O rosto armado do neoliberalismo
O livro de Jasmin Hristov é uma exploração da
história e da evolução das forças paramilitares
armadas na Colômbia, concentrando-se sobretudo nos últimos vinte
anos. Declara a sua intenção de "apresentar um modelo de um
aparelho de estado coercivo do século XXI, sob a capa de um regime
formalmente democrático, explorando a estrutura e as
funções desse aparelho, as condições que o tornaram
necessário, e a sua capacidade para evoluir em novas formas" (p.
xi). A especial atenção prestada a este período não
só torna este livro particularmente relevante para uma
compreensão da actual situação neste belo e
catastrófico país, mas também realça um dos seus
pontos centrais: a relação intrínseca entre
paramilitarismo e capitalismo neoliberal. A combinação do
neoliberalismo e das forças paramilitares, embora expressa de forma
talvez mais drástica na Colômbia, também está
presente em toda a região. O realce desta ligação, mesmo
que seja através do seu exemplo mais extremo, tem
implicações de longo alcance para compreender um aspecto
fundamental da economia neoliberal tal como está a ser aplicada na
América latina a expropriação à força
dos meios de subsistência a grandes grupos de pessoas estruturalmente em
desvantagem.
Depois de descrever a aplicação do neoliberalismo dentro da
evolução histórica particular do contexto
sociopolítico e económico da Colômbia (capítulo 1),
Hristov pormenoriza as características actuais do que designa por
"Aparelho de estado coercivo", ou SCA [
State coercive apparatus
] (capítulo 2). Neste, inclui o paramilitarismo (capítulos 3 e
5), definido como "o uso da violência para promover os interesses
económicos dum determinado sector da sociedade com a tolerância ou
apoio do estado" (p. 60). O livro mostra a função dupla da
violência na Colômbia contemporânea um instrumento
para suprimir a oposição e uma ferramenta para enriquecer alguns
privilegiados. Conforme faz notar, tem sido bem documentado o papel que os
grupos paramilitares, tecnicamente ilegais mas activamente apoiados na
prática, desempenham na ampla violação dos direitos
humanos e na repressão da oposição que é um dos
seus objectivos. O livro, ao mesmo tempo que descreve estas
características, apresenta uma visão das formas em que esta
violência facilita directamente a aquisição de recursos, e
a subsequente concentração de riqueza nas mãos duma
pequena classe elitista. Esta atenção é uma das maiores e
mais importantes contribuições do livro, tanto para o estudo dos
direitos humanos como para a compreensão da actual
situação política e económica na Colômbia,
com implicações muito para além das suas fronteiras.
Ao concentrar-se na violência paramilitar na Colômbia, Hristov
assume como seu tema principal uma das situações mais graves para
a violação dum amplo espectro de direitos humanos no mundo
contemporâneo. Inclui proveitosamente exemplos concretos ao longo de todo
o livro para mostrar como a violência beneficia a classe capitalista ao
mesmo tempo que empobrece a maioria trabalhadora (e, acrescentaria eu, os
estruturalmente desempregados). Mas procura evitar permitir que os actos de
violência se tornem no único ponto de atenção, e
afirma que as obras que fazem isso correm o risco de obscurecer de facto os
motores subjacentes a essas atrocidades. Esse tipo de abordagem
descontextualizada, diz ela, é "incapaz de identificar os modos
pelos quais a actual estrutura de classes profundamente desigual alimenta a
violência
Separar a violência da totalidade das
relações sociais em que está inserida assim como dos
fundamentos materiais da sociedade da qual ela emerge, limita profundamente a
compreensão das forças que a movem" (p. 11).
Embora a sua intenção seja levar o estudo dos direitos humanos
para além da violência e das suas violações, o livro
de Hristov só parcialmente atinge esse objectivo. O livro baseia-se em
listas de violações de direitos humanos específicos,
tiradas sobretudo de fontes dos meios de comunicação e
apresentadas como uma forma de expor as realidades concretas de violência
para vítimas individuais (em especial o capítulo 4). Certamente
que esta intenção é salutar, principalmente quando
enquadrada, como faz Hristov, como parte de um objectivo mais geral de realizar
uma investigação social em formas que sirvam para transformar as
condições materiais, inspiradas no mandamento de Paulo Freire de
permitir que as principais questões "surjam da realidade social
concreta dos protagonistas no conflito colombiano" (p. xi). Apesar de
tudo, é um problema descrever uma situação em que os
"factos" são tão difíceis de vir a lume e
tão facilmente manipulados. Não digo isto para pôr em
dúvida a veracidade de qualquer das situações que ela
apresenta; as fontes em que se baseia realizaram a tarefa perigosa e essencial
de documentar casos de violência perpetrada por poderosos actores. Mas
duma perspectiva analítica, a quantidade de espaço que ela dedica
a repetir os casos noticiados por agências noticiosas independentes e
ONG's parece falhar o alvo. Mais do que uma contribuição para
estabelecer a "verdade" através dos factos, parece que a
análise poderia ter sido mais frutuosa se fosse centrada em como
funciona a circulação dos "factos" e os efeitos que
isso tem.
