Haverá no mundo suficientes combustíveis fósseis para
fundamentar o cenário base do IPCC?
[1]
O IPCC publicou cinco relatórios de avaliação das
alterações climáticas: AR1
[2]
(1990), AR2 (1995), TAR
[3]
(2001), AR4 (2007), AR5 (2013). Em 2021 será a vez do AR6.
Os dois primeiros basearam-se nos cenários IS92
[4]
e, os relatórios TAR e AR4 fundamentaram-se em quarenta cenários
de energia SRES
[5]
, tendo, o AR5, sido baseado em quatro cenários RCP
[6]
(usando principalmente o SRES).
As emissões de CO2 provenientes das utilizações
energéticas dos combustíveis fósseis são estimadas
com base na conversão em GtCO2 tendo em conta a equivalência: 1
GtC=3,7 GtCO2. (NT: O IPCC estimou que entre o início da
revolução industrial e 2011, 1890 GtCO2 tenham sido emitidos).
A IEA / WEO
[7]
(Perspetiva mundial de energia) regista a produção de
combustíveis fósseis em Mtep = milhão de toneladas
(métricas) de óleo equivalente.
As últimas perspectivas WEO para 2018 preveem para 2040, com as Novas
Políticas, uma procura de energia primária de 17,7 Gtep, das
quais 74% em combustíveis fósseis.
Sobre as unidades utilizadas
O IPCC está vinculado à ONU, onde, entre 193 membros, apenas
três países (EUA, Libéria e Mianmar) não são
obrigados por lei a usar o SI = sistema internacional de unidades (sistema
métrico).
Mas, de fato, a gasolina é vendida ao litro em Mianmar e em
galões nos EUA e na Libéria. Somente EUA e Libéria (4% da
população mundial em 2019) não usam SI!
Fatores de conversão para unidades de energia
O percurso dos EUA em relação ao SI passou por várias
fases de avanço e recuo (
usma.org/a-chronology-of-the-metric-system)
:
-
1866 - O uso do sistema métrico (SI) foi legalizado nos Estados Unidos
pela Lei Métrica de 1866 (Lei Pública 39-183). Esta lei tornou
ilegal a recusa em negociar em unidades SI.
-
1975 - A Lei de Conversão Métrica de 1975 (Lei Pública
94-168) foi aprovada pelo Congresso. A Metric Act estabeleceu o US Metric Board
para coordenar e planear o uso crescente e a conversão voluntária
no sistema métrico. No entanto, o Metric Act não tinha datas
previstas para a sua implentação concreta.
-
1982 - O presidente Ronald Reagan dissolveu o US Metric Board e cancelou seu
financiamento. A responsabilidade pela coordenação das unidades
métricas foi transferida para o Organismo de Programas Métricos
do Departamento de Comércio.
-
1988 - A Lei Omnibus de Comércio e Competitividade de 1988 (Lei
Pública 100-418) alterou e fortaleceu a Lei de Conversão
Métrica de 1975, designando o sistema métrico (SI) como o sistema
de medição preferido e exigindo que cada agência federal a
adote até o final do ano fiscal. 1992.
-
1991 - O presidente George H. W. Bush assinou a Ordem Executiva 12770, Uso de
Métricas nos Programas do Governo Federal, dirigida a todos os
departamentos executivos e agências federais para implementar o uso do
SI.
-
1999 - Perda da sonda Mars Climate Orbiter porque a Lockheed forneceu dados de
propulsão em unidades inglesas enquanto a NASA usava unidades
métricas.
-
2000 (30 de setembro) - O prazo para a utilização SI na
construção de rodovias, incluindo todos os acordos, contratos e
planos processados por estados para a construção de rodovias,
desde que financiados
pelo governo federal, foi cancelado por ação do Congresso,
deixando a conversão em unidades métricas voluntária, mas
ainda é recomendado cumprir a Lei Omnibus de Comércio e
Competitividade de 1988.
-
2007 (08 de janeiro) - A NASA decidiu usar unidades métricas para todas
as operações na superfície lunar quando retornar à
Lua.
Há alguns anos, perguntando-se ao dirigente da AIA
[8]
quando usariam o SI, respondeu: "quando o inferno congelar". O IPCC,
tal como a AIE Agência Internacional de Energia, usam o SI (por
vezes de forma errónea).
Contudo, o mundo do petróleo é dominado pelos EUA que usam como
referência o dólar (USD) e o barril
[9]
(bbl, 159 litros) e o preço do petróleo (WTI
[10]
= USD/bbl). Apesar de o barril não ser uma unidade oficial.
A definição de barril de 42 galões dos EUA foi feita pelos
produtores de petróleo da Pensilvânia em 1866.
