As impressões que o covid-19 me dá
por Porto de Amato
Depois de algum tempo de ausência neste espaço, por motivos de
certo modo relacionados com as transformações que o covid-19 tem
imposto às nossas rotinas, gostava de partilhar com os meus leitores
algumas impressões que esta pandemia me tem causado. São
impressões pessoais, observações empíricas sem
valor científico, e sem quaisquer ambições neste
particular, sobre o que me rodeia, sobre o que se tem passado. São
reflexões despretensiosas acerca do que nós, cada um de
nós, individualmente, e todos, coletivamente, revelamos ou temos sido
forçados a revelar, da nossa natureza, da nossa
organização, das nossas prioridades, dos nossos valores em face
desta crise de saúde pública que tem posto em causa o nosso modo
de vida.
A primeira impressão é para mim uma evidência: nestes
momentos resulta claro o quão ineficaz é o nosso sistema
económico. O capitalismo, com a sua pulverização
característica de negócios e de empresas, com a sua
liberalização das relações, das responsabilidades,
mas sempre com o poder económico concentrado em escassos pares de
mãos incógnitas e intangíveis vê-se incapaz,
impotente até, para operacionalizar uma estratégia coerente e
otimizar recursos para combater o flagelo, neste caso chamado de covid-19.
Se ao longo dos tempos de moderada ou anémica bonança há
sempre justificações com as quais se adorna o sistema e se
enganam os menos ilustrados ou os mais distraídos, a verdade é
que, neste momento presente, não sobrevivem quaisquer argumentos.
Amarrados aos interesses económicos para os quais existem, as
nações europeias estrebucham para tentar fechar as fronteiras,
para colocar os cidadãos em casa, para impor um estado de quarentena
minimamente sério que seja minimamente eficaz.
Entenda-se a dificuldade da coisa no contexto estrito do desenho do nosso
sistema económico onde a vertigem pela maximização dos
proveitos se impõe a tudo e a todos, onde as conexões
económicas se estendem a cada canto do globo para fugir ao
escrutínio das finanças locais e de uma moralidade de
distribuição digna da riqueza e onde, mais e mais, quem
não trabalha não ganha. E, se não ganha, não come.
Não é, pois, de estranhar a lentidão com que a
generalidade dos países europeus atuou perante a ameaça de
pandemia que encobria, então, os seus
amanhãs
. Não é, pois, de estranhar que a generalidade dos países
europeus tenha aguardado até ao último instante para
começar a agir.
Não querendo longe disso! ensaiar qualquer apologia ao
sistema chinês, compare-se e aprecie-se a diferença entre o que se
fez por cá e o que se fez por lá, na China, para controlar o
surto de covid-19. É difícil comparar, bem sei, mas essa
dificuldade não se iludam! favorece-nos enormemente pois
é exponencialmente mais difícil gerir um problema de
biliões do que um de milhões. Mas é fácil de
entender. Foi fácil para a China colocar as pessoas de quarentena em
casa as pessoas trabalham, em regra, para o governo. Foi fácil
para a China fechar a sua economia o governo chinês tem uma
posição dominante. Foi fácil para a China agilizar e
otimizar recursos dispõe de mão-de-obra e de
indústria para produzir ventiladores, máscaras, material de
hospital e o que quer que seja necessário. Foi fácil para a China
desenvolver tratamentos específicos para a doença
dispõe dos meios tecnológicos e científicos para o fazer.
Foi tudo fácil para a China. Para nós, europeus, sobretudo para
países como Portugal, tão dependente de terceiros para tudo e
para nada, depois de ter alienado tudo o que era indústria, agricultura,
recursos naturais, depois de se ter submetido voluntariamente a um projeto de
economia terciária satélite dos grandes países europeus,
tudo é difícil. Para Portugal tudo é difícil.
