduos que vão ao leme. No entanto são eles que convertem todos os nossos dados de entrada em resultados sociais, económicos e ambientais. De modo crucial, ao contrário dos nossos telefones (que legitimamente podemos não estar interessados em entender; em abri-los e inspeccionar o seu funcionamento interno), abrir essas super caixas negras tornou-se hoje um pré-requisito para a sobrevivência da decência, de todos os estratos dos seres humanos, até mesmo do nosso planeta. Em palavras simples, basta de desculpas. Portanto, CHEGOU O MOMENTO DE ABRIR AS CAIXAS NEGRAS!

Porquê agora? Porquê, simplesmente? Que caixas temos que abrir? Precisamos de abrir as caixas agora porque 2008 foi o 1929 da nossa geração. Além disso, a década passada assistiu ao fermentar de um Armagedão ambiental. Ao contrário do meu telefone que funciona perfeitamente, e que não me obriga a abri-lo, a nossa economia social global está avariada. E o mesmo acontece ao ambiente do nosso planeta. As super caixas negras que têm vindo a dirigir o espectáculo desde os anos 70 estão danificadas. Já não conseguem auto-corrigir-se, são impotentes para reproduzir condições para uma vida decente, ou abrimos essas super caixas negras ou elas enfiar-nos-ão, e às gerações futuras, num buraco negro distópico qualquer.

Como devemos fazê-lo? Primeiro, precisamos de adquirir a disposição de reconhecer que também nós, cada um de nós, pode ser um nódulo na rede; um verdadeiro conspirador ignorante. Em segundo lugar, e é este o génio da WikiLeaks, se conseguirmos entrar na rede, como Teseu entrou no Labirinto, e perturbar o fluxo das informações; se pudermos incutir o medo de fugas informações incontroláveis no espírito do maior número possível dos seus membros, então as redes de poder irresponsáveis e defeituosas desabarão sob o seu próprio peso e irrelevância. E assim a humanidade terá mais uma hipótese de organizar a fuga do seu actual beco sem saída. Em terceiro lugar, desistindo de qualquer tendência para substituir as velhas redes fechadas por redes novas.

Nada disto será fácil. As redes reagirão com violência, como já estão a fazer. Tornar-se-ão mais autoritárias, mais fechadas, mais fragmentadas. Mas tudo bem. Sem dúvida, vão fechar-se e fragmentar-se a fim de conter as 'invasões'. Vão despender mais esforços para adiar a abertura das suas caixas negras. Vão ficar cada vez mais preocupadas com a sua própria 'segurança' e monopólio das informações, menos confiantes na gente vulgar. Mas, quanto mais se moverem nessa direcção, mais profundamente esgotarão a sua capacidade de atrair e centralizar aquilo que as faz funcionar: informações frescas, sem nódoas, abundantes, de pessoas que ainda não foram cooptadas.

Claro que nada disto é novo. No seu famoso O Príncipe, Niccolo Machiavelli, um dos primeiros modelos dos conselheiros dos poderes instituídos, aconselhava o seu Príncipe a nunca permitir ao popolo uma breve visão dos demónios que fermentavam dentro das super caixas negras da sua época [1] . Era, reconhecidamente, uma época mais inocente quando ainda era desculpável pensar que o poder centralizado e as informações contribuíam para suavizar a passagem da humanidade para a boa sociedade. Tragicamente, a maré arrebatou esse optimismo. A centralização controlada pelo estado foi punida com o colapso do comunismo em 1991, uma reviravolta dos acontecimentos que deu azo à multiplicação e reforço das caixas negras do 'outro' lado, e em que a conclusão natural desse excesso de confiança foi o Colapso de 2008. Actualmente, no meio do pessimismo pós-2008, para citar Slavoj Zizek, "enfrentamos o cinismo desavergonhado duma ordem global cujos agentes apenas imaginam que acreditam nas suas ideias de democracia, direitos humanos e por aí afora. Através de acções, como as revelações do Wikileaks, a vergonha – a nossa vergonha por tolerar tal poder sobre nós – torna-se ainda mais vergonhosa por ser publicada".

O novo espaço de Danae Stratou avança um passo para além da vergonha e da denúncia. Transforma as caixas negras em objectos de arte que simultaneamente encerram a nossa angústia e as nossas esperanças, a nossa impotência e as nossas capacidades, os nossos constrangimentos desumanos e as nossas aptidões humanas. As suas caixas abertas agem como um incitamento subversivo não só para combater os nossos medos e os poderes futuros duma só vez mas, adicionalmente, para construir ideias de novas formas de poder e prosperidade partilhados.

[1] Assim acontece em assuntos do estado; pois tomar conhecimento (o que só é dado fazer a um homem prudente) dos demónios que estão a fervilhar, torna fácil a sua cura. Mas quando, por falta de tal conhecimento, se permite que eles cresçam até que todos os conseguem reconhecer, já não se encontra qualquer remédio. ( O Príncipe, Niccolo Machiavelli, 1469-1527)

[*] Economista, dirige o Departamento de Economia Política na Universidade de Atenas.

O original encontra-se em yanisvaroufakis.eu/... . Tradução de Margarida Ferreira.


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16/Abr/12