Não existe uma definição oficial nos EUA para o barril de
petróleo de 42 galões, mas é o que se utilizou para
transportar vinho no tempo do rei Ricardo III.
Neste artigo, não se usa o barril como unidade de medida uma vez que
em 96% do mundo se usa metro cúbico e a tonelada.
Análise aos cenários
No artigo sobre emissões de CO2, "Updating fossil fuels production
and CO2 emissions graphs", 18 de junho 2017, AspoFrance, fez-se uma
atualização das emissões de CO2 baseada nas últimas
previsões de combustíveis fósseis situadas em 1500 Gtoe,
resultando em emissões no montante de 5000 GtCO2
aspofrance.files.wordpress.com/2017/07/updatingffgraphs.pdf
Nesse artigo concluiu-se que
"A maioria do mundo está convencida de que os cenários do
IPCC são previsões a partir de dados de energia, mas, não,
são apenas narrativas imaginadas por economistas antes de 2000"
e que
"Uma maioria de pessoas no mundo acredita que a temperatura pode ser
prevista usando modelos. Contudo, parece que num anterior exercício de
modelação baseado em três cenários, realizado por J.
Hansen em 1988, no horizonte 2015, se mostrou que estava errado. Ninguém
pode provar que a modelação do IPCC está certa porque
esses modelos não podem quantificar o efeito do principal dos GEE (Gases
com efeito de estufa), que é o vapor de água"
No artigo de 2015 para a COP21, apresentado na Conferência
Científica Internacional, realizada entre 7 e 10 de junho, em Paris,
designado "Fossils Fuels Ultimate Recovery Appraisal, Clue to Climate
Change Modelling",
aspofrance.viabloga.com/files/BD_Fossils_Fuels_Ultimate_2015.pdf
, mostrou-se que o melhor palpite para as emissões de combustíveis
fósseis de 1870 a 2100 está abaixo da previsão do RCP 4,5
para esse período e aproximadamente 300 GtC acima do limite dos
2°C. Há uma grande incerteza nesses resultados. No entanto, o RCP
8,5 parece irrelevante e o RCP 6 improvável. A mesma conclusão
foi alcançada por Mohr et al. 2015, Fuel, 141, 120-135.
A incerteza vem, principalmente, da avaliação final das
utilizações do carvão e, em breve, o carvão
será o principal responsável pelas emissões de CO2.
Portanto, o futuro do clima, de acordo com a modelação
física do IPCC, estaria, sobretudo, nas mãos dos principais
países consumidores de carvão.
A nova atualização de 2019 aumenta a previsão de
utilização dos combustíveis fósseis de 1500 Gtep
para 1600 Gtep, o que geraria 5000 GtCO2, o que é semelhante, pois a
imprecisão dessas estimativas é superior a 10%. Essa estabilidade
nas emissões de CO2 devida a combustíveis fósseis nos
quatro anos é um bom sinal.
Já critiquei estes cenários de energia em 2001 na
conferência da IIASA
[11]
, instituição onde os iniciais SRES foram projetados por N.
Nakicenovic com recurso a uma equipe de economistas que desejaram a
construção de narrativas prospetivas plausíveis (tal como
descrição feita por Nakicenovic), no trabalho publicado sob o
nome "Estimativas de reservas de petróleo" IIASA Workshop
Internacional de Energia 19-21 de junho de 2001 Laxenburg. Ver links:
webarchive.iiasa.ac.at/Research/ECS/IEW2001/pdffiles/Papers/Laherrere-long.pdf
www.scribd.com/doc/55367641/10/Impact-on-climate-change-IPCC-scenarios
www-personal.umich.edu/~twod/oil-ns/articles/laherrere-long_iew2001.pdf
www.oilcrisis.com/laherrere/iiasa_reserves_long.pdf
Nesses artigos compararam-se os SRES para o petróleo e gás face
aos de N. Nakicenovic.
Mas, nos cenários de emissões do IPCC 2000 (
pure.iiasa.ac.at/id/eprint/6101/
), página 134 do meu artigo de 1994 ("Figuras publicadas e reservas
políticas"
World Oil
), fornecendo um consumo máximo de petróleo de 1800 Gb, foi
descrito por Nakicenovic como errado, porque muito pessimista. É verdade
que eu era, naquele período, muito pessimista em relação
ao petróleo e gás, mas isso devia-se a que tinha já a
previsão do pico do petróleo que ocorreu em 2006, conforme
declarado pela IEA / WEO 2010. Não há consenso sobre esta
matéria. No entanto, as estimativas deles foram muitas vezes as minhas.
Porém estavam mais errados que eu!
