A guerra de Trump ao povo norte-coreano
Em meio a novas conversas da administração Trump acerca de uma
opção militar contra a Coreia do Norte há um facto
importante que não é noticiado. Os Estados Unidos já
estão em guerra com a República Democrática e Popular da
Coreia (RDPC, o nome formal da Coreia do Norte). Eles fazem-na
através de meios não militares, com o objectivo de induzir o
colapso económico. Num certo sentido, esta política é uma
continuação da "estratégia da paciência"
da administração Obama com esteróides, em que esta junta
uma recusa a envolver-se na diplomacia à acumulação de
sanções que constitui uma punição colectiva a toda a
população norte-coreana.
Dizem-nos que a resolução 2375 do Conselho de Segurança da
ONU, aprovada em 11 de Setembro, foi "amenizada" de modo a obter o
acordo chinês e russo. Em termos relativos, isto é verdade, pois a
minuta original quando submetida às Nações Unidas apelava
a medidas extremas tais como embargo total de petróleo. Contudo, os
media ocidentais dão a impressão de que a resolução
tal como aprovada é moderada ou principalmente simbólica. Nada
poderia estar mais longe da verdade.
A resolução, em tandem com a sanção anterior e em
particular com a
resolução 2371
, de 5 de Agosto, destina-se directamente a infligir miséria
económica. Dentre outras coisas, as sanções de Agosto
proíbem a Coreia do Norte de exportar carvão, ferro,
minério de ferro, chumbo, minério de chumbo e produtos do mar,
commodities
chave do comércio internacional da nação. A
resolução também proíbe países de abrirem
novas joint ventures na RDPC ou expandirem as existentes.
A
resolução de Setembro
mais uma vez constrange a capacidade da Coreia do Norte de ocupar-se com
comércio internacional regular ao proibir a exportação de
têxteis. Estima-se que em conjunto as sanções eliminam 90
por cento dos ganhos de exportação da RDPC. As divisas
estrangeiras são essenciais para a operação regular de
qualquer economia moderna e responsáveis dos EUA esperam que ao bloquear
a capacidade da Coreia do Norte de ganhar suficientes divisas estrangeiras, as
resoluções tratarão de paralisar a economia. Para os
estimados
100 a 200 mil trabalhadores têxteis
da Coreia do Norte, o impacto será imediato, mergulhando a maior parte
deles no desemprego. Se o objectivo das sanções é criar
dificuldades para trabalhadores comuns e sua capacidade de ganhar a vida,
então uma proibição dos têxteis
funcionará", observa ironicamente o especialista Paul Tija.
Com cerca de oitenta por cento da sua terra em terreno montanhoso, a Coreia do
Norte tem uma quantidade limitada de terra arável e o país
tipicamente preenche o seu gap alimentar através de
importações. A redução drástica de chuvas
durante a estação de plantio de
Abril-Junho
deste ano reduziu a quantidade de água disponível para
irrigação e prejudicou a sementeira. A monitoragem de
satélite indica que os rendimentos das colheitas estão
provavelmente bem abaixo da norma. Para compensar o défice, a RDPC
aumentou significativamente as
importações
. Por quanto tempo ela pode continuar a fazer isso está para ser visto,
face às reservas minguantes de divisas externas. Com efeito, ao bloquear
a capacidade da Coreia do Norte de participar no comércio internacional
os Estados Unidos tiveram êxito em transformar alimentos em armas ao
negar à Coreia do Norte os meios de proporcionar um abastecimento
adequado ao seu povo.
A
resolução de Setembro
também impacta negativamente os meios de subsistência de
trabalhadores da Coreia do Norte no exterior, aos quais não será
permitido renovar seus contratos quanto expirarem. Eles só podem
aguardar serem expelidos dos seus empregos e expulsos dos seus lares.
A parceria internacional é desencorajada, pois a
resolução proíbe
"a abertura, manutenção e operação de todas
as joint ventures e entidades cooperativas, novas e existentes", o que de
facto mata permanentemente qualquer perspectiva quanto à reabertura do
Complexo Industrial Kaesong. Com apenas duas excepções, todas as
operações correntes são obrigadas a encerrar dentro de
quatro meses.
