Fase I: O "tudo em austeridade"
Após a irrupção da crise em 2007, recordamos, procedeu-se
por toda a parte à execução de programas de
relançamento económico, ao salvamento e à
nacionalização parcial ou completa de empresas e estabelecimentos
financeiros, à garantia de empréstimos e de depósitos
bancários e à recompra de títulos de dívida de
má qualidade.
Daí resultou um forte crescimento do endividamento público. De
1980 a 2000 a dívida média das administrações
públicas dos 30 países mais industrializados já havia
passado de 40% para 72% do PIB, manifestação de um crescimento
mundial artificial impulsionado pelo endividamento. Sob o peso da crise, este
endividamento passou de 75% do PIB em 2007 para 114% em 2013 (345% para o
Japão, 180% para a Grécia, 138% para a Itália, 112% para
os Estados Unidos, 88% para o Canadá)
[1]
A crise da dívida privada transmutou-se assim em crise da dívida
pública, cujo primeiro acto foi o desencadeamento da crise da
dívida grega em Janeiro de 2010.
Apesar das intervenções maciças e sustentadas dos
governos, dos bancos centrais e dos organismos internacionais, hoje, cerca de
seis anos mais tarde, a economia continua avariada. O crescimento permanece
anémico e a recessão passa infindavelmente da ameaça
à realidade. Segundo a Organização Internacional do
Trabalho
[2]
, o número de 199 milhões de desempregados atingido em 2009
será ultrapassado em 2013 e o desemprego continuará a aumentar
pelo menos até 2017. Ele está agora próximo dos 12% na
Europa, dos 30% na Grécia e na Espanha; entre os jovens está nos
60% na Grécia e 55% na Espanha.
As políticas monetárias e orçamentais estão num
impasse. As taxas de juro directoras dos bancos centrais são quase
nulas. A liquidez dos bancos aumentou consideravelmente e eles não
têm emprestado os seus fundos, preferindo colocá-los no
estrangeiro e comprar obrigações governamentais. As despesas
públicas foram inchadas pelo financiamento dos planos de
relançamento, ao passo que as receitas foram reduzidas pelo
enfraquecimento económico e a redução das taxas fiscais.
Para reduzir os défices assim provocados, os governos voltaram-se para
políticas de austeridade severas, até mesmo de
destruição social:
-
tarifação agravada;
-
redução dos serviços públicos e da ajuda social;
-
redução dos salários dos funcionários e
despedimento de pessoal;
-
reduções das vantagens sociais e dos regimes de
aposentação;
-
aumento dos impostos sobre o consumo.
Os primeiros países a entrarem neste caminho foram a
Grã-Bretanha, a Irlanda, a Grécia, Portugal, depois a
Itália, a Espanha e a França. Na Grã-Bretanha, por
exemplo, o governo conservador eleito em 2010 eliminou 500 mil empregos de
funcionários. Na Grécia, além de medidas muito severas
para com programas sociais, o governo pressionado a comprometer-se a privatizar
activos públicos de 50 mil milhões daqui até
2015, ou seja, um valor de 20% do PIB. Mas o seu orçamento militar que,
com mais de 3% do PIB em 2010, era o segundo mais elevado da NATO em
percentagem do PIB, logo atrás dos EUA (4,8% do PIB) não foi
reduzido.
No Quebeque, o grande golpe foi dado no orçamento de 2010-2011 com a
indexação e a tarifação agravada dos
serviços públicos, a introdução de uma
contribuição regressiva na saúde e um aumento das taxas
indirectas. O novo governo eleito em 2012 adoptou uma política que
está em estrita continuidade com a austeridade posta em
execução pelo governo anterior.
No Canadá, a atitude do governo conservador desde a sua chegada ao poder
em 2006 foi centrada na redução dos impostos e das despesas.
Depois de em 2009 ter entrado a contra-gosto na acção concertada
internacionalmente em favor de programas de relançamento, afastou-se
deles na primeira oportunidade anunciando nos seus orçamentos de 2011 e
2012 medidas draconianas de redução das despesas tendo em vista
um restabelecimento acelerado do equilíbrio orçamental. Depois de
ter declarado no fim de 2012 que adiava por um ano, o ano 2016-2017, a
realização deste objectivo, considerando (em
contradição com suas pretensões anteriores) que o
défice zero não era um fim em si mesmo e que a austeridade
poderia faz mais mal do que bem, ele retornou rapidamente aos seus sentimentos
naturais ao declarar em Março de 2013 que era preciso, ao
contrário, realizar o equilíbrio orçamental no prazo
previsto de 2015-2016.