Na página 81, o IPCC 2000 considera as previsões da IEA
inadequadas porque seriam de "muito curto prazo": ora a
previsão da IEA WEO2000 para 2020 apontava para 36 GtCO2: o RCP8.5 para
2020 indica 45 GtCO2!
O IPCC, contudo, apesar de sucessivos erros, não altera os
cenários porque é necessário garantir a unanimidade
quando, por exemplo, se trata de emitir os SPM (Summary for policymakers) que
são os resumos com verdadeiro impacte político e social, e,
portanto, mediático. Será por isso que os cenários antigos
ainda são mantidos, quando deveriam ter já passado a seguir as
previsões atualizadas da IEA.
Aliás, os cenários SRES foram descritos pelo seu próprio
autor N. Nakicenovic como "narrativas" baseadas em
"cenários lógicos". Não como verdadeiras
previsões quantitativas, portanto.
Esses cenários de energia foram formulados por economistas, sem a
preocupação de os verificar com especialistas em energia,
já que o objetivo era alcançar a unanimidade "politicamente
correta" no IPCC.
Mas, pior, é que essas narrativas (e, não, previsões)
foram consideradas cenários com a mesma probabilidade na Stern Review:
Economia das Mudanças Climáticas elaborada em 2006, o que
significa que este relatório é completamente errado. Não
se podem adicionar maçãs e laranjas para fazer uma torta de
maçã! Por isso associei, em 2005, o IPCC ao conceito GIGO:
Garbage In Garbage Out (ver Laherrère J.H. 2005 "As perspectivas de
vida e de vida no mundo e na Europa" Club de Nice 17-19 de novembro
www.hubbertpeak.com/laherrere/nice.pdf
).
Dado que o IPCC mantém os cenários errados, as recentes
aproximações feitas continuam equivalentes a GIGO: no
último relatório AR5, o RCP8.5 é considerado a linha de
base mantendo todos os erros básicos!
Como os cenários do IPCC não são probabilísticos,
mas, sim, simples narrativas mais ou menos plausíveis, é
impossível saber qual é o cenário mais provável!
Em 2006, aconselhei Jean Jouzel (membro do IPCC) na União Europeia de
Geociência em Viena, que o IPCC deveria mudar os seus cenários:
respondeu que é tarde demais para o AR4, mas que isso seria feito no
AR5. O IPCC, de facto, mudou o nome dos cenários no AR5, mas não
o conteúdo dos cenários em si! Aliás, adicionaram o
RCP2.6, que é ainda mais irreal do que os outros. Somente o RCP4.5
está dentro das prováveis emissões futuras de CO2.
Os gráficos relativos ao período de 1900 a 2100 para as
emissões de CO2 derivadas de combustíveis fósseis nos
cenários do IPCC num máximo de 1600 Gtepdesses
combustíveis mostra que a faixa do IPCC para 2100 permaneceu a mesma
durante 30 anos, numa gama de 15 a 130 GtCO2 (exceto para o RCP2.6, que
é negativo?).
O objetivo da COP21, que apontou para 40 GtCO2 em 2030, é cumprido na
nossa previsão, como correspondendo ao pico das emissões de CO2
derivadas da utilização energética dos combustíveis
fósseis!
É óbvio que RCP8.4, o RCP6 e o RCP2.6 estão completamente
fora da realidade previsível para a produção futura de
combustíveis fósseis. Apenas o RCP 4.5 está alinhado com a
produção mais provável no futuro. Mas, os cenários
de RCP do IPCC são estendidos para o ano 2500 (Instituto M. Meinshausen
Potsdam para pesquisa de impacto climático de 2011), em particular o
RCP8.5. Esses RCPs são transformados em gráficos expressos em
GtCO2 e GtC
Pode constatar-se que a produção mais provável de
combustíveis fósseis será um máximo de 1600 Gtep.
O gráfico das emissões RCP de produção anual de
GtCO2 e combustíveis fósseis em Gtepmostra que, em 2100, o RCP8.5
precisa de uma produção de combustíveis fósseis de
35 Gtepquando a produção mais provável será de 5
Gtoe: sete vezes menos! (NT: como se pode defender tal desfasamento entre a
realidade plausível e a imaginação dos modeladores do
IPCC?)
O RCP8.5 não considera uma radiação solar máxima de
8,5 W/m2, mas sim a 12 W/m2, quando o RCP6 aponta para 6 W/m2 e o RCP4,5 para
4,5 W/m2. O RCP8.5 é, portanto, uma mentira (uma farsa!) E deveria ser
chamado de RCP12!
As emissões cumulativas são registadas em gráfico para o
período 1850-2500, mostrando que, em 2500, segundo o RCP8.5, seria
superior a 20.000 GtCO2, e no RCP6 seria 9000 GtCO2, enquanto pelo RCP4.5 se
aponta para 5000 GtCO2 tal como a minha estimativa com base na
produção energética expectável de
combustíveis fósseis.
