Numa entrevista em meados de Outubro, um responsável não
identificado do governo norte-coreano
disse à CNN
: "Antes que possamos iniciar conversações
diplomáticas com a administração Trump queremos enviar uma
mensagem clara de que a RDPC tem uma capacidade defensiva e ofensiva
confiável para deter qualquer agressão dos Estados Unidos".
Esta mensagem clara, disse o responsável, incluía dois passos.
Primeiro a demonstração com êxito que possa alcançar
a Costa Leste dos Estados Unidos. O segundo é uma
detonação acima do solo.
O primeiro passo da "mensagem" da Coreia do Norte a Trump
aparentemente foi cumprido com o teste de 29 de Novembro de um ICBM (o
Hwasong-15
). Aquele lançamento levou o conselheiro de segurança nacional H.
R. McMaster a advertir que o risco de guerra estava "a aumentar dia a
dia". O
senador Lindsey Graham
disse: "Estamos a aproximar-nos de um conflito militar" e que
"estamos a esgotar o tempo" antes de uma guerra poder começar.
(Uma semana antes, o senador explicara aquilo que pensava que dispararia uma
guerra.)
Se o limiar para a guerra é a confirmação de que a Coreia
do Norte tem meramente a capacidade de atacar os Estados Unidos com uma arma
nuclear em oposição a um lançamento real ou
iminente de uma tal arma então um teste acima do solo poderia
disparar a guerra. Kim Jong-un, entretanto, pode calcular que é
necessário demonstrar esta capacidade para a sua sobrevivência.
Responsáveis norte-coreanos acreditam que a
fraqueza fatal de Saddam Hussein
em 1991 e em 2003 foi não ter um dissuasor para impedir a
invasão de forças dos EUA. Tivesse Saddam Hussein disposto de uma
arma nuclear naquele tempo, ambos os ataques poderiam ter sido impedidos pela
ameaça de ataques a forças estado-unidense ou da própria
América. Kim pode raciocinar, assim, que deve demonstrar conclusivamente
que tem tanto um míssil confiável como uma ogiva nuclear em
funcionamento para impedir qualquer ataque dos EUA.
Entretanto, se Trump ouvisse conselheiros falcões e ordenasse um ataque
militar preventivo, ele pode incitar Pyongyang a utilizar uma das suas armas
nucleares de alcance curto ou intermediário sobre o território
dos EUA ou pessoal no exterior.
É instrutivo recordar que em 1962, a maior parte dos líderes
militares sénior da América aconselharam o presidente Kennedy a
lançar um
ataque militar preventivo
antes de os mísseis soviéticos de longo alcance se tornarem
operacionais mas o que eles não sabiam naquele tempo era que a
URSS já tinha mísseis nucleares
plenamente operacionais
que podiam ter devastado qualquer cidade no sul dos Estados Unidos.
Se Kennedy tivesse então ouvido os falcões e aprovado o ataque
preventivo, isto podia ter incitado Moscovo a trazer a guerra nuclear aos
Estados Unidos continental, destruindo algumas cidades americanas como
retaliação. Hoje, as agências de inteligência dos EUA
não sabem quantos mísseis nucleares operacionais a Coreia do
Norte já pode ter. Se o presidente Trump fosse ouvir os falcões e
lançar ataques preventivos, a catástrofe nuclear evitada por
Kennedy poderia agora ser lançada sobre cidadãos dos EUA. As
apostas não poderiam ser mais altas e uma guerra que pudesse
impor perdas catastróficas à nação não pode
ser deixada à decisão de uma única pessoa.
O Congresso é o único corpo com poderes para declarar guerra.
Portanto, é de suprema importância que o Congresso comece
imediatamente a debater o assunto agora, enquanto ainda há tempo para
considerar cuidadosamente qual o curso de acção a apoiar.
O Congresso deve decidir o activador
(trigger)
para iniciar acção militar contra a Coreia do Norte. Será
a mera posse de armas, ou deveríamos nós atacar apenas para
evitar um ataque iminente? Qualquer análise custo-benefício
mostra que a dissuasão funciona, de modo que deveríamos utilizar
força militar só como um último recurso.
O senador Graham e seus aliados acreditam que o custo de uma guerra preventiva
é um preço que vale a pena pagar. Como
explicado
por Barry Posen no
New York Times:
"A detonação de mesmo um pequeno número de armas
nucleares na Coreia do Norte produziria resultados infernais. ... Os Estados
Unidos fariam de si próprios um pária internacional durante
décadas, senão séculos. É inteiramente
possível que o pessoal militar americano resistisse mesmo à ordem
para executar um tal ataque. Por razões estratégicas,
humanitárias e constitucionais, uma opção de primeiro
ataque nuclear não deveria mesmo estar sobre a mesa (além da de
evitar um ataque nuclear iminente da Coreia do Norte)".
A possibilidade uma guerra contra a Coreia do Norte que pudesse transformar-se
em nuclear é de tantas consequências que o Congresso não se
atreve a abdicar da decisão para uma única pessoa. A
América deve debater as duas opções políticas
disponíveis. Por um lado, há a dissuasão e a diplomacia,
baseada na nossa esmagadora superioridade convencional e nuclear. Por outro
lado, a guerra preventiva, que seria catastrófica, custaria centenas de
milhares de vidas humanas, prejudicaria seriamente a economia global e a nossa
própria prosperidade, e mudaria a geopolítica para sempre
simplesmente para remover uma capacidade que de modo crível não
será utilizada contra a Coreia do Sul, muito menos os Estados Unidos.
O povo deste país merece ouvir o presidente expor o seu caso
publicamente e a seguir ter os seus representantes a debaterem abertamente a
sabedoria de um tal curso de acção. Os americanos devem estar
conscientes dos riscos que se lhes pede que assumam. Os custos potenciais da
guerra nuclear são demasiado terríficos para serem impostos sobre
um povo sem o seu consentimento.
19/Dezembro/2017
[*]
Perito em Prioridades da Defesa e tenente-coronel do Exército dos EUA
reformado em 2015 após 21 anos de serviço incluindo quatro
deslocações em combate.
O original encontra-se em
nationalinterest.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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