A mafiocracia colombiana

por Carlos Fazio

Um. A Colômbia hoje é um para-Estado de tipo delinquente e mafioso. Álvaro Uribe é o primeiro presidente dos narcotraficantes e dos paramilitares. A simbiose entre paramilitarismo, narcotráfico e uma ideologia neofascista para combater as guerrilhas das FARC e do ELN, bem como outras expressões do povo organizado, apoderou-se dos ramos do poder público e das instituições. Durante os seus dois mandatos, Uribe legalizou e institucionalizou o paramilitarismo e suas estruturas económicas e armadas, que foram incorporadas à maquinaria de guerra oficial. Além de favorecer os negócios criminais e oferecer protecção estatal às máfias da narcoparapolítica, Uribe pratica o terrorismo de Estado e a luta contra-insurgente em benefício de uma oligarquia genocida e classista e de grandes companhias multinacionais.

O ministro da Defesa de Uribe. O Plano Colômbia dos Estados Unidos e a política de "segurança democrática" de Uribe são um mesmo plano de guerra. À oligarquia, à Uribe e à família Santos (à qual pertencem o vice-presidente e o ministro da Defesa) não interessa acabar com o conflito armado porque se beneficiam com o actual modelo de dominação e acumulação capitalista. A George W. Bush tão pouco, porque a sua administração e a anterior militarizaram a Colômbia e converteram-na num porta-aviões terrestre do Pentágono para a desestabilização e recolonização da América do Sul. O principal paradigma do regime militarista de Uribe é o chefe do Exército, general Mario Montoya, herói da Operação Xeque, o que abraçou e beijou Ingrid Betancourt após a sua libertação.

Conhecido carniceiro, homem de Washington, Montoya foi o criador de uma unidade terrorista clandestina (a Aliança Anticomunista Americana) e, como chefe castrense, participou em matanças de civis nos departamentos de Putumayo e Chocó, e na cidade de Medellín. Mais de 15 mil desaparecidos, 3500 fossas comuns, 4 milhões de deslocados de guerra e assassinato de 1700 indígenas, 2550 sindicalistas e mais de 5000 membros da União Patriótica revelam a "democracia" colombiana.

Dois. Ainda que falte muito por esclarecer depois da ópera bufa protagonizada pelas autoridades colombianas, a participação directa de militares e agentes de inteligência dos Estados Unidos e Israel, e provavelmente a França, na operação clandestina que "resgatou" 15 prisioneiros de guerra das FARC – dentre eles Ingrid Betancourt e tês agentes encobertos de Washington –, pôs em evidência que na Colômbia se está a jogar algo mais que um conflito interno. A novidade é que pela primeira vez, de maneira pública e notória, a administração Bush admitiu que está metida directamente no conflito.

O Pentágono e o seu peão Uribe travam uma guerra psicológica na Colômbia. Nada na Operação Xeque esteve entregue à improvisação. O manejo da informação-desinformação pelos seus planeadores seguiu pautas e tempos predeterminados no contexto de uma propaganda de guerra. Como diz Luís Britto, hoje, inclusive as guerras de libertação "não se combatem já nos campos de batalha e sim nos écrans". Também é certo que nenhum conflito, inclusive o colombiano, se resolve com decretos mediáticos e colocações em cena hollywoodescas.

O embaixador dos Estados Unidos na Colômbia, William Brownfield, declarou que o resultado da operação foi produto de uma "intensa cooperação militar" entre o Pentágono e o alto comando militar colombiano, equiparando inclusive essa aliança com a que Washington mantém com os militares europeus da NATO. "Os satélites espiões (estado-unidenses) ajudaram a localizar os reféns (os militares colombianos), instalaram equipes de vigilância de vídeo proporcionados pelos Estados Unidos, que podem fazer aproximações e tomadas panorâmicas operadas por controle remoto ao longo de rios, única rota de transporte através de densas zonas selváticas (...) aviões de reconhecimento (dos Estados Unidos) interceptaram conversações por rádio e telefone satelital dos rebeldes e empregaram imagens que podem penetrar através da folhagem da selva", admitiram fontes governamentais em Washington. É óbvio que Brownfield não sofreu um ataque de espontaneidade. Tão pouco o porta-voz do Conselho de Segurança estado-unidense Gordon Johndroe, nem o chefe do Comando Sul, almirante James Stavridis, os quais reconheceram que o governo de Bush proporcionou "ajuda específica" para a operação.

A participação do Mossad e do Shin Beht (os serviços secreto israelenses) também ganhou maior visibilidade. Em particular, a confirmação da presença na Colômbia do general retirado Israel Ziv, ex-membro do Estado Maior do exército israelense e ex chefe da Brigada Givati que invadiu o campo de refugiados de Al Amal, em Gaza, e que figura hoje na folha de pagamentos da força-tarefa contra o terrorismo, adstrita ao Conselho de Segurança sob as ordens do secretário Michael Chertoff, em Washington. Outras duas cartas "queimadas" são Gal Hirsh, ex alto oficial na zona norte de Israel durante a última guerra no Líbano, e Yossi Kuperwasser, ex director do serviço de investigação da inteligência militar israelense.

Três. A 26 de Junho, a Corte Suprema de Justiça sentenciou que a reeleição de Uribe foi resultado do delito de suborno, pelo que o seu actual período de governo carece de legitimação constitucional. Agora, a mafiocracia colombiana poderia derivar numa ditadura civil plebiscitária sustentada pelo poder das armas. Por sua vez, é prematuro entoar um réquiem pelas FARC, apesar dos golpes recebidos. Quando a poeira assentar, as FARC continuarão a ser uma referência da realidade colombiana. Em contrapartida, Uribe, que arca com um pesado dossier pelos seus nexos com o narcoparamilitarismo, é descartável para Washington. Tal como Somoza e tantos outros antes na história.

O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2008/07/14/index.php?section=opinion&article=016a1pol


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15/Jul/08