O RCP8.5 determinaria, em 2100, uma anomalia na temperatura de 4,7°C com
emissões cumulativas de 2180 GtC.
No SPM do AR5 (resumo para decisores políticos) diz-se que o RCP8.5 deve
ser considerado como a base, com 8000 GtCO2 em 2100!
Segundo o RCP8.5 proporcionar-se-ia um aumento de temperatura, em
relação à era pré-industrial, de 9°C em 2300
(para além de 2000 ppm de CO2 na atmosfera e mais 2 m de
elevação no oceano)! O RCP8.5 é considerado o resultado
que se pode esperar se a gestão da economia continuar como de costume (
business as usual
), ou seja, se nada for feito para diminuir o uso dos combustíveis
fósseis: mas não, o RCP8.5 é simplesmente louco!
Não sou o único especialista que critica os cenários do
IPCC e, em particular, o RCP8,5 tal como se verificará em:
judithcurry.com/2018/11/24/is-rcp8-5-an-impossible-scenario/
Produção de combustíveis fósseis
Previ a produção mundial de combustíveis fósseis
por muitos anos, mas essas previsões foram mudando frequentemente devido
aos novos dados. Os últimos números apontam para 650 Gtep no caso
do carvão, 520 Gtep para petróleo e 420 Gtep para gás
natural, fornecendo um total de 1600 Gtep.
Esses valores são os valores mais prováveis quanto aos
combustíveis, mas a gama de incertezas é ainda grande. Muitos
acreditam que as reservas aumentam se o preço aumentar, mas as
estimativas atendem já a essa evolução e, além
disso, a produção é limitada pelo EROI
[12]
. O carvão offshore ou aquele que é explorado a profundidades
superiores a 1500 m, ou, ainda, ao que se apresenta em camadas menores que 50
cm, são considerados recursos, mas não são reservas,
exatamente por causa do EROI ser baixo.
A estimativa mais difícil é a produção de
carvão com o grande salto da China a partir de 2000, que vem produzindo
metade das quantidades mundiais. A produção de carvão
atingiu o pico em 2013, tendo depois começado a descer devido à
forte poluição causada por partículas (e não por
CO2).
Hoje o petróleo representa a maior produção de
combustível, a do carvão foi em 1950 e, para o gás
natural, será em 2050.
Se o pico de produção de combustíveis fósseis
acontecer cerca de 2030, o pico de produção de
combustíveis per capita é agora de 1,5 tep per capita. Em 2050, a
produção per capita será de 1,2 tep per capita, tal como
era em 1970! E, em 2100, a produção per capita será de 0,4
tep, tal como em 1910!
O mundo necessita, então, para assegurar desenvolvimento
sustentável, da energia nuclear e da energia proveniente de fontes
renováveis.
Produção de energia primária
A energia primária que alimenta as necessidades mundiais é
proveniente, na atualidade, dos combustíveis fósseis e é
difícil prever o futuro das energias renováveis sem os
combustíveis fósseis. O que é durável na Terra?
A energia primária a nível mundial aponta para um máximo
de 2200 Gtep (se nada de mais durável for entretanto encontrado).
Os problemas derivados da intermitência da energia eólica (23% na
França) e da energia solar (11% na França) não poderiam
ser resolvidos se os combustíveis fósseis e nucleares fossem
proibidos! Os campos de petróleo e gás têm uma vida
útil mais longa que as centrais eólicas e solares (fotovoltaicas).
O pico de produção de energia primária aponta para 2050,
com um pico da energia per capita em 2030.
Emissões de CO2 derivadas de combustíveis fósseis
As produções de combustíveis são convertidas em
emissões de CO2, na proporção de tCO2 per capita:
-
4.1 para carvão,
-
3.1 para óleo,
-
2.4 para gás.
O gráfico das emissões de CO2 é diferente do gráfico
das produções: hoje as maiores emissões de CO2 são
provenientes das utilizações do carvão, mas em 2000 eram
do petróleo.
Combustíveis
As emissões de CO2 derivadas dos combustíveis fósseis
podem ser modeladas a partir de dados passados apenas pela
extrapolação de HL (linearização Hubbert) do
período 2005-2018 e o máximo é de 4500 GtCO2.
Esse valor final de 4500 GtCO2 das emissões de CO2 acumuladas ocorre
cerca de 2030 e são inferiores a 40 GtCO2 em consonância com o
pico estimado da produção de combustíveis fósseis
por ano.
Minha previsão de CO2 para 2040 é maior do que a previsão
do IEA WEO2018!
