EUA devem devolver à Colômbia seu prisioneiro político
Simón Trinidad
Violência e oligarquia assassinas estiveram no centro da vida
política colombiana ao longo de todo o século XX. Milhões
de
colombianos foram marginalizados, empobrecidos e / ou deslocados de pequenas
propriedades. A violência e os fracassos da democracia liberal fizeram de
Simón Trinidad um revolucionário. Poucos nos Estados Unidos e na
Europa sabem dele. Os aliados da Colômbia em ambos os lados ignoram o
regime terrorista colombiano.
Simón Trinidad importa; chegou a hora dele. Este líder das
antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC)
enfrentou acusações criminais bizarras e sem fundamento num
tribunal dos EUA. Ele está preso em condições
cruéis numa
prisão federal em Florence
, Colorado. Morrerá ali, a menos que seja libertado. Simón
Trinidad completará 70 anos em 30 de Julho.
Uma campanha internacional está a exigir que o governo dos EUA devolva
Simón Trinidad à Colômbia. A seguir, um apelo em nome dessa
campanha. Aqui estão alguns factos:
-
O seu nome de nascimento é Ricardo Palmera. Sua família era
formada por advogados, políticos e proprietários de terras e
residia em Valledupar, departamento de Cesar, Colômbia. Ali, Palmera
trabalhou como banqueiro, ensinou economia numa universidade regional e
administrou as propriedades agrícolas da sua família. Afiliado ao
Partido Liberal, ele era favorável à reforma agrária.
Então Palmera ingressou na União Patriótica, de esquerda,
constituída em 1985.
-
Essa coligação eleitoral foi imediatamente sufocada pela
violência e por assassinatos. Os camaradas próximos de Palmera
estavam a ser mortos. Outros partiram para o exílio. Em 11 de Outubro de
1987, assassinos mataram o candidato presidencial da União
Patriótica Jaime Pardo Leal, alguém que Palmera admirava muito.
Ao descobrir que também estava prestes a ser morto, Palmera deixou
Valledupar e aderiu às FARC. Ele adoptou o nome de Simón Trinidad.
-
Nesta insurgência, Trinidad era responsável pela propaganda e
educação política. Ele actuou como negociador da paz. Em
Dezembro de 2003, Trinidad estava no Equador a preparar-se para se reunir com o
responsável das Nações Unidas, James Lemoyne, a fim de
discutir os planos das FARC de libertar reféns. Em 2 de Janeiro de 2004,
foi preso naquele país com a ajuda da CIA e dois dias
depois foi entregue à Colômbia. Ficou sob custódia
até 31 de Dezembro de 2004, quando o governo colombiano o extraditou
para os Estados Unidos.
-
Simón Trinidad enfrentou quatro julgamentos de júri entre Outubro
de 2006 e Abril de 2008. O primeiro julgamento terminou num impasse do
júri, o segundo condenou-o e o terceiro e quarto julgamentos terminaram
com júris num beco sem saída por acusações falsas
de tráfico de drogas. A sua condenação foi por ter
conspirado com outros membros das FARC terroristas aos olhos do governo
dos EUA para capturar e manter reféns três contratados da
guerra às drogas dos EUA.
-
O primeiro juiz de Trinidad foi substituído depois de ter entrevistado
ilegalmente jurados para obter informações potencialmente
úteis aos promotores no seu segundo julgamento.
-
O novo juiz sentenciou Simón Trinidad a 60 anos de prisão, 20
anos para cada um dos três contratados norte-americanos mantidos
reféns pelas FARC. Trinidad tinha então 57 anos.
-
Ele está a cumprir sua sentença numa prisão federal
"supermax" dos EUA. Trinidad permaneceu em confinamento
solitário desde que chegou aos Estados Unidos até 2018.
Actualmente ele pode comer a refeição do meio-dia num
refeitório. Está proibido de receber cartas, emails ou jornais.
As chamadas telefónicas são limitadas. Os visitantes são
raros e muito poucos, além dos advogados americanos.
As negociações de paz entre as FARC e o governo colombiano
ocorreram em Havana de 2012 a 2016. A delegação das FARC procurou
a presença de Simón Trinidad lá como porta-voz e
negociador. O governo da Colômbia nunca solicitou às autoridades
de Washington que o libertassem para esse fim. Não há
indicação de que o último teria feito isso.
O acordo de paz final previa uma "Jurisdição Especial para a
Paz". Lá, ex-combatentes de ambos os lados do conflito têm a
oportunidade, se quiserem, de falar a verdade sobre os crimes que podem ter
cometido e o tribunal decidir por perdão ou punição.
Simón Trinidad escolheu participar. Para fazer isso, ele precisa estar
na Colômbia.
