A semana que anunciou solenemente a nova Guerra-fria
por M. K. Bhadrakumar
Se historiadores do futuro quiserem localizar com precisão o momento de
transição em que a era pós guerra-fria transmutou-se na
nova Guerra-fria, eles estão obrigados a examinar esta semana com
atenção. A administração Barack Obama está
numa disposição triunfalista após o êxito,
finalmente, em alinhar os principais aliados europeus dos EUA Reino
Unido, França, Alemanha e Itália por trás da sua
estratégia concertada para isolar a Rússia da Europa e impor
sanções contundentes contra ela.
Obama podia ter feito um emocionante discurso Cortina de Ferro esta semana
se não fosse a grande bagunça na Líbia, Iraque,
Síria, Afeganistão, et al, e o horrendo massacre em Gaza que
arruinou a sua própria reputação e, além disso,
não esquecer, ele é um Nobel e não se supõe que
lance um grito de guerra.
Ainda assim, o
vídeo da teleconferência
de Obama na segunda-feira
com seus homólogos europeus anunciando que o acordo sobre "medidas
coordenadas de sanção à Rússia" sugere sem
qualquer dúvida que a era pós guerra-fria está a acabar.
Dentro das próximas "12-48 horas" Bruxelas estará a
anunciar novas sanções
contra Moscovo com base nos planos dos EUA
que envolvem um vasto conjunto de medidas destinadas a deixar a economia russa
de rastos. Washington em seguida anunciará suas próprias
sanções contra a Rússia.
Espera-se que as assim chamadas sanções em Três
Níveis atinjam instituições financeiras, negócios
de armas e tecnologia de exploração energética da
Rússia. Os bancos russos serão impedidos de apresentar novas
emissões de títulos ou acções nas bolsas europeias
e haverá proibição de transferir tecnologias
sensíveis que poderiam ser utilizadas na perfuração em
mares profundos, na exploração do Árctico e na
extracção do petróleo de xisto. Também se espera
que o embargo inclua uma proibição de futuros negócios de
armas com a Rússia.
Moscovo podia antever as chamadas sanções em Três
Níveis e começou a circular os vagões. Terça-feira
passada o Presidente Vladimir Putin efectuou uma reunião no Kremlin do
Conselho de Segurança da Rússia, o mais alto organismo de
elaboração política sobre política externa e
questões de segurança. Putin fez um importante discurso na
reunião cuja agenda era inequivocamente discutir opções
estratégicas da Rússia no novo clima de Guerra-fria em todas as
áreas das políticas nacionais interna, externa, poder
militar e mesmo a "guerra de informação".
Disse Putin: "Nossas Forças Armadas permanecem o mais importante
garante da nossa soberania e da integridade territorial da Rússia.
Reagirmos adequadamente e proporcionalmente à aproximação
da infraestrutura militar da NATO em direcção às nossas
fronteiras e não deixaremos de observar a expansão dos sistemas
de defesa de mísseis globais e os aumentos nas reservas de armamento
não nuclear de precisão... podemos ver claramente o que
está a acontecer: grupos de tropas da NATO estão claramente a ser
reforçados em estados da Europa Oriental, incluindo os dos Mares Negro e
Báltico. E a escala e intensidade do treino operacional e de combate
está em crescimento. É imperioso implementar todas as medidas
planeadas para fortalecer a capacidade defensiva da nossa nação
plenamente e no prazo certo". (
sítio web do Kremlin
).
Os acontecimentos desta semana quase eliminam quaisquer perspectivas residuais
de uma acomodação entre Washington e Moscovo. Igualmente, o papel
mediador da Europa França e Alemanha em particular
também está a desaparecer. A estimativa estado-unidense é
de uma situação "vence-vence"
("win-win"),
porque, como observou esta semana o académico Dmity Trenin, da
Carnegie, "Mesmo se nenhum líder pró ocidental substituir um
Putin no Kremlin... a Rússia sucumbirá a um outro período
de perturbação, fazendo com que se centre sobre si própria
ao invés de criar problemas para Washington".
Trenin apresentou o cenário com dureza: "Já não
é mais a luta pela Ucrânia, mas uma batalha pela Rússia. Se
Vladimir Putin conseguir manter o povo russo do seu lado, ele vencerá.
Do contrário, uma outra catástrofe geopolítica pode
seguir-se".
Naturalmente, Trenin exagera. A avaliação da popularidade de
Putin é o dobro da de Obama. O povo russo admira Putin como um patriota
e um líder forte, ao passo que os americanos vêm Obama cada vez
mais como um incompetente não importando o assunto que manuseie.
Mas o perigo real está em outro lugar nomeadamente, a comunidade
internacional pode ter de pagar um preço pesado pelo trabalho mal feito
de Obama no estabelecimento de uma nova Guerra-fria. Quando o Irão
não pôde ser intimidado por sanções, o que é
que torna Obama e seus colegas europeus tão confiantes em que um
país muito mais poderoso como a Rússia possa ser?
Será que o poder combinado dos EUA e dos seus aliados europeus basta
para redefinir a ordem mundial e isolar a Rússia a qual, a
propósito, também é uma ávida globalizadora (ao
contrário da antiga União Soviética)?
Se a Europa não vai comprar petróleo russo e vai diversificar, o
que acontece ao mercado do petrolífero que também atende ao resto
do mundo? O que acontecer na verdade à própria
recuperação económica da Europa se o preço do
petróleo disparar?
De modo bastante óbvio, quando a Rússia vê a NATO e a
instalação de ABMs como um desafio existencial, como pode isto
reconciliar-se com o estabelecimento de bases militares dos EUA-NATO no
Afeganistão? Além disso, se a Rússia é um
adversário, por que deveria ela cooperar com os EUA (e o Ocidente) sobre
o Irão, a Síria ou o Iraque?
Onde é que tudo isto deixa os outros países importantes nos
cantos não ocidentais do mundo Índia, Brasil ou China?
Será que o Ocidente espera que estes países cumpram o seu regime
de sanções em Três Níveis? E se eles não o
fizerem?
Não, Sr. Trentin, o Sr. está errado. Isto não é
realmente acerca do regime na Rússia, isto é acerca da ordem
mundial. Isto é acerca do sistema de Bretton Woods e o desafio a ele que
Putin encabeça, como evidenciou na cimeira dos BRICS em Fortaleza.
Isto é o contra-ataque de Obama numa guerra de guerrilha, assustado
acerca do desafio crescente à supremacia do US dólar. A
questão crucial é que, sem a liberdade contínua para
imprimir notas de dólar, a economia americana está condenada.
O resto do mundo entende perfeitamente bem que a nova Guerra-fria é
disto que trata. Mesmo os europeus não são tontos, eles
também compreendem o que está a acontecer, como testemunha a sua
grande relutância em isolar a Rússia durante todas estas semanas e
meses.
Quase certamente, não há ideologia aqui envolvida. Não
é uma guerra sobre socialismo ou terrorismo, nem é uma guerra
intrinsecamente acerca da Ucrânia ou da Rússia. Em termos claros,
a nova Guerra-fria é acerca da perpetuação da
dominância global dos EUA.
Sem o sistema de Bretton Woods, sem a NATO, sem superioridade nuclear sobre a
Rússia, os EUA enfrentam a perspectiva ao longo do tempo de se tornarem
uma potência amplamente diminuída. Sem a liderança
transatlântica, fica reduzido ao que costumava ser antes da I Guerra
Mundial uma centena de anos atrás uma influente potência
regional no Hemisfério Ocidental.
29/Julho/2014
O original encontra-se em
blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2014/07/29/the-week-that-ushered-in-new-cold-war/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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