O acordo em relação a um pico de CO2 em 2030 proveniente de
abordagens por duas diferentes entidades é muito reconfortante!
As emissões de CO2 provenientes de combustíveis fósseis
desde 1790, em escala logarítmica, mostram que, de 1770 a 1914, as
emissões de CO2 aumentaram 4,5% / ano, tal como entre 1945-1975 (os
Trinta Gloriosos anos), enquanto o aumento é de apenas 1,5% / ano para
1975-2018 e 1914-1945.
O aumento da concentração de CO2 1962-2018, em ppm, é de
0,4% / ano, ou seja, é bem diferente do que vem sendo descrito nos
órgãos de comunicação social e redes!
A taxa de emissão de CO2 é três vezes menor do que no
passado desde 1800, exceto no período 1914-1945!
A maior emissão de CO2 derivada de combustíveis fósseis
é a da China, mas, a Índia tem a maior e mais longa taxa de
crescimento (tal como a do Médio Oriente).
A comparação das emissões de CO2 no período de 1965
a 2018 (de BP2019) em escala logarítmica, mostra que a China,
Índia e Médio Oriente apresentam um aumento próximo a
6%/ano, salvo na China que pára de crescer em 2013 com um pico na
produção de carvão.
As emissões de CO2 nos EUA e na Europa vêm diminuindo desde 2005.
India e China
A Índia será o país mais populoso em 2025, ultrapassando a
China.
A população da Índia atingirá o pico por volta de
2055. A população da China atingirá o pico por volta de
2030.
As emissões de CO2 e o PIB da Índia são mostradas em
escala logarítmica para comparar o crescimento: aponta-se para aumentos
de 10% / ano e de 5% / ano. As emissões de CO2 na Índia
cresceram 5% / ano desde 1990.
O PIB é referido em USD corrente, USD de 2010, e em PPP (paridade do
poder de compra) USD atuais, e ainda em PPP USD 2011. É evidente que as
emissões de CO2 vêm crescendo mais lentamente que o PIB.
Na COP 21, a Índia concordou (INDC) em reduzir a intensidade
económica das emissões (em relação ao PIB ) em 33 a
35% até 2030, a partir de 2005.
A maioria dos países concordou em reduzir as emissões de CO2 a
partir do nível que tinham em 2005, mas, a Índia e a China
concordaram em reduzir apenas as emissões de CO2 por PIB: é bem
diferente! Como o PIB vem crescendo mais rapidamente que as emissões de
CO2, a Índia necessita de continuar, como no passado, para
alcançar em 2030 essa restrição.
O texto referia-se apenas ao PIB, mas, como o PIB atualizado e o PIB PPP
cresceram a 10% / ano desde 2007, o dobro do crescimento de CO2, então o
compromisso alcançado na COP21 INDC é fácil ser cumprido!
A comparação das emissões de CO2 per capita entre China e
Índia mostra que eram iguais em 1950, a proporção era de
3,0 para 1970-2000, 4,5 em 2010 e, em 2018, será de 3,6.
A Índia precisa de energia no futuro e, portanto, aumentará suas
emissões de CO2
As produções passada e futura de carvão da China e da
Índia são comparadas em Gtoe, tal como as produções
per capita, e hoje são bem diferentes! A produção de
carvão per capita foi semelhante em 1950 e será novamente em 2040
(ver gráfico abaixo).
Índia: PIB, CO2 e combustíveis fósseis
O PIB (corrente, em USD 2010, em PPA atualizado e em USD 2011) e as
emissões de CO2, são comparados em escala logarítmica. As
emissões de CO2 aumentaram 5% / ano desde 1965, nenhum sinal de
mudança! O PIB atual aumentou 10% / ano desde 2003.
A curva no gráfico abaixo que expressa CO2 / USD (em vermelho =
dólar atual) mostra que se atingiu o pico em 1966 com um valor de 3,7 e,
em 1993, estava-se nos 2,5 prevendo-se 0,9 em 2019 quando, segundo o COP21 INDC
necessitaria ser 1 em 2030, o que seria, na verdade, mais do que em 2018.
A produção energética com base em carvão na
Índia atingirá um pico de menos de 0,6 Gtep por volta de 2050,
para um valor máximo estimado em 50 Gtoe, contra uma previsão
superior a 0,7 Gteppara IEA / WEO2018.
A produção de carvão da Índia é extrapolada
pelos nossos cálculos no gráfico seguinte para 50 Gtep, no
período 1992-2018:
China: PIB, CO2 e combustíveis fósseis
As emissões de CO2 e o PIB da China também são
evidenciados no gráfico seguinte em escala logarítmica: desde
1970 as emissões de CO2 cresceram 5% / ano, quando o PIB cresceu 10% /
ano, exceto nos últimos anos.