Estas medidas de austeridade a que os governos têm sistematicamente
recorrido repercutiram sobre as populações o custo da
reparação das manobras financeiras pelas quais elas não
são responsáveis, ao passo que os culpáveis desfrutam de
impunidade. No plano económico, elas pioram a situação ao
invés de melhorá-la.
Pungentes
mea culpa
Após cinco anos de crise, em Abril de 2012, as primeiras
advertências contra os seus efeitos foram expressas por aqueles mesmos
que impuseram com força os planos de austeridade. O presidente do Banco
Central Europeu, Mario Draghi, lançou um apelo a um pacto de crescimento
europeu, precisando no entanto que não se tratava de um plano de
relançamento através da despesa pública, mas antes de um
plano de relançamento pela flexibilidade do emprego (como na Alemanha).
François Hollande, que então era candidato à
presidência da França, lançou de imediato um apelo a um
relançamento através do crescimento e não da austeridade.
A Itália por sua vez decidiu em 2012 atrasar por um ano a
realização de equilíbrio orçamental, enquanto o BCE
optava por uma política de flexibilização monetária
quantitativa e lançava "operações de refinanciamento
a longo prazo" consistentes em empréstimos de 1000 mil
milhões de obrigações a três anos a 1%
concedidos aos bancos europeus.
A seguir, foi o Fundo Monetário Internacional que procedeu a um
mea culpa
notável. Primeiro publicou no seu
World Economic Outlook
de Outubro de 2012
[3]
um estudo intitulado "The good, the bad and the ugly: 100 years of
dealing with public debt overhangs", tratando de 26 casos, desde 1875, em
que a relação da dívida com o PIB ultrapassou 100%.
O estudo assinala a importância do crescimento do PIB, da
diminuição das despesas e da alta dos impostos para reduzir a
relação da dívida com o PIB. Mas ali se sublinha o papel
primordial da baixa das taxas de juro e da alta dos preços:
"quando as taxas de juro eram elevadas e os preços
diminuíam, as políticas de redução das despesas e
de aumento dos impostos falharam".
E dava o exemplo do lamentável fracasso da Grã-Bretanha cujo
rácio dívida/PIB era de 140% após a Primeira Guerra
Mundial.
Sua vontade malsã de reembolsar sua dívida e de reduzir os
preços ao seu nível anterior à guerra exigiu uma
política monetária e orçamental muito rígida (taxa
de juro de 7%), que num primeiro tempo permitiu restabelecer o
equilíbrio orçamental (sem o serviço da dívida),
mas que precipitou o país na recessão e levou o rácio
dívida/PIB a 170% em 1930 e a 190% em 1933.
O efeito negativo das medidas de austeridade foi a seguir posto dramaticamente
à luz, em Janeiro de 2013, pelo economista chefe do FMI, Olivier
Blanchard, que criou uma comoção ao mostrar os resultados de um
estudo revelando que, longe de ajudar a restabelecer a situação
económica dos países que a isso haviam sido constrangidos, as
medidas de austeridade haviam antes tido como efeito agravar a sua
situação.
[4]
Até então acreditava-se que o efeito multiplicador do impacto de
uma redução da despesa pública sobre o PIB de um
país era de 0,5, quando este era de facto de 1,6, ou seja, um impacto
três vezes mais elevado. Isso significa que uma redução de
um défice público em um euro (ou um dólar) se traduz por
uma redução de 1,6 euro (ou 1,6 dólar) do PIB! Longe de
relançar a produção, esta vê-se diminuída,
não num montante inferior à redução das despesas
mas sim num montante mais elevado.
Contudo, isso não impede o FMI de continuar a condicionar sua ajuda a
novas reduções da protecção social.
A via da anulação da dívida
Uma via alternativa à da austeridade é doravante considerada
seriamente como meio de saída da crise. A da anulação
(radiation)
de uma parte ou da totalidade da dívida pública.