A defesa
Como alguém que buscava justiça para os oprimidos e era fiel aos
seus princípios, Trinidad agora pede justiça para si
próprio. Alguns activistas da solidariedade podem justificar seu apoio a
ele com base em apenas um ou dois aspectos de sua vida política. Na
verdade, há uma lista completa de boas razões para exigir que o
governo dos EUA devolva Simón Trinidad à Colômbia.
1. O governo dos EUA deve permitir que
Simón Trinidad compareça
perante a Jurisdição Especial para a Paz. Desse modo, mostraria
respeito pelo Acordo de Paz entre as FARC e o governo colombiano.
2. O governo dos EUA violou os direitos legais e
humanos básicos de
Trinidad. Trinidad foi extraditado como traficante de drogas, o que ele nunca
foi. Foi acusado de rebelião, o que é um crime político.
Os tratados de extradição e a lei internacional de direitos
humanos proíbem a extradição por crimes políticos.
O governo dos EUA submeteu Trinidad a processos judiciais irregulares. Seu juiz
aplicou uma sentença excessivamente selvagem a um crime que não
cometeu. Suas condições de prisão são desumanas.
3. A intervenção dos EUA na
Colômbia provocou os
maus-tratos sofridos por Simón Trinidad nas mãos dos EUA. Seu
resgate teria implicações anti-imperialistas. O governo dos EUA
há muito presta assistência militar à Colômbia,
principalmente por meio de seu Plano Colômbia, em vigor após 2000.
Se bem que visasse ostensivamente os traficantes de drogas, o Plano
Colômbia era apontado às FARC. Como negociador de paz das FARC
altamente visível nas negociações com o governo colombiano
em Caguán (1999-2001), Simón Trinidad tornou-se um prisioneiro
troféu. O Plano Colômbia preparou o terreno, tendo ajudado a
torpedear as negociações de paz.
Aparentemente a captura e extradição de Trinidad, revelava a
natureza impositiva
(top-down)
das relações imperialistas com as nações clientes.
Talvez para agradar o seu patrão, o governo da Colômbia quase
imediatamente sinalizou sua intenção de extraditar Trinidad para
os Estados Unidos, antes mesmo de ter sido anunciada uma acusação
criminal. E a oposição política da Colômbia afirma
sistematicamente que a soberania nacional é diminuída toda as
vezes que prisioneiros como Simón Trinidad são encaminhados aos
Estados Unidos para processo e punição.
4. Activistas solidários de muitos
países há muito admiram
os trabalhadores e os marginalizados da Colômbia que se levantam contra
uma classe dominante dedicada à pilhagem e à opressão.
Eles assim o fizeram ao juntarem-se a movimentos de resistência
indígenas e afro-colombianos, sindicatos, partidos políticos de
esquerda, a FARC e outras insurgências. Simón Trinidad estava
nessa luta. Também com base nisso, ele merece apoio na sua campanha para
retornar à Colômbia.
5. Simón Trinidad foi e é um
revolucionário. A tarefa dos
progressistas em toda a parte é combater a opressão e a
injustiça. Mas agora muitos deles estão aprendendo a verdade
sobre o capitalismo. Eles vêem mudanças climáticas no
horizonte, mas o colapso pandémico e económico já
está aqui. Muitos dos que agora abraçam a opção
revolucionária têm boas razões para estar ao lado de
Simón Trinidad.
Como membro das FARC, Simón Trinidad viu a violência contra a
União Patriótica transformar-se num massacre. Muitas das
vítimas de assassinato, estimadas 5000, eram antigos membros das FARC
que participavam em actividades políticas eleitorais. A
violência assassina e a guerra entre ricos e pobres ainda estão no
centro da política colombiana. Após a assinatura do Acordo de
Paz, assassinos mataram mais de 200 ex-combatentes das FARC e centenas de
líderes políticos e comunitários, sobretudo nas
áreas rurais. O governo dos EUA, aliado aos partidários da
violência na Colômbia, é cúmplice.
Essa violência ajudou a colocar Simón Trinidad no caminho
revolucionário. Uma boa maneira de demonstrar repulsa à
promoção estado-unidense da violência na Colômbia
é aderir à luta pelo imediato retorno de Simón Trinidad
à Colômbia.
25/Junho/2020
Para mais informações sobre a campanha pelo retorno de
Simón Trinidad à Colômbia, acesse
https://www.libertadsimontrinidad.com/
. Para perguntas ou ofertas de apoio contacte
simontrinidadlibre[arroba]gmail.com.
Ver também:
Que cesse a farsa da guerra contra o narcotráfico
[*]
Jornalista, estado-unidense. Seu foco é a América Latina,
assistência médica e anti-racismo. Activista solidário de
Cuba, trabalhou anteriormente como pediatra.
O original encontra-se em
mronline.org/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
.
|