As emissões de CO2 por PIB em tCO2 / Milhares USD foram superiores a 14
em 1960, 2,7 em 2005 e 0,7 em 2019
Na COP21 a China aceitou as restrições do INDC para diminuir,
até 2030, o CO2 / PIB em 60-65% relativamente ao nível de 2005:
significa que esse objetivo (compromisso) já foi alcançado em
2018!
A produção de carvão da China, após um forte
aumento após 2000, atingiu o pico em 2013.
Para um máximo de 75 Gtep, a produção de carvão em
2025 está prevista para 1,5 Gtep contra 1,8 Gtep para IEA / WEO2018 NP
(em Gtep). A produção de carvão da China em Gtep é
extrapolada para 75 Gtep segundo cálculos próprios.
Alguns casos ilustrativos da deriva carbónica
Pós-carbono
Muitos membros de movimentos verdes estão ansiosos por substituir os
combustíveis fósseis por fontes renováveis e, assim,
desejam uma era "pós-carbono". Esquecem, porém, que a
matéria orgânica é baseada em carbono e que corpo humano
é composto por oxigênio 65%, carbono 18%, hidrogênio 10%,
nitrogênio 8% e cálcio 1,5%. Portanto, parece que desejam um
futuro: sem carbono, sem comida, sem vida!
Instituto Pós-Carbono
O Post Carbon Institute (PCI) foi fundado em 2003 por Julian Darley (com Celine
Rich e David Room). O seu objetivo inicial era implementar programas educativos
sobre questões relacionadas com o esgotamento global de
combustíveis fósseis (pico de petróleo, carvão de
pico, gás de pico) e com as alterações climáticas,
bem como sobre possíveis respostas a esses desafios. Julian vinha
participando nas reuniões da ASPO e disse-lhe que o uso do conceito
pós-carbono estava errado, pois sem carbono não há vida, e
no seu site, não há menção das necessidades de
eliminar carbono.
Em 2009, Julian Darley e Celine Rich (sua esposa) deixaram o PCI, Asher Miller
tornou-se Diretor Executivo; Richard Heinberg tornou-se membro sênior
residente.
Em 2012, o PCI lançou o
Resilience.org
, o site sucessor do EnergyBulletin, como uma plataforma de recursos para
comunidades que constroem autoconfiança local, enfatizando respostas
baseadas nas comunidades e ligadas às consequências rapidamente
emergentes do fim dos combustíveis fósseis baratos. David Hughes,
cientista canadiano juntou-se à Resilience e publica excelentes
relatórios sobre "óleo de xisto e gás". Ainda
não é compreensível por que razão o título
Post Carbon ainda está lá, exceto porque é politicamente
correto!
Pocacito Pós- carbono, cidades do amanhã
Na Europa, a Pocacito desenvolveu de 2014 a 2016 um roteiro para 2050 para
apoiar a transição das cidades (Barcelona, Copenhague, Istambul,
Lisboa, Milão, Turim, Offenburg, Zagreb) para um futuro mais
sustentável ou pós-carbono. O Índice de Cidades
Pós-Carbono (PCI) combina indicadores que cobrem as dimensões
ambiental, social e económica.
Principais recomendações da Pocacito para 2016:
1 - As cidades necessitam de uma abordagem integrada de planeamento e
gestão da cidade, alinhada com os objetivos de longo prazo.
2- Propõem um processo de visão e seleção de elenco
orientado pelos interessados em elaborar estratégias para a cidade. Isso
aumentará a aceitação e o entendimento dos
takeholder
da cidade sobre as mudanças necessárias.
3- Deve apoiar-se a capacitação. Isso poderia ser feito
através de iniciativas como o Pacto de Presidentes Municipais. Um banco
de dados de melhores práticas globais deve ser estabelecido.
4- Educação e conscientização são essenciais
5- As infraestruturas e serviços da cidade precisam ser abertos,
inclusivos e acessíveis aos cidadãos.
6 - As cidades necessitam ser repensadas e 'naturalizadas', com foco na
'mobilidade', que é um conceito que vai muito além do transporte.
7- Estratégias nacionais, da UE e até globais precisam ser
elaboradas com representantes das cidades.
8- A UE deve apoiar o processo de realocação
(descentralização) de competências em consonância com
os desafios que as cidades enfrentam, ou seja, em consonância com o
princípio da subsidiariedade.
9- A UE deve fornecer requisitos mais claros e mais rigorosos para a
eficiência energética, promovendo a implementação da
economia circular
10- São necessárias boas estatísticas no nível da
cidade para poder analisar as necessidades e fazer
benchmark
das cidades.