Iniciada pela Grécia em Outubro de 2011 no quadro de um "plano de
salvamento da Grécia e do euro", isto permitiu a este país a
anulação de 53,5% da parte da dívida detida por
estabelecimentos privados, ou seja, 107 mil milhões em 205 mil
milhões. O acordo, negociado com o Institute of International Finance
que representa os principais bancos privados do planeta, foi concluído
em Abril de 2012. O seu presidente declarou em Novembro de 2012 que já
era tempo
"de reconhecer que a austeridade por si só condena não
só a Grécia mas a integralidade da Europa à probabilidade
de uma era dolorosa com um crescimento fraco ou nulo".
[5]
Após a anulação destes 107 mil milhões da
dívida grega detidos pelos credores privados, o montante desta
dívida, que era de 350 mil milhões antes da
anulação, elevava-se ainda a 243 mil milhões, cuja
maior parte, 145 mil milhões, era detida por organismos
públicos (Estados, Banco Central Europeu). Ela continua a aumentar desde
então.
Num artigo de Novembro de 2012
[6]
, a revista
The Economist
lembra a experiência de dezenas de países da América
Latina e da África esmagados pelo endividamento nos anos 1980 e 1990. Os
mais endividados dentre eles, escreve a revista, não começaram a
recuperar-se senão quando as suas dívidas, inclusive aquelas que
eram devidas a credores oficiais, foram anuladas. A Grécia, afirma a
revista,
"permanecerá um desastre enquanto não receber o tratamento
administrado ao países fortemente endividados do passado".
Afirmando que não outro meio de recuperar senão através
de uma nova anulação, incluindo desta vez não só o
devido aos banqueiros privados como também o que é devido ao BCE
e aos governos europeus, a revista conclama a renovar, no caso da Grécia
de hoje, a iniciativa de anulação que beneficiou os países
pobres fortemente endividados nos anos 1990.
Irlanda e Islândia
Dois países, a Irlanda e a Islândia, distinguiram-se pela
severidade da sua derrocada financeira no princípio da crise, em 2008.
Um e outro país, faróis de um capitalismo financeiro desenfreado
apresentado como modelo a seguir, experimentaram um afundamento do seu sistema
bancário em relação ao qual cada um reagiu de maneiras
radicalmente diferentes.
O governo irlandês tomou a seu cargo a dívida dos bancos
arruinados, inchando assim o défice orçamental e a dívida
pública que atingiram respectivamente 32% e 95% do PIB em 2010, e
impôs medidas de austeridade draconianas visando restabelecer o
equilíbrio orçamental num período de cinco anos. Por sua
vez, o governo islandês nacionalizou os principais bancos tornados
não solventes e anulou a sua dívida, além de numerosos
banqueiros terem sido processados na justiça e condenados.
A população islandesa recusou por duas vezes, através de
referendos em Março de 2010 e Abril de 2011, subscrever um acordo de
seis mil milhões de dólares de indemnização dos
depositantes, julgando que não tinha de assumir as consequências
das especulações financeiras.
Contestado pelos governos britânico e holandês, cujos
cidadãos haviam sido gravemente afectados pelo afundamento dos bancos
islandeses, assim como pelo FMI, o direito de recusa da população
islandesa a reembolsar os poupadores estrangeiros foi confirmado no fim de
Janeiro de 2013 por um tribunal da Associação Europeia de Livre
Comércio
[7]
, de que a Islândia faz parte juntamente com a Suíça, a
Noruega e o Lichtenstein.
Tendo recusado as receitas impostas aos outros países atingidos pela
crise e liberta do fardo de uma dívida ilegítima, a
Islândia recomeçou o seu crescimento económico e sua taxa
de desemprego está desde então abaixo dos 8%. Esta taxa continua
nos 15% na Irlanda onde a economia está estagnada. Um sexto
orçamento de austeridade consecutiva foi aprovado no fim de 2012 e a
relação da dívida com o PIB, que era de 25% em 2007,
ultrapassará os 120% em 2013. Um terço desta dívida
decorre da assunção pelo Estado da dívida dos bancos
arruinados, enquanto o governo persiste em recusar todo aumento do fardo fiscal
das empresas, o mais baixo da Europa.