A segunda impressão que queria partilhar é esta. A economia
está em crise profunda não por causa das máquinas ou da
inovação científica, não devido à falta de
matéria-prima, mas em razão dos seus recursos humanos estarem a
ser afetados. Prestem atenção a este ponto. Contrariamente ao que
a lavagem cerebral do costume nos diz, a força laboral é, ainda
hoje, o fator mais determinante para a economia e para os países. Esta
evidência que o covid-19 coloca a nu é inversamente proporcional
com a importância que é dada aos trabalhadores, a uma mais justa
retribuição do seu trabalho, a uma mais justa
distribuição da riqueza. Pelo contrário, o que tem
acontecido, desde os anos desde o fim da guerra fria até aos dias de
hoje antes do covid-19, é precisamente uma diminuição de
salários e de direitos laborais e uma cada vez mais desigual
distribuição de uma riqueza que se tem acumulado cada vez mais
nas mãos de uns poucos.
Mesmo agora, durante esta crise, serão os trabalhadores aqueles que
sairão mais prejudicados no fim do processo. Por exemplo, multiplicam-se
os apoios às empresas, apoios esses que os governos lhes dedicam sem
quaisquer contrapartidas. Os trabalhadores, esses, veem-se ora forçados
a trabalhar sem proteção e a expor-se ao vírus, ora
forçados a ir para casa e viver com uma reduzida parte dos seus
rendimentos ao mesmo tempo que as suas obrigações se mantêm
em regra geral. E estes dão-se por contentes: os precários, cada
vez em maior número no tecido laboral dos países, perdem
imediatamente os seus empregos e a estes ninguém lhes vale.
A terceira impressão diz respeito à ciência e aos homens e
mulheres da ciência que temos entre nós. Considero espantosa a
forma como, em momentos destes, a voz da ciência é praticamente
inaudível. É caricato como se ouve tão pouco e se valoriza
tão pouco aquilo que os homens e mulheres de ciência,
especialistas das matérias, têm a dizer. As redes sociais
têm um papel catalisador do ruído mediático que os media
produzem, é certo, e também é verdade que a própria
ciência assume sempre um papel ambivalente nestas matérias,
refugiando-se em pareceres especializados e parciais para emitir
posições frequentemente contraditórias e favorecer os
obscuros interesses que as classes dominantes têm sempre nestes momentos.
Faltam hoje, mais do que nunca, talvez, pessoas com um conhecimento abrangente
e sólido e não meramente especializado, capazes de analisar os
problemas, apoiando-se noutros especialistas, e emitir opiniões
fundamentadas no estado da arte, consistentes e coerentes que
sirvam como um farol para a sociedade à deriva. Fazem falta destas
autoridades. Não existem sequer, porque a nossa sociedade não as
produz nem as valoriza, obcecada que está no conhecimento especializado
que, podendo ser muito bom para produzir
software
e tecnologia de ponta, nestas alturas vale zero.
A quarta e última impressão é que nós,
coletivamente, estamos muito próximos daqueles povos que acreditavam em
virgens prenhas sem pecado, em múmias regressadas à vida, em
deuses com cabeças de animais e em outras magias que tais. Somos um povo
muito crédulo. Continuamos, neste ano 2020, um povo muito
crédulo. A história que nos contam do covid-19 é algo que
nos devia deixar em polvorosa e exigir explicações. A forma como
este problema se abateu sobre nós e abalou as nossas vidas não
devia ser encarada com cançonetas, frases inspiradoras de
circunstância ou reflexões pueris e pouco profundas. Dá
impressão que podem fazer o que quiserem e nós, povo, arranjamos
uma forma de nos adaptarmos, de viver com isso.
Que espécie de gente somos nós? Não somos,
definitivamente, uma que possa tomar o seu destino com as suas próprias
mãos.
18/Março/2020
Do mesmo autor:
Miguel Urbano Rodrigues (1925-2017)
O original encontra-se em
portodeamato.blogs.sapo.pt/as-impressoes-que-o-covid-19-me-da-161509
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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