11- Mais pesquisas sobre a interação entre clima,
políticas energéticas e desenvolvimento local e regras mais
fáceis de financiamento para projetos de pesquisa para cidades pequenas.
Conclusão: Apenas palavras e desejos gerais, nada de prático e
tudo isto com um custo de 3 Milhões de . Terminou em 2016 e
não teve continuação: fim das cidades pós-carbono
do amanhã!
Carbono Zero
Carbono Zero é o objetivo de pessoas que desejam 100% de energia
renovável. Mas, nos últimos 50 anos, a energia renovável
é apenas uma pequena percentagem do mix global de energia e
levará muito tempo para se poder prescindir dos combustíveis
fósseis e da energia nuclear, como mostra Euan Means (duas fontes
diferentes!) no seu site.
No relatório BP2019 o consumo mundial de energia primária
é estimado em:
-
Total 13 865 Mtep
-
Renováveis 561 Mtep(4%)
-
Hidroeletricidade 949 Mtep(6,8%)
Muito verdes sonham acerca do Carbono Zero tanto no consumo como na
construção. Isto resulta em desejos para o longo prazo e algumas
realizações confundindo zero com baixo carbono (ver World Green
Building Council
www.worldgbc.org/thecommitment
)
Em nossa perspetiva um edifício "carbono zero" seria um
edifício altamente eficiente em termos energéticos e totalmente
alimentado por fontes renováveis. O WorldGBC reconhece que, na maioria
das situações, edifícios com energia líquida zero
(ou seja, edifícios que geram 100% de suas necessidades de energia no
local) não são viáveis. (ver
www.theplanner.co.uk/news/new-buildings-in-the-capital-to-be-carbon-zero-by-2030
)
Khan
[13]
disse: "A minha estratégia para melhorar o ambiente de Londres
inclui algumas das metas mais ambiciosas do mundo para reduzir as
emissões de carbono de nossas casas e locais de trabalho. Isso inclui
expandir o padrão existente de novas casas com "carbono zero"
para aplicar a todos os novos edifícios em 2019. Queremos tornar Londres
uma cidade com carbono zero até 2050 e estamos trabalhando duro para
garantir que os edifícios sejam eficientes em termos energéticos
e sejam fornecidos com fontes de energia limpas. Ecolibrium, sept 2018".
O edifício carbono ou energia zero, ZEBRA2020, foi lançado no
final de abril de 2014 em Viena e serviu de referência ao mercado de
edifícios de baixo consumo de energia em toda a Europa, gerando dados e
evidências para avaliação e otimização de
políticas. No entanto, o Relatório de 2016 não está
mais disponível, o que significa que existem problemas! Ver
zebra2020.ecofys.com/Main_Page
Em França "Edifícios, uma energia positiva", BEPOS,
substituiu o conceito expresso na anterior consigna "Edifícios com
baixos consumos", mas nenhuma estatística é publicada
mostrando o número histórico de BEPOS, apenas se publicam algumas
fotos, em vez de dados!
Armazenamento ou sequestro/captura de carbono
(CCS)
O CCS foi realizado poucas vezes e há dúvidas de que isso pudesse
ser feito pelo mundo de uma forma geral.
Além de que poucos mencionam que a energia necessária para
realizar a CCS significa mais cerca de 25% (há poucos documentos sobre o
assunto). Duvida-se que o mundo possa encontrar e dispor de 25% de recursos
financeiros adicionais para armazenar/capturar CO2. Dado que as
renováveis e hidroelétricas representam apenas 10% da
produção atual de eletricidade, é difícil acreditar
que o CCS global seja a solução!
Talvez a melhor solução fosse converter CO2 em hidratos (sendo
mais pesado que a água para profundidades superiores a 3700 m) e
depositá-los em locais remotos, profundos e sem correntes
oceânicas.
Mas, isso seria contra o princípio da precaução, e,
portanto, contra a formulação politicamente incorreta!
Após pico é igual a pós-crescimento
A sociedade de consumo tem sido baseada no crescimento. Mas, numa Terra
finita, o crescimento às vezes termina. O crescimento diz respeito
à produção, consumo, mas, também, à
população.
No meu último artigo, Laherrere J.H. 2019 "previsões da
população mundial da ONU 2019" julho (ver
aspofrance.org/2019/07/28/un-2019-world-population-forecasts/
, mostro um gráfico onde apenas 20% da população mundial
tem uma taxa de fertilidade que permite crescimento futuro, o resto está
acontecendo em direção à extinção. Em 1950,
nenhum país tem uma taxa de fertilidade menor que 2,1 filhos por mulher,
que é a Taxa de substituição.
Em 1975, 20% da população mundial tem uma taxa de fertilidade
abaixo de 2,1.