Numa entrevista intitulada
Let banks go bankrupt,
no fórum de Davos em Janeiro de 2013 e divulgada no You Tube, o
presidente da Islândia, Olafur Ragnar Grimsson, explicou que
"é tempo de deixar de considerar os bancos como as igrejas santas
da economia moderna"
e que
"a teoria segunda a qual os banqueiros deveriam poder desfrutar dos seus
lucros quando os negócios vão bem, mas que são as pessoas
comuns que deveriam pagar pelos seus fracassos e para salvar os bancos por meio
dos impostos e da austeridade, nas democracias esclarecidas as pessoas comuns
não a aceitarão mais no futuro".
Argentina: coragem e infortúnios
Ao contrário da Islândia, onde as coisas parecem estar resolvidas,
a questão da anulação da dívida soberana assumiu
uma amplitude particular na Argentina que enfrenta um formidável ataque
de fundos especulativos "abutres", designados pelos argentinos como
fundos "carniceiros e usurários". O ataque provém
igualmente da justiça dos Estados Unidos, contra a
anulação de 65% da sua dívida de 81 mil milhões no
quadro de acordos concluídos com 93% dos credores desta dívida,
verificados em 2005 e 2010. Os recalcitrantes não signatários dos
acordos não cessaram a seguir de tentar, diante de tribunais, obter
ordens judiciais de reembolso do montante pleno dos títulos que
detêm.
Um deles, o fundo especulativo Elliott Management, obteve, em 1 de Outubro de
2012, o apresamento da fragata argentina
"Libertad"
no porto de Tema, no Gana. Um tribunal estado-unidense, por outro lado,
ordenou o pagamento à Elliott Management do montante pleno de 1,3 mil
milhões de dólares dos títulos detidos por este fundo
especulativo e não de 35% do montante, que outros credores haviam
aceite. Não é preciso dizer que se o pagamento de 100% fosse
efectivamente obtido pelo Elliott Management isto teria um efeito bola de neve
sobre os demais credores recalcitrantes.
A Argentina recorreu desta decisão em Novembro de 2012 e em 27 de
Fevereiro de 2013 o tribunal confirmou a ordem de pagamento do montante pleno.
A Argentina declarou de imediato que não se sentia obrigada por esta
decisão e anunciou faria incumprimento do montante de 1,3 mil
milhões se a ordem de pagar lhe fosse imposta. A Argentina evidentemente
enfrenta o apresamento dos seus activos no estrangeiro.
Chipre: um tipo inusitado de austeridade
Porto de branqueamento de dinheiro e paraíso fiscal tendo o a mais baixa
taxa fiscal da Europa sobre os lucros das sociedades (10%), Chipre tornou-se,
um pouco como a Islândia e a Irlanda, uma terra de acolhimento de
depósitos bancários que atingiram em 2013 cerca de 68 mil
milhões, um montante equivalente a quatro vezes o seu PIB. Cerca da
metade destes 68 mil milhões provêm de cidadãos ricos de
empresas russas, atraído em particular pela forte
protecção dos direitos de propriedade garantidos pelo Estado
cipriota, ao abrigo da intervenção de Moscovo.
Este dinheiro foi investido em empréstimos e aplicações
que em 2013 atingiram mais de sete vezes o PIB. Ele alimentou um boom
imobiliário e foi investido em grande parte no financiamento da
dívida grega, a qual era detida em mais de 50% por bancos privados,
dentre os quais os bancos cipriotas, que foi anulada no fim de 2012 no quadro
do plano de salvamento da Grécia.
Seguiram-se perdas pesadas para os bancos cipriotas cujos dois mais
importantes, insolventes, reclamaram uma ajuda do Estado. Este solicitou ao
BCE, FMI e União Europeia uma ajuda financeira de 17 mil
milhões, igual ao seu PIB. Dez destes 17 mil milhões eram
destinados à recapitalização dos bancos insolventes.
Em 16 de Março de 2012 foi concluído um acordo quanto a esta
ajuda, que se tornou caduco três dias depois. Ele incluía uma
disposição inusitada: para limitar a 10 mil milhões
o montante da ajuda recebida, foi acordado que fosse recebida uma taxa sobre os
depósitos bancários, sendo os depositantes forçados a
financiar até 7 mil milhões o salvamento do país, de
facto dos bancos. Esta taxa teria sido de 6,75% sobre os 30 mil
milhões de depósitos inferiores a 100 mil, mesmo que estes
estivessem garantidos pelo seguro de depósitos, e de 9,9% sobre os
38 mil milhões de depósitos superiores a 100 mil.
