Da Colômbia, Venezuela e América Latina
Não há conflito interno e sim ameaça terrorista.
Não há conflito e no entanto militariza-se a vida nacional.
Pretende-se conceder perdão e esquecimento ao terrorismo paramilitar.
Não há conflito e, não obstante, quer-se fazer da
segurança democrática uma nova doutrina militar em favor da
violação da soberania dos Estados vizinhos e de todos aqueles
que, de uma forma ou de outra, possam proporcionar asilo ou abrigo
àqueles que o governo colombiano possa qualificar de terroristas.
Após a crise das relações com a Venezuela, em vias de
superação com os bons ofícios de Cuba, Brasil e outros
países, fica claro que a doutrina da segurança
democrática, como doutrina extraterritorial, fracassou. Não
só não contou com outro apoio além daquele que lhe deu os
Estados Unidos como Uribe teve que viajar à Venezuela e esclarecer a sua
posição perante Chavez. O incidente ficou encerrado. Mas no
fundo a situação tornou manifesto algo que temos advertido ser o
perigo real para a Colômbia e a América do Sul: a
utilização do regime uribista, dos recursos militaristas do
Estado e do para-estado, do território nacional, como uma base
operacional para a desestabilização dos países vizinhos e
uma fonte de pressão para turvar as relações
históricas, pacíficas e de cooperação. Em
síntese, a perversa pretensão imperialista de converter a
Colômbia numa espécie de Israel contra o resto dos povos
irmãos, atitude a que historicamente se prestou uma faixa da oligarquia
colombiana.
Ficaram à luz, na América Latina, duas políticas que
certamente não coincidem: aquela que representa o alinhamento
incondicional o seguidista com Washington (economia de livre mercado: ALCA,
TLC, reformismo nos moldes do neoinstitucionalismo da
globalização, OEA, políticas financiadas pelo BID, BM e
patrocinadas pelo FMI, projecto político-militar, Plano Colômbia,
Plano Patriota, militarização contra-insurgência); e
aquela que reforça os ângulos autonomistas frente ao imperialismo
e à sua estratégia integral (propostas e projectos de
integração sulamericana, subregional e latino-americana:
Comunidades Sulamericana de Nações, CSN, aliança
CAN-Mercosul, Petroamérica, ALBA). Os próximos anos
mostrarão que caminho se impõe. A chave do novo nesta
dinâmica é o papel das massas populares, o crescimento da sua
disposição de luta e de acção mobilizada e
organizada, bem como novos níveis de consciência.
A oligarquia colombiana tomou o velho rumo de colaborar com a pior
política sanguinária e guerreirista de Washington. Em troca do
apoio à reeleição de Uribe, através de uma despesa
pública transbordante e com a aprovação do FMI. Este
compromisso condena a Colômbia ao isolamento e o temor dos vizinhos
continentais, por quatro anos mais. Porque, na verdade, o sequestro de Granda
e a crise das relações da Colômbia com a Venezuela,
tornaram presente o perigo de regimes retrógrados e militaristas como o
de Uribe, já não só como anomalias na região mas
também como factores perturbadores activos da paz, da soberania, da
convivência pacífica, da unidade e da integração da
América Latina.
[*]
Secretário-geral do Partido Comunista Colombiano.
O original encontra-se em
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=11940
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Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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