Em 2020, 45% da população mundial tem uma taxa de fertilidade
abaixo de 2,1.
Muitas civilizações desapareceram no passado, e a
população mundial passou por algumas cavas (na Europa com a
Grande Peste em 1350 e 1650), mas o mundo tem vindo em crescendo. Mas, como
será a vida quando a população mundial diminuir?
A população da Europa cairá após 2020, quando tiver
744 milhões de pessoas (UN2019) e em 2085 será superada pela
Nigéria (fertilidade média). A população da
Ásia atingirá o pico em 2055 em 5,3 mil milhões de
habitantes.
O UN2019 prevê um pico populacional mundial em torno de 2100, mas as
previsões da ONU baseiam-se em taxas utópicas de fertilidade,
indo em direção à taxa de reposição e taxa
de natalidade mundial correspondente à taxa de mortalidade. Essa
previsão esquece que existem dois tipos de população
diferentes: uma abaixo da taxa de substituição e outra acima,
mas, essa taxa não é uma meta. A migração
compensará por um tempo.
O nosso modo de vida (sempre mais consumo e mais crescimento) não
está preparado para o pico.
Conclusões
No último relatório do IPCC (AR5), o RCP8.5 tomado como o
cenário base, assume uma emissão cumulativa de CO2 de
combustíveis fósseis quatro vezes o que é considerado como
o mais provável e, em 2100, uma produção anual de
combustíveis fósseis sete vezes maior do que a mais
provável: trata-se de um cenário completamente irrealista. O RCP6
e o RCP2.6 também são não realistas.
Somente o RCP4.5 está próximo da produção mais
provável de combustíveis fósseis.
Desde o choque do petróleo de 1973, a taxa de crescimento das
emissões de CO2 derivada dos combustíveis fósseis é
três vezes menor do que no passado desde 1800, exceto no período
1914-1945!
De duas abordagens independentes, as emissões de CO2 derivadas de
combustíveis fósseis atingirão o pico em 2030 em cerca de
40 GtCO2, quando o RCP8.5 diz que se atingirá o pico em 2100 acima de
100 GtCO2.
As preocupações com as futuras emissões de CO2 de
combustíveis fósseis baseiam-se principalmente em cenários
falsos e em narrativas. Os media não estão fazendo seu trabalho e
o "politicamente correto" governa o mundo!
30/Agosto/2019
[1] NT: A tradução realizada foi um trabalho complexo devido
à densidade do assunto objeto, mas, também, como o próprio
autor diz, porque o seu inglês escrito é difícil. De facto,
isso perturbou o exercício de tradução. Tentou-se,
porém, salvaguardar o essencial do conteúdo e ideias.
[2] First Assessment report
[3] Third Assessment Report
[4]
NT: Six alternative IPCC scenarios (IS92 a to f) were published in the 1992
Supplementary Report to the IPCC Assessment. Em 1992, o IPCC criou um conjunto
de cenários, denominados IPCC Scenarios, 1992 (IS92), que podem ser
utilizados em modelos de circulação global, com o objetivo de
prever cenários futuros de emissões de GEE.
Os cenários SRES foram projetados para aperfeiçoar alguns aspetos
dos cenários IS92
[5] Special Report on Emissions Scenarios
[6] Representative Concentration Pathways
[7] World Energy Outlook da IEA (Agência Internacional de Energia)
[8] American Institute of Architects
[9] NT: Barril (bbl) é uma unidade de volume usada normalmente quanto ao
petróleo. Por razões históricas, a correspondência
em litros varia entre cerca de 100 litros (22 galões imperiais ou 26
galões americanos) a cerca de 200 litros (44 galões imperiais ou
53 galões americanos). O bbl em certos casos pode significar 158,987
litros
(bbl EUA) ou a 159,113
litros
(barril imperial britânico).
[10]
West Texas intermediate, preço por bbl
[11] International Institute for Applied Systems Analysis, fundado em Londres
em 1972
[12] NT: Retorno sobre o investimento em energia (EROI) é a razão entre a
quantidade de energia obtida de um recurso energético e a quantidade de energia
gasta para produzir essa energia.
[13] NT: Mayor de Londres. Se for verificado com atenção, vários autarcas
europeus e americanos, entre outros, afirmam mais ou menos o mesmo. Tornou-se
uma formulação popular.
[*]
Geólogo especializado em petróleo, co-fundador (junto com Collin Campbell) da
Association for the Study of Peak Oil, dirigente da ASPO France.
O original encontra-se em
aspofrance.org/2019/08/30/...
(Haverá suficientes combustíveis fósseis para gerar o
cenário base do IPCC para o CO2?).
Tradução de Demétrio Alves.
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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