Indignados por esta proposta, os poupadores cipriotas, aos quais era imposta
uma austeridade de um novo tipo, para não dizer um roubo puro e simples
das suas poupanças, manifestaram-se em força descendo às
ruas, o que levou o governo a renunciar ao projecto no dia 19 de Março.
Assim, subitamente, a situação transformou-se num impasse.
Um novo acordo foi concluído em 25 de Março. Este implica uma
importante redução do sistema bancário cipriota,
até então hipertrofiado, e a elevação para 12,5% da
taxa de imposição sobre os lucros que até a véspera
eram de 10%. A redução do sistema bancário passa pela
reestruturação do maior banco do país, o Banco de Chipre,
cujos depósitos não segurados são amputados em mais de
35%, e pela liquidação do segundo banco do país, o banco
Laiki, cujos activos sãos e os depósitos segurados, isentos da
taxa de 6,5% que se queria aplicar-lhes no quadro do plano abandonado,
são depositados num "bom banco" que será a seguir
integrado no Banco de Chipre.
Tendo compreendido a recusa da população a financiar a
insolvência do sistema bancário, o governo cipriota e seus
credores da União Europeia, do BCE e do FMI foram constrangidos a
transferir o peso sobre os mais bem nascidos, o que na presente crise é
inédito em matéria de salvamento de um país em apuros. Uma
iniciativa inédita que eles afirmam presunçosamente que
permanecerá circunscrita a Chipre e que não será o modelo
de eventuais futuros salvamentos.
O "precipício orçamental"
(fiscal cliff)
dos Estados Unidos
Duas causas estão na fonte do fenómeno que nos Estados Unidos
é identificado como o "precipício orçamental".
I Importantes reduções de imposto para os mais ricos,
entradas em vigor em 2001, 2003 e 2009, assim como reduções de 6%
a 4% das contribuições para a segurança social, vindo a
vencer a 1 de Janeiro de 2013, implicando o duplo efeito seguinte:
1- O restabelecimento das taxas de imposição e de
contribuição nos níveis anteriores, mais elevados,
é o equivalente a uma alta dos impostos (de US$225 mil milhões) e
das contribuições (85 mil milhões) em 2013, portanto uma
contribuição positiva para o restabelecimento do
equilíbrio orçamental.
2- Mas esta alta efectiva dos impostos e das contribuições tem um
efeito de desaceleração da economia pela diminuição
do poder de consumir.
II O
imbroglio
do Verão de 2011 sobre a elevação do tecto da
dívida saldou-se por um "compromisso" de que uma das
consequências é a execução automática, na
falta de um acordo entre a presidência e o Congresso, de
reduções de despesas orçamentais de US$85 mil
milhões (despesas militares e despesas sociais) em 2013, o que implica
igualmente um duplo efeito:
1- A redução das despesas concorre para a redução
do défice orçamental
2- Mas ela provoca em simultâneo uma desaceleração da
economia e agrava as tendências para a recessão.
Os dois conjuntos de medidas têm portanto o efeito positivo de reduzir o
défice (de US$500 mil milhões em 2013, ou seja, 3% do PIB) e o
efeito negativo de agravar as tendências à recessão.
Chegamos finalmente à mesma constatação que antes: ao
querer reduzir o défice (nomeadamente por medidas de austeridade), e
ainda mais se se procede de forma brusca, arrisca-se a provocar uma
degradação económica, até mesmo a alimentar a
recessão. É esta situação que foi primeiramente
identificada em Fevereiro de 2012 pelo presidente da Reserva Federal, Ben
Bernanke, como um "precipício orçamental"
(fiscal cliff).
Na mesma perspectiva, no Outono de 2012 as agências de
classificação alertavam o governo do Canadá contra o
recurso à austeridade, advertindo que não havia urgência em
atingir o equilíbrio orçamental e que agir com
precipitação pode ter efeitos negativos. É preciso
igualmente mencionar que o governo do Canadá havia então atrasado
em um ano, ou seja, para 2016-2017, o alcançar do equilíbrio
orçamental, antes de reverter sua decisão em Março de 2013.