Pela mesma ordem de ideias, Hristov dá pistas mas não prossegue
através de algumas das outras questões envolvidas na
discussão dos direitos humanos na Colômbia. Conforme assinala, os
discursos dos direitos humanos são distribuídos por numerosos
grupos dentro e por toda a nação, de um modo que satisfaz
cuidadosamente as suas próprias agendas. Um exemplo gritante é
fornecido pela administração de Alvaro Uribe, que simultaneamente
proclama que a segurança dos cidadãos é um direito humano
que o estado deve proteger, enquanto acusa os que apelam para a necessidade de
respeitar outros direitos humanos de estarem a agir ao serviço da
guerrilha, tentando manietar as mãos do estado. Alguns extractos desses
discursos contraditórios sobre os direitos humanos no livro deixam
questões em aberto, maduras para exploração mais
aprofundada.
Hristov faz um uso eficaz de imagens etnográficas ao descrever os
efeitos dos macro-procedimentos do conflito armado nas vidas das pessoas
individuais, uma adição que ilustra proveitosamente a
micro-dimensão das questões que levanta. Podia ter sido dada mais
atenção às dinâmicas variáveis desta
micro-dimensão, em que conjuntos de interesses de
situações competitivas e mesmo internamente contraditórias
apresentam cada indivíduo/grupo envolvido com uma determinada estrutura
de oportunidade em cada ponto de junção. Concentrando a
análise nestas redes instáveis talvez tivesse revelado mais
coisas sobre os modos como estes interesses descentralizados e competitivos
alimentam o sistema, para além e em conjunção com a
aplicação do neoliberalismo. A referência a outros autores
que se dedicaram a descrever as complicadas dinâmicas em jogo que
perpetuam os ciclos de violência mantém-se notoriamente ausente ou
pouco explorada, limitando o empenhamento do livro com debates
académicos altamente relevantes.
Este livro tem um papel vital na denúncia da propaganda e da
desinformação que circula tão abundantemente nos meios de
comunicação de língua inglesa, incluindo as
descrições do recente processo de
"desmilitarização", que aparentemente desmantelou a
estrutura das forças paramilitares mas que, conforme expõe em
pormenor, apenas resultou na sua adopção de novas formas. Surge
como uma importante compilação de fontes dos meios de
comunicação e de notícias que não jogam com a
narrativa dominante sobre a Colômbia, como é frequentemente
apresentada e construída nos meios de comunicação
americanos dominantes e nas notícias do governo. Além disso,
Hristov pormenoriza cuidadosamente as características estruturais do
actual sistema político e económico da Colômbia que,
conforme argumenta convincentemente, funciona como "um aparelho de
coerção do século vinte e um favorecido por um regime
democrático" (p. 202). Inclui um capítulo detalhado sobre a
história, objectivos e repressão de um grupo indígena
activista, o Consejo Regional Indígena de Cauca (CRIC) (capítulo
6), capacitando os leitores a apreciar as dificuldades envolvidas em qualquer
tentativa de resistir à apropriação de terras e recursos.
Acessível a um público genérico, o livro é uma
valiosa descrição da violência e das muitas
violações dos direitos humanos em formas que revelam mais do que
obscurecem as raízes e as causas da perpetuação do
conflito. Tornando explícitas as conexões entre políticas
neoliberais e paramilitarismo, e o uso da violência como meio de
aquisição de recursos e facilitação de um clima
para a sua continuação, Hristov refuta poderosamente as
tentativas de simplificar exageradamente o conflito na Colômbia e a sua
justificação como fazendo parte da "guerra contra o
terrorismo". A recente recertificação do registo dos
direitos humanos da Colômbia feita pelo Departamento de Estado dos EUA
(Setembro de 2009) e a aprovação pelos governos dos EUA e da
Colômbia da utilização de sete instalações
militares colombianas pelo pessoal militar americano (Agosto de 2009) torna
esta compreensão ainda mais vital, e este seu livro ainda mais
actualizado e relevante.
[*]
Professor Adjunto no Departamento de História e Antropologia da
Universidade Carnegie Mellon.
Jasmin Hristov.
Blood and Capital: The Paramilitarization of Colombia
. Ohio University Research in International Studies Series. Athens: Ohio
University Press, 2009. xxiii + 263 pp. 28.00 (paper), ISBN 978-0-89680-267-4.
O original encontra-se em:
http://mrzine.monthlyreview.org/faulk031109.html
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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