É imposto um limite à quantidade de petróleo que a Coreia
do Norte
pode importar
, a qual representa uma redução de 30 por cento em
relação aos níveis actuais, assim como uma
proibição total à importação de gás
natural e condensados. Muitas fábricas e instalações
manufactureiras podem ser forçadas a encerrar quando não mais
dispuserem de maquinaria operacional. Para a pessoa média, há
agruras pela frente quando o Inverno se aproxima e muitos lares e
escritórios não puderem mais ser aquecidos.
O que tem isto tudo a ver com o programa nuclear da Coreia do Norte? Nada. As
sanções são uma expressão de pura
malevolência. A vingança está a atingir todo cidadão
da Coreia do Norte para promover o objectivo estado-unidense de
dominação geopolítica da Ásia-Pacífico.
Tal como a Coreia do Norte, a Índia, Paquistão e Israel
não são signatários do tratado de não
proliferação nuclear e dispõem de arsenais nucleares e de
mísseis. A Índia e o Paquistão lançaram ICBMs no
princípio deste ano. A Coreia do Norte é destacada para
punição, ao passo que os outros recebem ajuda estado-unidense.
Não há aqui princípios em jogo. Quanto a isso, há
algo de indecoroso nos Estados Unidos, com mais de um milhar de testes
nucleares, a denunciar a Coreia do Norte pelos seus seis testes. Os EUA, tendo
lançado quatro ICBMs este ano, condenam a RDPC por lançar metade
daquele número. Não será absurdo que os Estados Unidos,
com o seu longo registo nos anos recentes de bombardeamentos, invasões,
ameaças e derrubes de governos de outros países acusem a Coreia
do Norte, a qual tem estado em paz durante várias décadas, de ser
uma ameaça internacional?
A Coreia do Norte observou o destino da Jugoslávia, Iraque e
Líbia e concluiu que só uma dissuasão nuclear poderia
impedir os Estados Unidos de atacá-la. É a
"ameaça" de a Coreia do Norte ser capaz de defender-se a si
própria que provocou a ira dos EUA numa escala espectacular.
A guerra dos EUA à Coreia do Norte não se limita às
sanções da ONU. Numa audiência recente, o presidente do
Comité de Assuntos Estrangeiros da Câmara
apelou a que bancos chineses que fizessem negócios comuns com a Coreia
do Norte a que fossem visados. "Podemos designar bancos e companhias
chinesas unilateralmente, dando-lhes uma escolha entre fazer negócios
com a Coreia do Norte ou os Estados Unidos... Não se trata apenas da
China. Deveríamos perseguir bancos e companhias em outros países
que mesmo assim façam negócios com a Coreia do Norte...
Deveríamos pressionar países a terminarem todo o comércio
com a Coreia do Norte".
Na mesma audiência, o
secretário assistente do Tesouro, Marshall Billingslea
, mencionou que em Junho o seu departamento havia trabalhado com o Departamento
da Justiça para por na lista negra a Independent Petroleum Company da
Rússia, bem como indivíduos e companhias associadas, por terem
despachado petróleo para a Coreia do Norte. Apesar do facto de naquele
momento não haver qualquer proibição a tal
comércio, os EUA apresaram cerca de US$7 milhões pertencentes
àquela companhia e seus parceiros.
A secretária de Estado assistente interina Susan Thornton foi, no
mínimo, mais agressiva na sua retórica do que seu colegas,
anunciando
que "continuaremos a apelar a todos os países para cortarem
laços comerciais com Pyongyang a fim de aumentar o isolamento financeiro
da Coreia do Norte e deter suas fontes de receitas". Ela preveniu a China
e a Rússia de que devem anuir às exigências
estado-unidenses, advertindo-os de que se "não actuarem,
utilizaremos as ferramentas que temos à nossa disposição.
Só no mês passado ensaiamos novas sanções destinadas
a indivíduos e entidades russos e chineses que apoiam a RDPC".
