A alquimia financeira de hoje

por Workers World [*]

Alquimistas. Séculos atrás, os reis e as suas cortes viviam para além dos seus meios. Para compensar, efectuavam infindáveis campanhas militares, saqueando recursos e terra. A guerra era cara e os fracassos esvaziavam logo os tesouros reais.

Entre as elites reais avançava a ideia de que a riqueza podia ser criada pela transformação de metais ordinários em ouro. Ao longo de toda a Idade Média, exércitos de alquimistas trabalharam incansavelmente a fim de alcançar este objectivo, mas em vão.

Aos alquimistas de hoje foi assinalada uma tarefa impossível: converter milhões de milhões de IOUs [1] e dívidas em complexos instrumentos financeiros a fim de criar riqueza e lucros para os mestres da Wall Street. Economistas, matemáticos e físicos de universidades prestigiosas criam incompreensíveis modelos computacionais e cozinham cocktails de instrumentos financeiros. Os mercados financeiros e as agências de classificação não podem medir o seu valor ou estimar um preço confiável.

A falta de transparência confundiu e levou ao pânico o mercado de acções. Milhares de milhões foram perdidos nos últimos meses. Hordas de investidores, banqueiros e corretores correram para as laterais agarrando a sua riqueza de papel a fim de protegê-la dos turvos mercados financeiros.

A crise começou com empréstimos sub-prime empacotados por prestamistas hipotecários, comprados pelos bancos e outras instituições financeiras e vendidos a investidores. Estas obrigações de dívida colaterizadas, divididas em grupos mais pequenos chamados tranches, foram distribuídas amplamente nos EUA e no exterior. Aos prestamistas elas proporcionaram taxas de juros de dois dígitos e comissões exorbitantes. Dez mil hedge funds compraram os modelos computacionais – fundos quantitativos ("quant funds") – através de dinheiro emprestado.

Agora o colapso das hipotecas sub-prime pôs em retirada, com perdas pesadas, estes investidores financeiros.

Em 18 de Setembro o Federal Reserve Board deu ao mercado de acções aquilo que ele queria — um colossal corte de meio ponto na taxa de juros prime, de 5,25 para 4,75 por cento. Isto desencadeou uma inundação de dólares baratos a fim de proporcionar liquidez e elevação do crédito livre — e o mercado de acções respondeu imediatamente disparando à taxa mais rápida dos últimos quatro anos. O frenesim e o medo que haviam dominado as instituições financeiras foi apaziguado, apesar de muitos analistas continuarem a não estarem seguros sobre se a resposta do Fed não fora demasiado pouca e demasiado tardia. São aqueles que acreditam que um colapso das instituições financeiras ainda está na forja.

O Federal Reserve Board, o banco dos banqueiros, actuou como a torneira do dinheiro de último recurso. Este banco é uma parte integral do mercado de acções e trabalha com os chefes dos maiores bancos, o líderes de outras bolsas e agências governamentais tais como a Securities and Exchange Commission. Ele é o principal catalizador na protecção do mercado de acções — o generalizador e barómetro intimamente conectado aos fundos de pensão, bancos, uniões de crédito, companhias de seguros e correctores de hipotecas. A Wall Street descansa mais tranquilamente — por enquanto.

O salvamento do mercado de acções pelo Fed conduzirá a uma maré inflacionária, a qual diluirá os padrões de vidas dos trabalhadores e dos oprimidos. O valor do seu trabalho, expresso em dólares baratos, tornará mais difícil para eles comprar o que produzem, num momento em que são afligidos pelo custo crescente de alimentos, energia, abrigo, educação e cuidados de saúde, além de estarem afogados em dívidas dos cartões de crédito e em arrestos.

O desemprego está em ascensão

Os trabalhadores e os oprimidos enfrentam inflação e estagnação. Temos actualmente o que parece ser uma retomada das condições que levaram ao crash do mercado de acções em Outubro de 1987, mas agora mais profundo e global. O mergulho do dólar desestabilizará os mercados globais de commodities, intensificará as tensões entre parceiros comerciais e desfará até mesmo acordos comerciais.

As ocupações do Iraque e do Afeganistão estão a deixar um rastro de morte, destruição e défices enormes. Sem considerar as suas dimensões, a crise do capitalismo fortalecerá a luta da classe trabalhadora e dos oprimidos e mudará o carácter da situação internacional.

23/Setembro/2007

[1] IOUs: Acordos escritos para a devolução de dívidas.

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O original encontra-se em http://www.workers.org/2007/editorials/economy-0927/

Este editorial encontra-se em http://resistir.info/ .
26/Set/07