Mas isso não parecia atingir o governo de Quebeque que multiplicou as
medidas de austeridade com o objectivo, o único fundamental da sua
política económica, de atingir o equilíbrio
orçamental já em 2013-2014, três anos mais cedo do que o
visado pelo governo federal no Outono de 2012 e quatro anos mais cedo do que o
pretendido pelo de Ontário. Conhecemos as consequências, em
particular sobre o financiamento do ensino superior e da ajuda social.
Este panorama geral seria incompleto se não se mencionasse esta causa
fundamental dos défices públicos, e do consequente recurso
à austeridade, que é o desvio das receitas do Estado pela
evasão e fuga fiscais. O problema é a tal ponto real que um
organismo internacional como a OCDE
[8]
em Fevereiro de 2013 lançou um apelo aos países membros do G20
para que intervenham a fim de erradicar a fuga fiscal que permite às
grandes empresas subtraírem-se ao imposto. Em simultâneo, o
Wall Street Journal,
fundamentando-se num estudo efectuado junto a 60 grandes multinacionais
estado-unidenses, alertava a comunidade internacional quanto aos milhares de
milhões de dólares de lucros que escapavam ao fisco. Segundo este
estudo, cerca da metade dos lucros das multinacionais recenseadas seriam
desviados para os paraísos fiscais
[9]
.
Qual o caminho de saída?
As ilustrações que acabam de ser feitas dos efeitos negativos das
medidas de austeridade sobre a situação económica dos
países que para aí foram empurrados podem levar a crer que a
crise poderia ser ultrapassada pela execução de políticas
que estão nos antípodas da austeridade, ou seja, pelo aumento das
despesas públicas, quer se trate das despesas de infraestruturas, das
alocações sociais ou dos serviços públicos em geral.
É preciso evitar uma tal dedução. Para que a despesa
pública seja de natureza a relançar a economia, seria preciso que
ela pudesse resolver o problema que está na origem da sua
utilização, ou seja, o bloqueio da acumulação. Na
economia capitalista, cujo único motor é a busca do lucro e a
frutificação do capital, para que uma despesa pública,
afectada ao financiamento de serviços públicos ou de trabalhos
públicos, seja um investimento no sentido capitalista do termo, seria
preciso que este investimento frutificasse, que fosse produtivo para o capital,
que se "pagasse a si mesmo".
Não é o caso da despesa pública que, tão essencial
quanto seja para o bem-estar da população, é improdutiva
para o capital. Esta despesa não se "paga a si mesma". Ela
é, ao contrário, um peso para o capital. Seu financiamento
é assegurado pelas receitas do Estado, ou seja, pelos impostos e
empréstimos. A única actividade geradora de um lucro global
acrescido é a que proviria do relançamento do investimento
rentável. E isso supõe que o capital chega a extrair mais do
trabalho assalariado, que é a única fonte da sua
acumulação.
[10]
Em suma, ao contrário do que se poderia acreditar, a chave do
relançamento nesta economia em que vivemos, cujo único motor
é o lucro, está antes do lado de uma maior austeridade do que de
uma menor! Esta conclusão leva-nos a uma reflexão de outra ordem,
aquela que tem a ver com o tipo de sociedade a inventar para ultrapassar o
impasse da sociedade actual.
25/Março/2013
1. FMI,
Fiscal Monitor,
octobre 2012, p. 80.
2.
Global employment trends 2013. Recovering from a second jobs dip.
Anexos estatísticos, p. 133-154.
3. Capítulo 3 do relatório.
4. Olivier Blanchard et David Leigh,
Growth Forecast Errors and Fiscal Multipliers,
IMF Working Paper, janvier 2013.
5. Propostas divulgadas pela Agence France-Presse, reproduzidas em
Le Devoir,
15/Novembro/2012.
6. Intitulado "Greece's debt burden. How to end the agony", p. 12.
7. Ver François Brousseau, " Merde aux banquiers ",
Le Devoir,
4/Fevereiro/2013.
8. OCDE,
Lutter contre l'érosion de la base d'imposition et le transfert de
bénéfices,
2013,
http://dx.doi.org/10.1787/9789264192904-fr
9.
Wall Street Journal,
edição de 11/Março/2013.
10. Ver a respeito meu artigo intitulado " À l'origine des
crises : surproduction ou sous-consommation ? ",
Carré rouge,
Abril/2009.
[*] Professor na Universidade de Quebeque, Canadá
O original encontra-se na revista
L'Action nationale,
vol. CIII nº 5, mai 2013.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.