O secretário do Tesouro Steven Mnuchin também distribui
ameaças, assim como
adverte a China
de que suas acções contra a Coreia do Norte deixarem de cumprir
expectativas dos EUA "aplicaremos sanções adicionais sobre
eles e os impediremos de ter acesso aos EUA e ao sistema internacional do
dólar". Uma vez que todas as transacções financeiras
internacionais são processadas através do sistema bancário
estado-unidense, esta ameaça é o equivalente a fechar a
capacidade de Pequim de efectuar comércio com qualquer país.
É uma ameaça um tanto extravagante e sem dúvida de
êxito difícil, mas mostra que a administração Trump
é tão imprudente que considera tal empreendimento.
Não há nada de ilegal ou proibido em um país comerciar com
a Coreia Norte mercadorias não proibida. Mas um bloqueio comercial total
é o que Washington procura. Responsáveis dos EUA estão a
preparar sanções contra bancos e companhias estrangeiras que
fazem negócios com a Coreia do Norte. "Pretendemos negar ao regime
suas últimas fontes remanescentes de receita, a menos que ele inverta
sua rota e se desnuclearize",
adverte sombriamente
Billingslea. "Aqueles que colaboram com eles estão a expor-se a
enorme perigo". Na essência, Washington está a incorrer num
esquema internacional de extorsão: dê-nos o que exigimos ou o
prejudicaremos. Isto é gangsterismo como política externa.
A China opôs-se às sanções que a
administração Trump apresentou em Setembro no Conselho de
Segurança. Contudo, segundo responsáveis dos EUA e ONU, os
Estados Unidos conseguiram
extorquir a concordância da China
ameaçando atingir negócios chineses com sanções
secundárias.
Antes da votação de Agosto, ameaças semelhantes foram
transmitidas a diplomatas chineses no U.S.-China Comprehensive Economic
Dialogue, quando responsáveis dos EUA indicaram que dez negócios
e indivíduos seriam
sancionados
se a China não votasse a favor de sanções.
Como uma advertência, em Junho os EUA sancionaram o
banco chinês
de
Dandong
, levando firmas ocidentais a romperem contactos com a
instituição.
As ameaças de Washington levaram a China a implementar passos no
âmbito financeiro que excedem o que está estabelecido pelas
resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Os
maiores bancos da China
proibiram indivíduos e entidades norte-coreanas de abrirem novas contas
e algumas firmas não estão a permitir depósitos em contas
existentes. Não há proibição da ONU a que
norte-coreanos abram contas no exterior, de modo que esta acção
é encarada como uma medida pró-activa de bancos chineses para
evitar tornarem-se
alvo de sanções estado-unidenses
.
As
exigências
nunca acabam, não importa quanto a China ceda. O secretário de
Estado dos EUA, Rex Tillerson, insistiu recentemente em que a China imponha um
embargo total de petróleo à Coreia do Norte. A China recusou-se a
fazê-lo, mas pode esperar ser sujeita à pressão crescente
dos EUA nas próximas semanas.
Responsáveis estado-unidenses estão a espalhar-se por todo o
globo, procurando persuadir ou ameaçar outros países para que se
juntem à cruzada anti-RDPC. Uma vez que a maior parte dos países
perdem muito mais ao desagradar os EUA do que a terminar um relacionamento
antigo com a RDPC, a campanha está a ter um efeito.
Em Abril, a Índia proibiu todo comércio com a Coreia do Norte,
com excepção de alimentos e remédios. Esta
acção não foi suficiente para satisfazer a
administração Trump, a qual enviou responsáveis a Nova
Delhi para pedir-lhe o
corte de contactos diplomáticos
com a RDPC e para ajudar a monitorar actividades económicas
norte-coreanas na região. As
Filipinas
, sua vez, responderam às exigências dos EUA suspendendo toda
actividade comercial com a Coreia do Norte. O
México
e o
Peru
estão entre os países que estão a expulsar diplomatas
norte-coreanos, na base arbitrária de responder a directivas
estado-unidenses. Além de anunciar que reduziria a equipe
diplomática da Coreia do Norte, o
Kuwait
disse também que não emitiria mais vistos para cidadãos
norte-coreanos.
Muitos
países africanos
têm relações cálidas com a RDPC, que remontam ao
período das lutas de libertação do continente.
Responsáveis dos EUA estão a concentrar atenção
sobre a África e vários países actualmente estão
sob investigação pelas Nações Unidas pelo seu
comércio com a Coreia do Norte. O pedido de corte de
relações com a Coreia do Norte não é fácil
de vender para Washington, pois os africanos recordam os EUA por terem apoiado
regimes de apartheid, ao passo que a
RDPC apoiou
lutas de libertação africanas. "Nossa perspectiva do mundo
foi determinada por quem esteve do nosso lado durante o momento mais crucial da
nossa luta e a Coreia do Norte estava connosco", afirma Tuliameni Kalomoh,
responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros da
Namíbia. Isto não é a espécie de linguagem que
Washington gosta de ouvir. O poder económico dos EUA é suficiente
para arruinar qualquer pequeno país e, com pouco opção no
assunto, a
Namíbia
cancelou todos os contratos com firmas norte-coreanas.
O Egipto e Uganda estão entre os países que cortaram laços
com a RDPC e espera-se que outros os sigam, pois os Estados Unidos aumentam o
calor. Fora das Nações Unidas, a administração
Trump está sistematicamente a erguer um bloqueio comercial total contra
a Coreia do Norte. Através destes meios, os EUA esperam que a Coreia do
Norte capitule. Tal objectivo tem como premissa uma grave falha de julgamento
quanto ao carácter norte-coreano.
A administração Trump afirma que as sanções da ONU
e sua política de pressão máxima destinam-se a trazer a
Coreia do Norte à mesa de negociações. Mas não
é a RDPC que precisa ser persuadida a conversar. O presidente Trump
tuitou "Conversar não é a resposta!"
("Talking is not the answer!)
O porta-voz do Departamento de Estado,
Heather Nauert
, estabeleceu uma condição estrita para
negociações. "Para nos empenharmos em
conversações com a RDPC eles teriam de se desnuclearizar". A
exigência à Coreia do Norte de dar aos EUA tudo o que quer
à partida, sem receber nada em troca, como condição
prévia para conversações, é uma óbvia
impossibilidade que tem de ser encarada como uma receita para evitar a
diplomacia.
A Coreia do Norte contactou a administração Obama em
várias ocasiões e solicitou conversações, só
para ser rejeitada a cada vez e ouvir que precisava desnuclearizar. Esta triste
desconexão continua sob Trump.
Em Maio
, a RDPC informou aos Estados Unidos que cessaria testes nucleares e de
mísseis se os EUA abandonassem sua política hostil e
sanções, assim como assinassem um tratado de paz pondo fim da
Guerra da Coreia. Os EUA poderiam não se ter preocupado com as
condições, mas poderiam ter sugerido ajustamentos, se a isto
estivessem inclinados. Certamente era uma abertura que poderia ter levado ao
diálogo.
Não é diplomacia que a administração Trump procura,
mas sim o esmagamento da Coreia do Norte. Se a razão ostensiva para
sanções da ONU é persuadir um parte relutante a negociar,
então só se pode concluir que o país errado está a
ser sancionado. O porta-voz do Ministério dos Negócios
Estrangeiros chinês,
Hua Chunying
, foi mordaz na sua crítica a líderes americanos e
britânicos: "Eles são os mais ruidosos quanto a
sanções, mas não são encontrados em parte alguma
quando chega a vez de fazer esforços para promover
conversações de paz. Eles nada têm a ver com
responsabilidade". Os meses pela frente parecem negros. A menos que a
China e a Rússia possam encontrar um meio de se oporem aos
desígnios dos EUA sem se tornarem alvos eles próprios, o povo
norte-coreano ficará sozinho e arcará o fardo da malícia
de Trump. Diz algo do seu carácter o facto de se recusarem a ser
intimidados.
23/Setembro/2017
[*]
Membro do Comité de Solidariedade para a Democracia e a Paz na Coreia,
colaborador de
ZoominKorea
, membro da
Task Force to Stop THAAD in Korea and Militarism in Asia and the Pacific
. Seu sítio web é
gregoryelich.org
O original encontra-se em
www.zoominkorea.org/trumps-war-on-the-north-korean-people/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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